Filmes de Pseudo-Cults

Publicado em: 09-08-2006 @ 12:14 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Como muitos já falaram por aí, Cinema é paixão de muita gente. E eu até acredito que ele faça mesmo parte do gosto de várias pessoas mesmo. Minhas dúvidas são sobre o real motivo para essa preferência. Tem aqueles que gostam por gostar, aqueles que gostam e apreciam de perto, aqueles que até estudam e fazem cinema e aqueles que gostam porque, assim como diversas outras coisas, o Cinema tem alguns valores agregados. É aí que aparecem os “Pseudo-Cults” e seus filmes favoritos…

Inteligência. Bom gosto. Sensibilidade. Alguém diz mais? Mais alguma característica que a Sétima Arte pode agregar a uma pessoa? Acredito que podem ser várias, e como vivemos hoje na Era da Aparência, uma época na qual as pessoas se preocupam mais em “parecer” do que em “ser” realmente, é bem capaz de terem elaborado um “Manual de Como Parecer ____ - escolha sua opção”. Um desses manuais deve ter sido “Lista de Filmes Para Ser um Cult”.

Para começo de conversa, eu nem sei ao certo o que é uma pessoa “Cult”. Nem do lado verdadeiro e bom da palavra, nem do lado falso e pretensioso da coisa. Mas deve ser algo distinto e respeitável, porque está mais comum do que corrupção no Senado. Também não vou entrar na polêmica de se é bom ou ruim ser “Cult”. Essa crise existencial eu deixo para os que escolherem levar essa bandeira. E na verdade, eu acho simpática e divertida essa rotulação que rola por aí. Principalmente, quando se vê que os filmes estão sendo comentados – bem ou mal. Afinal, como já diria aquele lema dos aspirantes a popularidade, “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”.

Pois bem… Essa semana, eu fiquei pensando naqueles filmes que sempre estão na boca daqueles que querem exalar intelectualidade com aquele típico ar blasé. Agora, vamos deixar claro que eu não estou dizendo que os “filmes” são “pseudo-cults”. Não são os filmes que querem ser metidos a intelectuais ou “artísticos” demais. Estou chamando as “pessoas” de “pseudo-cults”, e pretendo citar alguns filmes que elas gostam de exibir. E a maioria são filmes realmente bons, renomados e respeitos, mas claro, deve haver aquelas viagens psicodélicas, abstratas até o último quadro, que ninguém entende, mas, é arte! Quase uma paródia da história “A Roupa do Rei”, que dizia que só os inteligentes poderiam enxergá-la, enquanto na verdade, não existia roupa alguma. É aquela situação na qual a pessoa não entende absolutamente nada do filme, mas sai dizendo que é maravilhoso, tão maravilhoso que ela não tem palavras para descrevê-lo.

Pedi, então, ajuda para a minha companheira de papos cinematográficos, Ana Lee, uma cinéfila que odeia qualquer futilidade, qualquer superficialidade, qualquer coisa que não pareça ou seja relacionada imagem que cuidadosamente criou para si. Ana Lee se entitula uma jovem intelectual. Gosto muito de ouvir seus pensamentos sobre os filmes que assistimos juntas algumas vezes… Aprendo bastante, sabe? Quando comentei o tema da coluna dessa semana, ela ficou extremamente empolgada e me ajudou a escolher alguns filmes. Ironicamente, metade deles estava na sua lista de filmes favoritos do Orkut…

O primeiro filme que me veio na cabeça foi “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989). Esse foi um dos primeiros filmes ao qual eu assisti conscientemente, o qual me emocionou e marcou. A cena dos alunos subindo em suas carteiras reverenciando o velho professor, personagem do espetacular Robin Williams, gritando “Oh Capitan, My Capitan” me causa arrepios até hoje. Nem sei se todos percebem a sensibilidade daquela história, as aprendizagens obtidas durante o filme, o peso das experiências de cada um, as diferenças entre cada integrante do grupo de poesia secreto… É um belo filme. Foi ele quem eternizou para mim o “Carpe Diem”, que depois ficou tão comum que virou nome de perfume e desculpa para danações… Aí me fica a dúvida: todo mundo gosta mesmo do filme, se envolve com ele e se emociona, ou apenas aproveita o apanhado de elogios que ele tem, o ar artístico e sensível, e encarna o lado Neil Perry (Robert Sean Leonard) de viver a vida?

Outro que entrou na lista foi um muito comentado por Ana Lee. Ela gosta muito de falar sobre o cinema antigo. Principalmente sobre como “Casa Branca” teve uma influência política na América do Norte, originando o nome da casa do Tio Sam… Esse filme eu nunca tive a oportunidade de ver, mas quando ela caiu na felicidade de falar sobre o mesmo, eu me lembrei do clássico “Casablanca” (1942), do beijo apaixonado de Humphrey Bougart e Ingrid Bergam ao som de “As Time Goes By”. Meu Deus, como tem gente que endeusa aquela filme. E eu gostei. Mas não achei a oitava maravilha do mundo na primeira vez que vi. É, vai ver não sou tão intelectual assim… Mas é que demorei para me acostumar com o estilo dos atores, aquela atuação meio estática e aquela textura diferente. O que sempre gostei mesmo foi da música. Mesmo antes de conhecer o filme, já arranhava tocar aquela melodia. Diz a Ana Lee que eu não tinha a veia artística desenvolvida na época, que ela desde o início admirou a beleza e o trabalho da Katherine Hepburn, que até hoje eu procuro nos figurantes de “Casablanca” e nunca vi… Ela realmente tem um olhar diferenciado!

E continuando nos filmes antigos, para os mais “Pseudo-Cults” mesmo, não pode faltar “Cinema Paradiso” (1989). Nesse eu me transformei em manteiga derretida em fogo alto. Que filme lindo. Que metalinguagem belíssima do cinema. Ai, claro, vem aqueles que dizem que o filme é ótimo por causa do menino Salvatore, do sotaque italiano, da simplicidade e ingenuidade dos personagens. Enfim, uma infinidade de coisas. A dúvida que continua é se eles realmente chegaram a essas conclusões ou se leram no artigo mais próximo na Internet e decoraram as frases difíceis daquele estudioso. A impressão que eu tenho é que tem gente que pega aquelas listas “10 melhores filmes do mundo” e já adota como “filme de sofá”, tal qual os “livros de cabeceira”.

Avançando um pouco no tempo, tem um filme que conseguiu até me despertar abuso de tanto enxame que fizeram em cima. Principalmente, o alarde que fizeram para a protagonista do filme, que agrada, mas ainda tem que aprender, principalmente no que diz respeito a diminuir a “síndrome da maçaneta” (aquele ator/atriz que sempre tem a mesma cara, o mesmo estilo de papel…). O filme? “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”(2001). A atriz? Audrey Tautou. Polêmica, não? Demais. Eu saí do cinema embasbaca com esse filme. Super singelo e mesmo assim, profundo, muito interessante e a personagem da Amélie conquista todos pela sua simpatia. E é aí que surge o problema: metade do mundo cismou de ter ataques de ciúme pela Amélie, esqueceram até o nome da pobre da Audrey, e saem por aqui dizendo que “O Fabuloso Destino” é seu filme favorito. Ana Lee adora, porque é francês. Ela, claro, já está nas aulas de francês e vez ou outra, eu a pego na frente do espelho ensaiando seus biquinhos.

O filme realmente é bom. A atriz também está bem. Mas eu nunca ouvi falar que ser meiga merecia aplausos. Se fosse assim, os ursinhos carinhosos estariam no Top dos desenhos, com horário nobre no Cartoon NetWork e companhia limitada até hoje, e as personagens boazinhas teriam muito mais sex appeal e fãs do que as malvadas/canalhas. E engraçado que até parece que a Audrey só tem esse filme… Tem tantos. Se duvidar, tem gente que acha que “O Código DaVinci” encerrou sua filmografia… Ok, em alguns filmes ela me passa a impressão de tapioca mal-passada e só se destaca pelos ataques de nervos que causa (“Albergue Espanhol” e “Bem Me Quer, Mal Me Quer”). Mas isso é bom, certo? Mexer com o espectador, positiva ou negativamente, é o intuito do ator. Por isso, gosto do trabalho da Audrey. Não porque ela é fofa. Não mesmo, hein?

Outro filme clássico é o “Laranja Mecânica” (1971) do complexo Stanley Kubrick. Acho que esse é pau-a-pau com o “Amélie”. Em ambos, os protagonistas viraram “ícones cults”. Tem até blusa e almofada. Chiques, não? Eu acho “Laranja” espetacular. Que filme doido! E o livro não fica para trás. Sim, existe um livro, escrito pelo Anthony Burges, que criou todo aquele dialeto e aquela realidade dos Druguis comandados por Alex DeLarge. Fantástico. Justamente por causar tantas reações diferentes. Alguns tem abuso, outros acham sensacionalista, outros acham psicodélico demais, outros admiram o comportamento rebelde dos druguis, outros estudam e não cansam de achar novas abordagens. É um carnaval de reações.

Para mim ele é “pseudo-cult” porque a maioria das pessoas que citam ele com tanta reverência, nem conhecem Kubrick e suas outras obras, não reconhecem o traço dele na direção, apenas repetem as mesmas frases-feitas sobre Alex ou sonham em tomar aquele leite batizado – que eu não nego, eu também tive vontade de experimentar! É um filme que provoca questionamentos. E alguns bem estranhos, tipo o que a Ana Lee teve quando viu o filme: E aonde foi parar a tal laranja? Eles não bebem leite?

Ah, ainda tem vários filmes que entram para essa lista, mas aí eu correria o risco de vocês não chegarem até o último parágrafo! Vou então trazer o resto do “manual” próxima semana, na Parte II.

Mas, antes de finalizar, queria voltar a falar dos supostos “Pseudo-Cults”. E não só deles, dos “Cults” também. Pena não ter no dicionário – pelo menos, ainda - a descrição dessa palavra. Penso que ela deve ter relação com cultura, certo? Logo, informações, conteúdo, arte… E isso costuma ser valorizado por muita gente. Pessoas inteligentes, com larga bagagem cultural, são normalmente respeitadas, admiradas… E quem não gostaria de ocupar esse lugar? Deve ser dessa vontade, dessa carência de atenção, que veio essa denominação. Vai ver é o neologismo para “intelectual”.

O que acho engraçado é que tem toda uma regra para isso. Para ser “cult”, para ser “intelectual”. Você deve ler tantos livros por semana, ver tantos filmes por mês. Deve freqüentar determinados lugares, evitar certos tipos de pessoas… Ser contra teses tais e apoiar atitudes X. Na verdade, acho que esse é o comportamento do “pseudo-cult”. O “cult” nem deve saber que é “cult”. O “cult” deve ser aquele que nem venera ter bom-gosto, simplesmente tem. Não ostenta os filmes que já viu, nem as bandas underground que conhece. Simplesmente aprecia. Ele não evita ou tem fobias de nada, pelo contrário, está sempre disposto a conhecer de tudo. E estar aberto ao novo e ao qualquer não é ser eclético, é apenas ser curioso e instigado. Aceitar tudo e não filtrar nada, isso sim é ser eclético, e para mim, é apenas uma forma bonita de dizer que não tem gosto algum.

Nessas horas é que me lembro do baixinho narigudo da Grécia que dizia “Só sei que nada sei”. E por sinal, ele também deve ter virado ícone “pseudo-cult”, e a frase dele, nem se fala. Pena que nem todo mundo pensa o que fala. Se assim fosse, a linguagem de sinais já estaria nos cinemas… E desse novo cinema mudo, Chaplin não se orgulharia.


4 Comentários

  1. André
    4 | March | 2008 às 18:50

    Perfeito. Sem comentários….

  2. Dinha
    30 | July | 2008 às 10:09

    Muito bom! A parte que mais gostei foi esta: ”O “cult” nem deve saber que é “cult”. O “cult” deve ser aquele que nem venera ter bom-gosto, simplesmente tem. Não ostenta os filmes que já viu, nem as bandas underground que conhece.”

    Parabéns pelo texto. :wink:

  3. Guga
    30 | July | 2008 às 11:41

    Um bom exemplo de filmes adotados pelos pseudo-cults são os últimos do David Lynch. Todo o mundo diz que são ótimos, maravilhosos, obras-primas, mas duvido que exista um ser humano no mundo que entendeu esses filmes. Pra mim, o melhor do Lynch é “Twin Peaks” e “Veludo Azul” (este, outro candidato fortíssimo a cult movie — no bom sentido).

    É apenas minha opinião, mas acho que a descrição do penúltimo parágrafo tem mais a ver com pessoas que são, ou tentam ser, “cool” do que cult.

    A palavra “cult”, aplicada ao cinema, não está associada exatamente a cultura, e sim a culto, adoração. Começou a ser usada para se referir a filmes que por um motivo ou outro adquiriram uma base de fãs ardorosos, que não conseguem definir em palavras o apelo que o filme exerce sobre eles. Não é exatamente a história do filme, ou as atuações, ou a música, ou a atmosfera, o clima. É algo meio inexplicável, como a fé. Daí, o termo cult.

    “Casablanca” é um deles. “Blade Runner”, “Rocky Horror Picture Show”, “Eraserhead” e o já citado “Veludo Azul”, “2001 - Odisséia no Espaço”, “Evil Dead”, “Plan 9 from Outer Space”, “Monty Python e o Cálice Sagrado” são outros exemplos. O filme nem precisa ser bom pra virar cult. Alguns são cult pela ruindade mesmo, como o “Plan 9″ ou “Braindead”, do Peter Jackson.

  4. Alexandre Montenegro
    30 | July | 2008 às 12:37

    “Ser cult ou não ser? Eis a questão”

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