Quinquilharia ou Relíquia?

Publicado em: 10-04-2005 @ 12:13 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Há quem goste de coisas velhas! Eu gosto de algumas… Ultimamente tenho aprendido a gostar de outras. Ou será que as coisas boas realmente não envelhecem? Ou, ao envelhecerem, algumas coisas até melhoram? Tal qual o vinho, o whiskie e o Sean Connery.

Coisa velha vira quinquilharia ou relíquia? Depende do quê para se responder a isso? E se limita a algum espaço? No século do conhecimento, muitas coisas boas são esquecidas, muitas coisas triviais são postas em pedestais. Mas não vamos generalizar: a justiça também é feita - aleluia! Mas, enfim, vale a idade ou a qualidade?

Cada um tem seu gosto e isso não se discute, certo? Certo, de fato! Há quem seja conservador e há quem seja moderninho. Existem as pérolas conservadas pelo tempo, assim como as porcarias que insistem em aparecer no presente, para nos assombrar. Cada um com sua vulnerabilidade. Música, por exemplo, não envelhece. Por sinal, música boa não envelhece! Mas há músicas que já “nascem” velhas. Mal saem na rádio e já soam caducas. Vão impregnando os seus tímpanos. Vão se agarrando s pobres paredes dos seus ouvidos e não morrem nunca. Música eterna. Eterna não. Música “Highlander”! Quando você pensa que ela morreu, ela volta sem a menor noção de conveniência e fica lá, grudada, sei lá onde.(Quem sabe na sola do sapato!)

Com filmes é a mesma coisa. Há filmes, por sinal, que nem deveriam ter nascido… Ultimamente, assisti a alguns que deveriam mesmo era ter ficado no limbo, que mereceriam. Outros são eternos porque são muito bons. Outros duram porque há algum sacana sádico que insiste em reprisa-los para atormentar a humanidade. Há aqueles filmes antigos que mesmo sendo bons ninguém mais os assiste. Estão em coma! E há a mais nova tendência da máquina Hollywoodiana - sem mais idéias novas - que é de refilmar os sucessos do passado. É a ressurreição por clonagem!

Teve um amigo meu que na semana santa alugou 10 filmes do Chaplin. Contou depois que tanto riu quanto chorou. O autor morto; a obra viva. Assisti um dia desses ao filme “A Primeira noite de um homem”. Dustin Hoffman novinho! Puxa! Um filme de mais de 30 anos. Porém, mais atual do que muitos dos atuais. É verdade que a linguagem aplicada ao cinema mudou muito desde a época do cinema mudo até hoje. Atualmente, a velocidade das seqüências é maior (tem filme que mais parece videoclipe!), e os recursos tecnológicos são radicalmente diferentes (nem ator é mais necessário para fazer um filme de sucesso!)

Para quem está habituado ao cinema moderno, estranha um pouco quando assiste a um filme antigo. Mas, garanto que o “esforço” é plenamente recompensado - quando se trata de clássicos - por exemplo.
Acho que não dá para se dizer uma pessoa “esclarecida” sem ler certos livros. Da mesma forma, não dá para se situar - acredito - no mundo com uma certa visão de horizonte cultural sem ter assistido a alguns filmes. Sim, é como na faculdade. Certos filmes são pré-requisitos. E eu ando “lutando” contra o tempo (literalmente) e me vejo a assistir (e gostando disso!) a diversos sucessos da época da juventude dos meus pais (espero que eles não se ofendam com a referência ao tempo!). Certamente, seria um pecado listar esses filmes imperdíveis do passado sob o imenso e impagável risco de me esquecer de muitas outras pérolas… Isso seria um pecado mortal!

Mas… Eu nunca disse que queria ser santa mesmo! Vou pecar. Ao menos dessa vez, os deuses da Sétima Arte hão de me perdoar.

Os que já citei são ótimos. “A Primeira Noite…” é desconcertante. Um retrato da sociedade hipócrita muito bem pintado pelo mesmo diretor de “Closer”, Mike Nichols. Chaplin é impressionante! “Tempos modernos”, “Luzes da cidade”, “O garoto”, “O Grande Ditador”… Putz, dá nem para falar… E “Casablanca”? Humphrey Bogart e Ingrid Bergman são deuses do Olimpo na grande tela. Mas não estão sós. De Niro, em “Taxi Driver” merecia um busto em praça pública. E Marlon Brando, o eterno “Don Corleone”, alguém questiona? Dustin Hoffman em “Tootsie”! Puxa! Não viu? E em “Rain Man”? Tem o Jack Nicholson em “Um estranho no ninho”. De tirar o fôlego! Alguém já assistiu a “Papillon”? Alugue hoje. Não tem como não gostar. “Ben-Hur” ganhou a mesma quantidade de Oscar de “Titanic”, e na época a quantidade distribuída era bem menor! Um excelente filme.

Há esses nomes que já viraram ícones: Paul Newman, Robert Redford, Elizabeth Taylor, Catherine Deneuve, Steve Macqueen, Kirk Douglas, Burt Lancaster, Cary Grant e mais uma ‘ruma’. São tantos ótimos atores e atrizes. São tantos títulos. Tantos filmes que inspiraram gerações. Excelentes películas. Atuações que viraram referências. Hoje são aulas! E a vantagem dessa época é que o enfoque era no enredo. (sim, os filmes tinham história, não só efeitos, ou defeitos, como preferir…).

Mas tinha muito filme ruim, é claro. Ruindade não é patrimônio de nenhuma época e de nenhum lugar exclusivos. Atualmente, por exemplo, há bons filmes – “Menina de Ouro” me força a dizer isso. Mesmo com um enredo clichê, consegue um desenvolvimento envolvente. Mas, muito legal, é não ter preconceitos ao escolher um filme para o seu entretenimento, porque se o cinema tem mais de 100 anos, é porque muita coisa boa foi feita no passado. Pois, afinal, mais importante do que ser novo ou velho, moderno ou antigo, é ser bom.

O que tem qualidade sobrevive ao tempo. Seja uma música, um livro, um amor ou um filme. O maior juiz é sempre o tempo! Que sobrevivam esses bons filmes. E, óbvio, que sobrevivamos eu e você para perceber isso.

E-mail para comentários: mairasuspiro@cinemacomrapadura.com.br




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