Ultimamente tenho assistido a vários filmes nacionais, inclusive alguns que já havia tido o prazer de ver. Foi então que fiquei intrigada, sem entender, como ainda há pessoas que gritam que o cinema nacional ‘não presta’ e que Hollywood tem brilho melhor nos holofotes do que nosso sol e cultura brasileira.
Talvez pela divulgação menor que a dos outros. Talvez pela mania que temos de só valorizar o que vem de fora. Talvez por que alguns não gostem mesmo. Talvez por que talvez… O motivo pelo qual venho bater o pé no chão aqui, ou melhor, a mão do teclado, é pela pouca valorização popular do nosso cinema brasileiro. Evidentemente, haverá filmes que não cairão no gosto, mas aÃ, a criatura não vai gostar por causa do roteiro, ou do personagem, ou do que quer que seja! Mas não dirá: não gostei por que é filme nacional, só podia ser nacional mesmo! Não sei se você nota, mas há uma grande diferença.
Para esses cegos que não enxergam riqueza na própria casa, tentarei pôr uma lente de aumento em alguns bons trabalhos que temos. ‘O Auto da Compadecida’. Adaptação de Guel Arraes da obra de Ariano Suassuana, que conta com as interpretações por demais convincentes de atores espetaculares, como Matheus Nachtergaele, Selton Melo, Denise Fraga, Marco Nanini, Diogo Vilela, Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Rogério Cardoso… Quer mais? Só vendo o elenco já se pode notar que é coisa boa, viu? Mas não chega perto da maravilha que é o filme. Personagens comuns do sertão nordestino com um toque original ‘a la Suassuna’. Um humor incontido e reviravoltas intrigantes. Absolutamente, um dos melhores filmes nacionais que já vi.
Outro que segue a linha de comédia no sertão, sem esquecer a rica cultura do lugar, é ‘Lisbela e o Prisioneiro’, que repete a figurinha de Selton Melo, que agora faz par romântico com Débora Falabela. Coincidentemente, outro filme de Guel Arraes. Aliás, Guel fez alguns dos nacionais mais conhecidos. Além desses dois, ‘Meu Tio Matou Um Cara’e ‘Os Normais – o Filme’. Sendo uns como produtor, outros como diretor.
Outro filme engraçadÃssimo que versa sobre o sertão Severino, tão nordestino, é ‘Eu Tu Eles’, de Andrucha Waddington. E o ‘Eles’ conta com Regina Case, Lima Duarte e Stênio Garcia. Precisa dizer mais alguma coisa? Duvido um americano mostrar sua cultura e história, à s vezes tão sofrida, por um ângulo de risadas gostosas e tão caracterÃstico culturalmente!
Mas também não pense que brasileiro só sabe rir. Ou que só é bom por que faz sorrir na hora de chorar. Não, não. Algumas vezes, é mostrado a verdade nua e crua. A diferença é que aqui não vale quanto sangue é derramado ou quantos efeitos a produção conseguiu fazer. O que vale é a sensibilidade e a verdade, sem muito dengo ou muita ‘melosidade’. Confira então ‘Abril Despedaçado’, do popular Walter Salles. AÃ, Rodrigo Santoro, Wagner Moura e José Dumont brigam pela honra da terra e da famÃlia, com cenas de fortes emoções ao que diz respeito à vida, juventude, famÃlia e desafios.
E falando em filme forte, não podia passar sem citar ‘Cidade de Deus’, dirigido por Fernando Meirelles, e produzido por Walter Salles, e que conta com as interpretações de Matheus Nachtergaele, que para mim está no topo dos melhores atores brasileiros da sua geração. ‘Carandiru’, de Hector Babenco, também merece seus méritos, mostrando para quem quer ver a realidade crua do maior presÃdio da América Latina, que conta com Lázaro Ramos e Rodrigo Santoro no elenco.
E nessa linha de realidade ‘nua e crua’, com toques caracterÃsticos da cultura e do nosso cotidiano, entra na jogada o ‘Amarelo Manga’, de Cláudio Assis. Histórias nervosas que se cruzam, num desenrolar louco, com as encenações de Matheus Nachtergaele (só mais uma vez!), Jonas Bloch, Dirá Paes, Chico Diaz e Leona Cavalli.
Agora, temos também aqueles que não fogem da realidade ‘nua e crua’, mas que dão uma lapida mais amena e emocional, como ‘Central do Brasil’, que concorreu ao Oscar de melhor atriz e melhor filme estrangeiro, com a direção de Walter Salles. Fernanda Montenegro, MarÃlia Pêra, VinÃcius de Oliveira, Othon Bastos, Matheus Nachtergaele embarcam na trajetória emocionante de busca do pai e descoberta de um grande companheirismo e lições de vida.
E para não dizer que não fazemos biografias, vem ‘Olga’. Filme dirigido por Jaime Monjardim, que conta a história de vida de Olga Benário Prestes, de um ponto de vista diferente. O diretor põe Olga como mulher, esposa e mãe. Quem esperava ver a idéia já batida sobre a II Guerra Mundial, dançou. E mesmo quem ‘dançou’, duvido que não tenha se emocionado ao mÃnimo com as atitudes, e também fraquezas, que Olga teve.
Camila Morgado e Caco Ciocler fazem dupla nesse drama, acompanhados de Fernanda Montenegro.
Na lista dos ‘na medida do possÃvel’ conhecidos, ainda temos ‘Bicho de Sete Cabeças’, com Rodrigo Santoro, e ‘A Dona da História’, com Marieta Severo, Antônio Fagundes e, também, Rodrigo Santoro e Débora Falabela.
Na lista dos que não entram no circuito tão popular, mas que merecem palmas do mesmo jeito, estão ‘Bens Confiscados’, de Carlos Reichenbach, que não tem nada de sertão ou vida Severina. Tem sim, visões urbanas e dramas pouco explorados pelos filmes já citados. Betty Faria, Marina Person e Werner Schünemann estrelam o longa.
Ainda temos o documentário ‘A Pessoa É Para O Que Nasce’, de Roberto Berliner, que mostra o cotidiano das ceguinhas de Campina Grande, Maroca, Indaiá e Poroca, como preferem ser chamadas. Além do longa de Sérgio Bianchi, ‘Quanto Vale ou É Por Quilo?’, que faz um paralelo bastante interessante do tempo do Brasil-colônia aos tempos de hoje, mostrando que pouca coisa mudou.
Enfim, não termino nunca se for comentar todos os grandes filmes nacionais que temos em nosso leque de opções. E que bom que não é fácil de terminar! A variedade é grande. O que falta é boa vontade para se ver. Somos tão aclamados lá fora, tendo até em Miami um festival só para filmes brasileiros! E aqui, poucos os que se interessam. Isso é uma vergonha, já dizia Boris Casoi. Não vamos desmerecer o cinema estrangeiro, mas, pelo menos, vamos dar o devido merecimento à nossa pelÃcula verde-amarela!

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