Exagero é ruim sempre ou tem certas coisas que devem ser exageradas mesmo? E se for bom, tem que ter sempre ou vale a pena ter um certo equilíbrio? Se for pra rir, só rir? E se for drama, só choro? Equilíbrio ou descontrole por exagero? Que caminho o cinema deve seguir?
Em algumas rodas sociais você escuta “Ah, mas aquele filme estava indo tão bem. Não sei pra que puseram aquelas piadas para quebrar o clima”. Ou “Quero mais é rir. Odeio esses filmes que colocam drama onde só deveria ter gargalhadas”. Ainda, “Que infantil… Quebram a intelectualidade do filme com esses temas clichês”. Enfim, o que será que o público quer? Os extremos exagerados, os filmes equilibrados ou aqueles temas sem pé nem cabeça?
Variedade é sempre bom, né? É bom que tenham filmes super focados no gênero. Só riso, só choro, só ação, só pancadaria… Até só sexo! Sim, essa coletânea de “só isso mesmo” serve para aquelas situações objetivas, quando se sabe exatamente o que se procura sentir ao assistir ao filme. “Quero alugar um filme para me distrair, para curar minha dor de cotovelo, para me sentir um super herói ou uma grande mulher, para saber mais sobre isso ou aquilo…”.
Pessoalmente, eu prefiro o equilíbrio. Normalmente. É, por que odeio rotinas. Então tem dias que eu quero é o exagero. Mas, de bom gosto, por favor. Exagero de erros e atuações ruins ninguém precisa! Acontece que essa demasia pode se tornar uma coisa maravilhosa se for bem colocada nas telonas. Outras vezes, nem tanto. Basta lembrar daquelas sagas intermináveis de ação com o Arnold Schwarzenegger . Mas vamos dar um desconto nas comédias, tipo “Debi e Lóide”. Todo mundo já tirou umas horinhas para rir com aqueles dois babacas! Não minta!
Na verdade, qualquer um dos três - exagero, equilíbrio ou nonsense - pode se tornar algo bom, se for bem aproveitado. Depende do toque dos atores e diretores, e, definitivamente, da sua tolerância ao assistir. Eu falei que prefiro algo mais equilibrado, algo tipo Chaplin: faz você rir e chorar na mesma história. Mas, tem uns filminhos equilibrados demais, tão equilibrados que perdem o sal. Parece que foram feitos com medidas exatas de cada humor: uma colher de chá de riso, uma colher de chá de drama, uma colher de chá de silêncio… E um chá de cadeira em você, que assistiu ao filme apaticamente!
Não me refiro a esses equilíbrios ao pé da letra. Falo dos filmes que são bem dosados, que não necessariamente sejam obras primas, mas que causem algum divertimento. Vão desde os tipos “Sr. e Sra. Smith”, “Closer - Perto Demais” e “Melinda e Melinda”. O que tem haver?
Bem, “Sr. e Sra. Smith” não é um filme que tenha algo de maravilhoso. É um filme agradável e divertido, ora. Você ri, fica até com a leve sensação emocionada nos impasses matrimoniais, você baba pelo Brad e pela Angelina, você pode se inspirar a ser um grande espião, se tiver um pouco de boa vontade… Enfim, não é uma grande obra, mas dá para passar bem o fim do dia. É um tipo de equilíbrio, então, que tende pro lado do básico hollywoodiano. Aliás, essa história de casal espião que esconde a verdadeira identidade profissional entre si não me é estranha… Deve ser um remake, né? Novidade…
“Closer - Perto Demais”. Se você costuma ler minhas humildes colunas, deve ter lembrado que há uns meses eu dediquei minha semana a falar desse filme. Ok, eu estava envolvida demais com a história, mas quem disse que eu procuro ser correta e coerente quando escrevo? Eu adorei esse filme. Fico arrepiada só de lembrar. Ele tem tiradinhas inteligentes, uma ironia e um humor negro que poucos percebem e, principalmente, ele trata um tema super clichê de uma forma intensa e envolvente. Eu ri, chorei, gritei, chutei a cadeira, vibrei. Equilíbrio não tão moderado, mas que tem um pouco de muito e mantém o foco da proposta inicial. Mike Nichols estava inspirado mesmo… Não me perguntem por quê!
“Melinda e Melinda”. Sensacional! Woody Allen é sensacional! Clima de jazz e intelectualidade de maneira tão simples encaixada na história! E ainda conseguiu manter um roteiro tão gostoso. O tema da história já é muito bom. O mesmo fato observado de duas óticas diferentes. Pensando bem, “Melinda e Melinda” é o top-top dessa conversa toda de equilíbrios e exageros. O desenrolar dele é em cima disso! Como os tons podem mudar de acordo com seu ponto de vista.
O cinema tem tantas variantes que fica difícil sair classificando ou padronizando gostos. Aliás, isso nem deve ser feito. É crime! Crime que é cometido constantemente. Antes de sair pensando sobre esses três tipos de filme, deveria pensar se eu conheço bem os filmes para sair falando. Ah, encontrei um grande problema.
Infelizmente, poucas pessoas param para assistir filmes maravilhosos como “Melinda e Melinda”. A maioria não vai ao cinema, não adentra no mundo da criatividade, onde se faz maravilhas com uma idéia na cabeça e uma câmera na mão, como já dizia Glauber Rocha. As salas de exibição de películas são limitadas. Quem disse que todo filme bom passa nas telonas? Claro, muitos bons filmes marcaram presença por ali, como os citados aqui e outros, como “A Queda – As Últimas Horas de Hitler” e “Diários de Motocicleta”. Pergunta: algum dos dois foram filmes super badalados na mídia? Não. Fizeram sucesso por que são filmes bons, claro. Mas não se compara a sua divulgação com as de “Constantine”, “A Casa de Cera”, “Robôs” e “Star Wars”.
Não estou criticando nenhum dos citados. Estou questionando o fato de não termos o acesso igual a todos. Cada um tem seu gosto e seu humor. Eu, que sou eclética de carteirinha, vejo filmes de todos os gêneros, e não acho que filme legal é só aquele “cult” e “intelectual”, por mais que os prefira. O problema é que nem todo mundo pode agir assim. Muitos só conhecem esses enlatados americanos que nos são vomitados aqui, e nada sabem sobre maravilhosos filmes que vão direto para as locadoras, como “Modigliani”. Fora as produções nacionais, que tem mais espectadores lá fora do que no próprio país.
A pergunta não é “Para onde o cinema deve ir?”. Pare e pense para onde sua atenção deve ir, se seus olhos estão realmente abertos. O cinema é uma expressão humana estupenda, com tipos que agradam e desagradam. Cabe a você saber apreciar isso e não se deixar limitar pelo mais comercial.
E-mail para comentários: mairasuspiro@cinemacomrapadura.com.br


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