Cinema de Palavras Mudas

Publicado em: 16-05-2006 @ 11:59 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Jurandir Filho

Mais brilhante do que expressar emoções por palavras é expressar sem elas. O risco de ocorrer má interpretação – ou interpretação alguma – é grande, mas ao mesmo tempo em que se abre a porta para a possibilidade de erro, abre-se a porta para a imaginação de cada um, e isso não tem preço. Filmes que mexem com isso me encantam facilmente, principalmente quando brincam com animação.

Finalmente tive a sorte de assistir “As Bicicletas de Belleville” (2003), uma animação francesa fantástica do diretor Sylvain Chomet. Mas não vou falar aqui da história. Quem tiver a oportunidade, confira. Quero falar mesmo é da magia do desenho.

Os personagens são fantásticos. Pouquíssimas palavras, mas muita exploração sonora. Eles interagem de forma subliminar, muda, mas mesmo assim, intensa. Mesmo mexendo apenas os olhinhos, uma onda de emoção é passada a cada tela. Os vícios de cada personagem nos fazem conhecê-lo além do tempo da história. Os gestos que delineiam traços do caráter. Muita simpatia, muita empatia. Tenho que concordar com uma amiga de infância, “os franceses são fantásticos”.

Mas o que fiquei pensando depois de ver o filme foi: será que todo mundo entendeu? Provavelmente não. Infelizmente, boa parte das pessoas que eu conheço dormiria no meio do filme, acharia sacal. Apenas fofinho, mas sem história alguma. Não por incapacidade intelectual – talvez, mas muito provavelmente por que não somos acostumados a absorver esse tipo de produção.

Somos da era da comunicação. E muitos entendem isso como era do “jorro de informações compulsivas”, quando tudo tem que ser dito, explícita e objetivamente. Walter Benjamim já falava disso, Umberto Eco e Ciro Marcondes também fizeram coro. Cada dia que passa, com o avanço das comunicações, o homem perde a sensibilidade de ser narrador e ouvinte. A atenção se dissipa e não processamos tão bem informações que não nos chegam de forma óbvia.

No cinema americano, sempre temos problemas e tensões. O clímax. Mas todos sabemos que no final tudo vai se resolver. As ansiedades serão aliviadas, os problemas resolvidos, o final esclarecido. No cinema europeu, não há tanto essa preocupação em “saciar” o público, mas sim em questionar e levantar pontos inesperados. É aquele filme que acaba e metade da sala fica: ahn? São dois extremos, talvez, mas podemos encontrar filmes que intermediam essa linha.

“Encontros e Desencontros” e “Moça do Brinco de Pérola”. Dois filmes pelos quais sou apaixonada, por todos os motivos possíveis, pessoais e técnicos. Muito provavelmente, “Encontros e Desencontros” me ganhou de cara pela situação na qual eu assisti ao filme. Eu estava quase a própria personagem da Scarlett Johanson, a Charlotte. Mas vendo pela segunda vez, reafirmei minhas idéias. O filme não termina como todos nós esperávamos, o que chega até a dar raiva. Muitas cenas não terminam como supostamente achávamos que deveria terminar. Não há casos de amor tórridos nem encontro de almas gêmeas. A maior mensagem do filme não é dita pela boca dos personagens, mas pelos olhos. Melhor exemplo que esse, só “Moça do Brinco de Pérola”, que chegou a me deixar agoniada, com vontade de pular na tela e fazer os dois de atracarem! Por sinal, são dois filmes com a loirinha Scarlett Johanson… Bom gosto que ela tem!

No segundo filme, os diálogos se tornam secundários, se comparados com o peso dos olhares dos personagens, principalmente do pintor Vermeer (Colin Firfh) e a empregada Griet (Scarlett). A timidez, a resignação, a admiração, o ciúme. Tudo passa como faísca e nenhuma palavra sequer é dita. E não só entre os personagens principais, mas todo o elenco é envolvido por essa “nebulosidade”. Brilhante. Acho até que um filme assim envolve mais quem assiste, por que convida a pessoa a participar do subjetivo, a interpretar, a adivinhar o que realmente passa pela cabeça daquela personagem. Tal qual nas obras barrocas. O cinema como arte, realmente.

Outro filme que trabalha também essa linha “muda” é o recentemente premiado “Crash”. Em quantas cenas ali não se esperou uma avalanche de palavrões, ou um choro infinito, ou um abraço gratificante? Várias! Mas o diretor trabalhou muito bem os atores para que eles valorizassem a arte de interpretar. Passar uma emoção por uma frase é muito simples. Dizer “eu te amo” é muito fácil. Provar isso, demonstrar isso, é algo que demora uma vida inteira se for o caso.

O óbvio é óbvio. Não tem mistério. Não tem charme. O dito pelo não-dito é muito mais atraente e misterioso. Exige mais de quem assiste. Torna a vida e a relações muito mais valiosas. E como Rodrigo Santoro disse uma vez em resposta sobre sua participação em “As Panteras”, “se a ausência de palavras fosse tão insignificante, o cinema mudo não seria tão aplaudido”.



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