Espaço Unibanco reformado exibe o premiado “Cine Zé Sozinho” e o documentário “Cartola”

Publicado em: 01-07-2007 @ 8:08 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Maíra Suspiro

Na noite de segunda-feira (25), as salas de exibição do Unibanco, localizadas no Centro Cultural Dragão do Mar, na cidade de Fortaleza (CE), foram re-inauguradas. Com poltronas mais confortáveis e mais espaço, além de ganharem salas reformadas, o cinema ganhou a projeção digital, via satélite.

Graças a esse novo recurso, foi possível a exibição do documentário “Cartola”, que não existe mais em rolos, impossibilitando o uso das convencionais películas, explicou Ademar de Oliveira, diretor nacional do Espaço Unibanco. Ele falou ainda que uma nova política está em vigor. A intenção é trazer uma maior diversidade de filmes, desde clássicos, documentários e infantis. Existe ainda a possibilidade de se trazer a Fortaleza o cineasta Walter Salles para fazer o lançamento de seu novo filme, “Linha de Passe”.

Além das novidades e da exibição do longa “Cartola”, houve ainda a exibição do premiado curta-metragem “Cine Zé Sozinho”, do cearense Adriano Lima.

O Boêmio da Primavera

cartola_1.jpgAngenor de Oliveira. Nome desconhecido, talvez. Quem sabe se refrescarmos a memória de vocês dizendo que esse nome é de um grande compositor, cantor e poeta brasileiro, uma luz se acenda no fim do túnel. Mas, se é pra ser unânime, basta revelar o apelido dessa figura popular de extrema importância para a cultura brasileira.

O nome de guerra (ou seria de samba?): Cartola. Sambista criador e participante da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, compôs, sozinho ou com parceiros, mais de quinhentas canções. Como exemplo, temos “As Rosas Não Falam”, “Alvorada”, “O Mundo é um Moinho” (favorita de Drummond de Andrade), “Tive Sim” e “O Sol Nascerá”. Sua produção musical foi marcada pelo alto nível de elaboração e uma carga poética intensa.

Seu apelido veio dos tempos em que trabalhou como pedreiro. Por ser muito vaidoso, se aborrecia constantemente quando o cimento sujava seus cabelos. Para solucionar o pequeno problema, passou a usar sempre um chapéu para proteger os cabelos do cimento, ocasionando o apelido dado pelos colegas. E essa é uma história que não agradava muito ao grande poeta. Ele detestava ter que explicar o nome artístico.

O apelido virou também nome do documentário feito em sua homenagem. Lírio Ferreira e Hilton Lacerda assinam a direção da produção que relembra a história desse artista do subúrbio, através de depoimentos, fotografias antigas, trechos de momentos gloriosos, como o desfile de carnaval e as apresentações de Cartola com amigos ilustres, como Chico Buarque e Beth Carvalho.

O documentário segue um ritmo entrecortado que chega a ser incômodo em determinados momentos. A montagem pode não agradar a todos, mas chega a ser compensada pelas imagens nostálgicas e pelas músicas memoráveis que são cantadas. Vale a pena ser visto pelo material que conseguiu reunir, apesar de não ter sido compartilhado de forma envolvente. As palavras dos amigos, familiares e companheiros de samba tornam íntima a imagem daquele boêmio-trabalhador que teve reconhecimento tardio.

Certamente, após “Cartola” podemos ter noção do grande artista que Angenor foi. Sua vida de altos e baixos é tratada de forma sensível pelos diretores, principalmente através das nuances experimentais que o documentário mostra em certos momentos. Os depoimentos riquíssimos e os encontros com os companheiros músicos são essenciais nesse ponto.

Como Nelson Sargento uma vez disse, “Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve”. Um sonho que nasceu e despediu-se em um domingo de primavera.

Você pode conferir alguns vídeos de Cartola nos links abaixo:

Encontro de Cartola com o pai e canta “A Vida É Um Moinho”
http://www.youtube.com/watch?v=HFQoOVokKkE

Cartola canta “Peito Vazio”
http://br.youtube.com/watch?v=53-rCftBn0w&mode=related&search=

Cartola canta “Tive, Sim”
http://www.youtube.com/watch?v=SoC8PYMHA54&mode=related&search=

Trechos do documentário “Cartola”
http://br.youtube.com/watch?v=xlMRgr6vxLg&mode=related&search=

Cine Zé Sozinho

Vencedor na categoria de “Melhor Documentário”, tanto no 30o Festival Guarnicê de Cinema do Maranhão quanto no 11 o FAM – Florianópolis Audiovisual Mercosul, o documentário “Cine Zé Sozinho” teve sua estréia na capital cearense na noite do dia 25. A exibição contou com a presença do próprio Zé Sozinho, que recebeu a Menção Honrosa ao personagem no 30 o Guarnicê e ainda disse: “Cinema é cultura e diversão. E aquele que não gosta de cinema não é brasileiro”.

O curta-metragem de 16 minutos traz a história de um personagem carismático e apaixonado pela Sétima Arte. Estamos falando do Seu Zé Sozinho, menos conhecido como José Raimundo Cavalcante. Pernambucano de Pajeú das Flores, ele foi criado em Caririaçu, no sul do Ceará. Até aí, nada de mais na sua história, até ele completar 12 anos e fugir de casa, rumo a Fortaleza, onde descobre sua paixão pelo cinema.

Acontece que essa paixão não é igual � quela que muita gente descobriu indo � s salas de cinema no fim de semana ou colecionando DVDs em casa. A paixão de Zé Sozinho vai bem mais além, influenciando toda a sua vida e a das pessoas que conviviam ao seu redor.

Após trabalhar varrendo salas de exibição, tentando conseguir ver filmes de graça e alguma refeição, ele volta a Caririaçu e passa a exibir filmes no Círculo Operário, utilizando um projetor de 16mm. Esse homem que aparece com tanta boa-vontade e humildade na película dedicou a vida a levar o cinema aos lugares mais improváveis, como o interior cearense.

A produção traz depoimentos tanto de Seu Zé quanto de sua família, assim como de pessoas que conheceram o cinema através do esforço de Zé Sozinho. É interessante ver a reação das pessoas falando de clássicos do cinema antigo, desde Bruce Lee até “Jesus Cristo”.

“Cine Zé Sozinho” é o primeiro trabalho de Adriano Lima como diretor, e quem conhece seu trabalho pode perceber alguma semelhança entre ele e a pessoa de Seu Zé, explicando até o motivo pelo qual ele decidiu fazer esse projeto. Adriano é o realizador do Curta Canoa, Festival Latino Americano de Curta-Metragem de Canoa Quebrada. O festival é famoso por fazer a exibição dos curtas selecionados ao ar livre, aberto ao público e habitantes do local, proporcionando uma sensação semelhante � que o protagonista do curta promoveu.

Adriano teve o primeiro contato com Zé Sozinho durante o 13o Cine Ceará, quando o festival homenageou o seu trabalho. Desde então, Adriano sempre pensou na possibilidade de registrar a vida e o trabalho daquela figura dedicada no meio em que ele mais adorava: o cinema.

O resultado foi um curta-metragem carismático só por ter o personagem principal que tem. Com depoimentos sinceros que repassam a história de Zé Sozinho, a forma escolhida é o jeito como ele mesmo é: bem humorado e objetivo. Apesar dos tempos acelerados e da trilha sonora que se perde em algumas montagens, “Cine Zé Sozinho” deve ser visto, pois é um registro de cultura mais que merecido. Arrisco ainda dizendo que apesar de se diferenciarem em gênero, produção e estilo, “Cine Zé Sozinho” e o clássico “Cinema Paradiso” andam juntos, lado a lado, guiados pela vontade de homenagear o Cinema.


3 Comentários

  1. Nathalia Diniz
    1 | July | 2007 às 18:55

    maira como sempre arrasa!
    quando crescer quero ser igual a ti.
    muito bom o texto.
    parabéns.

  2. Igor Vieira
    2 | July | 2007 às 17:28

    pude experimentar as novas instalações do Unibanco e melhorou consideravelmente o conforto dos cinéfilos

    quanto ao curta “Zé Sozinho”, não vi ainda, mas ele foi selecionado para o Festcine Belém e concorre na mostra competitiva de curtas que acontece esse semana em Belém do Pará

  3. Jurandir Filho
    2 | July | 2007 às 22:09

    Eu não gostava das poltronas de lá não. Ficava com dor nas pernas. Espero que tenha melhorado. ;)

    Irei em breve assistir algo lá. Possivelmente, após 5 Chops de Vinho.

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