Uma multidão vai ao cinema. Um público vai ao cinema. Afinal de contas, quem é que vai ao cinema: o público ou a multidão? Ou será que os dois dizem respeito s mesmas pessoas? Lendo sobre isso esses dias foi que me inspirei para escrever a coluna de hoje, até por quê, a diferença entre os dois é bem interessante!
De hoje em diante, eu sou uma pessoa mais culta! Sim, sim, sim. Adoro quando aprendo algo novo, principalmente quando é algo que aparentava ser tão elementar e acaba se tornando algo super interessante e complexo. Melhor ainda, só quando consigo relacionar a cinema e fazer mais uma coluna!
Resolvi falar sobre a linha tênue - ou não tão tênue - que há entre público e multidão. Na verdade, a distinção entre esses dois grupos sociais só se fez valer quando houve a invenção da imprensa na idade moderna. Não foi algo tão visceral nossa sociedade, e se não fossem certos acontecimentos, talvez nem existisse tamanha diferença. Como exemplo primordial temos o surgimento da imprensa, como já falei. Tal advento ‘fez surgir uma espécie de público bem diferente, que não cessa de crescer e cuja expansão indefinida é um dos traços mais marcantes de nossa época’, como já dizia Gabriel Tarde.
Mas vamos por partes. Primeiro vamos conceituar ‘multidão’. Digamos que multidão seja um feixe de contatos psíquicos essencialmente produzidos por contatos físicos. Primitivo, não? Acho que o estado de multidão é grosso e principiante. À medida que se vão construindo relações pessoais ou medida que os indivíduos se afastam, dispersa-se a multidão.
Aí o público começa a ter mais graça! Vamos pôr em prática as idéias. Você, que está lendo minha coluna agora, assim como algumas pessoas mais, estão dispersos num vasto território. Entretanto, mesmo fisicamente distante, existe um vínculo entre vocês. Esse vínculo é a simultaneidade e a consciência que cada um de vocês possui e partilham no mesmo momento. Por incrível que pareça, basta o homem saber disso para ser influenciado. Isso começou a ser observado com os jornais, e se você parar e pensar um pouco mais, podemos aproveitar algumas idéias e adaptar para o cinema.
Em uma coluna passada, falei que Thomas Edison havia tido a idéia de exibir pequenas películas em salas escuras para uma pessoa por cada vez, cobrando um valor mínimo por sessão. Felizmente, os irmãos Lumière foram mais interessantes e transformaram essa idéia na forma de cinema que conhecemos hoje: uma sala escura com uma grande tela, onde várias pessoas se encontram para assistir a um filme. Não há sombra de dúvida de que a segunda opção é bem mais interessante! Que graça tem assistir a um filme sozinho? Muito melhor ter amigos ao lado, rir junto, chorar junto, tomar susto juntos… Mais emocionante, não? Além de que existe aquela curiosidade, mesmo que mínima, de se saber o que o outro pensa e sente durante as cenas. Um explosão de pensamentos, idéias e sensações, tudo ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Aparece aí a curiosidade e a influência. A curiosidade de saber do próximo e a influência que esse conjunto de pessoas exerce, quando queremos estar por dentro dos juízos e, se possível, semelhante.
Quando se sofre esse contágio invisível do público que se faz parte, a explicação provém do simples prestígio da ‘atualidade’. Essa sensação de atualidade é tão louca e apaixonante, que se transforma em algo crescente e se torna uma das características mais nítidas da vida civilizada. Agora, a parte intrigante: você sabe o que é ‘atualidade’?
‘Atualidade’ é tudo que inspira atualmente um interesse geral, mesmo que se trate de um fato antigo. Repararam? Atualidade não implica em tempo, mas sim no interesse do momento. Não é atualidade o que é recente, mas negligenciado atualmente pela opinião pública – outro conceito bastante polêmico. Enfim, a paixão pela atualidade progride com a sociabilidade. Sem contatos ou informações comuns, não haveria essa paixão em se saber do que é interesse de muitos.
Vamos para a prática de novo. Um filme badalado no mundo todo é tão empolgante quanto um filme divulgado em apenas certos lugares? Creio que não, certo? Aquela euforia toda das estréias mundiais não são apenas fanáticas. Mesmo quem não gosta de Star Wars ou Harry Potter presta mesmo que o mínimo de atenção na movimentação dos cinemas, nos números de bilheteria, nas fantasias mirabolantes. É atualidade. Todos querem ver os filmes concorrentes ao Oscar, para juntos, poderem formar opinião e participar daquele público.
Começaram a perceber a diferença entre público e multidão? Multidão é algo mais enérgico, rápido e passageiro, com contatos físicos e características repetidas. O público não exige relações pessoais, pelo contrário! Ele requer uma evolução mental, um interesse comum em determinado assunto, o contágio sem contato. Você não tem contato físico com o desconhecido que senta do seu lado numa sessão de cinema. Se tem contato físico, o máximo é o toque de cotovelos! Mas mesmo assim, vocês participam de um mesmo público.
Multidões sempre existiram. Públicos, não. Ele só começou a aparecer mesmo com o desenvolvimento da imprensa, e se destacou de vez no reinado do tal de Luis XIV. E naquela época haviam tantas multidões como hoje, como as das torcidas do Leão ou do Vovô.
Outra coisa legal sobre o público: você pode participar de vários públicos ao mesmo tempo, ao passo de que só pode participar de uma multidão por vez. A não ser que você seja um protótipo de super-homem e esteja em vários lugares ao mesmo tempo, com energias renováveis a cada segundo. Outro fato: o público não se submete aos caprichos do meio físico. Já a multidão se fragmenta na primeira chuva grande que cair, ou quando o líder calar-se.
Sendo assim, prefiro ter um público menor que uma multidão dentro de uma sala de exibição. É mais seguro e mais proveitoso. Mais rico de idéias. Fora que ninguém corre o risco grande de levar banho de refrigerante ou chuva de pipocas… A não ser que você esteja numa sessão infantil!
E-mail para comentários: mairasuspiro@cinemacomrapadura.com.br


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