World Trade Center

Publicado em: 13-10-2006 @ 12:24 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Depois de todo o sensacionalismo da época, cinco anos depois resolvem fazer um filme abordando o acidente do World Trade Center. O famoso 11/9. Com Oliver Stone na direção, a minha expectativa ficou confusa. Na verdade, a única coisa que soube dizer ao certo após sair da sessão foi: me livraram do sensacionalismo ridículo.

Política é um daqueles três assuntos que não é aconselhável discutir, certo? E religião também, não é? Imagine, então, um evento que junta esses dois assuntos e ainda mexe com a (in)sensibilidade humana. Mistura inflamável, certo? Aliás, literalmente inflamável, tendo visto a guerra no Iraque depois…

Mas não vou me ater s homéricas discussões do 11/9. Aquilo ali, para mim, foi apenas mais uma desgraça no livro da história humana, e não foi nem de longe a maior. Apenas foi nos EUA, país prepotente o bastante para se achar o centro do mundo, intocável, que tem uma grande máquina de comunicação a seu favor. Por algum caso, as mortes desumanas na África foram citadas de forma tão intensa? Sim, aquelas pessoas que morrem de fome ou são assassinadas em bandos todos “santo” dia. Ou as mini-guerras que o Bush tanto almejava? Não, não. Então, não vamos ser injustos, certo?

Existem sim filmes que retratam os absurdos que acontecem em outros países. “O Jardineiro Fiel”, “Amor Sem Fronteiras”, “Senhor das Armas” – e não vou citar os filmes brasileiros porque acredito que eles são bem melhores nesse ponto do que os americanos. A impressão que eu tenho é que todos tem o tom de ficção maior que o tom de realidade. É como se aquilo fosse distante da nossa realidade e não tivesse efeito algum, talvez por não ter sido televisionado e dissecado pela imprensa. Sim, o acidente das torres gêmeas foi transmitido quase que ao vivo, e isso influiu em muita coisa. Mas não vamos tornar maior do que é. Vamos cair na real, certo?

Pois bem. Aí chega Oliver Stone, com a fama de controverso, e resolve fazer um filme sobre essa mistureba toda. Baseado nas porcarias que eu vi logo após o acidente, exceto o documentário do Michael Moore, eu fiquei extremamente decepcionada: lá vem! Felizmente, tive um resultado bem melhor quando saí da sala de exibição.

Não achei o filme sensacionalista. Acho que ele foi humano. Tratou de forma até normal, levando em conta as pessoas que foram afetadas no dia do desabamento. Não houve esclarecimento sobre o porquê nem sobre quem. Bin Laden nem foi citado, nem ninguém do Oriente Médio. A suposta febre terrorista foi controlada. E o petróleo não apareceu nem em forma de gasolina. A única coisa que interessou mesmo foi a dupla de policiais que ficaram soterrados e as suas respectivas famílias. Por sinal, sou suspeita a falar, mas adorei o Nicolas Cage no papel, principalmente com aquele bigode! E acredito que os dois policiais e as famílias são espelhos de outros.

Agora, alguns detalhes me chamaram a atenção.
Início. O começo do filme, sincronizando o acordar dos dois policiais e o relógio em cima da cômoda, fazendo um tic-tac insistente lembrando o som de uma bomba prestes a explodir. A idéia de duas vidas aparentemente diferentes que se tornariam tão próximas por uma desgraça que estava prestes a acontecer.

Questão Étnica. A seqüência de cortes que mostra o sobrenome de cada policial que seria voluntário para entrar na Torre 1, e conseqüentemente, ser soterrado. A maioria dos nomes, salvando o do Sargento John McLoughlin (Nicolas Cage), tem origem estrangeira: são latinos ou descendente de europeus. A primeira coisa que me passou na cabeça foi: e nem foram os norte-americanos que se lascaram, olha só. Uma viagem completa, talvez. Mas não tem aquela velha história da colonização: os menos favorecidos vão para a linha de frente de ataque ou para os serviços mais pesados. Sendo os EUA o país de primeiro mundo, o resto da América vira o quintal.

Jimeno e a filha. Michael Peña interpreta o personagem de Will Jimeno, o policial que faz companhia a John McLoughlin (Cage) nos escombros. Mas, a parte que me chamou atenção é que, assim como em “Crash – No Limite da Razão”, ele fez aquela cena que ficou na mente de todos que assistiram ao filme: o abraço emocionante com a filha nos braços. Flashback total para a cena de “Crash”, quando a filha tenta protegê-lo da bala com a capa mágica! Será que no próximo vai ter também? O cara gosta mesmo de crianças…

O Choro. A mulher do John, a Donna McLoughlin, ao contrário da mulher do Jimeno, não conseguia pôr pra fora o desespero. Ou vai ver, nem sempre todo mundo tem que chorar na hora da agonia, certo? Mas ela, ou por ter esperanças ou por não querer acreditar, ou quem sabe um pouco dos dois, não caiu no desespero e na fase ‘ai-meu-deus-fiquei-viuva’. Achei muito bacana ela ter conseguido fazer isso no final - deveria estar matando a mulher! e principalmente por ela ter feito isso na ala do hospital (um lugar até democrático) e nos braços de uma mulher que teve o filho desaparecido nos escombros. Mas não era uma mulher qualquer: ela era negra e seu filho era o ascensorista. Não era um alto executivo nem um norte-americano típico. Certeza aquela mulher e aquela história representam várias pessoas que foram afetadas naquele dia. O desabafo das duas abraçadas foi uma cena que me marcou durante o filme.

Patriotismo. Acho que além do patriostismo em alguns momentos, a vontade de ajudar e a preocupação com os feridos foi o que houve de mais humano e mais legítimo no filme. Mas falar sobre o WTC e não citar absolutamente nada sobre o patriotismo fanático que os EUA tem, seria meio absurdo. Então, assim como os outros personagens representam um grupo de pessoas, houve um outro personagem que representou essa massa fanática. O sargente Karnes. A cena dele no celular dizendo que “precisa pegar os responsáveis por isso” e que “deve haver contra-ataque” devem ser notadas. Muito bem colocado. E sem ofender ninguém nem ser exagerado. Apenas, apareceu.

Gravidez. Fiquei me questionando se o fato das duas esposas estarem grávidas era uma dose dupla de clichê ou uma mensagem subliminar de esperança, de futuro.

Clichês. Não digo que houve clichês descarados. Mas rola aquela sensação de “filme americano”. Mas vai ver foi sensibilidade demais. As conversas dos dois sobre a família, as sempre eternas frases de “diga para a Fulana que eu a amo”. A corrente humana que luta para salvá-los. Sim, isso aí todo mundo já viu. Mas emociona. E é verdade. Durante o filme, a primeira coisa que pensei foi: se isso fosse no Brasil, morri mais gente pela falta de recursos do que pelo acidente em si. Exagero, ta. Mas tem lá sua verdade, ora. Se o acidente fosse na hora do jogo ou do show dos Rebeldes/Tati Quebra-Barraco e o escambau, a atenção ia ser disputada!



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