Por trás do que pode parecer inofensivo e normal, pode-se esconder intenções duvidosas. Tudo, inclusive a arte, pode sofrer da “síndrome da faca de dois gumes”. O cinema não fica fora disso e muitas vezes foi usado para limpar nomes, desmistificar e mistificar histórias, criar lendas… “Selvagem” foi o último filme que vi que me fez repensar sobre essa idéia, por incrível que pareça.
Mais uma vez, eu falando do meu vício: animações. “Selvagem” é algo meio “chapado” de “Madagascar”, que mistura um drama a lá “Rei Leão” e personagens típicos. Tem seus momentos engraçados, mas não passa de uma diversão despretensiosa e que pode até cansar o cidadão por alguns instantes.
Mas o que me fez vir citá-lo no início dessa coluna não foi isso, mas sim uma idéia nas entrelinhas do filme, idéia que inclusive vi outros amigos da área discutindo. “Selvagem” conta, ligeiramente falando, a história de um grupo de bichos do zoológico de Nova York que viaja para a África em busca de um companheiro que foi parar lá por acidente. Chegando lá, eles recuperam o amigo perdido e ainda detonam com a religião dos gnus, convertendo-os para o lado deles e destruindo o líder dos gnus. Perceberam algo? Ok. Vou facilitar. O nome do líder era Kazaan e os gnus têm rosto estreito, olhos redondos e barba preta. E aí? Sim, eles devem ser descendentes dos árabes. Olha só, caiu a ficha? A América vai até a África em um ato heróico e detona com o que encontram por lá, trazendo de volta seu tesourinho e uns novos convertidos.
Alguém pode me dizer o porquê do líder “ter” que se chamar Kazaan? E de ele viver em cavernas sombrias? Tá, eu posso estar exagerando, mas convenha: você já ouviu essa história antes, e ela está muito parecida com uma sátira da realidade. Vou ser ingênua e pensar: será que alguém da equipe se inspirou no arquivo EUA x Oriente Médio? Ou na novela mexicana “Bush, onde estará Bin Laden?” ? Não sei, não sei. Mas que está estranho, está.
Sacanagem. Apelaram para as animações. Já foi visto muito isso em trocentos filmes épicos e verídicos. Quantas vezes Hollywood não tentou minimizar a vergonha da Guerra do Vietnã? Não sabem perder. Até hoje tem o orgulho ferido porque foram derrotados por uns cabinha de olho puxado que usam armas inferiores e calçavam pneus! E não só isso. Depois do 11/9, quantos filmes apareceram abordando o tema de diversas formas? E quando falo filme, coloco os documentários no meio. Michael Moore saiu de primeira com “Fahrenheit”, e o Bush ainda saiu em outro, ridículo por sinal, apelando para o patriotismo e compaixão da humanidade. Eu passei mal assistindo.
Mas não vou discutir política aqui. É que nem outra coisa aculá, cada um tem o seu. Seu time, seu gosto e o que mais tiver que ser. Meu ponto é o poder de formar opiniões que o cinema tem, podendo ser usado das formais mais explícitas, como das mais sutis.
Outra coisa que pensei é que o cinema, por ser arte talvez, tem a capacidade de romantizar as histórias, distanciar da realidade. Por exemplo, a questão da África. Quantos filmes temos falando diretamente da questão? Ou colocando-a como plano de fundo? “O Jardineiro Fiel”, “O Senhor das Armas”, “Amor Sem Fronteiras”… Sabe aquele argumento da percepção que diz que o exagero pode intensificar a idéia, mas também banalizá-la? Talvez isso aconteça. Se acontece na televisão, quando vemos as notícias dos jornais e tem gente que acha que está longe daquela corrupção e miséria! Imagine se isso for maximizado e passar para a telona. Talvez seja algo que não dependa apenas da intenção do diretor, mas da consciência crítica de quem assiste. E essa segunda é de vital importância. Com ela, dispensariam-se os alardes, não precisaríamos colocar em xeque a urgência de certos problemas. Apenas citando-os já teríamos uma análise mais crítica. Sem ela, muitas intenções tornam-se inúteis porque que as assiste não tem capacidade de absorvê-las. E pior, pode absorver completamente errada. Cabe até piada para pessoas inteligentes nessa parte…
É. Muitos filmes fantasiados ainda virão. Muitos filmes realistas e consistentes também virão, como veio os que citados acima e como veio “Crash”. A influência do cinema continuará, cada vez mais adaptada, e nós continuaremos consumindo-o. A questão é: você engole sem processar tudo que consome ou analisa as entrelinhas do que lhe é servido? Não seja um selvagem. Faça bom uso do que te distingue dos bichos da arca de Noé!
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