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Mestre Griffith

Publicado em: 16-10-2006 @ 12:26 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Provavelmente, poucos ouviram falar dele. Pelo menos, todos aqueles que não são realmente aficionados por cinema. Mas todos já viram traços do seu trabalho, do seu estilo. Aliás, ele deve ser o favorito de muitos, por tabela.

D.W. Griffith. É desse cara aí mesmo que estou falando. O pai do “cinemão” americano. Sim, o cinema hollywoodiano. Ele quem criou esse “modelo” de filmes que tanta gente adora ver. Ele quem ousou e delineou a linguagem cinematográfica na sua época. Ele quem primeiro trabalhou como um verdadeiro “diretor”.

Em 1915, Griffith lançou o filme “O Nascimento de uma Nação”. Um drama que tem uma história com fortes expressões racistas, ditas até indignas por alguns críticos de cinema. Entretanto, independente das recriminações em torno do conteúdo ou dos questionamentos sobre os valores colocados pelo filme, não se pode desmerecer o longa-metragem simplesmente pela importância e pelo marco na história do Cinema com o qual ele passou a ser lembrado.

O filme é preto e branco, obviamente, mas tem uma textura de sépia. Ele começa apresentando os personagens. Vale a pena perceber como ele realmente introduz cada elemento, dando informações a fim de situar o espectador na história que logo virá a se desenrolar, além de apresentar o ambiente. Esse detalhe de apresentar tanto os personagens quanto o ambiente ainda é um traço forte no cinema americano. Vendo “Dália Negra” foi que me lembrei mesmo como isso ainda existe, mais forte em certas décadas, mais sutil noutras.

A história de “Nascimento”, por sinal, é contada de uma forma envolvente e com uma perspectiva interessante, levando em consideração a época na qual o filme foi feito. Gostei bastante do fato de Griffith ter retratado as conseqüências da Guerra Civil através da relação entre duas famílias, uma do Norte e outra do Sul, fazendo conexões com determinados acontecimentos históricos, como a Guerra da Secessão, o assassinato de Lincoln e o nascimento do Ku Klux Klan. Ele poderia simplesmente ter retratado os acontecimentos históricos ou produzido uma ficção sobre duas famílias que se desentenderiam por motivos quaisquer. Entretanto, ele mesclou as duas idéias em um encaixe eficaz, levando o espectador a se envolver com a trama a partir da já citada introdução de personagens e dramas fictícios em um contexto histórico. Deve-se lembrar que tem diretor dos dias de hoje que não consegue fazer isso…

Pensando bem, o primeiro detalhe do filme que me chamou a atenção não foi a história, mas o tempo de duração do filme: 165 minutos. Em uma época na qual as pessoas eram acostumadas a ver apenas curtas-metragens, certamente esse tempo de produção foi uma audácia. Foi o primeiro filme a ultrapassar 100 minutos de duração, exigindo bem mais do espectador, principalmente levando em conta que o filme não tinha diálogos, apenas os textos escritos intercalados entre um momento e outro. Por sinal, nota-se aqui uma influência da literatura. E essa questão do tempo, nem a evolução do cinema deu jeito. De fato, hoje as pessoas tem mais paciência e sabem que vão a um filme para demorar no mínimo 40min, Mas mesmo assim, ainda vemos aqueles que “capotam” no meio da história, saem da sala entediados… Eu mesma admito que já me inquietei muito em filmes longos demais. “Alexandre”, “Ray”, “O Aviador”… Todos eles tiveram meus 5 minutos de “e-isso-não-acaba-não!”. É aí que digo que o cinema do futuro pertencerá aos curtas-metragens, já que cada vez mais, o tempo se torna um artigo raro.

Pois bem. Além do enredo de Griffith, me chamou a atenção o comportamento da câmera. Até então, a câmera era predominantemente estática, tendo a única e mera função de registrar o que estava sendo encenado. Algo extremamente semelhante a um espetáculo de teatro. Em “O Nascimento de uma Nação”, já se percebe uma câmera mais flexível e arrojada, direcionada a obter determinadas impressões, tornando-se um recurso de linguagem mesmo que timidamente. Mudanças de pontos de vista, close-ups, alternação entre planos, enquadramentos, profundidade de campo. Diversos recursos começam a definir a narrativa, recursos esses que, aplicados por Griffith, revolucionaram a maneira de se fazer filmes, estabelecendo inovações que são utilizadas nos dias de hoje. Em relação câmera, um dos momentos que lembro que me surpreendeu foi quando uma das personagens anda em direção câmera, criando a idéia de espaço além do plano, tornando aquilo um recorte de um mundo expandido além dos limites do enquadramento.

Percebe-se muito a utilização de planos gerais ou planos de conjunto, além da aplicação dos cortes mostrando ações paralelas com o cuidado de manter a noção de continuidade – e conseguindo. Fica bem clara a utilização da decupagem clássica, refletida diretamente no modo da narrativa, que justamente por apresentar uma história mais complexa e detalhada, exigia a representação simultânea de dois espaços, principalmente quando havia perseguições. “O Nascimento de uma Nação” apresenta a trama linear, com roteiro e marcação de cenas. Griffith realmente delineou o papel de diretor.

As cenas de batalha filmadas de longe ou com a câmera posicionada de forma mais incisiva gera a sensação de espetáculo, semelhante a sensação que os filmes comerciais de hoje passam. Interessante a utilização de bombas de fumaça e de filtros para provocar mais realismo ao público, e a orquestração durante as batalhas são memoráveis. O conjunto que trabalha para captar o envolvimento do espectador.

As próprias interpretações estão mais exigentes, a câmera trabalha junto com os atores para melhor expressar as emoções e acontecimentos. As imagens passaram a expor com mais detalhes as expressões faciais dos atores, possibilitando uma encenação mais contida, diferenciando-se do teatro.

Há ainda a presença de fades entre o texto e a seqüência seguinte, assim como também entre os cortes de duas seqüências, mostrando elipses temporais.

É inegável a sua influência na estrutura narrativa do cinema hoje. Os personagens, a criação do conflito, o clímax, a solução. A demora em determinadas cenas, ora para aumentar o suspense, ora para romantizar o momento. Griffith não criou os recursos, mas soube usá-los como ninguém havia feito até então, virando um mito do cinema mundial.



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