Eu passei a olhar para a sorte de um jeito diferente depois de assistir ao último filme do baixinho Allen, “Match Point – Ponto Final”. Esse pequeno grande diretor, mais uma vez, se saiu muito bem no novo filme, mudando um pouco os tons, mas deixando seu jeito se sair nos pequenos detalhes. Se duvidar, vou começar a jogar tênis também!
O cara pegou de jeito! Fez a sorte me pregar uma peça! “Caba” quente! É, tô falando do Woody Aleen. E pior, ainda cutucou minhas feridas! Quero ir para Londres! Quero ouvir o sotaque britânico no meu pé do ouvido! Por que eu já estou sofrendo demais… Semana passada fui tentada pelo Hugh Grant e o Colin Firfh, enquanto menos tinha me recuperado da overdose platônica com o Jude Law e o Clive Owen. Agora, tive que me segurar com o Jonathan Rhys Meyers e seus olhos fuzilantes de azul intenso. Fala sério, vamos maltratar, mas torturar é terrorismo! Ah. Ok. Acabou o desabafo. O filme.
Eu jurava que sabia o final. E pior que mesmo achando que sabia, estava nervosa do mesmo jeito. Woody brincou conosco nesse filme! Lembro que assisti com uma amiga que sofreu bem essa ansiedade nervosa que o filme passa. Aliás, ela sofreu e o meu braço também! A sorte realmente é um bicho estranho. E a comparação que é feita no início do filme é maravilhosa. Os momentos de pequeníssimo espaço de tempo que decidem uma partida, que decidem uma vida. O minuto que você se atrasa e perde o ônibus, escapa de um acidente e pega o próximo e conhece o homem dos seus sonhos. Há! Sorte demais, né? Mas o Chris Wilton, personagem fofo-vilão, estava lambuzado dela. Aparentemente. Eu não sei lá bem se ele foi sortudo, felizardo feliz, com o resultado da sua “sorte”… Mas eu não posso falar senão vou entregar o filme. E como pessoa boa que eu sou, quero forçá-los a assistir!
Como se não bastasse a trama já ser excelente, o Allen ainda investe nas boas óperas para rechear o filme. Escolhidas a dedo! Maravilhosas! Estupendas! Adoro óperas. Tão emocionantes! E eu lembro que de tão mergulhada que estava na história, nem parava para raciocinar: olha, é ópera! O encaixe está perfeito. Você vibra, torce, teme. Acaba que você não sabe exatamente para quem está torcendo. E ainda tem um detalhe: nos momentos de tensão, a música sempre se repete, como um vinil arranhado. Sensacional.
Não posso deixar de falar da Scarlet Johanson. Go, girl! Ela, além de estar linda, mulherão sensual, ainda encarou o papel super bem. Essa garota me fascina, desde “Encontros e Desencontros”, quando fez uma criatura meio garota-nerd-gente-fina. Sem falar de “Moça do Brinco de Pérola”, que ela passa toda emoção e confusão do personagem pelos gestos e olhares, já que ela quase não fala. Palmas para ela.
E quem esperava ver Nova York e viu Londres? Novidade, hein? Os sotaques estavam bem carregados. O estilo londrino também. Mas se você prestar atenção, as cenas de Londres que são mostradas lembram Nova York. As ruas cheias de lojas, os parques ao estilo Central Park… Uma leve relembrança ao seu estilo americano. E por sinal, esse filme não tem nada do cinema americano. O cinema que resolve todas as questões e não deixa problemas, com finais felizes ou previsíveis.
Mas, espera. É complicado falar desse filme. Eu ainda estou digerindo as suas idéias. O que até agora tem me pegado mais é a questão de saber o que é sorte. Sorte é uma força que nos leva s coisas boas? À felicidade? Sorte é tipo aquela mulher sacana que fica brincando de uni-duni-tê lá em cima, escolhendo quem vai se dar bem, quem vai se dar mal? Sorte é uma invenção nossa para explicar acontecimentos maravilhosos? E também para explicar os desgraçados ao cubo… Sim, não esqueçam que existe a presença da sorte e a sua ausência também, viu?
E o filme parece ser uma história de amor. Mas não lá muito romântico da forma convencional. E também não é história de trapaças. É mais complexo do que isso, por que mistura várias coisas, por que se pode tirar várias interpretações e por que apresenta várias tópicos para serem discutidos. É um filme bastante denso.
Como disse uma vizinha minha, será que a sorte e a felicidade andam juntas? Sempre? Até por que no filme dizem “não desejo felicidade, desejo sorte”. Como se uma fosse conseqüência da outra? Parece utopia. Sorte. Felicidade. Até o amor entra no meio. São apenas conceitos abstratos. Subjetivos demais para serem tachados. Cada um escolhe a sua sorte, eu acho. Depende da facilidade de se satisfazer, das ambições. Você pode achar que não tem sorte por que não tem dinheiro. Alguém pode se achar super sortudo por que tem amigos verdadeiros. Varia. Eu me acho super azarada por não ter aquele sotaque britânico só para mim. Mas acho que a sorte olhou para mim quando me apresentou filmes bons, como esse do Woody Allen. Coisa volúvel. Efêmera. Mesmo assim, desejo boa sorte para vocês. Mesmo não sabendo exatamente o que quero dizer com isso!


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