O Plano Perfeito, no Brasil

Publicado em: 04-04-2006 @ 11:38 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Lembro que quando soube daquele roubo “cinco estrelas” ao Banco Central aqui em Fortaleza, pensei brincando: eita, esse povo deve Ter visto muita televisão! Na verdade, nem duvido que eles tenham tido as idéias por alguma mídia por aí, mas gostaria mesmo é de que fosse adicionado ao programa da Escola dos Ladrões o filme “O Plano Perfeito”

Todo mundo sabe da influência que a mídia tem sobre as pessoas. De forma positiva ou negativa, forte ou fraca, ela sempre atinge os telespectadores. O que varia é o senso crítico e o poder de reflexão com que o indivíduo rebate isso. Mas, não vou aqui voltar ao velho discurso da indústria cultural, do julgamento da televisão. Quero falar de algo mais específico. E divertido.

Nós temos vários filmes que abordam assaltos a bancos. Roubos magníficos, como em “Ladrão de Diamantes”. A lista é vasta. E metade vieram da mesma “sala de criação”. Foi quando lançaram ‘O Plano Perfeito’. “Outro!” Acontece que o elenco me fez pensar duas vezes antes de classificá-lo como mais um “10 dicas de como assaltar um banco com glamour”.

Denzel Washington tem uma filmografia maravilhosa. “Chamas da Vingança”, “O Colecionador de Ossos”, O Dossiê Pelicano”… Clive Owen, sou suspeita a falar. Sou fã. “Closer”, “Sin City”, “A Identidade Bourne”. E para quebrar o patriarcalismo, Jodie Foster. A premiada de “O Silêncio dos Inocentes” e “Taxi Driver”. Seria muita decepção “O Plano Perfeito” ser apenas mais um filme de assalto a bancos!

Felizmente, eu me enganei. Não é um filme espetacular. É um filme normal. Mas eu gostei muito das impressões que pude tirar dele. Spike Lee fez bem na direção. Os roteiristas Russel Gewirtz e Menno Meyjes acertaram no desenrolar. O elenco está adequado e a trilha sonora está uma graça. A música de início é muito legal! É corrido, com takes diferentes do que costumamos ver, com detalhes interessantíssimos.

Na verdade, eu menti para vocês. O filme não fala de um assalto a um banco, do tipo normal. É quase isso. Mas não é. Os malandros daqui deviam mesmo assistir a esse filme e seguir a sua cartilha. Quem sabe o Brasil não melhorava! Na verdade, o ladrão é quase um mocinho. Ele tem pinta de malvado, mas é gente boa. Deve ser até um dos mais corretos por ali. Só é um pouco drástico!

Estou enrolando vocês, não é? É que não queria entregar a surpresa do filme. Mas vou falar apenas o que as próprias sinopses liberaram. É um roubo com intenções “nobres”, digamos. E quando ele começa, muitas pessoas entram em jogo. Interesses de pessoas poderosas valem mais do que a ética ou a lei. Suborno. Chantagem. Ninguém pode confiar ou ser confiado. Vence quem é mais esperto e ousado. Nada que não costumamos ver na nossa realidade.

O personagem de Clive Owen, Dalton Russel, é inteligente e meticuloso. Mesmo passando a maior parte do filme mascarado, o cara deixa você “trancado”. E o mais engraçado é que algumas cenas do filme alfinetam temas que fogem do principal. No final, tudo pode ser encarado como pequenas críticas.

A educação das crianças, a produção de jogos violentos, a má educação de algumas criaturas, o preconceito, a corrupção. Tudo é tocado no filme, mas de forma tão sutil que pode passar despercebido por aqueles desatentos ou com fraco poder de reflexão.

Se um roubo daquele tivesse que ser realizado no Brasil, acho que quem sairia no prejuízo seriam os ladrões. Primeiro, eles não conseguiriam metade da atenção que iriam querer de principio. Iria demorar uns dias, já que a polícia daqui não é das mais eficientes. Segundo, roubar já é rotina. Não está na lista Top de Alarme. Terceiro, haja paciência para escolher alguém a ser “punido”. Aqui é tanta gente que não presta, que tem passados comprometedores, que não bastaria ser apenas um assalto. Teriam que ser vários, uma maratona! Quarto, não poderia ser em qualquer época do ano. Teria que passar longe do Carnaval, da Copa do Mundo, do fim de novela das oito. Não poderia ser no fim-de-semana nem na Segunda-feira, porque até aí ninguém trabalha direito. Coisa complicada, não?

Tem até uma cena engraçada. Quando os policias estão todos ao redor do banco, nervosos e em posição de ataque, a câmera dá uma visão aérea e lá se vê uma pombinha branca atravessando a rua muito tranquilamente. Parecia até que ela estava gozando da cara daqueles caras uniformizados com armas na mão. Somos muito medíocres mesmo. Só não sei se a Dona Pomba foi convidada especial ou deu uma de “Robert”.

Enfim, “O Plano Perfeito” é um filme inteligente, que pode até dar idéias para os espertinhos de plantão. Mas calma, aqui no Brasil, não é tão fácil acontecer algo daquele tipo. Só as coisas normais mesmo: bang-bang e dinheiro.




Deixe um Comentário

Antes de fazer um comentário, leia atentamente esses avisos, regras e instruções. Todos os comentários publicados aqui no Rapadura Blog são de inteira responsabilidade dos seus respectivos autores. Eles exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. Porém, todos os comentários são moderados e podem ser deletados sem aviso prévio. Regras:

1) Evite SPOILERS. Se for postar, coloque um aviso;
2) Saiba discutir, sem ofender;
3) Não fuja do assunto do tópico;
4) Acrescente algo. Pense antes de escrever!

Os campos Nome e E-mail são obrigatórios, mas seu e-mail não será exibido.


Opções:

Size

Colors