Foram poucos os livros que li que foram adaptados para o cinema. Sei que comparar dois tipos de arte não é muito aconselhável, seria comparar bananas com maçãs, alguns diriam, mas é mais ou menos isso que eu me proponho a fazer agora. A comparação, no caso, levaria em consideração o meu grau de satisfação depois de ter lido o livro ou visto o filme.
Geralmente, se eu for ler um livro adaptado para o cinema, prefiro que seja antes de ver o filme, já que o livro normalmente vem antes do filme. Mas já aconteceu de eu ler o livro depois de ter visto o filme. Por exemplo, só li “O Cemitério”, de Stephen King, alguns anos depois de ter visto o filme “O Cemitério Maldito”, de Mary Lambert. E o que aconteceu é que o livro deixou o filme bem atrás. Stephen King tem o poder de fazer com que a gente acredite naquilo tudo. Enquanto se está lendo “O Cemitério”, acredita-se piamente que aquele cemitério indÃgena tem mesmo o poder de ressuscitar os mortos, nem que eles venham como zumbis e com seus corpos ainda em contÃnuo estado de putrefação.
“Ah”, alguém poderia dizer, “mas o filme nunca é melhor que o livro”. Eu diria que isso é possÃvel sim. Alfred Hitchcock, por exemplo, nunca gostou de pegar livros importantes para adaptar. Ele jamais pegaria “Crime e Castigo”, do Dostoiévski, pra citar o exemplo que o próprio mestre deu. Ele preferia pegar obras menores e transformá-las em filmes maiores. O exemplo vivido por mim foi o de quando li “O Chefão”, de Mario Puzo. Apesar de ser um ótimo romance, comparado com “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola, o livro perde muitos pontos. A força que Coppola imprime na saga dos Corleone é algo sem paralelos na história do cinema.
Alguns livros são tão grandes e importantes que sempre que alguém tenta fazer uma adaptação deles, acaba dando com os burros n’água ou, na melhor das hipóteses, realiza obras medÃocres, como foi o caso de “Memórias Póstumas”, de André Klotzel, adaptado de um dos maiores clássicos da literatura (”Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis). No Brasil, eu diria que um dos melhores exemplos de boa adaptação para as telas foi o caso de CARANDIRU, que Hector Babenco fez do bonito livro de Dráuzio Varela.
É bem interessante ver alguns filmes tendo lido o livro em que ele se baseia. Uma das primeiras vezes que tive essa experiência foi quando vi no cinema “A Insustentável Leveza do Ser”, de Philip Kaufman, poucos dias depois de ter terminado de ler o romance homônimo de Milan Kundera. O livro até hoje está entre os meus preferidos de todos os tempos e o filme soube captar bem o espÃrito do romance, apesar da dificuldade que se tinha de adaptar as reflexões filosóficas de Kundera para as telas. A vantagem do filme é que vemos, materializadas em nossa frente, as personagens de Tereza e Sabina, que aparecem nuas no filme e na pele de duas atrizes excepcionais. O livro tinha alguns momentos bem quentes em se tratando de erotismo, mas o filme é mais explÃcito. Pode-se dizer que é um filme erótico. Até hoje me lembro de um texto de Eugenio Bucci, que saiu numa antiga edição da Revista SET, em que o crÃtico falava poeticamente dos pentelhos da personagem de Juliete Binoche. Acreditem, ficou muito bonito e nada vulgar.
Mais recentemente, pude ver a trilogia “O Senhor dos Anéis”, magnificamente dirigida por Peter Jackson, depois de ter lido os três livros de J.R.R. Tolkien. Eu diria que esse é o caso de filme que fica melhor pra quem leu os livros. Quem leu os livros e viu a bela adaptação - chegando à perfeição no último filme, em se tratando de fidelidade ao texto original - deve curtir muito mais o filme. Enquanto isso, eu conheço gente que odeia a trilogia e não quer mais ouvir falar de hobbits de jeito nenhum. Coincidência ou não, essas pessoas nunca leram os livros.
Talvez seja o mesmo caso de quem leu “Duna”, de Frank Herbert. Eu, que nunca li o livro, acho o filme de David Lynch um erro em sua carreira. Sem DUNA, eu diria que a filmografia de Lynch seria irretocável, perfeita. Por outro lado, já conheço gente que leu o livro de Herbert e considera o filme de Lynch o melhor de sua carreira, mesmo com todos os problemas de cortes, edição e ritmo irregular. Existe até uma versão estendida do filme, que saiu recentemente em DVD, mas eu até agora não tive coragem de pegar pra ver. Vai que o filme melhora, fica mais palatável e compreensÃvel…
Lembrei agora de “O Exorcista”. Li o livro de William Peter Blatty no inÃcio da minha adolescência. Na época, esse livro era visto como maldito e acredito que eu era muito novo para ler esse livro. Se bem que isso não me afetou muito não. O que mais me impressionou no livro - e que não tem no filme - foram as descrições das hóstias fabricadas para a missa negra. Mas faz muito tempo que li esse romance e fica difÃcil de lembrar de outros detalhes. Esse é talvez o caso de filme que ultrapassa a força do livro. “O Exorcista” de William Friedkin não é um filme de sustos, mas de mal estar, de clima pesado. Tanto que ele é um dos filmes que mais tem uma mitologia de maldição ao seu redor. Mas deve perder nesse quesito para “Incubus”, de Leslie Stevens.
Teria mais alguns para comentar, como “A Grande Arte” e “O Nome da Rosa”, por exemplo, mas esse texto já está ficando bem grande. Pra terminar: no ano passado li “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, e não gostei do livro. Não achei engraçado o senso de humor do autor e achei a história bem boba. Pode ser que o filme seja melhor, mas ontem mesmo um amigo que mora no Canadá falou que viu várias vezes o trailer do filme e achou insuportável. A seu favor: a) a obra serviu de referência para a obra-prima Ok, Computer, disco de 1997 do Radiohead; e b) a direção do filme é de Garth Jennings, que no currÃculo tem o interessante videoclipe “Imitation of Life”, do R.E.M.

15 | November | 2007 às 22:44
…Hmmm…um caso que eu acho muito interessante também é o de “Drácula de Bram Stoker” de Francis Ford Coppola - eu achei o filme muito, mas muuuuuuito melhor do que o livro em quase todos os aspectos.
16 | November | 2007 às 09:18
Isso é totalmente relativo;
Eu sempre leio o livro primeiro antes de ver o filme, e quando não dá tempo perco o filme no cinema e só vejo quando lançado em DVD. E vi o quanto é relativo.
Eu por exemplo li “O código da Vinci” e gostei muito do livro e detestei a adaptação para o cinema.Outro exemplo de superação -agora nacional - aconteceu com a obra “Lavoura Arcaica de Raduan Nassar ”
Já aconteceu o inverso com ” A espera de um Milagre de Stephen King ” que achei o filme superior ao livro ( caso raro nas adaptações de Stephen King )
Li um livro o ano passado chamado ” Uma vida Interrompida ” de Alice Sebold que ouvi dizer que seria adaptado para as telas pelas mãos de Peter Jackson ( O senhor dos Anéis).
Alguém confere ?
16 | November | 2007 às 09:19
Errata : O Filme Lavoura Arcaica foi superior ao livro, cometi uma injustiça . Desculpem
16 | November | 2007 às 09:51
Creio que, o que nos faz definir que o livro é melhor do que o filme e o contrário, se deve ao fato de criarmos um ambiente próprio em nossas mentes ao lermos um livro. Quando o filme não demonstra a mesma visão que guardamos do livro, geralmente não gostamos ou destacamos que este é inferior. Principalmente quando partes interessantes do livro não são narrados no filme.
16 | November | 2007 às 10:36
Eu geralmente não gosto muito de ver um filme depois de ter lido o livro, pelo menos pra mim o filme realmente nunca chega a ser como o livro. Mas até que em alguns casos eu tive boas surpresas, um bom exemplo disso foi Razão e Sensibilidade (que em muitos momentos, eu achei até bem melhor que o livro que às vezes era bem chato), O morro dos Ventos Uivantes que pra mim o filme é bem melhor que o livro. Outros que eu li o livro e achei que o filme foi bem fiel como Nárnia, que apesar do que falaram, estava bem fiel ao livro sim e Orgulho e Preconceito.
Mas a grande maioria eu realmente me decepciono quando eu leio primeiro o livro. Harry Potter e a Ordem da Fenix foi o exemplo mais recente disso, eu saà do cimena com raiva, pois além dos cortes terem sido enormes, foram partes importantes que eu não sei como eles vão ligar esse filme aos dois últimos. E O Codigo da Vinci que sinceramente, o filme é muito chato em comparação ao livro.
E O Guia do Mochieliro das Galáxias, a história é bem boba sim, daquelas que a gente lê em uma tarde se tiver tempo, infantil até, mas eu gostei do filme, não li o livro, estou no meio do terceiro volume, mas é pelo menos interessante e diferente!
16 | November | 2007 às 10:40
E no caso do Senhor dos Anéis… Bom EU CONFESSO, nunca consegui de terminar de ler o livro, oh livro chato, mas os filmes pra mim são impecáveis, eu sou capaz de ficar conversando com as pessoas que gostam da história horas a fio debatendo e discutindo as coisas do filmes, tanto quem leu os livros como quem vio os filmes!… Desculpem gente, eu sei que tem gente que gosta dos livros, mas gente, eu não consegui terminar o primeiro livro e olha que eu tentei umas 4 ou 5 vezes isso!
Beeijos
16 | November | 2007 às 10:41
Errata: VIU
17 | November | 2007 às 12:06
Muito bem lembrado o exemplo de RAZÃO E SENSIBILIDADE. Eu li o livro no original em inglês, depois de ter visto o filme que já havia adorado. Mas o livro é maravilhoso e uma delÃcia. É como se tivéssemos saboreando alguma comida especial.
Quanto ao CÓDIGO DA VINCI, eu acho um lixo tanto o livro quanto o filme. Mas o livro ao menos tem algo de interessante no que se refere à Maria Madalena.
Outro exemplo que eu não coloquei no texto foi o de DO INFERNO. A obra de Alan Moore coloca aquele filmeco no chinelo. Aliás, as obras de Moore adaptadas para o cinema dariam um outro artigo.
24 | December | 2007 às 14:57
Não vi muitos filmes adaptados de livros e, como foi dito no Ãnicio, acredito que sejam obras diferentes, linguagens diferentes, apesar de que a tentação de fazer tais comparações torna-se inevitável.
Porém, pegando um exemplo que veio a minha memória, O Código da Vinci, como filme, acho uma porcaria, e o livro eu achei de leitura bastante prazeroza.
Todavia, existem também o caso, não de adaptações, mas de influências, por exemplo, Match Point, a obra é permeada por influências de Dostóievisk (nem sei se escrevi corretamente), e a obra me agradou muito, na época acabara de ler Crime e Castigo, o que aguçou muito o aproveitamento do filme.
Acho que tais adaptações, ou influências, são boas para complementarem as temáticas abordadas e enxergar em uma outra linguagem, visão, obras queridas.
12 | March | 2008 às 18:03
Alguns livros que li antes de ver o filme foram:
Vários de Stephen King, toda a saga do Senhor dos Anéis, incluindo o Silmarillion e o Hobbit (o que me ajudou muito a compreender os filmes), o Código da Vinci, os dois primeiros do Harry Potter, teve muitos outros livros mas no momento só me lembro desses.
Só me lembro de um filme que vi antes de ler o livro foi:
Entrevista com o Vampiro que se não me engano o nome do livro é “O Vampiro Lestat”.