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Para quem o Cinema é feito?

Publicado em: 03-10-2005 @ 2:32 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Dizem que para tudo há um público. E eu concordo. E será que para cada público, ou melhor, para cada pessoa, haveria algo específico? Dependeria de cor, credo ou classe social? Num mundo que se diz tão moderno, será que as pessoas ultrapassaram os pré-conceitos? E o cinema? É glamoroso dentro e fora das telas, atingindo até os ‘favorecidos’ que podem prestigiá-lo? Essas e outras questões dentro da coluna…

Vivemos num país de enormes desigualdades sociais. Isso vem de atitudes erradas na economia, na política, na moral, na história… Vem de décadas e está incrustado no nosso verde-amarelo. Obviamente, outros países sofrem disso também. Mas estamos no Brasil, e é dele que preferi fazer referência.

Ir ao cinema hoje em dia é bem mais caro do que antes. Não é toa que as filas dos dias de promoções estão cada vez maiores… Pagar quase dez reais num ingresso não é brincadeira! Conseqüentemente, cinema tornou-se um privilégio das classes mais favorecidas. Cinema virou coisa de elite. Será?

Enfim, eu não me surpreenderia. Além do fator financeiro, tem que ver a localização. Normalmente, os cinemas ficam em shoppings, que já é pasteurizado como ‘coisa chique’. Ainda bem que agora deixam entrar de havaianas… Ah, mas essa aí virou coisa ‘chique’ também…

Isso é uma infelicidade tremenda. Cinema é arte. E arte deve ser para todos, que nem aquelas loterias que tem em toda esquina em letras garrafais: PARATODOS. Que frescura é essa de dizer que tem que ter ‘algo a mais’ para se ver alguma peça artística? Todo ser humano tem capacidade de sentir, de se sensibilizar. Sendo assim, qualquer um pode e deve ter acesso s artes, cada um com sua concepção, com sua interpretação.

Resultado: só certas classes, certos tipos de pessoas, tem acesso ao cinema. CRIME! Felizmente, eu tive a oportunidade de conferir de perto o desenrolar do 1o. Festival Latino Americano de Curta-Metragem de Canoa Quebrada, o apelidado Curta Canoa. Primeiramente, vi que o festival tinha a intenção de levar cultura – no caso, o cinema – ao interior, s pessoas que não teriam acesso quilo normalmente.

O feedback, pelo menos para mim, foi por demais gratificante. Um telão em praça pública. Olhos curiosos. Gestos ansiosos. O filme começa e é um mundo completamente novo. Nada de sala escura, nem pessoas frias e impessoais entrando, mecanicamente, e sentando afastadas umas das outras. Ali era interação pura! Era gente rindo junta, cutucando o vizinho que nem conhecia, emocionando-se sem vergonha alguma… Quando que se vê isso numa sala de cinema, uma dinâmica dessa? Muito difícil, meu caro. E ali fluía naturalmente.

Estamos tão acostumados a ver o cinema como algo técnico… Olha a fotografia, olha o plano, olha os takes, olha isso, olha aquilo. Olha, rapaz! Credo. Quer saber? Acabamos por esquecer o principal: emocionarmo-nos. Esquecemos da entrega por inteiro, esquecemos de sentir. Aquele pessoal de Canoa Quebrada entregava-se ingenuamente. As reações, alegres ou tristes, eram genuínas. ‘Eu gostei por que eu ri’. ‘Eu não gostei, por que eu chorei’. Simples assim. Gostei por que é bom. Odiei por que é ruim. Quem disse que isso não é crítica de cinema?

Tem que ter diploma? Roupa da moda? Carro do ano? Tem que ter o quê para ser ouvido? Tem que ter o quê para ter acesso? Parem de rotular tudo, de limitar as coisas. Já dizia umas bandas de pagode aí: ‘tudo que é bonito é para se mostrar’! Que deixem mostrar o cinema! Aliás, deixe o cinema se mostrar. Cinéfilo que é cinéfilo deve ter assistido ‘Cinema Paradiso’. Metalinguagem belíssima do cinema, com filmes exibidos em praça pública. Uma cidade pacata que tinha o cinema como guia dos acontecimentos do lugar, que influenciava e mudava o destino da vida das pessoas. E nem precisa ir tão longe não. Tem um curta-metragem que eu aprovo e recomendo, que é cearense e que trata exatamente disso que estou falando. ‘Cine Holiúde: O Astista Contra o Caba do Mal’. Filme feito no legítimo ‘cearês’, regional até o último segundo, engraçado e emocionante. Pra quê ir buscar lá noutro continente coisa que temos aqui? Oura, vocês estão é por fora se acham que aqui no Brasil, e aqui no Ceará, não temos boas produções!

Para ver cinema não é preciso ser melhor que ninguém. E para fazer cinema, basta ter sensibilidade no olhar. Cinema une, iguala, transforma, fantasia… É mágico. Uma pena que na estrutura de mundo que vivemos seja tão difícil o acesso a esse mundo luminoso. ‘Estão jogando pérolas aos porcos’, eu ouvi uma vez. Engraçado é que nem todo mundo sabe exatamente o que é pérola e quem são os verdadeiros porcos…

E-mail para comentários: mairasuspiro@cinemacomrapadura.com.br



2 Comentários

  1. Paulo Henrique (São Paulo - SP)
    14 | maio | 2007 às 15:16

    Achei esse seu texto fuçando no Rapadura e concordo com vc, em muitos lugares mesmo aqui em São Paulo a coisa é de elite. O mesmo filme passa em uma sala fedendo do Shopping Tatuape, com atendentes toscos e mal educados passa na mesma rede no Shopping Eldorado, com cadeiras numeradas e publico elitizado. porem a diferença de preço é assustadora!! 16 em um e 28 no outro.
    Lembro dos bons e velhos tempos que eu pagava 2 reais(ou o equivalente em cruzados) para assistir filmes nos cinemas (hoje templos evangelicos) do centro da Capital.
    Outro ponto que quero comentar é que o “cinema com emoção” pode perturbar os mais criticos, porem acho que na medida certa ajuda a fazer de um filme um verdadeiro espetáculo.
    Parabens Maíra!!

  2. Rodrigo Bastos
    2 | janeiro | 2008 às 12:59

    Achei este artigo, por acaso na WWW, e compartilho das mesmas idéias (que não são novas). Sou de São Paulo, tenho condições de ir ao cinema sempre, mas isso não significa que estou contente com os preços dos ingressos, que em alguns cinemas aqui, chega a custar o preço de um bom DVD. O cinema tem se tornado eletista mesmo, mas não é de hoje, sempre foi.
    Eu estava vendo, e todos os diretores de cinema, produtores etc., nenhum deles começou de baixo, tomemos como exemplo: Walter Moreira Salles, da família Salles, uma das proprietárias do Unibanco, O banco que bem parece banco.
    E concordo plenamente sobre a emoção é que importa, sempre achei isso, o cinema foi feito para emocionar, se um filme cumpre o papel de passar uma emoção, por mais que quisitos técnicos, como: Fotografia, Roteiro, Direção, Cenografia, Figurino, Maquiagem, Som etc., forem ruins, ele deve e/ou pode ser enquadrado como uma boa obra. Emoção é tudo, é única que coisa que nos resta.

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