Closer - Perto Demais

Publicado em: 10-02-2005 @ 11:51 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Não é qualquer um que entende esse filme. Só os que passaram por algo parecido. Não culpe quem não sabe desfrutar de uma boa obra! É preciso dor, sensibilidade e dor de novo, para se compreender toda a graça de Closer. Com certeza, um dos melhores filmes que já vi na minha vida. Simplesmente por mostrar a vida como ela é.

Eu sou contra. Eu sou contra os atores, contra a abordagem, contra a produção, contra o tema. Eu sou contra a peça que deu origem ao filme, contra o diretor, contra o nome do filme. Ele não devia se chamar “Closer - Perto Demais”. Devia se chamar “Verdade Demais”. Eu sou contra, sim! Eu sou contra porque as verdades não foram feitas para serem ditas desta forma aberta, clara e sem pudores. Oscar Wilde já dizia há mais de cem anos: “É terrível como as pessoas tem dito coisas completamente verdadeiras à s minhas costas”.

A verdade verdadeira é um tabu. Um fetiche. E não venha me dizer que “prefere uma verdade que magoe a uma mentira que iluda”. As verdades são mais complexas do que isso. O próprio protagonista Daniel (brilhantemente personificado pelo charmoso inglês Jude Law) afirma a um certo ponto do filme: “Por que você não mentiu como faz todo mundo?”. “Closer” não mente! Os personagens sim, mentem demais da conta! Até que o lado da ficção entra em cena e todo mundo cai numa síndrome alucinada de contar a verdade, e o pior: de contar tudo! Isso, obviamente, não poderia acabar bem. “Closer” não é um filme para você ir acompanhado de alguém com quem mantenha relações amorosas. Leve um amigo, leve uma amiga, a avó, o papagaio… Aliás, nem o papagaio, por que ele pode repetir algo que você disser durante o filme.

O tema você já sabe qual é: infidelidade. Um clichê que parece nunca se gastar completamente. Basta ver pelas novelas, filmes, fofocas e excelentes obras da literatura. Chifre dá ibope, sim! “Dom Casmurro”, de Machado de Assis; “Madame Bovary”, de Flaubert; “Ana Karenina”, de Tolstoi; “Othelo”, de Shakespeare. Precisa de mais nomes para você perceber que o chifre não sai mesmo das cabeças dos grandes mestres?!

Mesmo sendo contra, tenho que admitir que “Closer” é excelente. Os atores arrebentam! Até a “namoradinha da América”, Julia Roberts, dá o tom certo à sua personagem. E destaque à irreconhecível Natalie Portman (vale lembrar a garotinha esquálida de alguns anos atrás em “O Profissional”).

Mesmo com tantos predicados, continuo contra “Closer”! É um filme agudo, profundo, cortante. Ele toca nos pontos fracos. Ele nos dá o alento de nos percebermos compartilhando sentimentos humanos. Os medos, os desejos, os pequenos atos de covardia, as mentiras deslavadas, o onipresente ciúme e todas as coisinhas vulgares e ordinárias que nos fazem ser o que somos, mas somadas a uma coisa exuberante, desconcertante, bela e revolucionária: a paixão.

As pessoas são apaixonadas, em “Closer”. E não tem vergonha de sê-lo. A paixão é um sentimento alucinado. É uma doença da alma, ou uma virtude, sei lá. Mas, com certeza, é um estado alterado. E os personagens se deixam levar por suas paixões, sem medo de serem felizes (ou infelizes!). Choram despudoradamente. Agarram-se. Desesperam-se. Exatamente como, ridiculamente, já fizemos, fazemos, ou faremos. Mas, como dizia Fernando Pessoa, “só quem nunca escreveu uma carta de amor que é ridículo”.

Além da história, ainda vem a trilha sonora para criar o clima ideal. Meu Deus, que música maravilhosa! “The Blower´s Daughter”, de Damien Rice já arrebata no começo e termina a overdose nos minutos finais. Perfeito. Mais uma confirmação de que a música faz uma tremenda diferença.

E para sustentar o tema do filme, interfere novamente Wilde: “O auge da falta de criatividade é a fidelidade”. Essa foi boa… E ainda vem Nelson Rodrigues (quem melhor do que ele quando o assunto é traição?) para completar: “Numa relação, há sempre um traído e um traidor. Saiba o que você é para saber qual o papel do outro”. Em “Closer”, todos traem e são traídos. Ficam só alternando os chifres. Parece até Escravos de Jó… O doloroso e vexatório é que eles parecem querer dissecar essas traições. É uma exumação de chifres! Isso é terrível demais! E todo mundo sabe, nada é tão doloroso, nada dói mais na alma, nada é mais insuportável que descobrir o objeto do seu afeto nos braços de outro!

Um amigo meu, de tanto pular cerca virou um verdadeiro atleta de saltos ornamentais (não vou dizer com vara para não soar infame). Certa vez ele me disse numa conversa de bar (e nem estava tão embriagado): “Se eu encontrasse hoje a mulher certa, seria completamente fiel à ela por toda a minha vida, sem nunca mentir”. Fiquei impressionada! Não por ele estar dizendo isso ou pela virada de pescoço que ele deu segundos após passar uma morena estonteante. Mas principalmente por ele ter revelado uma outra face desta moeda: mesmo nesse mundo tribalista, onde as pessoas se dispõem como um grande self-service de relações, todos nós queremos a monogamia! Queremos o amor eterno, a metade de maçã. Durante o filme, um amigo me revelou: “Queria me apaixonar pelo menos uma vez na vida para saber como é sentir isso”.

Seria o mundo ideal monogâmico? Nossa! Sexo com amor, amor sem sexo, sexo sem amor, amor com sexo. Decidam-se, por favor. Enfim, confira você mesmo assistindo a esse excelente filme! Vá lá e reflita. Mas, cuidado com quem você vai levar junto!

E-mail para comentários: mairasuspiro@cinemacomrapadura.com.br




6 Comentários

  1. BoozeHeads
    1 | December | 2007 às 07:54

    Postei sobre a música tema do filme, no meu blog http://boozeheads.org, entre lá e veja :D

  2. Jonh
    4 | December | 2007 às 23:24

    BoozeHeads … seu link não funciona….. até que gostaria de ver seu comentário sobre a música do filme… é uma pena.

  3. Vanessa Carvalho (31 Anos Manaus)
    24 | March | 2008 às 02:23

    Esse foi um dos melhores filmes que eu já vi… Sem brincadeira nenhuma

  4. rodrigo
    17 | April | 2008 às 23:42

    :wink: E o melhor filme q ja vi , e a trilha sonora é tudo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  5. Felix
    10 | June | 2008 às 22:01

    Acredito que CLOSER foi uma obra prima do cinema, e como toda obra prima, ele também é campeão de críticas. (nem comento sobre a trilha sonora, é Perfeita..)
    Filme Espetacular. Sensibilidade é o que precisamos para aceitá-lo.
    Para mim, ficou uma pergunta depois que assisti….
    “O amor é isso que temos o conceito de ser?”
    “Existe o AMOR do qual tanto se fala?”

    Abraçosss

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