Será mesmo só Ficção?

Publicado em: 01-03-2005 @ 11:57 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Será que sempre é ficção?! Na coluna desta semana, penso se ainda podemos dizer sempre de certos filmes a célebre frase: só em filme mesmo! Imagino que o cinema não está mais tão distante da realidade. Cada vez mais ele passa a ser feito com mais ‘carne e osso’. O ‘impossível’ não está mais nas telonas, mas no nosso próprio dia-a-dia.

Costumo pensar que a arte, logo, o Cinema, expressa sensações da vida das pessoas, sendo elas contemporâneas ou do passado. Enfim, vão evocar emoções e fatos marcantes. Sendo assim, lembrei que o ato de trair faz parte de toda boa fofoca, como também de uma série de célebres filmes. Quantos filmes aos quais você já assistiu que tenha um lance envolvendo traição? Vários, certo? Creio que sim. E não digo apenas o famoso “chifre”- mais popular de todos! Falo de traição mesmo! De amigos, de familiares, de ídolos. Qualquer traição. São filmes tratando da “melhor amiga” que agarra o namorado da colega; namorado que mata namorada; marido que tem caso com secretária (o clichê!); casais brincando de passar chifre como se fosse batata quente; quebra de sigilo no trabalho; honra esquecida(…) Nossa! É muita coisa! Agora me pergunto: por quê?

“O Outro Lado da Cama”. “Infidelidade”. “Closer - Perto Demais”. Bons filmes aos quais assisti, e que falam da traição no amor. “Violação de Conduta”. “Crimes em Primeiro Grau”. “Crime na Casa Branca”. Outros que envolvem traição no trabalho (digamos). E por aí vai. Mas por que diabos será que isso ficou tão comum?

Uma das razões das pessoas irem ao cinema é para se distraírem um pouco. Por mero entretenimento. Muitas vezes o filme permite essa clássica frase: “Ah, só em filme mesmo para acontecer uma coisa dessas!” Enfim, há filmes que realmente fogem da realidade e é justamente para permitir essa fuga que são feitos. Mas não há razão para tantas surpresas. A vida é sempre muito mais surpreendente! Outros filmes, ao contrário, querem uma reflexão sobre a realidade, sim, nua e crua! Não desejam fuga alguma, mas um aprofundamento nas questões humanas.

O mundo está descartável. As pessoas estão tão passageiras… Telespectadores da própria vida. Imitando, repetindo sem pensar. Já ouvi de tudo. Que era legal trair. Que faz parte. Que é apenas para quebrar a rotina. Que é normal. Normal! Já dizia Oscar Wilde, “tudo tem preço, nada tem valor”. Ninguém mais sabe o que é amor e todos seus aderentes. Todos querem, mas ninguém sabe tê-lo de verdade. Ou melhor, sabe conquistá-lo. É tudo light demais. Superficial demais. É demais!

Por empolgação, por curiosidade, por pulsação, trocamos algo essencial por algo urgente. E o tempo, que devia trazer a maturidade, com a maior reflexão sobre o peso dos valores, e muitas vezes não traz. Deve ter ficado para próximo avião, junto com a paciência, o respeito, a sensibilidade, a confiança…

Ninguém sabe mais apreciar um craque ou um clássico. Qualquer um é craque! Tudo é clássico! Mas com um tempo de validade breve. Como um grande amigo falou, “craque é aquele que não faz apenas uma jogada genial, mas sim aquele que faz várias jogadas geniais várias vezes. Clássico é aquilo que se repete sem cansar, sem causar o menor incômodo”. Mas agora tudo é superficial demais. A insegurança e a desconfiança imperam. Palavras perdem o sentindo. Perguntas e mais perguntas só encontram respostas vazias ou apenas respostas sem sentido real. É demais da conta!

A cada dia que passa, me identifico ou vejo alguém se identificando com uma traição dessas no cinema. “Closer” dispensa comentários. Quem leu minha coluna sobre essa pérola, sabe. Só tenho a lamentar. E é por nós mesmos, viu? O Cinema, que antes era algo até distante, não passa do espelho de nossas vidas, nossos sonhos, nossas frustrações. Cada vez, fica mais humano. Mas até quando vamos insistir em achar que o cinema é mágico? É de “brincadeira”? Não… Não acredito que ele seja assim. Ele nos fala apenas o que não queremos ver no dia-a-dia. Quem sabe ele tenha sempre sido assim e eu que não havia percebido… De qualquer forma, acredito que muitos ainda não perceberam.

O mundo dá voltas. As pessoas mudam. Logo, o Cinema muda também… Afinal, é a expressão do homem. Portanto, chego a essa conclusão de que esses tantos assuntos polêmicos - que não apenas a traição - aparecem sempre nas telas justamente porque eles aparecem demais na nossa vida. É o realismo. E por favor, não me traiam dizendo que isso tudo aqui é exagero. É demais!

E-mail para comentários: mairasuspiro@cinemacomrapadura.com.br



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