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Quadro Clínico do Cinema Nacional

Publicado em: 29-09-2007 @ 9:49 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Recentemente, durante o Festival de Cinema de Gramado, o diretor Jorge Furtado declarou: “o cinema ainda não morreu, mas não vai muito bem de saúde”. Diretor de sucessos recentes do cinema nacional, como “O Homem que Copiava” e “Meu Tio Matou Um Cara”, Furtado chegou a este “diagnóstico” após sua mais nova obra, “Saneamento Básico – O Filme”, não ter ido tão bem nas bilheterias quanto se esperava. A baixa das bilheterias nacionais em 2007 até agora foi sentida por praticamente todos nossos cineastas, salvando raras exceções como “A Grande Família”, e quando um dos mais importantes cineastas brasileiros (autor do já clássico curta “Ilha das Flores”) sai declarando algo desse tipo aos quatro ventos, precisamos fazer uma reflexão um pouco maior, e aprofundar o “diagnóstico” de nosso cinema.

O objetivo aqui não é esgotar o assunto, e receitar medicamentos que possam curar nosso “doente”, mas apontar pelo menos os maiores “sintomas” que afetam nossa produção cinematográfica. Primeiramente falemos das políticas públicas voltadas para o cinema, ou melhor dizendo, da política: lei de incentivo baseada em renúncia fiscal. Seja na esfera municipal, estadual ou federal, as leis de incentivo sustentam nosso cinema, e ditam a sua lógica. Eis o primeiro paradoxo: políticas públicas baseadas nas leis de mercado, mas não no bem “público”.

A lei de incentivo não disponibiliza recursos diretamente para os filmes aprovados, mas sim uma espécie de “selo de qualidade”, que possibilita aos cineastas buscarem recursos no mercado com grandes patrocinadores, que por sua vez estão interessados em patrocinar apenas aquilo que os possibilite algum “lucro”. Ora, o que pode ser mais interessante aos olhos de um potencial patrocinador: o novo filme de Fernanda Montenegro ou a estréia de um jovem cineasta?

Pronto, está instalada uma competição acirrada entre a classe artística nacional pelas migalhas da iniciativa privada, filmes que teriam capacidade de ser produzidos sem a lei, como os da Globo Filmes, disputam o mesmo parco mercado que os cineastas independentes. Políticas públicas voltadas para a valorização de nossa produção cultural? Ora, estamos em tempos neoliberais, e o Estado deve se eximir de qualquer imposição ao mercado, pois este se auto-regula sozinho.

Uma vez instaurada tal lógica, resta aos realizadores centrar todos os seus esforços na busca por patrocínio para a produção, e quando muito para a pós-produção. Assim, uma outra fase igualmente importante do processo que envolve um filme fica esquecida: a distribuição. O número de salas que exibem filmes brasileiros é ínfima em comparação � s salas dedicadas ao cinema hollywoodiano, e o tempo de exibição também é igualmente ínfimo, um filme brasileiro que consegue ficar mais de duas semanas em cartaz pode-se considerar um vencedor, e você que insiste em gostar de nosso cinema deve se apressar para ver aquele filme que tanto esperou antes que ele saia de cartaz. O resultado em números: apenas 10% das produções nacionais conseguem receitas nas bilheterias correspondentes aos valores captados com leis de incentivo.

Além disso, uma vez negligenciada a distribuição presenciamos fenômeno no mínimo curioso: o “filme na lata”, aquele que chega a esperar anos por uma vaga no circuito nacional de exibição. Estabelece-se assim um círculo vicioso: como nossos filmes não dão lucro sem apoio estatal eles não podem existir, e como os prejuízos são assumidos pelo Estado nossos cineastas e produtoras também não precisam centrar esforços em criar um público para seus filmes. Todos se transformaram numa espécie nova de funcionalismo público, capacitada e selecionada (via as leis de incentivo) para produzir um estoque considerável de filmes para o Estado.

Se essa política cultural se mostra tão ineficiente, em números e em qualidade (uma vez que compromete a produção), por que ela não é modificada? Bem, o primeiro passo para isso seria uma articulação entre a própria classe dos cineastas, capaz de discutir e propor um novo modelo tanto para as leis de incentivo quanto para o circuito de distribuição. Discutir inclusive temas considerados polêmicos, como a reserva de mercado para o cinema nacional.

Argumenta-se contra a reserva que o nosso cinema deve se impor pela qualidade, que a obrigatoriedade em exibir filmes nacionais levaria inevitavelmente a um aumento no número de produções medianas, que teriam público garantido apenas graças � reserva. Mas quem argumenta isso fala como se o cinema brasileiro tivesse uma estética definida, como se nossa escola cinematográfica não tivesse passado por vários hiatos (o mais recente na era Collor, com o fechamento da EMBRAFILME). Para falarmos apenas na tão aclamada “qualidade” de nossa produção atual, citemos algumas “estéticas” atuais: os filmes trash infantis de Xuxa, Didi e “Eliana e os Golfinhos”; aqueles que mais parecem um capítulo da novela da seis como Dom (Machado de Assis dá voltas no túmulo); ou ainda, os apêndices de seriados ao estilo do “Casseta e Planeta”. Pelo visto, a estética dominante hoje em dia é uma estética televisiva, e não cinematográfica.

Como concorrer com “Transformers”, “Shrek” e “Piratas do Caribe”? Que além de milhões de dólares em efeitos especiais e publicidade são exibidos em centenas de salas no país inteiro. Uma saída seria abrir mais espaço para cineastas como o próprio Jorge Furtado, e filmes como os recentes “O Cheiro do Ralo” e o “Céu de Suely” (que contribuem para a estética do cinema nacional). E para mostrar como a idéia não é tão absurda basta falarmos de escolas mais tradicionais que a nossa, que nunca passaram por interrupções como passamos, já adotaram a reserva de mercado para concorrer contra Hollywood.

Vide os países da União Européia (para não falarmos dos asiáticos, fortíssimos com China e Índia), que graças � pressão dos mais famosos cineastas franceses conseguiram para o cinema dos países que a integram, a exibição obrigatória de 51% para seus filmes. A reserva de mercado foi tão benéfica que fez ressurgir o cinema de vários países: França, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Suécia e Holanda conseguiram reconquistar seu público. Está na hora de debatermos com seriedade o nosso cinema, e deixarmos de comprar o falacioso discurso neoliberal que prega liberdade de mercado entre desiguais, entre aqueles que dispõe de milhões (sejam hollywoodianos ou globais) e aqueles que lutam pela sobrevivência diária. No caso, a sobrevivência que está em jogo é de uma representação cultural importante para o país, o cinema, realizado por nossos artistas e focando em temas que nos são mais próximos do que carros que viram robôs ou piratas fantasmas.



6 Comentários

  1. Ronald Luis Rodrigues do Nascimento
    30 | setembro | 2007 às 01:32

    É um tapa na cara este artigo.
    Realmente tive que correr pra ver Saneamento Básico no cinema. Na semana seguinte ficou só nos horários ‘Sessão da Tarde’, impossível para quem trabalha…
    Nossa cultura ainda teima em não valorizar o que é nosso.
    Dificilmente uma pessoa escolhe ver 1 filme nacional, tendo 10 opções hollywoodianas…
    Contem comigo nesta batalha para salvar este moribundo…!!!

  2. Igor Vieira
    30 | setembro | 2007 às 17:05

    mt boa a matéria

    enquanto existirem filmes como os de Jorge Furtado ou Karim Aïnouz ou Beto Brant e outros, ainda há esperanças

  3. Babi
    2 | outubro | 2007 às 15:30

    Luiz, concordo plenamente com seu texto. A questão não é modificar, alterar ou mesmo debater as leis de incentivo como tanta gente fala. Elas seriam importantes apenas para a retomada do cinema depois da era Collor. E depois o próprio “mercado” assumiria este papel.
    Acredito, como você, que a distorção está no modelo atual de exibição. Mas o que se vê é o pessoal descolando o dinheiro das estatais e fazendo filme pra depois, ah depois, deixa pra lá o filme tá feito, não é assim??
    Na minha humilde opinião o governo deveria estabelecer uma premiação/concurso como por exemplo, a do Jovem cientista e destinar verba pra cineastas jovens, estudantes e etc e junto com a iniciativa privada garantir a exibição dos filmes vencedores em festivais pelo Brasil e exterior.
    Obrigada pela oportunidade.

  4. black
    4 | outubro | 2007 às 14:57

    com certeza vou espor aqui o maior prolema de tosos que naum foi dio na materia o problema esta nos gosto do povo, que muitas veses sabe criticar o inema nacional mas naum sabe apoiar quamdo eu assisti o muio geloe dois dedos d’agua eu tive de fazer um esforço tremendo par poder ver pois tive de sistir em matine e fico m cartas apenas uma semana enquantoa demonia da xuxa (desmonia sim p q eu naum emcontro explicaçao pra o filme dela estar em cartas ate hoje no uci cinemas)fica quase um ano em cartaz. enfim assisti o filme com dificuldade e contei para quem eu vise pela frente como o filme rera emgraçado e bem feito com um som de otima qualidae sem perder em nada pra um filme b estadinidense conclusao palavras ao vento ningum viu o filme se quen notou a existencia soh se encontra em big locadoras onde esta o erro? no tempo de exibiçao na fraca estrategia de marqueting (afinal fiquei sabendo do filme atraves do video show a hora em que sai do serviço para comprar refrigerante)o cheiro do ralo eu ive vontade de ver mas fico soh uma semna tbm em cartaz e era semana de prova nun deu pra dar cano na aula e assistir enfim o cinefalo acaba perdndo o interesse por estas e outras que rolam com o filme nacional sem falar que sao sempre 3 salas pra um mesmo filme estadunidense e apenas uma exibiçao diaria do filme nacional sacagem neh!

  5. felipe henrique
    4 | outubro | 2007 às 21:08

    NAO GOSTO DE FILME NACIONAL A MAIORIA E RUIM O UNICO DE QUE GOSTEI FOI CIDADE DE DEUS.
    ENTRE UM FILME NACIONAL E UM AMERICANO PREFIRO O AMERICANO SEM DUVIDA.

  6. Augusto
    4 | outubro | 2007 às 22:27

    O problemas dos filmes brasileiros é que eles não atendem ao que a maior parte do público procura. Filmes do tipo hollywoodiano. É isso que gostamos de ver, filmes de ação com muita explosão e tiros. O Japão faz filmes desse estilo, e agora eles tem chegado s locadoras brasileiras e agrado ao público. Os cineastas brasileiros deveriam fazer o mesmo, ganhar espaço no mercado primeiro, fazendo filmes que as pessoas gostam de ver, mesmo que não sejam muito originais, as velhas receitas dão certo. Depois que conquistarem o interesse da população os cineastas brasileiros podem tentar algo mais alternativo.
    Tropa de elite, por exemplo, é um filme brasileiro de ação mas com características dos filmes de hollywood que fazem sucesso:é violento e com muita ação. Por outro lado, também retrada a realidade do Brasil e possui toques do cinema alternativo. Essa receita está fazendo sucesso. Eu mesmo estou louco para ir ao cinema esse fim de semana para assistir o filme.

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