Viajando pelo céu de baunilha, pode-se subtender muitas coisas através da máscara de David Aames. Dispensando a ficção científica, para mim, Vanilla Sky é muito mais uma exposição dos efeitos e conseqüências das sensações que qualquer viagem futurística. Sem querer concluir ou responder questões, a coluna dessa semana se trata apenas de rascunhos e pensamentos “vanillianos”…
Doce e amargo. Será que pode? Pode. E como! Como disse Brian Shleby: eu conheço o amargo, o que me favorece a apreciar o doce. Você só valoriza o doce do amor quando prova a sua amargura. Se duvidar, dá para dizer que nós, seres humanos e mortais, somos viciados em relacionamentos. Mesmo sabendo da dor. Da dor desgraçada e quase interminável que sentimos quando o amor se acaba para uma das partes, principalmente quando é “apenas” para uma das partes. Somos viciados no doce? Ou no amargo? Ou no eterno ciclo de temperos da vida?
Transformar a vida num sonho lúcido para reviver um amor falido. Mais ou menos isso que o personagem de Tom Cruise, David Aames, fez em Vanilla Sky. Mas imagine se pudéssemos fazer isso realmente. Viver num mundo onde o céu era pintado por Monet, onde os vinhos eram escolhidos por Modigliani, onde a música era tocada por Jeff Buckley (que inclusive dá uma canja com “Last Goodbye” no filme). Tão perfeito que poderia virar pesadelo. Se não sentissemos mais o amargo, o doce perderia o valor.
Apesar de toda a loucura de Vanilla Sky, eu me apeguei muito ao lance do doce e amargo. Na psicologia do lado emocional humano, tão surpreendente. Impressionante o que as sensações podem fazer conosco. Se acabar num minuto, e no instante seguinte, por um motivo qualquer, emergir. Mais ou menos que nem a personagem Sofia falou: cada minuto que passa é uma chance para virar a mesa.
Abra os olhos. Ou deixe-os bem fechados. Qual a diferença, afinal? Se você não conseguir distinguir sonho de realidade, as duas ações se tornarão sinônimos. Vai ver o que interessa mesmo é viver o que se pode viver, sentindo. Real ou ilusão. Mas sentindo. “A maioria de nós vive a vida toda sem nenhuma aventura de verdade para chamar de própria”. Algo como o que Oscar Wilde disse: a maioria de nós não vive, apenas existe. Sendo assim, aventure-se. Aproveite o dia. Sinta tudo que puder sentir, do doce ao amargo. Até o sem gosto, para depois valorizar o apimentado demais.
Falando assim chega a dar medo. Quem não tem medo de sentir o extremo? Até euforia em excesso pode causar danos. Nem que seja um AVC. O excesso é tão mais perigoso que a falta. Ele pode banalizar, desvalorizar. Para quê ter todas as mulheres do mundo se ainda quem vai pra cama com você é a solidão, David Aames? Ele, que “nunca sentirá a dor de voltar para casa sozinho”, e logo, não valoriza uma boa companhia. Sem sentir nada, além do peso da carteira no bolso da calça de grife…
Estranho ter medo de sentir dor, mas ao mesmo tempo viver sempre tão perto dela. “Depois de cair de uma ponte a 120km/h, eu só deixo a felicidade entrar quando a revisto dos pés a cabeça”. Medo de sentir. Conheço pessoas assim, que são pior que São Tomé. Nem vendo acreditam. Esperam sempre o próximo momento para ver se a felicidade não vai embora. Será que é melhor se afogar no doce, chegando até o vício, e depois sofrer uma crise violenta de abstinência? Ou viver cautelosamente, medindo as doses de sentimento na vida, apelando para o racional?
Até que ponto o racional atrapalha a culinária das emoções? Até que ponto os momentos realmente fazem a diferença? “Eu perdi você quando entrei naquele carro. Sinto muito”. Era destino? No final das contas, isso vai ser uma dúvida filosófica que poderia levar muita gente a loucura. Ou ao não-viver, na agonia de ficar sempre no “e se eu fizesse aquilo ao invés disso?”. Vai ver o fim dessa criatura era viver enrolada em pensamentos. Ninguém nunca vai saber, mas tem sempre alguém que vai se consolar pondo a culpa no destino. Tão mais fácil do que assumir as próprias escolhas.
Enfim, sonhem com céus de baunilha, com momentos doces e amargos. Mas sintam. No final das contas, é isso é a realidade.

16 | May | 2008 às 12:25
Paranés Maíra!!
Excelente comentário do filme!
Vc parece ser uma mulher que sabe muito bem a diferença do doce e do amargo.