Desde que Fábio Barreto conseguiu a façanha de ter um filme indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro, “O Quatrilho” (1995), a cada novo sucesso de nosso cinema, cogita-se quais as chances de finalmente um filme brasileiro ganhar o prêmio mais famoso do cinema mundial. Não que premiações internacionais sejam novidade para nós, Glauber Rocha, Anselmo Duarte, Hector Babenco (mezzo argentino mezzo brasileiro) e até mesmo Arnaldo Jabor já tiveram filmes premiados em importantes festivais como Cannes, mas o prêmio da Academia de Artes de Hollywood tornou-se uma verdadeira obsessão brasileira.
Depois de “O Quatrilho” tivemos outros indicados: “O Que é isso Companheiro?”, “Central do Brasil”, “Cidade de Deus” (que conseguiu indicações importantes em categorias técnicas, como edição). “Central do Brasil” ganhou o urso de ouro em Berlim, num dos mais importantes festivais do mundo, além do urso de prata para Fernanda Montenegro como melhor atriz. Outros filmes não chegaram a ganhar prêmios, mas foram bem recebidos pela crítica internacional, como “Ceú de Estrelas” de Tata Amaral, e “Baile Perfumado” de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Mesmo assim, todas as vezes que nossos filmes figuraram entre os cinco indicados a filme estrangeiro acabamos esbarrando em outras escolas cinematográficas, como Holanda (por duas vezes) e Itália.
Primeiramente precisamos admitir algo que pode ser doloroso para os cinéfilos mais nacionalistas: todas as vezes que perdemos o Oscar, perdemos para filmes melhores do que os nossos. A recusa em admitir isso levou a um certo ressentimento por parte de nossos cineastas, um complexo de inferioridade, e alguns filmes antes mesmo de estrearem são colocados como representantes oficiais do Brasil, porque teriam mais chances de enfim ganhar a estatueta. Filmes bem resolvidos tecnicamente, que procuram “fórmulas” que possam conquistar os membros da academia acabam se perdendo em suas narrativas, como foi o caso de “Olga”, que virou uma doce história de amor entre uma judia e um brasileiro interrompida pelo nazismo, uma tentativa de realizar uma “Lista de Schindler” � brasileira?
A categoria de melhor filme estrangeiro é justamente a categoria na qual fórmulas menos funcionam, enquanto categorias como melhor ator e atriz possuem favoritos � priori (aqueles que interpretam doentes terminais, homossexuais, pessoas com problemas mentais), o filme estrangeiro não possui nenhum tema ou conteúdo privilegiado. Se alguns anos temos verdadeiras barbadas, quando sucessos internacionais apenas se confirmam, como “O Tigre e o Dragão”, em outros temos grandes surpresas, vide quando o delicioso “O Destino de Amélie Poulain” perdeu mesmo sendo um sucesso consolidado internacionalmente. Este ano tivemos outra surpresa, o maravilhoso “O Labirinto do Fauno”, mesmo recebendo três prêmios técnicos, perdeu justamente na categoria que era considerado favorito absoluto.
Neste ano já tivemos uma surpresa no próprio representante brasileiro, a comissão do Ministério da Cultura contrariou as expectativas de muita gente e indicou “O Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias”. Muitos preferiam o sucesso instantâneo “Tropa de Elite”, por suas inegáveis qualidades técnicas e por sua temática supostamente “social”. Sejamos sinceros mais uma vez: as tão aclamadas qualidades de “Tropa…” nos parecem tão grandes por se tratar de um filme nacional (mais uma vez nossos cinéfilos nacionalistas na área), qualquer filme de ação norte-americano como “Duro de Matar 4.0” ou “Transformers” possui as mesmas qualidades e mesmos truques pirotécnicos. Não que isso chegue a comprometer, é apenas um fato que deve ser reconhecido.
Já quanto ao “O Ano…”, me pareceu uma boa escolha. Trata-se de um filme que faz parte de uma onda recente de resgatar histórias da época do regime militar no Brasil, um tema sempre necessário, mas que acrescenta � sua história a maior paixão nacional, o futebol. Enquanto o menino Mauro espera pela volta de seus pais, militantes políticos que partiram para a clandestinidade dizendo que estavam saindo de férias, torce pela seleção brasileira de futebol na Copa do México. O clima político do Brasil nos anos de maior repressão do regime contrasta com a euforia provocada por Pelé & Cia, o que sugere uma reflexão sobre a luta política, o ufanismo provocado pelo futebol, e a alienação diante de uma ditadura no país.
A delicadeza com que o diretor Cao Hamburger conduz a história, aliada � s boas interpretações (principalmente do elenco infantil) são os grandes trunfos do filme. Se o filme tem chances de ganhar o Oscar? Essa é outra história, e francamente, ganhar prêmios é sempre bom, mas consolidar nosso cinema com linguagem e temática próprias é mais importante. A academia inclusive reconhece isso, por vezes o melhor filme estrangeiro vai justamente para escolas que alcançaram esse grau de maturidade, como China ou Itália. Essa é a grande contribuição de “O Ano…”, a partir de uma temática específica nossa faz um cinema que pode ser considerado universal, provando que nada substitui o valor de uma boa história bem contada, para isso não existem fórmulas mágicas.


14 | novembro | 2007 às 23:30
Oi!
Gostei muito do seu texto. Concordo principalmente quando você diz que nossos filmes perderam para outros melhores! Mas se “O Ano…” for indicado eu acho que tem muitas chances pela sensibilidade, é a ditadura através dos olhos do menino, não tem nenhuma cena de tortura ou violência explícita, mas mesmo nas horas da alegria da Copa, permanece o clima de tensão. Você diz que não tem fórmula e eu concordo, mas eu acho que Hollywood gosta de filmes sensíveis (sem dramalhão) e envolvendo crianças (Kolya, Cinema Paradiso, Pelle, A Vida é Bela). Se “O Ano…” concorrer entre os cinco, eu boto muita fé mesmo, vamos torcer!!
“aqueles que interpretam doentes terminais, homossexuais, pessoas com problemas mentais”
hahahahahahhaa adorei isso =P
15 | novembro | 2007 às 05:05
Olha, sobre o próprio Tropa de Elite que chegou a ser abordado, acho que ele é muito habilitado para estar em várias categorias do Oscar. Porque não?
Edição de som, melhor ator, melhor roteiro…
O que vocês acham?
16 | novembro | 2007 às 00:48
Eu já fui de torcer muito pra um filme nacional ganhar um oscar e ficar puto com o Benigni (antes de assistir o filme) porque A Vida É Bela ganhou e Central do Brasil não. Hoje nem ligo tanto assim. Até queria que o Brasil ganhasse, mas com um filme BOM!
E concordo com o pH quanto ao Tropa de Elite ter condições de concorrer, e de ganhar, nessas categorias. Afinal o filme é bom, porque não teria chances?
Boa matéria.. abraço!
16 | novembro | 2007 às 09:03
Discordo com você Luiz, acho se que no filme estrangeiros há uma formula para se ganhar o OSCAR, se você notar muitos filmes estrangeiros tem crianças envolvidas como A VIDA É BELA, que ganhou do brasileiro CENTRAL DO BRASIL.
Digo isso por que pelo que sei só quem pode votar nos filmes estrangeiro são aqueles que assistiram todos os indicados, então aqueles votam nos filmes estrangeiros são aqueles membros da academia mais idosos com mente mais fechada que filmes de ação como TROPAS DE ELITE ficariam com um pé atrás para o filme.
16 | novembro | 2007 às 09:15
Belmiro, legal esse seu texto.
Concordo com você, também acho “O Ano..” foi a melhor escolha. Com ele temos mais chances, vamos ver se desta vez vai.
Abraço.
16 | novembro | 2007 às 12:42
Eu jah fui de ligar pra Oscar, mas agora… pfff. Eu naum deixei de valorizar a premiação, até pq eu sempre assito e até torço, mas axo q essa coisa de fik “Ai meu Deus, será q vai ser indicado??” num é mais pra mim. Se algum filme brasileiro for indicado , ótimo, se não for ótimo também… O q vale mais pra mim é o sucesso do filme, e alguns prêmios mais sérios. O Oscar é muito arrumadinho, o filme ganha por ser “bonitinho”, sei lá tem umas coisas sem lógica q faz a Academia perder a credibilidade. Mas se o Brasil aparecer por lá… Boa sorte…
16 | novembro | 2007 às 20:21
Eu também não me preocupo, mas torço xD
E Alessandro, tem até uma piada q diz q se um filme tiver judeu, criança e cachorro já tem MUITAS chances de ganhar hehehehe
Bom, ‘O Ano…’ tem judeu e criança XD~~. Eu tb acho q Tropa teria condições de concorrer em outras categorias, com certeza. Mas tb concordo quando o Alessandro mencionou o conservadorismo da Academia :/ Eu achei justo ‘A Vida é Bela’ ter ganho, apesar de ter gostado muito de ‘Central do Brasil’. E não só ‘A Vida…’ envolvia criança, central do Brasil tb, dois Josués =PPPPP
17 | novembro | 2007 às 12:38
arazou to sem palavas eu ate musei minha conseptividae sobre o cinemanacional depois desta materia
17 | novembro | 2007 às 15:11
PH, acredito que “Tropa de Elite” tbm merece indicações técnicas ao OSCAR, mas acredito que isso não aconteça no próximo ano, pois o marketing está nulo nos EUA, algo que deveria ser maior que o de “Cidade de Deus”.
Se estiver errado, deve ser indicado em 2009 (Montagem e Roteiro original), mas Ator nunca, pois é um filme policial e atores estrangeiros somente na fórmula do drama, para a academia.
O Interessante é que “Tropa de elite” é melhor que “O Ano…”, mas como filme e não como arte!
Lembrem-se que Cinema é Arte! E isso é que conta para a academia (+ o tema social). Vejam novamente os indicados dos anos 90 pra frente , os “melhores filmes” quase não ganharam o OSCAR de melhor filme e sim de roteiro!
E no prêmio de Filme estrangeiro, sempre tem surpresa, e infelizmente filmes inferiores aos preferidos pela crítica e cinéfilos.
“O Fubuloso destino…”, “Labirinto do Fauno”, “Cidade Deus” perderem é lastimável, pq são melhores filmes, mas o que contou foi a arte empregada pelos outros cineastas!
A Academia é o prêmio mais valiosos e consequentemente ondo há as maiores injustiças. Agora vai saber o que se passa na cabeça de cada um dos votantes…, o que se pode concluir é que apenas diversas opiniões se encontram e se formam apenas uma, nem sempre a melhor.
18 | novembro | 2007 às 15:09
Adorei a matéria.
O Brasil tem uma coisa com filmes recém lançados e sempre pensa q essas megas bilheterias nacionais significa uma estatueta do Oscar. Queriam até que 2Filhos de Francisco fosse indicado.
Enfim, Sinceramente espero que o Brasil ganhe 1 Oscar, desde que o filme mereça.
19 | novembro | 2007 às 17:45
eu sempre torço mto pelo brasil…mas sinceramente se ele perdeu com “o que e isso companheiro?”, “cidade de deus” e “central do brasil” naum axo q vai ser com “O Ano…” q o brasil vai levar essa….
e quanto ao tropa de elite concorrer em tdas essa categorias q estaum flando ai….rsrs….axo q sou u uniko q naum concordo….>>pra mim
16 | dezembro | 2007 às 14:14
Justiça seja feita… Deixemos o ego patriótico de lado e reconheçamos que a Vida é Bela é ligeiramente superior a Central do Brasil. Não há o que comparar! Roteiro, fotografia, atuação, trilha sonora etc. Anos luzes a frente eu diria… O problema do cinema nacional é que só sabe explorar a miséria. Em linhas gerais é claro.