Reflexões sobre a Morte

Publicado em: 13-02-2008 @ 11:49 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Reflexões sobre a morte. Como ela é mostrada em alguns filmes. A morte para os que vão e para os que ficam. Os segredos que vão para a sepultura. O simbolismo ocidental. A maior certeza da vida.

Vez ou outra a morte aporta em nossas vidas e nos faz refletir sobre o sentido disso tudo. Se não encontramos resposta, pelo menos ficamos mais conscientes de nossa finitude e de nossa fragilidade. Há alguns dias, morreu um grande amigo meu. Fiquei abalado não só pelo fato de o rapaz ter sido meu amigo, mas também por ele ter a mesma idade que eu. E pensar que eu ainda viverei coisas boas durante um bom tempo - pelo menos, assim espero - e que a vida dele já chegou ao fim é algo difícil de aceitar.

Desculpem o assunto mórbido para uma coluna de um site tão alegre como o CCR, mas esse é o assunto em pauta na minha cabeça atualmente. Até por estar lendo também o livro “Por um Fio”, de Dráuzio Varella, sobre a experiência do médico com pacientes com doenças terminais, como câncer e AIDS. Como esse espaço é sobre cinema, falemos, então, sobre alguns momentos marcantes onde a Dona Morte surge e de que maneira os vivos se comportam diante da perda do ente querido.

A cultura européia costuma materializar a morte como um homem trajando vestes pretas e empunhando uma foice. Às vezes esse homem pode surgir com o rosto de uma caveira. Recentemente algumas obras têm mostrado a morte como uma mulher sensual e atraente. É assim nos quadrinhos “Sandman”, de Neil Gaiman; é assim no filme “Alma Corsária”, de Carlos Reichenbach. Não deixa de ser mais confortante imaginar a morte como uma bela e gentil mulher, não?

No famoso “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman, um homem negocia com a morte - até joga xadrez com ela, em troca de mais uns dias no mundo. Mas isso, imagino eu, deve ser raro de acontecer. Geralmente não é possível negociar ou enganar a dita cuja. Dois filmes de terror recente - “Premonição” e “Premonição 2″ - mostram pessoas tentando driblar ou enganar a morte, mesmo sabendo que ela está à espreita, esperando pelo melhor momento para atacar.

Como será a morte? Será como no filme “Ghost - Do Outro Lado da Vida”, em que o espírito do morto vê tudo que acontece ao redor e não tem condições de se comunicar com os vivos? Se for assim deve ser no mínimo perturbador. Acredito que um dia iremos saber como é.

Interessante notar também que, quando morremos, muitos de nossos segredos vão para a sepultura. Jamais conhecemos inteiramente alguém. Como acontece no clássico “Cidadão Kane”, de Orson Welles, aquilo que a pessoa morta um dia foi fica gravado de maneira diferente na memória dos vivos. Cada pessoa encara o sujeito de maneira diferente. O homem é um enigma.

Uma das coisas mais difíceis para quem fica é encarar a perda, o fato de nunca mais ver a pessoa amada. Em “Paraíso Infernal”, de Howard Hawks, o personagem de Cary Grant encara a morte como algo extremamente doloroso, mas que deve ser superado. A vida é urgente e cheia de preocupações. Não há tempo para chorar a morte do amigo. Nos filmes de Hawks, os homens são durões, não choram com facilidade, mas é fácil imaginar que Grant estivesse derramando algumas lágrimas, escondidas na chuva, numa das cenas finais do filme.

Há também os filmes sobre experiência de quase morte. Como é o caso de “Sem Medo de Viver”, de Peter Weir. Às vezes, uma experiência traumática pode mudar todo nosso conceito da vida, pode nos fazer enxergar as coisas de perspectivas diferentes.

Alguns dos filmes que mais me fazem chorar são aquelas que mostram pessoas sob a iminência da morte, como é o caso de “Os Últimos Passos de um Homem”, de Tim Robbins, de “Minha Vida”, de Bruce Joel Rubin, ou do mais recente “Minha Vida sem Mim”, de Isabel Coixet. No primeiro dos três filmes, o inimigo do homem é a lei do país, que utiliza a pena de morte para crimes hediondos. O personagem de Sean Penn estuprou e matou, mas a figura de uma freira, cheia de amor fraternal nos passa uma mensagem de amor que faz com que qualquer ódio que sintamos por aquele assassino caia por terra. Nos outros dois filmes, vemos duas pessoas que vivem felizes suas vidas normais até descobrirem que são portadoras de uma doença muito grave que lhes dá poucos meses de vida. Em “Minha Vida”, Michael Keaton é feliz, casado com uma bela mulher (Nicole Kidman), que está grávida de um filho seu. O maior desejo dele é estar vivo para testemunhar o nascimento de seu filho. Já a protagonista de “Minha Vida sem Mim” (Sarah Polley), prefere não contar para ninguém que está prestes a morrer. Ela prefere fazer uma lista de coisas que ela nunca fez e que pretende fazer antes de partir. Em todos esses filmes vemos o quanto a vida é importante e o quanto ela é breve.

A angústia da morte vai estar sempre perto, por mais que a expectativa de vida da gente tenha aumentado. Nem que um dia o ser humano possa viver mais de 200 anos, sempre vai haver um fim. Tem uma frase de Woody Allen que eu acho genial: “Não tenho medo da morte, só não quero estar presente quando ela chegar“. Uma coisa é sabermos que a morte é a maior certeza da vida, como já sabemos, outra coisa é vivenciar a expectativa dela de fato.




2 Comentários

  1. Marcelo Coldfer
    14 | February | 2008 às 08:58

    Não sou muito de elogiar não Ailton, mas seu texto está ótimo.

    Os Filmes citados se encaixaram perfeitamente

    Congratulations !

  2. Ailton Monteiro
    15 | March | 2008 às 12:59

    Opa! Obrigado, Marcelo! (Desculpa pelo atraso da resposta) :)

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