Biografias

Publicado em: 19-09-2007 @ 12:06 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Em um mundo onde a curiosidade e o interesse pela vida alheia se uniram para mover mídias e atitudes, existe um estilo de filme que costuma cair bem no contexto: as biografias. Quem não curtiria ver uma personalidade “descascada” na telona ou conhecer alguém que nunca ouviu falar em um filme bacana? Sempre alvo de interesses e polêmicas, as biografias formam uma lista longa, com diferentes estilos e intenções.

Lendo uma entrevista com o cantor nova-iorquino Rufus Wainwright, certa citação do músico do pop melancólico me chamou a atenção. “Eu prefiro as biografias. Acho a vida real muito mais interessante que a ficção. Sempre fico chocado com as biografias.” Nesse exato momento, parece que o “desktop” da minha cabeça foi acionado e todas as biografias que eu já tinha visto ou ouvido falar começaram a passar em flashes na minha memória. Fiquei pensando sobre o que o Rufus disse e tive que concordar: a vida real realmente é muito mais interessante, principalmente se essa vida for de alguém notório - visto que nem todos vivem: alguns só sobrevivem mesmo. Afinal de contas, em colunas anteriores, eu mesma afirmei que nós somos a matéria-prima bruta da realidade do cinema. As biografias só explicitam isso, transformando uma figura real em personagem da própria vida em uma cine-biografia.

Para meu espanto duplo, rapidamente consegui lembrar de umas vinte biografias. E sim, espanto duplo porque eu e minha memória não andamos muito em sintonia e nunca acho que lembrarei fácil de nada. Mas o que interessa mesmo é que as biografias são muitas. E diferentes. Temos documentários como “Cartola“, do Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, que resgatam trechos antigos de cenas registradas e depoimentos e constroem a partir daí a imagem da “pessoa-personagem”. Como também temos filmes que retratam a tragetória do cidadão, como em “Dois Filhos de Francisco“, que mostra a saga da dupla sertaneja até alcançarem a início do seu sucesso. E se estamos falando dos nacionais, lembremos de “Olga” e “Zuzu Angel“, que mostram o drama vivido por duas grandes mulheres brasileiras. E só para fechar o parágrafo verde-amarelo, lembrei de “Cazuza“, dono de uma música bacana, “Só Pro Meu Prazer”, que fala de “maior ficção” - porque a intertextualidade do cinema com o vida é demais. Os últimos três filmes, ao invés de apelarem para o documental, seguem pela trilha do narrativo, recriando a suposta realidade da pessoa-personagem.

E sim, suposta. No final das contas, toda biografia é tendenciosa. Podemos colocar a pessoa-personagem no céu ou jogá-la para queimar no mármore do inferno. Já foi falado aqui sobre o poder da edição, certo? Mas, seguinte: ser tendencioso é uma coisa. Mostrar o outro lado é outra. Por exemplo, temos aquele filme “A Queda”, que recria as horas finais de Hitler. Sim, ele era um “menino ruim”, mas o filme mostrou um lado mais humano dele, um lado com o qual não estávamos nem um pouco acostumados a encarar. Era sensível. E o mais óbvio - e mais fácil - de se escancarar sobre Hitler era sua “monstruosidade”. Então, o filme está “errado” por isso? Por mostrar um lado diferente? Claro que não. Aquilo ali pode até ser verdade, mas não é por isso que vamos agora nos arrepender de ter xingado a mãe do nazista-chefe e achar que ele fez tudo com boas intenções. Apenas o estigma da “unilateralidade do mal” foi quebrado e nós temos que ser conscientes e encarar Hitler como um homem, antes de tudo. “A Queda” apenas mostrou o lado que não estávamos acostumados a perceber, e esse é um dos pontos que mais me agrada nas biografias.

Temos ainda aquelas biografias que chegam com um traço mais lírico ou experimentalista, como “Alexandre“, de Oliver Stone. Se são boas ou não, já sou suspeita a falar, principalmente quando eu citei esse filme como “culpado” por uma das minhas grandes frustrações (vulgo, brochadas) no cinema.

Interessante também quando a vida da “pessoa-personagem” realmente se desenvolve como uma história, sem ter aquela sensação de foco através da qual você praticamente vê uma setinha apontada na cabeça do infeliz, dizendo: esse filme é sobre mim!Exemplos: “Capote“, “A Lista de Schindler” e “Uma Mente Brilhante“. Você se envolve com o filme, e de segundo plano, conhece a vida daquela criatura notória. Exemplos de biografias da “setinha-acessa”? “Elvis“, “Ray“, “O Aviador“, “The Doors“. E nem por isso são filmes ruins. De jeito nenhum. Só podem ser extremamente longos, como é o caso de “O Aviador” e “Ray“, sem lá tanta justificativa para isso. Aproveitando a deixa, ainda arrisco dizer que a biografia deve mostrar a vida da pessoa, os fatos marcantes que determinaram porque aquela criatura teve destaque, mas não necessariamente, em uma biografia, devemos contar tudo e mostrar tudo. Parece uma sindrome de “24Horas”. E se eu não tenho tempo nem para a minha vida, lá vou querer passar cinco horas para ver a de outro alguém? Ou seja um diretor muito estupendo ou não abuse da minha paciência e boa-vontade.

Não é ser fácil fazer uma biografia. De jeito nenhum. Ainda mais se a pessoa ainda estiver viva. Fica difícil, porque ela tanto pode querer “meter o bedelho” em tudo, como pode odiar como foi retratada e vir com mil processos atrás. Outro risco das biografias é a tendência de “endeusar”. É até compreensível, já que se você faz um filme sobre a vida de alguém, só isso já dá bastante pano pra manga para engrandencimentos e homenagens � criatura. É dificil ainda, porque ser imparcial é complicado. É difícil, porém sempre instigante.

Entre as minhas favoritas está “Modigliani“. O filme traz o Andy Garcia vivendo o último ano de vida do pintor italiano Amedeo Modigliani, contemporâneo de Pablo Picasso e Diego Riviera. O filme é lindo. E o subtítulo “paixão pela vida” está impregnado em todas as luzes da película. Se eu tivesse a oportunidade de ter uma biografia, gostaria que a minha vida fosse registrada com a mesma sensibilidade com a qual registraram a de Modigliani nesse filme. “Frida Kahlo” foi outro que me agradou, mas nem conta pipoca perto de Modi. E se tem uma que certamente vai ser tornar uma grande favorita, é a biografia do Bob Dylan que está para chegar, recentemente lançada em Veneza e que na coluna passada bateu ponto como “filme que arrasa nas preliminares”. “I´m Not There“: um filme sobre um grande ícone da música com atores sensacionais interpretando diferentes fases da sua vida? Quase impossível não gostar.

E se for para lembrar mais algumas biografias bacanas, lembrem de “Amadeus“, que conta a vida do gênio da música Mozart, “Johnny e June“, que traz a vida do dono da voz belíssima, Johnny Cash. E se eu pudesse escolher alguma biografia para ser filmada? As óbvias: Madonna e Chico Buarque. Seria bacana também algo sobre o Hitchcock ou o Andy Warhol… Ou o Orson Welles e o Glauber Rocha. Se bem que legal mesmo se fosse sobre mim, certo? Brincadeirinha. Mas vamos admitir que seria interessante se cada um de nós pudesse ver como ficaria a própria vida na telona…



15 Comentários

  1. Rui Gomes
    19 | September | 2007 às 01:01

    Gostei do tema

    Ultima boa biografia que vi foi em livro e nao em filme ” Charles Bukowski - Vida e Loucura de um velho safado”, o livro é excelnte, ja os filmes eu não curti( Factotum e Barfly ). Esse do Andy Garcia quase aluguei varias vezes, mas ainda nao assisti. Amadeus acho que foi a primeira biografia que assisti, fui no cinema e dormi ?!!!?
    Ta certo que eu ers criança e nao entendia miuta coisa, mas fiquei com trauma desse filme :P

    De resto passei o olho na coluna, nem li ela toda, depois eu leio com calma.

  2. Rodrigo der Windsor
    19 | September | 2007 às 08:59

    Realmente as biografias são bastante interessantes, nos mostra o outro lado das celebridades que não conhecemos e nem ouvimos falar, gosto muito de assistir a elas e conhecer a vida de pessoas que contribuem para a cultura mundial, seja boa ou ruim.

  3. Laís
    19 | September | 2007 às 09:11

    Ah, eu gostaria também de saber como seria minha vida na telona. Mas eu ia ser aquele tipo de pessoa chata, que ia ficar enchendo os diretores e os roteiristas… =) ah sim, e gostaria de vários personagens imaginários meus aparecessem no filme tb! Ia ser quase um “Labirinto do Fauno”. =)

    Fiquei tão feliz por ler sobre o “Modigliani”! Eu também achei esse filme lindíssimo!

    E amei o seu texto… muito bom! :)

  4. Bruno Garcia
    19 | September | 2007 às 10:34

    Normalmente, no cinema vemos dois tipos de biografias:

    Colagem de momentos da vida da pessoa, como se fosse uma album fotografico. Passando as paginas, e transformando em cenas, numa linha da vida: infância, amadurecimento, vida adulta, velhice and a morte!

    Classico sessão-da-tarde: “La Bamba” que descreve a vida de Richie Valens desde ascenção meteórica do rapaz de 17 anos, de descendência mexicana, desde seu trabalho no campo até ser um astro do rock nos Estados Unidos. E sua tragica morte.

    Outra abordagem é pegar uma época da historia do personagem e focar nela. E a partir dos feitos e personalidade dar uma ideia

    Prefiro a segunda abordagem, porque geralmente foge dos cliches de filmes biograficos. E tambem acho interessante biografias de não celebridades, porque acho que são mais realistas. Por exemplo, dois filmes recentes que não são bem biografias.

    “Zodiaco” que não conta a história de um assassino serial, mas sim daqueles que se dedicavam a investigação sobre os crimes. Baseado nos livros de Robert Greysmith, personagem principal do filme que na época dos crimes era cartunista e foi se interessando cada vez mais com os cimes, chegando quase ao nível da obsessão.

    E “Quebra de Confiança”, que fala sobre o agente do FBI Robert Hanssen foi considerado culpado de traição contra a América. Durante um período de mais de duas décadas Hanssen vendeu sistemática e deliberadamente segredos chave do seu país antiga União Soviética, sendo um dos mais notórios espiões na história do seu país.

    Tambem existem diretores que fazem filmes autobiograficos, utilizando personagens como alter-ego e não ficamos nem sabendo.

    Um das proximas biografias:

    Morgan Freeman vai interpretar no cinema o presidente sul-africano Nelson Mandela, no longa “The Human Factor”, inspirado no livro “The Human Factor: Nelson Mandela and the Game That Changed the World” o jornalista britânico John Carlin.

    A trama se centrará nos eventos que rondaram a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995 na África do Sul pós-apartheid e em como Mandela usou o torneio - vencido pelos sul-africanos - para unir negros e brancos.

  5. Flávio
    19 | September | 2007 às 12:39

    Adorei a reportagem.Só para lembrar Maíra, já foi feitao um filme sobre o começo da carreira de Madonna. Ah!Desejaria ver ver nos cinemas as biografias de Carmem Miranda e de Che Guevara.

    Um grande beijo!!!

  6. Ronald Luis Rodrigues do Nascimento
    19 | September | 2007 às 13:26

    Maíra no dia que for um grande cineasta, você terá o privilégio de escrever o roteiro de sua vida para mim rodar.

  7. Thiago Nóbrega
    20 | September | 2007 às 15:24

    Uma biografia que eu gostaria de ver tratada no cinema era a do desbravador e maior herói inglês de todos os tempos, Robert Falcon Scott. Já li alguns livros sobre sua vida e é realmente impressionante que Hollywood não tenha se dedicado a mostrar a trajatéria do homem que desbravou a Antárdida. Recomendo a quem quiser ler, vale realmente a pena!

  8. Juliano Aragão Pessoa
    20 | September | 2007 às 20:49

    Cinebiografia da Maíra.. \o/ =D

    Eu gosto de algumas biografias, mas como minha mente nao funciona sobre pressao eu nao estou conseguindo lembrar de muitas q eu assisti alem de algumas citadas… mas assisti do Jerry Lee Lewis, Little Richard e esqueci do resto..

    E sempre tive vontade de assitir Amadeus, um amigo meu disse q era mto bom.. mas qdo vou na locadora nunca lembro de alugar..

    E sobre essa frase do Rufus Wainwright, tem uma parecida no Ace Ventura.. ele diz: “A ficção é muito divertida, mas eu acho a seção séria muito mais engraçada.”

    aeuhaeiuheau.. nada a ver neh?

    Boa materia.. =*

  9. Caio Everton
    21 | September | 2007 às 02:03

    Eu tb voto pela cinebiografia da Maíra

    \o/

    Excelente coluna, pra variar um pouquinho.
    Não conheço muitas biografias, mas algumas comentadas eu sei pelo menos a sinopse, ou o resumo de meio de calçada.

    As biografia que eu queria assistir, além da Maíra, seria a de Andy e Larry (agora Lana) Wachowski e Quentin Tarantino, além das minha musas, Maíra Suspiro (olhaqui novamente!), Angelina Julie e Charlize Theron…

    Abraços,

  10. Rui Gomes
    21 | September | 2007 às 10:11

    Uma outra biografia que gostei no cinema foi “O Povo Contra Larry Flynt” , Woody Harrelson ta perfeito no papel do Larry Flynt

  11. Rafael
    25 | September | 2007 às 09:22

    Eu queria tanto que The Wonders fosse uma biografia. Ia passar a colecionar tudo sobre a banda.
    =)

    Minha biografia ia ser mais parecida com a do Ray. Música o tempo todo. Claro, claro. A qualidade musical passa looooooooonge.
    heheheheh

    ^^

  12. guilherme
    5 | May | 2008 às 16:43

    :evil:

  13. giovana
    8 | May | 2008 às 19:54

    :neutral: eu ñ achei o q é biografia:( o q é biografia :?: :cry:

  14. giovana
    8 | May | 2008 às 19:56

    :mrgreen: O Q É BIOGRAFIA :?:

  15. aline
    14 | May | 2008 às 16:31

    :?: :cry: :eek: :lol: :mad: :sad: :!: :cool: :evil: :grin: :idea: :oops: :razz: :roll: :wink: :cry: :mrgreen: :neutral: :twisted: :arrow: :shock: :smile: :???:

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