Quem nunca ouviu algum personagem de filme dizer: “Veja, o DNA da criatura está se multiplicando!”? Esses comentários são bastante comuns em filmes de ficção científica, nos quais, além do DNA, os cientistas conseguem observar vírus ou aquelas bactérias (que têm cara de protozoários) em simples microscópios ópticos (aliás, tudo nos filmes parece se resolver com um microscópio), o que, até o presente momento, é simplesmente impossível. Como pôde o Superman ter tido um filho com Louis Lane se ambos pertencem a espécies diferentes? (Será que o roteirista nunca ouviu falar em incompatibilidade genética?). Como a tartaruga de “Procurando Nemo” permanecia em uma corrente oceânica por horas sem subir para respirar? Sendo biólogo e cinéfilo, não poderia deixar de comentar esses impropérios biológicos tão comuns em Hollywood, tendo em vista a enorme ascensão da biologia dentro do nosso contexto atual, e que certamente representou para o cinema uma fonte inesgotável de idéias.
O principal alvo da indústria cinematográfica, sem dúvidas, é a molécula do DNA. Desde a sua descoberta, em 1953, pelos cientistas Watson e Crick, ela causou fascínio na humanidade por ser a chave da vida, um guia de instruções para a construção de um ser vivo. Na literatura, televisão, quadrinhos, cinema só se fala do tão famoso DNA. Antes de sua descoberta, os autores criavam suas histórias s escuras, como no caso do Frankstein, retalho de espólios humanos que tomam vida por um raio. Agora, através da biologia molecular e da engenharia genética, os criadores podem se sentir livres para trazer vida a qualquer tipo de criatura luz da ciência, bastando utilizar alguma justificativa que contenha a sigla DNA.
Este é o caso dos super-heróis, que apesar de serem capazes de realizar proezas física e biologicamente impossíveis, baseiam-se pelo menos sob algum aspecto em estudos científicos. Como exemplo, podemos citar o Homem-Aranha, que teve seu genoma modificado pela picada de uma aranha, tornando-se o mutante com os poderes que todos nós conhecemos. Por que não falar também do recente “X-Men 3”, no qual os mutantes enfrentaram um problema bastante criativo: um indivíduo que possuía em seu material genético um gene supressor de mutações bota os mutantes frente a uma questão nunca antes imaginada, a possibilidade de tornarem-se humanos, ou seja, de serem aceitos e de se tornarem seres sociais.
Além de entretenimento, alguns filmes já anteciparam até mesmo futuros problemas éticos pelos quais nós provavelmente passaremos, como a questão da discriminação gênica vista em “Gattaca”, ou a fabricação de clones para fins comerciais mostrada em “A Ilha”. Para finalizar, é preciso ressaltar a importância do cinema como fonte de conhecimento, e o cuidado que os estúdios deveriam ter antes de aceitar qualquer desculpa biológica para emendar retalhos de roteiro, de modo que prejudique o resultado final do filme. Agora, o velho clichê de que o mordomo era sempre o culpado pode ser atualizado: a culpa agora é do DNA.


17 | outubro | 2007 às 11:56
Bela matéria
As vezes ouvimos coisas que nos assustam, mas depois pensamos…
… deixa pra lá, isso é só um filme. rsrsrs
Contudo não podemos desprezar o auto conhecimento que isto nos traz e para os mais apaixonados por roteiros é um bom motivo para aprofundar nas pesquisas sobre os temas abordados.
Abraços