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O mundo ao nosso redor diminui graças à tecnologia, mas as distâncias entre as pessoas parecem ter crescido. Hoje em dia, algumas pessoas sabem mais das outras através de páginas no Orkut, Facebook, Twitter ou por chats no MSN do que pela boa e velha conversa pessoal. Ou seja, conhecemos mais os chamados avatares de alguns indivíduos do que os indivíduos per si.
É engraçado que a estreia de um filme chamado “Avatar” lide, mesmo que indiretamente, com essas questões. Nessa ficção científica, dirigida e roteirizada por James Cameron, homem que revolucionou os efeitos especiais em “O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final” e o fez novamente com este seu novo trabalho, um verdadeiro marco da tecnologia de computação gráfica.
Em “Avatar”, os humanos interagem com o ambiente hostil e inóspito de um planeta chamado Pandora através de corpos controlados à distância, os avatares do título. Com suas consciências projetadas nesses receptáculos artificiais, os homens podem sentir a maravilha que é o meio-ambiente puro de Pandora e se comunicarem com a os seres humanóides locais, os na’vi, formas de vida que foram base para os novos corpos a serem habitados pelos terrestres.
No filme, há um romance entre um fuzileiro humano paraplégico, Jake Sully (Sam Worthington) e a na’vi Neytiri (Zoe Saldana). Os dois se apaixonam remotamente, já que, durante as conversas e aventuras do casal, Jake só vê sua amada através de seu avatar e Neytiri não vê o fragilizado corpo humano de seu companheiro. Muitos relacionamentos entre pessoas, mesmo que não sejam separados por ambientes tóxicos ou léguas tiranas, acabam sendo realizados por seus avatares.
Não descartando o investimento emocional feito em tais relacionamentos virtuais, o fato é que a necessidade humana por interações físicas aparenta ter diminuído. Voltando ao filme, vemos que os nativos de Pandora são extremamente dependentes não só uns dos outros, mas também de seu ambiente natural, ao passo que nós, humanos da “vida real”, nos enclausuramos mais e mais em nossos locais de trabalho e moradas estéreis, trancados a sete chaves. O motivo? Justamente o medo de outras pessoas, que nos machuquem e tomem nossas posses.
Chega a ser triste que essa tecnologia de comunicação acabe por isolar mais os indivíduos que aproximá-los. Esse simulacro de interatividade acaba sendo um substituto para o toque, para a verdadeira intimidade, ao invés de uma ferramenta de conexão. Do mesmo modo, há um medo de que a tecnologia de captura de performace, que fez seu debut real em “Final Fantasy – O Filme” e fora levada à quase-perfeição por James Cameron em “Avatar”, acabe afastando o elemento humano dos trabalhos cênicos.
Ora, por mais perfeita que tal tecnologia seja sempre será necessária a intervenção humana para que ela funcione. De um modo geral, qualquer avanço de informática necessita de um operador em algum momento. Quando se trata das artes cênicas, isso é mais verdadeiro ainda, já que a performace a ser executada por aqueles zeros e uns, que ganham a ilusão de matéria nas telas, precisa vir de alguém para poder existir.
Não é à toa que a coisa mais complicada de se recriar virtualmente é um corpo humano, afinal, o conhecemos de maneira tão íntima, que logo reparamos qualquer falha em sua recriação ou movimentação. Cameron, ao levar para os cinemas um filme que toca justamente da conexão entre os seres vivos e se utilizou de uma computação gráfica avançadíssima para criar o mundo onde tais seres interagem e vivem, mandou uma mensagem poderosíssima.
Personagens virtuais podem gerar emoções reais, desde que haja um humano em algum momento do processo. Afinal, o que vemos na tela são pessoas usando uma vestimenta irreal computadorizada interagindo umas com as outras. O ser humano persiste na equação. O próprio diretor fez questão de frisar em todas as entrevistas sobre a captura de performace de que ele estava dando instruções sempre a pessoas reais, não a meras animações, persistindo a ligação entre indivíduos.
Será que, no futuro, os avatares estarão tão presentes nas vidas das pessoas que a interação física entre humanos será esquecida? Duvido. Mesmo que reconhecendo o impacto emocional que figuras virtuais possam nos causar, sempre há humanidade envolta nessa resposta e os corpos humanos sempre necessitaram interagir.
Esse período de deslumbramento com a tecnologia passará e seu excesso de uso será, futuramente, mal visto e desestimulado. Assim como a performace de movimento é apenas uma nova ferramenta de trabalho para os atores, avatares são nossas representações, não nós mesmos e precisamos do contato humano que apenas outros corpos podem nos proporcionar.
O medo e a novidade não sobrepujarão a necessidade. O ser humano, seu toque e os ambientes reais nunca serão obsoletos, afinal a tecnologia precisa deles para existir, do mesmo modo que as pessoas necessitam das conexões de umas com as outras, em um verdadeiro círculo virtuoso de interdependência. A tecnologia sempre será um meio, não um fim em si mesma.



























5 Comentários
Excelente texto, Sicas! Confesso que não tinha atentado para a questão do amor remoto, isso dá uma nova camada de complexidade ao filme.
Maaaaas, não consigo me segurar. É mais forte que eu… DÁ 10 SIQUEIRA! DÁ 10 SIQUEIRA!
Não acho que a tecnologia tenha afastado pessoas. Não mesmo. As pessoas que conhecemos somente por avatares hoje, a 10 anos atrás NUNCA NEM CONHECERIAMOS. O velho “contato pessoal”, não passaria do seu meio social, dos amigos e pessoas proximas. Mesmo parentes distantes ficavam esquecidos antes, e hoje vc puxa um iphone em qualqeur lugar que tenha wifi, e fala com qualquer amigo ou parente NO MUNDO usando Skype muitas vezes de graça e com o unico limitante sendo a carga da bateria. Isso não é distanciar pessoas. Acho que ver a tecnologia assim é errado pq não se compara com o mundo antes dela. Hoje em dia vc consegue falar com 300-100-15000 pessoas o que vc está comendo naquele momento, ou se está tirando caca do nariz, em tempo real. Isso era inimaginavel a poucos anos e aproxima sim as pessoas não distancia. Mesmo sendo romantico falar que que as pessoas estão se encasulando com a tecnologia e que o contato fisico diminuiu, eu acho isso uma grande inverdade, e tenho exemplos contra isso todo santo dia da minha vida.
Tecnologia não é necessária para mostrar humanidade. Humanos são. Os personagens de avatar não precisam existir digitalmente para serem humanos, basta filma-los.
Acho que procurar humanidade na tecnologia é uma busca, muitas vezes inglória de se fazer de “criador”, mas na verdade se está cada vez querendo mais que o mundo digital fique uma copia artificial do mundo real. Cinematograficamente tem suas aplicações. A tecnolgia empregada exclusivamente na captura de movimentos é velha, e já foi extremamente bem aplicada em personagens como Gollum e Senhor dos Aneis. O trabalho dos animadores em cima do movimento capturado ainda é MOSTRUOSAMENTE GRANDE. Precisam saber mais de expressão humana do que um “humano” comum. O cara estuda estrutura facial como se fosse um médico, estuda atuação a fundo, estuda cada detalhe das estruturas faciais e corporais para saber que movendo 1 misero musculo da face ele consegue entonar um sentimento assim ou assado.
Um bom animador sabe tudo isso, e precisa saber para fazer um personagem, mesmo com captura de movimentos a ficar o menos artificial possivel. É uma soma de potencias que resulta, somado a MUITO TEMPO E DINHEIRO em maravilhas como AVATAR. Não é fácil, tão pouco é merito somente de JCameron, tõa pouco mérito somente dos animadores, ou dos atores. Reduzir a isso é pairar pela superficie de um oceano e achar que ele é uma linda pocinha de agua…
Os problemas do Motion Capture, são diversos, e mesmo sendo uma tecnologia muito velha já, somente nos ultimos anos ela foi usada de forma realmente eficiente em situações realmente necessárias. Coisas como Expresso Polar e Final Fantasy, são uma afronta à tecnologia. Uma tentativa, besta, ao meu ver de replicar humanos sem sentido algum. Só servem no final das contas para testar o que não fazer, e servir de vitrine, ou demoreel de estudios.
Cameron enxerga além disso. Ele quer que assim como nas animações mais bem sucedidade, a técnica seja ultrapassada a ponto que vc esqueça dela. Técnica é um obstaculo para ideias.NÃo um grande mérito. Quando mais vc sabe, menos vc é atrapalhado pelo computador e mais vc mostra o resultado que tinha na sua cabeça.
Esse é o diferencial de saber usar ou saber o que quer, ou de simplesmente querer usar algo por usar… Isso diferencia Cameron dos outros. E a diferença todo mundo viu.
O diretor é um grande maestro. Ele pode estar acompanhado dos musicos mais competentes e fazer um fiasco por sua propria culpa. Por isso não duvide que muitos dos melhores artistas do mundo trabalharam em Final Fantasy e em Expresso Polar… O diretor tem o poder de, não sabendo o que quer direito, estragar ou potencializar os talentos que o acompanham.
Belo texto Sicas, simples, porém profundo!
belo livro néh
…”avatares são nossas representações, não nós mesmos e precisamos do contato humano que apenas outros corpos podem nos proporcionar.”…
DISCORDO COMPLETAMENTE.
DISCORDO COMPLETAMENTE.
DISCORDO COMPLETAMENTE.
Os nossos corpos são tão representações como um Avatar.
As limitações do corpo não definem quem você é, portanto corpo e mente nesse ponto são independentes.
Veja o exemplo de doenças mentais que distorcem a realidade do corpo como a Anorexia e a esquizofrênica. São as provas cabais de que tudo, até o seu corpo é uma representação daquilo que sua mente produz, seja você ou outro sujeito à observar determinado objeto(corpo, etc.). Eu posso achar fulado bonito e você acha ele feio.
E isso acontece justamente por que somos auto consciente, mesmo irônicamente a consciência surgindo do corpo.
A tecnologia é o futuro das nossas representações. Ela é a extensão das nossas potencialidades, da nossa mente e até do nosso fenótipo, podendo superar os defeitos que nos deixam incapazes, nos dando liberdade de nos RECRIARMOS assim como bem entender.
Isso é a verdadeira liberdade.
Por isso acho que Avatar tem uma mensagem de libertação.
entrem na comunidade
Avatar Brasil : http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=97169442