
Por vezes alguns filmes ultrapassam os limites de uma sala de cinema, ou da sala de casa (quando vistos em dvd), pois representam mais do que a história que contam, representam por vezes um estado de coisas latente na sociedade da qual são produtos. O mais recente exemplo de um filme assim é o novo longa de José Padilha (Ônibus 174), “Tropa de Elite”.
Desde antes de seu lançamento “Tropa” esteve envolvido em polêmicas, primeiramente quando foi alvo de pirataria até então inédita para um filme nacional, em qualquer esquina das grandes cidades do país era possível achar um dvd � cinco reais. Recém-lançado, para platéias seletas em festivais de cinema, o filme esteve mais uma vez no centro de debates calorosos, pois recebeu acusações de se tratar de uma obra fascista.
Mas o que é fascismo? Recorrendo � Wikipédia, que se referenciou num artigo da Enciclopédia Italiana de 1932, escrito por Giovanni Gentile e atribuído a Benito Mussolini, o fascismo é descrito como um sistema no qual “o Estado não apenas é autoridade que governa e molda as vontades individuais com leis e valores da vida espiritual, mas também poder que faz com que a sua vontade no estrangeiro prevaleça. …Para o fascista, tudo está dentro do Estado e … nem indivíduos ou grupos estão fora do Estado… Para o Fascismo, o Estado é absoluto, perante o qual os indivíduos ou grupos são apenas algo de relativo.” Nesse sentido, “Tropa” pode ser caracterizado como fascista? Creio que não, pois até certo ponto denuncia a falência de nosso Estado para resolver os problemas da segurança pública. Produções hollywoodianas recentes, como “300” e “Tróia” estariam mais próximas de serem fascistas, por trazerem toda uma simbologia embutida, como já apontaram diversos críticos. Isso quer dizer que “Tropa” faz um retrato contundente da realidade social brasileira dos dias de hoje? Que se trata de uma obra essencial para quem procura entender nosso país?
Para a primeira pergunta a resposta é sim, poucas vez se viu a violência em nossas favelas tratada de maneira tão nua e crua, mas para a segunda pergunta a resposta é não necessariamente. Justamente as características que fazem do filme uma obra tão forte é que colocam em cheque a sua interpretação da realidade social brasileira, primeiramente a opção do diretor de ter como narrador em off o capitão Nascimento (personagem de Wagner Moura): a versão que ouvimos da “guerra” do tráfico é a sua, somos levados a comprá-la como a verdadeira. Aqui não acontece como “Platoon”, no qual o narrador Charlie Sheen se divide entre a versão de dois superiores seus, Tom Berenger e Willen Defoe, e ao final acaba escolhendo um dos lados, já em “Tropa” não há opção: se correr o bicho pega se ficar o bicho come (ou melhor, mata). Ainda mais quando a narrativa se pretende tão próxima a de um documentário (no caso um documentário com um único entrevistado), estamos diante de uma testemunha ocular dos fatos, portanto qualquer opinião nossa vai parecer arrogante e infundada, tomada a partir da experiência de quem vive numa torre de marfim. E essa impressão fica forte por um detalhe muito importante: o personagem melhor desenvolvido de todo filme é o próprio Capitão Nascimento (interpretado magistralmente por Wagner Moura), cheio de contradições, motivações e o único capaz de interpretar a realidade que cerca a todos.
De um lado estão os traficantes sanguinários, de outro os policiais corruptos que não fazem seu trabalho direito, a única saída é o BOPE, que conta em seus quadros com policiais capazes de fazer o que deve ser feito. E justificando a existência do tráfico está a classe média, que sonha em consumir seu baseado impunemente nos intervalos de seu trabalho voluntário em ong’s. Esse é o máximo de complexidade com que o filme trata drogas e violência policial, algo estranho, para um cineasta que conseguiu tecer uma teia bem mais complexa a partir do caso de seqüestro do ônibus em 2000. Esse sim, um documentário que consegue construir uma história a partir de diversos pontos de vistas, conflitantes por vezes, mas que ajudam a compor um quadro geral a partir de um fato isolado.
Um filme é antes de tudo uma obra de arte, que se insere numa linguagem específica (no caso a cinematográfica), e que não necessariamente precisa falar das mazelas sociais para possuir valor artístico. Mas uma vez que resolve fazer dessas mazelas seu tema, espera-se que ao menos não pegue uma história e seus personagens (policiais, traficantes, “maconherinhos”) e os retire de seu contexto social mais amplo, isso o empobrece tanto como interpretação quanto como obra cinematográfica. Por exemplo, imaginem se mais alguns personagens do filme tivessem a mesma profundidade do Capitão Nascimento.
Num contexto social mais amplo é que a recepção do filme ganha mais significado do que o próprio filme, em entrevistas o diretor e os atores afirmam que não desejavam fazer uma apologia da tortura como prática comum da polícia, que leituras que sugerem isso estão totalmente equivocadas. Então uma pergunta faz-se não só necessária, mas urgente: que tipo de sociedade celebra cenas de tortura e as exalta como comportamento esperado de sua polícia? O mesmo tipo de sociedade que lava as mãos e não se responsabiliza perante seus atos, vejamos o caso dos viciados em drogas: se eu sou um filho da classe média viciado em maconha ou cocaína levo a morte pra dentro da favela, então se eu passar a consumir drogas sintéticas (como êxtase), vendidas por traficantes de classe média como eu está tudo resolvido, acabaram-se os problemas da favela. Afinal, quando se faz uma batida atrás de um traficante de êxtase não se tortura livremente seus vizinhos até que o entreguem, a sociedade se revoltaria com casos assim contra moradores de apartamentos bem localizados.
Mas o problema das inúmeras favelas no Rio e pelo Brasil a fora não se reduz � s drogas: saneamento básico, educação e desemprego também fazem parte do pacote. Enfrentar todos esses problemas requer responsabilidade e tomada de posição política (partidária ou não), e é muito mais fácil culpar traficantes, policiais corruptos, viciados ou até mesmo cineastas pelos problemas sociais. Enquanto isso não ocorrer o problema só tende a piorar, e quando o BOPE descer o morro pra fazer incursões na zona sul do Rio (porque uma hora fatalmente isso vai acontecer se não for feito nada), aí sim estaremos � beira do fascismo.


3 | dezembro | 2007 às 01:56
Excelente texto, Luiz. Mas Tropa de Elite, na minha opinião, já deu. Falaram tanto que ficou chato.
Porém, concordo que cinema é muito mais do que aquilo que é mostrado na sala de cinema. Eu adoro quando o filme vai muito além. Grandes filmes sempre foram além. E até aqueles nem tão bons, foram além. Adoro discutir pós-sessão. Isso só valoriza o trabalho de quem passou 3/4 anos para produzir um longa!
3 | dezembro | 2007 às 10:12
Pois é Jurandir, esse texto foi escrito na semana de estréia, mas acabou se perdendo no envio. Mas o artigo da Maíra sobre o filme já tratou de levantar a discussão, isso é o mais importante. E na minha opinião o maior mérito do filme é justamente esse: levantar a discussão sobre um tema tão urgente no Brasil.
3 | dezembro | 2007 às 10:54
Belo texto Belmiro, mas acho que o Tropa de Elite fez tanto sucesso nao foi porque mostra o lado da policia, e sim pq ele mostrou uma realidade do morro que a maioria da sociedade nao conhece, que é essa da policia chegar mandar bala, matar e perguntar depois. Os filmes brasileiros ha muito tempo mostram essa realidade mas sempre foi na visão do bandido, e Tropa de Elite nao mostrou a do policial.
3 | dezembro | 2007 às 11:36
O mais interessante que eu percebi com esse fenômeno Tropa de Elite é que todo mundo fica satisfeito vendo o Cap. Nascimento fazer aquelas coisas, vendo o esquema da polícia e os traficantes, daí acaba o filme e todo mundo vai p/ sua casa dormir. Ali tem denúncias. Alí tem coisa a ser apurada. Mas ficou por isso…
Vai ser só mais um episódio bacana pro cinema, tratando de um fato real e que ninguém vai fazer nada. Parece que é mal de brasileiro aceitar porrada na cara.