O Passado Hoje

Publicado em: 31-03-2008 @ 2:08 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Então, tentativa n.101 de se escrever uma coluna. Penso, penso… Jogo as idéias para o futuro e não fisgo nada. Rebolo as caixas do presente, mas não ouvi nenhum click. E aí? Bem, me resta o passado. E na mesma hora que trago o passado para a mesa, mil clicks estalam e algumas memórias fílmicas aparecem para compor as linhas de hoje.

Ultimamente, andei me apegando a certas idéias ditas por pessoas do meu convívio ou personagens das historias que vejo. Idéias como “desapego ao passado”, “desespero silencioso” e “enjôo emocional” andaram recorrentes nas últimas semanas. Até eu me espantei com as descobertas que fiz, e em todas elas, o passado era o protagonista.

Paro para pensar um pouco, com a ajuda de um passarinho azul, e me recordo de personagens que desenrolaram histórias com o “Passado”. A primeira que me veio à mente nem é exatamente de um filme, mas de um seriado. Susan Mayer, de “Desperate Housewives”, personagem da atriz Teri Hatcher, vive uma série de dramas pessoais, porque não consegue se desvencilhar do ex-marido, o passado, que vive interferindo no seu presente e bagunçando as possibilidades de futuro feliz.

Partindo do mesmo princípio da Susan, mas com personalidades e situações diferentes, lembrei de Hermila Guedes, que interpretou a Hermila, em “O Céu de Suely”. Ela começa presa por uma relação do passado, ansiando para que isso continuasse fazendo parte do seu presente, mas o destino não quis assim. Então, Hermila se desapega do fato do passado, engolindo o sofrimento e encarando a situação. Mas, apesar de ter conseguido tomar uma atitude prática, esse ponto do passado dela ainda vai ser relembrado.

São duas formas sofridas de viver o passado no presente. Ansiedade, angústia, tristeza. Costumo me referir aos medos do passado como “fantasmas”. E foi lembrando de “Casablanca” que identifiquei melhor isso. Nenhum dos personagens fala isso, mas o modo como Ricky, personagem de Humphrey Bogart, reage ao encontrar Ilsa, encarnada por Ingrid Bergman, me fez ouvir um click mais alto, dizendo “fantasma!”.

Ricky parecia completamente atormentado pelo passado com Ilsa, e o ar displicente dele tentava disfarçar isso. Ou, por outro lado, justificava o tormento. É dele um dos diálogos que mais me agradam no cinema, quando em uma conversa no bar, ele responde “faz tanto tempo que não me lembro”, quando perguntam sobre o que tinha feito na noite anterior. E quando perguntado sobre o que fará na noite seguinte, ele retruca: “Não faço planos com antecedência”. Aquele que ignora o ontem, releva o agora e aparenta expectativa pelo amanhã. Toda essa relação sentimental com o tempo é capaz de te pôr para pensar… E digo sentimental, porque friso principalmente as relações pessoais.

No seriado “Sex and the City”, em determinado episódio, as personagens discutem quanto tempo leva para curar uma dor de cotovelo. E essa pergunta me foi feita semana passada também. Afinal, tem como medir? Quanto tempo do futuro leva para esquecer algo do passado? Há quem diga nunca. Há quem diga que depende da intensidade da relação. Há quem diga, metodicamente, que leva metade do tempo que a relação toda durou. Eu acho que só o tempo vai dizer. Literalmente.

E pensando em (Hector) Babenco, fiquei remoendo isso, já que no seu último filme, “O Passado”, o personagem de Gael Garcia Bernal passa por um redemoinho de relações atormentadas por passados e presentes e futuros. Bem, foi o que eu entendi, na verdade, porque ainda não vi o filme. Certamente ele vai me dar o que pensar. Talvez, pontos com os quais vou me identificar. Ou, no mínimo, vou ficar com a música do Cazuza passando de background na cabeça: “eu vejo o futuro repetindo o passado, eu vejo um museu de grandes novidades, o tempo não pára”. Dizem para a gente aprender com o passado. Subtendo, então, que devemos superar e entender o que nos aconteceu, para evitarmos dor de cabeça no futuro. Seria ótimo se funcionasse assim, bem certinho na prática, hein?

No final das contas, o passado não pode ser deletado, como “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” insinuou. Ele pode ser superado, jogado de lado, colocado na prateleira menos importante da estante, mas ele faz parte da gente. Somos hoje o que fizemos no passado, enfim. Melhor ou pior, não interessa, mas um reflexo das águas que já passaram. Logo, logo, essa coluna, por exemplo, vira passado. Ou já virou? O tempo não pára.




17 Comentários

  1. Jurandir Filho
    31 | March | 2008 às 02:18

    Padrão de qualidade Maíra Suspiro. Excelente matéria. Muito gente diz que o passado tem que ficar no passado. Eu digo diferente. Precisamos aprender com o passado, para fazer melhor no presente e no futuro. As pessoas são feitas de histórias e experiências, e isso só leva a crer que o passado tem muita importância!

    Coisa do passado não podem ser deletadas, mas podem ser esquecidas ou jogadas em umas das gavetas obscuras do cérebro!

  2. Jurandir Filho
    31 | March | 2008 às 02:19

    Ahh, e essa foto hein? :cool:

  3. Maíra Suspiro
    31 | March | 2008 às 12:43

    Que que tem a foto? ¬¬
    Já vai voltar a tirar onda com as minhas maluquices? haha

    By the way, valeu pela comentário, querido diretor :P

  4. Igor Vieira
    31 | March | 2008 às 20:42

    gostava mais de ser anjo
    (frescando)

    reafirmo aqui o que te direi no gmail daqui a pouco
    (confuso!)

  5. Taci
    31 | March | 2008 às 21:06

    aeeeew… RC e coluna da maíra!! \o/
    e maíra no RC! \o/ \o/

    gostei muito da matéria!
    acho que o passado tem que ser superado, não no sentido de ser esquecido - até porque é impossível - e sim, pra se tirar lições dele, e poder nos guiar no presente e futuro…

    gosto muito como você consegue trazer os conteúdos dos filmes para o nosso cotidiano!

    PARABÉNS! :wink:

  6. Maíra Suspiro
    31 | March | 2008 às 21:42

    Taci,

    que querida, você :* adorei seus comentários dessa semana. espero continuar agradando. beijo pra você :)

    E Igor,
    tu é meu anjo mesmo não querendo :P e tua opinião é maisquedemais importante :)

  7. Raphael Queiroz
    1 | April | 2008 às 09:22

    Excelente matéria!! Gostei muito do tema! O passado não é algoq deva ser esquecido, é de lá q retiramos nossa mais tenras lembranças, assim como nossos piores momentos, nós não devemos esquece-los, pois temos que nos agarrar aos momentos bons e aprender a superar os ruins!!( Auto-ajuda??!!) O passado é a nossa história e quem sabe não pode se tornar um bom filme!!

  8. Gustavo Ferreira(Bauru SP)
    1 | April | 2008 às 13:45

    existe um ditado popular muito falado(logicamente):

    QUEM VIVE DE PASSADO É MUSEU!!!!!!

  9. Jurandir Filho
    1 | April | 2008 às 14:45

    Nem sempre, Gustavo. Sem passado, você é nada.

  10. Leandro Campos Mendes
    3 | April | 2008 às 19:26

    bom, acredito que os problemas superados no passado nos deixam mais fortes pro presente e futuro. Quem não consegue aprender com os erros do passado sempre vai dar com a cara no muro pela mesma situação, o que importa é não deixar o passado impedir de seguirmos em frente com nossas vidas. O passado pode ser lindo ao meu ver porque de certa forma o nosso subconciente deleta boa parte dos momentor ruins do passado, ficam apenas os momentos que realmente marcaram e os bons momentos(leia-se momentos felizes). Com certeza quem vive de passado é museu, porquê afinal de contas foi um tempo que passou. Não adianta querer reviver os bons momentos, siga em frente e busque por novos momentos agradáveis, superando os momentos ruins(eita pleonasmo!)

  11. Max Oliveira
    3 | April | 2008 às 19:42

    Proponho aqui a criação de um selo de qualidade com a marca Maíra Suspiro! Caramba! Sempre mantendo e evoluindo o padrão, mesmo quando as idéias não dão os cliks desejados!

    O assunto é excelente e meche muito comigo.
    Existem coisas no nosso passado que tudo o que mais gostaríamos é de esquecer. Quem nunca se sentiu totalmente destruído após o fim de um relacionamento, ou com o falecimento de um ente querido, ou com uma grande derrota no passado? E quem conseguiu se livrar desse sentimento de tristeza, mágoa, ressentimento em pouco tempo? Já me senti mal ao ponto de me arrepender de ter conhecido tal mulher que me deixou com tal sensação após o término do relacionamento. Mas hoje encaro as coisas de uma forma diferente. Se estou sentindo uma tristeza tão grande assim, é reflexo de ter sido muito feliz em outrora com aquela com quem não estou mais. Não tê-la conhecido significaria jamais ter sentido essa coisa boa que ela teria me proporcionado. E o sentimento de tristeza apenas reforça a idéia do quanto foi bom enquanto durou. É esse misto de sensações é o que me faz sentir vivo! Portanto, será mesmo que gostaríamos de esquecer isso?! Será que vale a pena esquecer momentos felizes na vida pq a saudade dos mesmos nos faz tristes? Será que vale a pena esquecer um falecido amado parente simplesmente pq sua falta nos faz triste? A maturidade para assimilar tudo isso é o que nos proporciona seguir em frente, sem se esquecer das coisas maravilhosas que tivemos no passado, e que, por alguma razão, talvez não tenhamos no presente.
    Esquecer o passado, é esquecer quem você é. Sem o passado, os seres humanos não aprenderiam nada para fazer seu futuro.

    Talvez a vida seja um laboratório e o passado sejam nossos registros de experiências. E qualquer um sabe que registros de experiências são fundamentais para a evolução… de pesquisas, de trabalhos,… de pessoas…

    Pra ilustrar, vou citar o sábio Rafiki em O Rei Leão.
    “Ah, sim, o passado pode doer. Mas, do jeito que eu vejo, você pode correr dele, ou aprender com ele.”

    Bjo
    Excelente coluna… mais uma vez!

  12. Vanessa Carvalho (31 Anos Manaus)
    3 | April | 2008 às 21:59

    O Futuro só existe porque houve um passado. É através dele que nos tornamos quem somos. Negar esse passado… Ficamos sem identidade…

    Suspiro… Linda matéria

  13. Alexandre Montenegro
    4 | April | 2008 às 01:22

    “…colocado na prateleira menos importante da estante…”

    Essa foi forte Maíra…muito bom!!!!

  14. Daniela Bená
    4 | April | 2008 às 18:43

    Parabens, também gostei muito da matéria.

    Quando a Maíra falou sobre colocar na preteleira menos importante, na hora fui arremetida a um filme, O apanhador de sonhos. No momento que MRs. Grey esta tomando o corpo do Jonesy e ele se tranca em um “quarto” na propria mente, e depois protege as informações sobre o Duddits no mesmo lugar.

  15. Daniela Bená
    4 | April | 2008 às 18:46

    *prateleira

  16. Maíra Suspiro
    5 | April | 2008 às 10:50

    Raphael,

    que bom que você curtiu. certamente o passado de muita gente ai daria um filme bom. haha. só dispenso o clima de auto-ajuda. particularmente, tenho certo pavor dessa linha. beijo :*

    Gustavo,

    existe mesmo esse ditado. e até concordo que não devemos viver do passado. só não podemos esquece-lo totalmente, né? só supera-lo. beijo!

    Leandro,

    acho sensacional quem consegue esquecer os momentos difíceis e ruins do passado facilmente… tem gente que só tem memória para os momentos ruins, né? :*

    Max,

    hahaha, padrão qualidade? vou mandar minhas colunas para o imetro aprovar :P mas sim, adorei a citação do Rafiki que você colocou. e a idéia do laboratório também foi bem interessante. :*

    Vanessa,

    comentário curto e objetivo. resumiu a coluna como eu imaginei mesmo. :) beijo

    Alexandre,

    eu adoro essa frase. aprendi ela num momento bem denso do meu passado. beijo :*

    Daniel,

    vou prestar atenção nesse filme, não tive oportunidade de vê-lo por inteiro. :*

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