
Existe uma crônica muito interessante de Luis Fernando Veríssimo intitulada “Inquilinos”, no qual o autor tupiniquim compara a relação entre a humanidade e a Terra à de inquilinato, com Deus sendo o locador do nosso planetinha azul. O texto faz referência à responsabilidade da raça humana quanto a manter o seu lar organizado e ao temor que devemos ter da indenização que será cobrada posteriormente pelo proprietário do “imóvel”.
O maravilhoso filme “Wall-E”, dirigido por Andrew Stanton e escrito pelo próprio cineasta em colaboração com Pete Docter e Jim Reardon, mostra justamente as consequências que a atual irresponsabilidade humana em relação ao planeta poderão ter no futuro e como nossos descendentes poderiam responder a isso. Na fita, após séculos de abuso e acúmulo de dejetos, a Terra tornou-se inabitável. Seus oceanos, praticamente secos. As outrora pulsantes cidades, meros depósitos de lixo. As suas matas, antes redutos verdejantes de vida, transformaram-se em grandes desertos. Até mesmo sua órbita tornou-se um depósito para então inúteis satélites artificiais.
Apenas dois seres ainda habitam a esfera azul, uma simpática e imortal barata e um pequeno e curioso robô, Wall-E, o último de sua linha, que ficou responsável por compactar e organizar os dejetos deixados pela raça humana que deixara o planeta séculos antes, para viver uma existência preguiçosa e relapsa no espaço. Muito já fora dito sobre esta pequena obra-prima, até mesmo aqui no Cinema com Rapadura, que conta com um bom número de críticas sobre o filme. O foco deste texto é outro, e entraremos nele agora.
Wall-E, em sua herculeica tarefa de limpar sozinho o planeta, estava cumprindo sua obrigação, sua diretriz, programada pelos humanos nele. Não era bem sua responsabilidade salvar o mundo. Sua companheira robótica, EVA, foi enviada ao nosso planeta pelos humanos apenas para verificar se a Terra já era capaz de sustentar vida novamente. Por força das circunstâncias e de seus sentimentos, eles acabam inspirando aos obesos e preguiçosos humanos a saírem de sua apatia e lembrarem-se de suas responsabilidades com o seu lar.
Nesse sentido, o grande herói da película não é o simpático robozinho que dá nome à produção, mas sim o bravo Capitão McCrea, da nave Axiom, a grande arca que leva os sobreviventes humanos pelo espaço. Ao ser informado de que a Terra voltara a ser capaz de manter formas de vida, ele toma a decisão de fazer o que for possível para voltar com sua nave, tripulação e passageiros para lá.
O objetivo é ajudar a reconstruir o planeta que fora devastado por seus antepassados que, por mera preguiça, resolveram deixar o planeta à própria sorte, apesar do fato de que foram eles que o deixaram em condições horrendas. Ao conhecer as maravilhas que a Terra tem a oferecer, o Capitão revolta-se com Auto, o piloto automático (outro marcador da preguiça humana) e brada que “A nossa casa é lá e ela está com problemas”.
Auto, por sua vez, tem sua diretriz, as ordens deixadas pelos antigos líderes humanos de não voltar ao mundo, já que é mais fácil para todos deixarem a situação como está. Tal ordem havia sido deixada para não romper a confortável inércia da raça humana. Alienada pelo consumismo e pelas facilidades da vida moderna, incapaz até mesmo de andar sem o auxílio das máquinas, a humanidade esquece-se de cuidar do seu berço e permanece se divertindo e engordando em seu mundinho particular no espaço.
Até que esse Capitão resolve assumir uma postura digna e se levanta contra a mera sobrevivência e decide que os homens e mulheres da Axiom, os últimos filhos da Terra querem viver, levantando-se contra a resolução de aço de seu comandado automatizado. Não me lembro de um ato tão claro de responsabilidade na história recente do cinema. Existe algo tão cheio desse sentimento nobre do que decidir pela vida e não pela apatia para si e seus semelhantes?
A aventura humana na Terra, cheia de altos e baixos, chegou a um impasse, no qual um mundo, tal como visto em “Wall-E” pode não estar tão longe assim. Nossos recursos naturais estão ameaçados de uma maneira inédita. A água potável, bem mais precioso da humanidade e fonte de vida para todos os seres vivos, está próxima de se tornar um bem raríssimo.
Assim, precisamos assumir nossa RESPONSABILIDADE para com nosso planeta e deixar de nos comportar como os relapsos, complacentes e alienados seres que transformaram o mundo ficcional de “Wall-E” em uma esfera árida e sem vida e cuidar-mos do nosso lar com uma resolução comparável a do corajoso Capitão visto naquela fita.
Como deixamos o planeta chegar nesse ponto degradável?
Você se acha responsável, também?
O que podemos mudar?



























6 Comentários
Olha que legal, sou estudante do ensino médio e sempre gosto de participar de acontecimentos que podem fazer diferença, então, propus e executei um projeto na escola sobre consciência ambiental e sustentabilidade do planeta. Exibi Wall-E pros alunos da quarta-série, e depois, fizemos uma discussão sobre o que eles aprenderam com o filme. Me surpreendi ao ouvi-los dizer do conformismo das pessoas na nave e que consumimos mais do que precisamos. Foi uma experiência bem legal! No final, todos pegaram os saquinhos de pipoca e jogaram no lixo. Achei uma gracinha, e, soa clichê e utópico, mas se todos fizessem sua pequena parte, poderiamos contar com uma realidade diferente da apresentada no filme
Wall-E passa uma mensagem maravilhosa mesmo.
Além disso, faz referências claras e divertídissima a 2001, uma Odisséia no Espaço. Além de Kubrick, podemos ver uma pontinha de ET no robozinho.. mas o que fica mesmo é a mensagem maravilhosa, sutil e profunda, mas de maneira engraçadinha. Coisas que só a Disney, agora Disney/Pixar, produz com tanta maestria.
Sou muito suspeito a falar qualquer coisas sobre esse filme, eu simplesmente o adoro, de longe meu filme predileto de todos os tempos.
É legal q tem pessoas q ainda se importa com bem estar de nosso planeta,ainda mais se tratando de WALL-E q a Disney/Pixar mostra com maestria e magnificamente lindo os problemas q o nosso planeta estar sofrendo pouco a pouco.
Se nós ñ pudermos fazer alguma coisa o mundo em q vivemos pode acabar mais cedo do q pensamos.
A Disney/Pixar mais uma vez esta de PARABENS !!!
Assistir Wall-E foi uma das melhores experiências que já tive. Amo cinema e acho que Wall-E é um dos melhore filme da década. Simples, mágico, tocante e ‘realista’ sem dúvida faz com que o Wall-E se torne um clássico, e acho que deveria ter sido indicado aos prêmios na categoria de Melhor Filme e não Melhor Animação, mas fico feliz pelos prêmios que recebeu. E mesmo tendo 17 anos, acho frustante que várias amigas minha não tenham gostado ou dormido assistindo a um Clássico que é Wall-E. A Disney/Pixar está de parabéns por conseguir nos trazer uma obra prima.
Sem dúvida umas das animações mais inteligentes já criadas, que nos passa uma mensagem que, ainda que seja meio clichê, muitas vezes no esquecemos…