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Irreversível

Publicado em: 02-08-2006 @ 12:12 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

O nome do filme não foi escolhido toa. Deve ter sido escolhido na tentativa de resumir ou sugerir os efeitos que aquela história causaria nas pessoas (personagens) que participaram da trama e nas pessoas que assistiram ao filme. Espantosamente, ele é mesmo “Irreversível”.

Desde o início da coluna, aviso logo. Juro que tentei não expor tanto o filme, a ponto de prejudicar a expectativa daqueles que não o assistiram. Mas não consegui. Até peguei leve, mas alguns detalhes tiveram que ser revelados. Então, se você não conferiu ainda essa película, e quer vê-la genuinamente, deixe para ler a coluna dessa semana depois. Caso contrário, seja bem-vindo.

Segunda coisa que devo dizer é que já cansei de ler tanto artigos maravilhosos sobre ele, como coisas pejorativas. E nem digo que não entendo os “opositores”. Realmente, é um filme polêmico e para os ingênuos de plantão, pode até ser classificado como “enxame para chamar atenção”. Mas cada um tem sua visão, certo? E eu gostei de ter tido a chance de conhecer a visão de Garspard Noé. É uma sensibilidade através do grotesco, talvez…

O começo é estranho. E quando digo o “começo”, me refiro ao começo mesmo, ao início do começo. Mas, pensando bem, o começo do filme não é o começo que costumamos pensar… Ah, estou falando do filme como produção audiovisual, certo? Não tanto da história. Então, sim, o começo do filme já te faz levantar as orelhas. Eu até pensei que o DVD estava com defeito, e depois de alguns minutos, fiquei me perguntando se tive muita sorte ou muito azar por não ter visto essa produção nos telonas… Resumindo, depende do seu ponto de vista. O que acontece mesmo é apenas uma inversão dos pontos de partida e de fim. Sensacional. Algo feito também em outros filmes, mas cada um com seu intuito e forma diferente: Amnésia (2001) de Christopher Nolan e Pulp Fiction (1994) de Quentin Tarantino.

Essa alteração na linearidade da exposição dos fatos da história é extremamente interessante. Ela altera de forma brutas as emoções do expectador. “Irreversível” nos passa primeiro a resolução do “problema”. O que antes traria uma reação do tipo “bem feito”, causa a priori algo que nem sei como descrever. Um absurdo, uma vontade de esculhambar o “animal” que ali está presente na forma de homem. Garspard Noé usa essa estrutura narrativa para brincar com as nossas expectativas. Nos “joga” personagens desconhecidos e só depois, segmento após segmento, que nos familiariza com situação vivida por Marcus e Pierre (Albert Dupontel), aparentemente, tão normais quanto qualquer um de nós. Realmente uma inversão sensacional.

A câmera. A impressão que ela me deu foi de emoção flor da pele. Pensei até que, talvez, ela estivesse ligada diretamente ao estado emocional de Marcus (Vincent Cassel), mas um tempo depois, desisti. Acho que ela segue o tom da história. E devemos dizer que é um tom extremamente inquieto, com as emoções condensadas e concentradas. É um detalhe perturbador do filme. Contribuiu significantemente para o tom do filme.

“Irreversível” não é o tipo de filme que quer dar respostas ao espectador. Até porque a história é cronologicamente curta e simples, o que não anula a intensidade e a rebeldia que ela provoca. Ela é contada de forma peculiar. De trás para frente, causando reações adversas. Acredito que seja mais do tipo de filme “laboratório”. Aquele filme que explora as ações e reações humanas. Como li uma vez, ele provoca pelo desejo de provocar, de incomodar, cutucar. Ele choca. Nem de longe é um filme leve. Eu admito que fiquei tonta nos primeiros minutos e achei espetacular ele ter conseguido me passar uma emoção tão intensa e diferente.

Há quem diga que ele possa ser forçado. Mas e daí? É uma ficção, não um documentário. E atire a primeira pedra quem acha a história absurda o bastante ou inverossímil demais para ser comparada com a nossa realidade. Faça o favor de cair na real. Ou se contente com os filmes pré-fabricados de Hollywood.

Ele aponta vários temas, mas não discute necessariamente nenhum. Sexo, homossexualismo, indiferença, rebeldia, vingança, frieza, maldade, nojo, perversão, preconceito, impulsividade, justiça, descoberta, surpresa, drogas. Uma mescla densa. E talvez não seja “politicamente correto” porque não levanta nenhuma bandeira explicitamente. Aí vai da cabeça de cada um.

No final, o filme de Gaspard Noé revela-se um amargo ensaio sobre a impossibilidade de corrigir acontecimentos determinantes. A inversão narrativa permite uma maior reflexão sobre o tema; se a estrutura fosse cronológica, mais facilmente tomaríamos o material como uma simples, ainda que brutal, história de vingança e os temas que permeiam a história de Alex, Marcus e Pierre não seriam tão eficazmente desenvolvidos.

E claro, não poderia citar esse filme sem falar de uma das cenas mais, mais… Mais intensa do filme - sim, porque outras palavras seriam censuradas. Monica Bellucci encara a cena de estupro mais fria que já tive o (des)prazer de ver. Cinco minutos que nos fazem pensar o que Darwin quis dizer com “evolução da espécie”. Sabe? E não, aqui não cabe uma piada, justamente porque é um assunto infeliz e a cena é cruel. E não é tosca, sensacionalista e muito menos apela pro lado erótico. Ela é crua. Esse foi um dos momentos que pensei: ele vai mesmo filmar isso tudo? Cabra quente…

O contraste entre o “começo” e o “final” do filme são absurdos, quase chegam a anestesiar. As cores, a música, a situação, o ambiente. São extremamente opostos. Realmente, é um filme que faz pensar, que choca, que marca. Irreversível.



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