O Fantasma da Ópera

Publicado em: 07-03-2005 @ 12:09 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Um clássico. O cinema deturpou partes de sua excelência, mas o drama de ‘O Fantasma da Ópera’ é tão magnífico que nem Hollywood conseguiu estragá-lo - como tem costumado fazer com os últimos filmes… Não sei se devo me apegar a película, insignificante diante da peça. Prefiro me embriagar com a forte essência d´O Fantasma da Ópera!

Essa é uma coisa louca. Essa é uma coisa realmente maluca e descabida que à s vezes insiste em acontecer na nossa vida: gostar de quem não gosta de você! Essa situação vexatória e constrangedora só é interessante quando acontece seja com os outros seja quando é retratada pelas artes. Quando dá o azar e acontece com a gente é uma desgraça! Tem um amigo meu que diz que não há dor pior! Dor de dente um dentista cura, nem que tenha que arrancar. E para tudo há a morfina. Ou até a morte para salvar os desvalidos. Mas a dor de amor é implacável. Você não arranca não! Nenhum remédio cura e o pior é que você não morre de dor de cotovelo! Ela destrói as defesas e você fica combalido. Mas não morre! Apela para todo tipo de santo, simpatia, estratégia humilhante, soluções etílicas e até para a Irmã Janaína (”Irmã Janaína traz a pessoa amada!”). Às vezes dá até certo… Enfim, entrei nesse assunto porque assisti ao “O Fantasma da Ópera”.

Na verdade, o filme vai tentar reproduzir o famoso musical de autoria de Andrew Lloyd Weber que já atraiu mais de 15 milhões de pessoas aos teatros dos grandes centros culturais do mundo. O musical, por sua vez, é baseado num livro de Gaston Leroux, do início do século XX, o qual, como obra literária, nunca mereceu muita atenção.

A adaptação tem seus defeitos: o Fantasma é novo demais (talvez pela necessidade de aproximar o personagem ao público jovem) e nem de perto tem o carisma que demanda o personagem; o diretor inventou umas cenas que não existiam no original; o musical não destacou tanto a ópera; o nome do Fantasma é Erick e aquela viagem sobre a explicação da deformação dele é por conta do diretor; a história ficou mais para romance do que para terror; o outro componente do triângulo amoroso, o Raoul, está mais em evidência no filme que na peça, e - certamente - é muito melhor assistir ao musical que ao filme! Mas como nem todo mundo tem as libras necessárias para assisti-lo em Londres, eis a grande virtude da película: possibilitar ao grande público a oportunidade de conhecer este clássico, se deliciar com a trilha sonora maravilhosa e sofrer com o drama deste amor não correspondido. Mas se você for um cubo de gelo ambulante, amargo e reclamão, nada do que vou dizer aqui fará sentido… Meus pêsames!

O lugar da história já te deixa de boca aberta. A Ópera de Paris. Um prédio construído de forma até polêmica, com 17 andares, sendo 10 subterrâneos, monstruosamente belo. E sim, tem um riozinho passando embaixo do teatro! Só de imaginar dá arrepios…

Agora, vamos à história. Christine é uma jovem corista. Órfã. Foi educada artisticamente por um espectro que se manifesta apenas pela voz, ao qual ela batiza de “Anjo da música”. Na verdade, um gênio da música que se esconde nos subterrâneos do teatro de Paris e que tem o rosto terrivelmente deformado. Em virtude de apoio do “Fantasma”, ela se torna “Primma donna” do teatro de Paris. Então aparece o bonitinho. O Visconde com todas as características de príncipe. (Até cavalo branco para complementar o pacote!). O resto já dá para adivinhar. O belo e a bela se apaixonam, noivam e vão casar. E o fantasma? Nem um obrigado ele merece da moça a qual dedicou a vida! Dava até para colocar: “Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência”!

Uma coisa tem que ficar clara: O Fantasma é um monstro! Sim, um monstro da Literatura. Tal qual Drácula, lobisomem, Frankenstein, Cuca. A obsessão dele por Christine o leva a fazer sandices. Quando ele aparecia nos filmes da década de 40, provocava histeria e desmaios nos cinemas. Mas, entre os monstros, sem dúvidas, é o mais charmoso e o que mais desperta compaixão. Há inclusive o hábito de se torcer para que Christine fique com o Fantasma. Ele desperta essa iniciativa de “torcer pelo bandido” mais do que qualquer outro vilão da ficção. E para ser honesta, em termo de sedução e conteúdo, não há comparação. O Fantasma ganha de goleada. Na peça isso é mais fácil de ver. O Fantasma é hipnótico! É carisma ambulante! É magnetismo puro! Isso dá para observar claramente na ópera Don Juan, escrita pelo próprio, onde o casal realiza um dueto glorioso. É bonito demais. Inquietante até a medula!

Passando o drama para nossa realidade mortal… Vivemos num mundo onde imagem é tudo. Estética é curriculum vitae. Seja belo e as portas mais facilmente se abrirão para você. Como dizia Vinicius (um ogro de tão feio, mas um grande pegador!): “As feias que me perdoem mas beleza é fundamental”! Por isso que a nossa sociedade faz qualquer sacrifício pela beleza estética. Para ser fundamental. O Fantasma é rejeitado pelo mundo em que vive em virtude da sua deformação. A humanidade perde um gênio porque não consegue conviver com o feio. O feio se torna aberração porque o ser humano carece mesmo de valores essenciais. Superficialidade é a palavra. “Mais do que paisagens novas, é preciso de olhos novos” já dizia Proust. Mas essa é uma reflexão muito exigente que pode ser intangível ao grande público…

No entanto, por que o “O Fantasma da Ópera” é o clássico entre os musicais? Por que mesmo as pessoas que não entendem a língua durante as apresentações se debulham de tanto chorar? Por que um monstro atrai tanta paixão? Não sei. Talvez só desconfie. Talvez porque eu e você e todo mundo já gostou de alguém que lhe rejeitou. Talvez porque você não agüente mais ver que os almofadinhas e filhos-de-papai que ganham sempre e isso é revoltante! Talvez porque no fundo você saiba que a dor do Fantasma é a sua própria (ou já foi!). Talvez porque tanta devoção por alguém é algo alienado demais. E belo demais! Talvez porque você ame alguém nesse exato momento… E talvez não seja amado.

Coma já falei na coluna passada, os filmes estão cada vez mais próximos de nós. A história do Fantasma podia ser a de qualquer um. Até a sua. Chega de superproduções que não trazem nada de novo, banhadas de prepotência e mesmice. Prefiro filmes que me façam sentir. E definitivamente, ‘O Fantasma da Ópera’, em cinema ou em teatro, é capaz de tocar qualquer um que seja humano.

E-mail para comentários: mairasuspiro@cinemacomrapadura.com.br




4 Comentários

  1. Wilian
    22 | February | 2008 às 21:45

    Adorei sua crítica!!!

    Gostaria de saber se foi voce mesma quem escreveu e se posso coloca-la em meu site, indicando voce como autora.

    Abraçao!

  2. caroline cristina vieira
    28 | June | 2008 às 22:14

    :razz: :roll: :lol: :shock:

  3. Belle Atayde
    19 | July | 2008 às 21:08

    ADOREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEI
    :lol: :lol: :lol: :razz: :razz: :razz: :oops: :oops: :oops: :!: :!: :!: :!: :!:

  4. Mandy
    1 | September | 2008 às 20:16

    Adorei simplismente perfeito …

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