No filme “Carruagens de Fogo”, lançado em 1981, o público acompanha as trajetórias de dois homens de origens bem diferentes, mas com desejos a serem conquistados através de coragem e determinação inabaláveis.

A competitividade é um traço inerente a toda a humanidade, mas poucos possuem a ânsia de serem os melhores em seus respectivos campos. É a combinação desse espírito ao talento e a fortes valores morais que gera os verdadeiros ídolos, aqueles que, mesmo que sejam superados por seus sucessores, serão lembrados para sempre por suas contribuições para o mundo.

Simplesmente vencer não importa. Diversos exemplos daqueles que conquistam vitórias vazias permeiam o mundo, seja por sua falta de garra ou mesmo por não zelarem por valores éticos, se tornando figuras apagadas ou mesmo infames. O que importa é sua paixão e moral ao competir. Essa é a lição do clássico filme “Carruagens de Fogo”.

Se passando no início do século XX, o longa retrata a luta real de dois atletas britânicos bem diferentes. Embora Harold Abrahams e Eric Liddell fossem ligados pelos seus talentos natos para correrem e pelas suas vontades de ferro, seus passados não poderiam ser mais diferentes.

Abrahams era um acadêmico judeu na prestigiada universidade inglesa de Cambridge, enfrentando os preconceitos dos diretores do lugar quanto à sua religião. Liddell, por sua vez, era um missionário católico escocês devotado, que acreditava que sua vocação cristã e seus dons para a velocidade eram dádivas divinas.

No entanto, o judeu e o católico dividiam a paixão pela velocidade. Em determinado ponto da fita, é dito que eles possuíam coragem no peito e asas nos pés, algo que descreve muito bem os dois. A coragem e o espírito olímpico de ambos foram repetidamente testados até que chegassem ao lugar onde provariam serem os melhores: as Olimpíadas de Paris, em 1924.

O objetivo dos dois não eram meras medalhas ou prêmios. Abrahams e Liddell lutavam para alcançar a glória de realizarem feitos impossíveis. De serem pessoas cujos feitos ecoariam na eternidade e lhes dariam a imortalidade através de suas façanhas. Para isso, não importava simplesmente vencer.

A paixão pelo esporte e a devoção aos seus ideais deviam caminhar lado a lado com a vitória. Para se alcançar metas, muitas coisas podem (e, por vezes, devem) ser sacrificadas, mas nunca a humanidade de uma pessoa. Se isso se perde, não há como se alcançar a glória de uma conquista real.

Deste modo, poucos poderiam entender a recusa do “escocês voador” em correr em um domingo, algo proibido por sua religião. Ora, o que tinha levado o rapaz até aquele ponto era sua fé inabalável em Deus. Pedir-lhe para abrir mão de seus valores durante a competição mais importante de sua vida era algo tão inconcebível para ele quanto cortar-lhe as pernas.

Seu colega judeu, por outro lado, enfrentava a pressão dos líderes de Cambridge por ter pedido a ajuda de um técnico com sangue italiano e árabe em seu treinamento. Abrahams logo percebeu que só estava sendo colocado contra a parede pelos sentimentos anti-semitas dos aristocráticos líderes da instituição. Vendo que aquele era meramente mais um obstáculo rumo ao seu objetivo, tratou de superá-lo com a mesma coragem com que corria.

Derrotas pelo caminho são inevitáveis. Apenas aquele que nunca competiu não sabe o valor de perder e os ensinamentos que um fracasso pode trazer, uma lição que o filme retrata muito bem. Embora diferentes entre si, Abrahams e Liddell eram irmãos olímpicos e carregavam em si algo mais importante do quererem a vitória. Eles compartilhavam a ânsia de serem gigantes.

É com tal vontade que líderes surgem para inspirar tais desejos em outros. É a partir de tal virtude que a verdadeira imortalidade floresce. Por mais que a maravilhosa narrativa visual de Hugh Hudson e a eterna trilha sonora de Vangelis encantem o público que assista a este filme, a mensagem que o longa traz é extremamente mais importante que o modo como ela é entregue.

Contando uma história imortal de um modo memorável, a batalha travada pelos protagonistas de “Carruagens de Fogo” contra si mesmos e seus adversários em busca de um lugar na eternidade é uma lição de vida para todos, que pode ser aplicada em metas profissionais ou pessoais. Esta é a marca da verdadeira glória. Este é o real ESPÍRITO OLÍMPICO.