Nietzche uma vez disse: “A maior das calamidades cairá sobre a humanidade no dia em que todos os sonhadores desaparecerem”. Há aqueles que sonham para transformar a realidade. E há aqueles que sonham e transformam o próprio sonho em algo próximo do palpável. No cinema, alguns poucos diretores souberam transmitir o clima onírico de uma maneira tão especial que temos certeza de que eles têm um nível de percepção do inconsciente diferente da maioria de nós. Como sou canceriano, signo dos sonhos e das fantasias, isso sempre vai ser objeto de fascínio pra mim.
O cinema é a arte que melhor se aproxima do sonho, afinal os nossos sonhos parecem pequenos filmes protagonizados por nós mesmos - há quem diga que a gente sonha em preto e branco. Selecionei, então, três dos diretores mais ligados ao sonho que eu conheço. Esses três diretores são Luis Buñuel, Alejandro Jodorowsky e David Lynch. Eles são provavelmente os grandes mestres do cinema surreal.
Comecemos com o pai de todos: Luis Buñuel (foto ao lado). Esse senhor espanhol é um dos poucos diretores de cinema que pode ser tranqüilamente chamado de gênio sem que isso pareça um exagero. Dom Buñuel começou ainda no cinema mudo com uma obra de referência para o Movimento Surrealista no começo do século XX. Ele aliou-se ao pintor Salvador Dali para compor a obra-prima “Um Cão Andaluz” (1928), cuja cena da navalha cortando o olho de uma mulher está no imaginário até de quem nunca viu o filme completo. Nunca existiu outro cineasta como Buñuel. Ele também era famoso por ser um crítico ferrenho da Igreja Católica. A frase “sou ateu graças a Deus” ficou popularizada graças a ele. Ele era tão contraditório quanto essa frase: um de seus melhores amigos era um padre, e ele tinha uma obsessão pelos símbolos e dogmas do catolicismo.
O que pode ser visto em filmes como “Nazarin” (1959), “Viridiana” (1961) e “A Via Láctea” (1969). Esse último filme, inclusive, é um de seus trabalhos que privilegiam pouco a história e valorizam mais a atmosfera surreal, ao lado de “O Discreto Charme da Burguesia” (1972) e “O Fantasma da Liberdade” (1974). São filmes que não possuem uma narrativa linear tradicional. O surrealismo de Buñuel também estava presente na sua brilhante fase mexicana, que antes era considerada a mais comercial de sua carreira, mas que tem sido cada vez mais valorizada nos dias de hoje. Foi em sua temporada no México que Buñuel nos presenteou com obras-primas como “O Alucionado” (1953), “Ensaio de um Crime” (1955) e “O Anjo Exterminador” (1961). Claro que Buñuel é muito grande para ser descrito apenas em um tópico num texto generalizador sobre o cinema-sonho, sem falar que não me julgo apto para analisar sua obra tão rica, sem sequer ter visto metade de seus filmes. Ainda assim, deixo registrado o meu respeito e carinho por seus filmes fabulosos.
O chileno Alejandro Jodorowsky (foto ao lado) é bem menos conhecido pelo público e o surrealismo em seus filmes era ligado a suas crenças religiosas. Junto com os cineastas Roland Topor and Fernando Arrabal criaram em 1962 o “Movimento Pânico” em homenagem ao deus mítico Pã. O único filme de Jodorowsky que tive contato até o momento foi “The Holy Mountain” (1973). Esse filme é melhor compreendido por quem conhece um pouco de astrologia. Parte da trama desse filme gira em torno dos simbolismos relacionados aos planetas regentes dos signos. Nos últimos anos, Jodorowsky tem se dedicado ao estudo do tarô e trabalhado como roteirista de histórias em quadrinhos. Espero ter a chance de ver outros filmes desse diretor instigante em breve.
Apesar de ser o mais popular dos três diretores, David Lynch (foto ao lado) é famoso por sua ousadia e coragem de lançar no circuitão filmes que desagradam os desavisados que entram no cinema para ver filmes com explicações fáceis. Dois de seus filmes se passam literalmente no mundo dos sonhos - “A Estrada Perdida” (1997) e “Cidade dos Sonhos” (2001) - e outros trazem elementos de estranheza perturbadores, como “Eraserhead” (1977), “Veludo Azul” (1987) e “Coração Selvagem” (1990). Inclusive, “Coração Selvagem” foi o primeiro filme que tive o prazer de ver no cinema desse que eu considero um dos cinco mais importantes cineastas americanos da atualidade.
Foi na mesma época que tive contato com “Twin Peaks” (1990), a revolucionária série de tv que parecia um peixe fora d’água em meio mediocridade dos seriados de televisão da época. Foi o momento da febre “Twin Peaks”, que hoje está sendo revivida graças ao lançamento em DVD da primeira temporada da série e da expectativa do lançamento da segunda. Lynch foi o diretor que mais me fez sentir medo. Senti um calafrio ao olhar para o rosto do “homem misterioso” de “A Estrada Perdida”; gelei ao ver a entidade demoníaca BOB na casa de Laura em “Twin Peaks” - “Os Últimos Dias de Laura Palmer” (1992); senti pavor do mendigo escondido na lanchonete e da mulher de cabelo verde do Clube Silêncio de “Cidade dos Sonhos” (2001). E o mais surpreendente, pela telinha de 14 polegadas do meu computador, ao ver uma série de curtas para a internet chamada “Rabbits” (2002), senti um medo do irracional que não encontro paralelo em momento algum. David Lynch, esse homem que fisicamente parece uma versão moderna de James Stewart, com aquele aspecto de bondade e generosidade, tem o poder de materializar os nossos sonhos e pesadelos como nenhum outro.
Bons sonhos!

5 | July | 2007 às 16:16
David Lynch é o cara ;))
Só pra alertar.. você escreveu “Cidade dos Sonhos” (2002) e (2001).
Até mais
5 | July | 2007 às 19:16
Bem observado!
Foi corrigido.
11 | July | 2007 às 00:08
Belo Texto… O sonho ainda nos acompanha mesmo que noturno… mesmo que no escurinho do cinema!!!!!