“Closer” escancarou a realidade dos relacionamentos amorosos. “Crash” escancarou a realidade social do mundo estúpido em que vivemos. E essa é uma ferida que afeta toda e qualquer criatura que sobreviva nessa bomba que chamamos “sociedade”.
Falaram e falaram desse filme. Mais ainda quando ele ganhou o Oscar. Antes tarde do que nunca, fui conferir o tal de “Crash” essa semana. Para o meu completo espanto, pude ver que ele, mais do que merecidamente, fez jus a todos os bons comentários. Com um elenco estupendo, com um roteiro maravilhoso, com uma trilha sonora curta e mais instrumental, muito bem escolhida, “Crash” certamente foi um dos melhores filmes que já tive o prazer ver. Daqueles que fazem você se sentir diferente na volta para casa. E melhor ainda, daqueles que te dão um “pedala” e dizem: que mundo insano é esse, hein?
Raiva. O filme todo é cheio de raiva. Impressionante como o ser humano consegue ser vingativo e violento. Impressionante como vivemos num mundo de bola de neve. Impressionante como a teoria do caos ganha asas com pouquíssimas faíscas. Impressionante como somos hipócritas ao achar linda a harmonia das sete cores do arco-íris enquanto não conseguimos viver em harmonia com a monocromática. Sim. Negros. Brancos. Isso sendo bem generalista e deixando de lado os pardos, mestiços, amarelos e a “paleta” a quatro.
A impressão que tive é que, na verdade, estão todos perdidos. Confusos com tanta informação e com tanta injustiça. A rotina embaça a vista, já disseram. E pode até fazer você ver o que quer ver, ao invés do que realmente é. Não existe mais distinção entre preconceituosos e não-preconceituosos, racistas ou não. Existe quem foi e quem não foi afetado por ele. E todo mundo está vulnerável a isso. Absurdamente.
A dignidade não vale mais nem um piper. O respeito já pediu demissão. O senso crítico virou um covarde. A justiça está de férias nas Bahamas alegando que estava com problemas de saúde – estava daltônica. A humanidade voltou para a selva. Chutaram o pau da barraca e ninguém está nem aí para catar os cacos.
Eu fiquei impressionada como o filme é sensível, sem ser clichê. Ele não amola, nem faz sensacionalismo. Ele só mostra o que acontece no mundo afora. Simples assim. E para quê inventar histórias mirabolantes, revoltantes e malucas se o nosso mundo nos dá tudo isso, de graça e a cada 5 minutos? “Crash” é duro por isso: ele cutuca a ferida. Arregaça as suas pálpebras e mostra o que acontece do lado de fora do seu carro. Não é o moleque do sinal que pede uma ajuda e você vira a cara para não encarar. No cinema não dá para fazer isso. A não ser que você queira jogar fora a pequena fortuna que pagou antes de entrar na sala…
Dizem que o que diferencia o homem do animal é a consciência. Mas eu, sinceramente, acho que não há mérito nenhum em ter consciência e se fazer o que é feito por aí. Pior do que fazer o mal, é ter consciência de que esse mal está sendo feito. Que honra se tem nisso? O homem é um bicho complexo. Constrói templos e campos de concentração. Aprende a medicina e provoca a morte. Acaricia e estapeia. Dualidade caótica, não?
Onde foi que perdemos o nó da meada, hein? E é maravilhoso saber que um filme como “Crash” foi produzido. Mas quem disse que ele vai mudar a realidade? Quem disse que nós vamos cair na real e fazer algo? E não é só questão de saber o que fazer, é ter coragem para tal. Hoje em dia, quem tenta ser correto pode levar uma bala no meio da testa. Falar num tom mais alto pode ser a senha para a violência. Quem se arriscaria?
Todas as cores. Todas as raças. Todas as religiões. Tanta riqueza cultural e tanta desordem social. E nem quem é do mesmo “time” se respeita. Um por ninguém e todos por nenhum. Está aí, na vista de todos. Só abrir a janela. Só não vê quem não quer.
Agora, falei muito da questão do preconceito… Mas o filme não fala apenas disso. Tem muito mais. Ele mostra vidas paralelas que se colidem. Talvez por isso as batidas no início e no final do filme. As nossas vidas são cheias de colisão. Muitas vezes explosivas.
Mas o filme tem esperança também. Esperança de que essa raiva passe. Que essa sensação carente de conforto e compreensão se acalme. Nem todo mundo é mau. A maioria só está cansada. Revoltada. Inerte. Assustada. É como diziam os sociólogos: o homem é produto do meio. Mais do que nada, o homem é um simples homem. Um animal. E por ser isso, é bom e é ruim. Tem seus defeitos e qualidades. E “Crash” mostra isso cruamente.
Não sei mais como definir esse filme. É muito bom. As histórias que vão se desenrolando e se entrelaçando, fazendo você ficar tenso na poltrona… “De cara”. E ele não é tão “americano”. Ele não é óbvio. Em nenhum momento ele é previsível. Palavras são ótimas, mas olhares dizem muito mais. Esse filme tem cenas maravilhosas. Quase emblemáticas! Como a cena em que a menina corre para salvar o pai. Jogue pipoca quem não ficou no mínimo com um nó na garganta durante o filme!
As atuações estão ótimas. Matt Dillon ganhou meu respeito. Até a Sandra Bullock! Sempre achei que eles dois faziam papéis medíocres… A trilha sonora, maravilhosa. Maior parte sendo toda instrumental, apenas para dar o clima e manobrar as emoções. O final com “Maybe Tomorrow” do Stereophonics foi a gota d´água para eu me apaixonar…
Espero que a maioria das pessoas que puderam assistir ao filme tenham uma boa reflexão. Assim como as histórias do filme não mudaram no final ou foram solucionadas, nossa realidade não vai mudar só por que conseguimos enxergá-la na tela do cinema. Confira o filme. E deixe ele fazer um “crash” na sua miopia social.

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