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Behaviorismo

Publicado em: 05-09-2005 @ 2:13 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Existem filmes brilhantes: simples e inteligentes. Acredito que essa seja uma das melhores combinações do cinema. Assim é o ‘Show de Truman’, que mescla a comédia com alguns fundamentos intrigantes da psicologia, como o behaviorismo.

Eu tenho um vício do qual não consigo largar, e de fato, nem quero! Tenho uma mania incontida de aprender coisas novas, mas de preferência, coisas bem novas mesmo, nada que qualquer um tope no meio da rua, mas algo que exige uma pouco de boa vontade e que seja privilégio dos que buscam conhecimento por livre e espontânea vontade.

Além desse vício explícito, tenho a vontade de sempre relacionar com cinema nos intervalos, principalmente para ter algo bom para falar para vocês aqui! Pois bem, essa última semana eu andei me revirando com a psicologia. Mais especificamente, com o termo ‘behaviorismo’.

Alguém aí sabe o que é Behaviorismo? Ou Comportamentalismo’? Ou Teoria Comportamental? Ou Análise Experimental do Comportamento? Ou Análise do Comportamento? Sabe? Sabe? Sabe? Tomara que não, por que senão vou explicar toa! Na verdade, esse bando de nome aí significam a mesma coisa, fazem referência ao mesmo conceito e acabam caindo na palavra que eu citei antes: behaviorismo.

Para quem anda prestando atenção nas legendas dos filmes, ou nas aulas básicas de inglês, ‘behavior’ significa ‘comportamento’ na língua inglesa. Clareou um pouco sobre o que vamos falar? Um pouco, né? Mas nem se anime e ache que é algo simples assim. John Watson estudou muito, e usou vários ratinhos indefesos, para desenvolver esse termo intrigante do mundo da Psicologia.

Watson, cientista americano que criou esse o termo, chegou e disse que o comportamento seria o novo objeto de estudo da Psicologia e que ele deveria ser estudado como função de certas variáveis do meio. Certos estímulos levam o organismo a dar determinadas respostas e isso ocorre por que os organismos se ajustam aos seus ambientes por meio de equipamentos hereditários e pela formação de hábitos. Resumindo, Watson buscava a capacidade de prever e de controlar. Ambicioso, hein? O Cérebro deve ter se inspirado nele… Incrível como esses ratinhos de laboratórios aprendem até demais!

Mas sim, o Behaviorismo dedica-se ao estudo das interações entre o indivíduo e o ambiente, entre as ações do rapaz (respostas) e as ações do ambiente (estímulo). Dá para entender um pouquinho? Calma que começa já a parte prática! Antes vocês tem que conhecer o Skinner, um sucessor do Watson que chegou com uns conceitos bem práticos.

Skinner falou sobre o comportamento respondente ou reflexo, que normalmente chamamos de ‘não-voluntário’ e inclui as respostas que são produzidas por estímulos antecedentes do ambiente. São ações independente de uma aprendizagem.

Ele falou também sobre o comportamento operante, e Keller completou dizendo que esse comportamento ‘inclui todos os movimentos de um organismo dos quais se possa dizer que tem efeito sobre ou fazem algo ao mundo ao redor em algum momento. O comportamento operante opera sobre o mundo, por assim dizer, quer direta ou indiretamente.’ A leitura dessa coluna é um exemplo, assim como eu escreve-la também é. E nesse lance operante, existe uma relação fundamental que é aquela entre a ação do indivíduo e as conseqüências, que acabam por retroagir sobre o sujeito, alterando a probabilidade futuro de ocorrência.

Meio louco, se olharmos rapidamente, mas bastante intrigante se olharmos com calma. Afinal, donde vocês acham que saíram todos aqueles livros de auto-ajuda para pais? Tudo isso tem o fim de criar um comportamento desejado no indivíduo. E é bom vocês ficarem sabendo disso para não serem pegos tão facilmente! E olha que eu só estou falando da psicologia e do homem. Imagine quando eu vier falar da comunicação de massa! ‘Sorria, você está sendo manipulado’, opa, ‘filmado’!

Mas sim, e o que isso tem a ver com o cinema? Ora, existe um filme espetacular que lida com isso tudo que eu falei e mais um pouco, de forma cômica, simples e brilhante. É sim. Você certamente conhece. Não é nem um documentário ou um filme europeu ‘cult’ que exige grandes interpretações.
É aquele com o Jim Carrey, ‘Show de Truman – O Show da Vida’.

Vocês já pararam para pensar, além das risadas, no que o diretor Peter Weir estava pensando quando fez aquele filme aparentemente irreal? Ele nem foi tão longe para buscar inspiração. Deixe-me explicar.

Truman é o primeiro bebê televisivo, criado num mundo aparentemente real e perfeito, encenado por atores e controlado por mais de mil câmeras. Nada ali é real. Tudo ali é real. Loucura, hein? Cristof é o grande criadar do BBB megalomaníaco. Cristof. Notaram alguma semelhança com o cara lá de cima? É, o Cristo. Só um ‘f’ de diferença. E não foi toa. Além do próprio nome de Truman. True + Man. Homem verdadeiro. Tudo ‘a la ironia’.

Existiu um rapaz muito inteligente, chamado Sartre, que desenvolveu um pensamento filosófico conhecido como ‘existencialismo’. Sartre dizia que para nós, homens, sermos livres, Deus não poderia existir. Pesado, né? De fato. Mas tem lá seu sentido. Ele pôs no ringue dois termos: existência e essência. Vou dar um exemplo conhecido: a cadeira. O carpinteiro quando vai fazer uma cadeira, já tem a idéia concreta da cadeira na cabeça, certo? Então, ele tem a essência da cadeira. Então, ele constrói a cadeira e lá está ela, pronta pra servir de assento. Então, ela existe. Agora, a bendita cadeira teve chance de escolher entre ser cadeira ou não? De jeito maneira, ela não passou pelo dilema ‘hamletiano’ de ser ou não ser uma cadeira. Ela já era, já tinha sua essência antes mesmo de existir. Logo, Troque os nomes: carpinteiro por Deus e cadeira por homem. Sacou a jogada do Sartre?

Sendo assim, Truman sempre teve sua existência presa essência criada por Cristof. Nenhuma ação sua era espontânea. Tudo era calculado. Para isso, ele cresceu cautelosamente sendo educado por reforços positivos e negativos, por reflexos condicionados.

Ele morava numa ilha. Logo, não seria tão fácil ele simplesmente ir embora. Mas e quando ele começasse a perguntar? E se ele quisesse simplesmente pegar um barco e explorar o mar? Até por que o pequeno Truman era bastante curioso. Curiosidade fazia parte da sua subjetividade. Então, o que eles fizeram? Mataram o pai de Truman afogado para o coitado ficar traumatizado e não querer chegar perto de água tão cedo!

Acontece que a mente humana não é tão simples assim. Controlar alguém não é tão possível assim, mesmo com a ajuda de todo uma equipe gigantesca. Tem algo que ninguém consegue controlar. E espero eu que não consigam nunca! Truman era cercado por câmeras, mas esqueceram de por uma câmera no seu subconsciente, na sua subjetividade.

Assim, ele, por mais manipulado que fosse, sempre teria seus desejos mais íntimos, suas vontades mais primitivas. Isso foi representando pelo amor primeira vista que ele teve por Sylvia. No primeiro ato espontâneo que ele quis ter, o ato de apaixonar-se, o elenco cuidou de tirar aquela ameaça de perto dele e consertar a ‘cabeça’ de rapaz.

Mas, já falei e repito, enquanto você não esquecer sua subjetividade, sua identidade única e especial, você não vai acabar um Truman da vida. Alias, nem ele acabou assim. Ele foi atrás do que deixava-o inquieto e descobriu toda a verdade, e, muito educadamente, pulou fora daquele mundo falso e ilusoriamente seguro.

E-mail para comentários: mairasuspiro@cinemacomrapadura.com.br



7 Comentários

  1. simone correia
    17 | abril | 2008 às 12:13

    Oi Maira.. adorei o texto. Estou fazendo um trabalho escolar sobre a análise de um filme behaviorista..o que me ajudou muito… :grin: …valeu.. beijoss

  2. Jurandir Filho
    17 | abril | 2008 às 12:30

    Tia Maíra :mrgreen:

  3. Daiana
    29 | abril | 2008 às 12:32

    Estava fazendo um traalho sobre o Behaviorismo e, francamente, esse seu texto foi o melhor e o mais claro á respeito do assunto que eu encontrei!
    Amei!!!
    Parabéns e continue postando textos tão interessantes assim.

  4. eder
    12 | julho | 2008 às 21:59

    fantástico quem dera que na academia explicasse mais psicologia desta forma, tu vé né!!! é so falar francamente e explicando na realidade que tudo é entendido… obrigado por presentear-nos com este texto na internet…

  5. paulo cristiano
    27 | agosto | 2008 às 17:38

    adorei a forma que vc explicou, bem que todos os textos poderia ser assim, parabéns

  6. Elaine Soprani
    1 | setembro | 2008 às 11:36

    Muito bom o texto… me ajudou muito…
    Obrigada!
    :grin:

  7. Felipe Epaminondas
    10 | setembro | 2008 às 23:25

    Bom, quem primeiro falou sobre o comportamento reflexo ou respondente foi PAVLOV, depois disso WATSON começou a aplicar em humanos e (sem sucesso) tentou explicar todo o comportamento humano assim.

    SKINNER introduziu o OPERANTE, que por sinal NÃO É PRODUZIDO POR ESTÍMULOS DO AMBIENTE! O operante é modelado pelas consequências, os estímulos apenas alteram a probabilidade de ocorrência (ou não) do operante, eles NÃO PRODUZEM NEM ELICIAM NADA, operante NÃO É S->R .

    Outra: reforçamento positivo e negativo não tem nada a ver com reflexo!

    Continuando: sabendo que as consequências modelam o comportamento, ou seja, que o ambiente têm controle sobre o cpto, Skinner propôs muitas melhorias no ambiente escolar, social e em outras áreas que ele nem trabalhou como por ex. a clínica. A teoria Behaviorista Radical parece um pouco estranha e manipuladora a princípio mas não é nada disso, vai muito ALÉM DA LIBERDADE E DIGNIDADE!

    Para evitar futuros equívocos, recomendo a leitura do livro “Princípios Básicos em Análise do Comportamento”, do autor Márcio Borges, ou ainda por que não “Ciência e Comportamento Humano” do próprio B. F. Skinner - ler a fonte é essencial para citar um autor.

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