De Volta ao Planeta dos Macacos

Publicado em: 15-05-2008 @ 3:15 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Zé Ronaldo

Ao escutar o RapaduraCast 76, da última sexta-feira (09/05), fiquei surpreso pelo fato do Jurandir dedicar um tempo do início do programa a um comunicado. Minha surpresa foi maior pelo motivo de tal pronunciamento: preconceito.

Não imaginava que pessoas deixavam de desfrutar do semanal por causa de razões medíocres como o nosso sotaque e até o pelo nome do cast. Pensei que em um mundo dito como globalizado, em uma sociedade da informação onde temos acesso ao conhecimento a toda hora e em qualquer lugar, finalmente tínhamos saído da “Idade das Trevas”. Que, de fato, a humanidade progrediu. Todavia, se uma diferença cultural é capaz de gerar um empecilho dessa proporção, de alguém se negar a usufruir de algo que lhe pode ser útil e agradável por conta de estigmas, então devo supor que houve um retrocesso colossal.

Este é outro ponto negativo que atribuo aos meios de comunicação: a formação de estereótipos. Quantas vezes vemos em novelas e seriados a rotulação que determinadas etnias sofrem? Por exemplo, canso ver em novelas que os nordestinos são retratados somente como flagelados da seca. Que só andamos vestidos de cangaceiro, onde todos moram em um sertão escaldante, que criamos jumentos no quintal de casa. E também, independente do estado do Nordeste, todos falam “Ó xente” a torto e a direito. Como se não existissem diferenças culturais entre os estados. Como se o baiano não tivesse costumes díspares do cearense, e este do pernambucano, e do paraibano, do sergipano ou do potiguar. Como se não tivéssemos urbanização e nem desfrutássemos de tecnologia. Ou não tomássemos Coca-Cola ou escutássemos rock.

Mas o nordestino não é a única vítima destes arquétipos. Percebo muito como os gaúchos são alvos de piadas relacionadas a homossexualismo. E quem vê, pensa que tal informação procede. Na minha graduação, tenho uma colega de sala que é gaúcha. Já cheguei a debater com ela sobre isso. Ela me falou que o que se é veiculado pela mídia a respeito dos gaúchos, assim como com os nordestinos, não passa de uma caricatura distorcida. Assim como já percebi pessoas dizendo que no Rio de Janeiro só há favela e traficante. Que os cidadãos tomam café da manhã em meio a tiroteios. Como se fosse um pedaço do Iraque ou Porto Príncipe aqui no Brasil. Sendo que o que se vê no noticiário ou nos filmes é só um lado de uma realidade. Pois muitos sabem que lá existem coisas que a fazem receber a alcunha de “Cidade Maravilhosa”.

Tudo bem que às vezes fazemos piadas e rimos a respeito das dessemelhanças alheias. E que fazemos chacotas de nós mesmos, numa espécie de autocrítica saudável. Mas quando ultrapassa uma fronteira, chegando ao ponto de marginalizar e hostilizar certos grupos, é atuar no papel de alguém ignorante e intolerante. Filmes como “O Sol é Para Todos”, “Filadélfia”, “A Lista de Schindler”, “Faça a Coisa Certa”; de aventura como “X-Men” e ficção científica como “Planeta dos Macacos”; servem de exemplo das conseqüências da discriminação com o que é diferente. Afinal, aproveito este espaço para mostrar que o cinema não é só entretenimento, mas também uma reflexão do homem a respeito dele mesmo e do meio em que vive.

Para concluir, quero externar que este episódio, com base nos comentários postados repudiando tal conduta, só mostrou o quanto vocês dão valor ao trabalho do CCR. Neste pouco tempo que colaboro para o blog do portal, posso garantir que estou satisfeito em fazer parte da equipe. Principalmente, por conta de vocês, leitores! Desde minha primeira matéria, guardo todos os comentários em uma pasta em meu e-mail. Mesmo aqueles que não concordam em nada em certos artigos. Afinal, o que todos nós temos em comum é isso: ser diferente do outro. Leitores como vocês é que fazem valer a pena ficar na frente do computador e escrever sobre algo que irá despertar sua atenção. Bom, esse é meu recado. E, claro, não deixem de comentar. Um grande abraço!




13 Comentários

  1. Marcelo Silva
    15 | May | 2008 às 15:29

    Realmente, me surpreendi também. Esperava me assustar (porque eu sou bobo e me assusto toda semana com o estalo da vinheta que começa o RapaduraCast) mas aí fiquei surpreso com o comunicado do Jurandir. Surpreso e chateado, claro…

    Nem acreditava no que ouvia enquanto ele falava, tamanho absurdo que era. Este é o melhor site de cinema que eu já visitei e o Rapaduracast é um dos melhores que já ouvi, talvez o melhor. E é uma pena que algumas pessoas que usam tudo isso ainda se sentem no direito de falar merda sobre sotaque ou coisa do tipo.

    Infelizmente, já criaram estereótipos de todo mundo no Brasil e no mundo. Por mais deprimente que seja, é assim, Rio de Janeiro é retratado como favela, nordestino como tudo que você falou. Gaúcho também tem estereótipos e esse ainda posso dizer algo pra defender, já que nunca fui para o nordeste, mas já fui para o sul e os gaúchos são pessoas extremamente educadas e muito legais. Sou paulista e acho isso de estereótipo idiota. Tenho amigos que nasceram de várias partes do Brasil e eles são iguais a todo mundo, gosto muito deles e principalmente por isso, por ter amigos mineiros, gaúchos e nordestinos, que acho patético isso de estereótipo.

    Excelente texto Zé, parabéns.

  2. Edson Silva
    15 | May | 2008 às 16:41

    Com certeza, as mesmas pessoas que demionstram esse tipo de preconceito, ri com as piadas da Turma do Didi.
    Admito que eu mesmo, no começo, não gostei do sotaque do Jurandir e Cia, mas porque eu pensava que eles forçavam o tal sotaque. À medida que fui ouvindo os casts, entendi que a voz deles era aquela mesma. E digo mais: preconceito e racismo não são sinais de força, mas de fraqueza.

  3. Samuel Varela - 29 - Crato-CE
    15 | May | 2008 às 16:56

    Só tenho que elogiar um texto como esse.
    Sou contra qualquer tipo de preconceito.
    Quando minha tia foi morar no Rio de Janeiro, todos ficavam perguntando como era aqui, como faziam com o problema da água, e o calor… esse tipo de coisa. Ao saber disso tirei várias fotos da cidade, para mostrar que era uma cidade igual a qualquer outra, com um clima agradável, cercado por serras e nascentes de água. Que o povo dsaqui se vestia normal.
    Mas mesmo assim sempre há um certo tipo de preconceito quanto a cidades do interior, principalmente aqui do Nordeste.
    Mas espero que com o passar do tempo haja uma conscientização maior.

  4. William Fernandes
    15 | May | 2008 às 21:06

    Comentários assim vem de pessoas de mente pequena e fechada.
    Eu falo “oxe” e “uai” e não sou baiano e nem mineiro, sou paulista. E o que isso tem a ver? Todo mundo tem sotaque, mesmo achando que não.

    Acho que as pessoas não deixam de assistir um filme americano por causa do sotaque neh? Pois a língua inglesa é nativa da Inglaterra e não dos EUA, e há diferença na pronúncia.
    Se fosse assim, iriam ser bem alienados de Hollywood…

  5. Kaike Souza
    15 | May | 2008 às 22:40

    Zé Ronaldo falou tudo em seu texto acima.

    As pessoas tem que botarem em suas cabeças que preconceito a qualquer coisa não leva a nada. Nem sempre elas entendem isso, e isso é uma pena!
    Como agente respeita as culturas deles eles devem respeitar as nossas e as de outras pessoas.

    É isso.
    Até

  6. bichara
    16 | May | 2008 às 09:44

    Preconceito é um problema. E pra mim, soa cada vez mais utópica a idéia de que deixará de ser. O preconceito se fortalece com atitudes como essas: dos personagens caricáticos, das piadas de mal gosto e infundadas, da falta de conhecimento. Eu dispenso fazer comentários sobre o quão absurdo é o preconceito, no Brasil e no mundo. Prefiro ocupar meu tempo parabenizando o Zé pelo ótimo texto, e mais que isso: pela ótima idéia. É muito importante desenvolver o senso crítico das pessoas em relação ao que assitem, escutam, lêem, enfim. E é importate também destacar o papel magnânimo que o cinema - mais que isso, a arte - tem de mudar, de melhorar.

    “A lista de Schindler” e “Faça a coisa certa” são queridos meus! :grin:

  7. otimo texto
    e concordo que os estereótipos são coisas dos meios de comunicação (principalmente a TV), como bem disse o Zé os nordestinos sempre são retratados como flagelados da seca e da fome, os negros como empregados, os cariocas como favelados e por ai vai… Mas tem outro detalhe tbm, o brasileiro tem o costume de sempre falar mal de onde vive, isso até parece meio paradoxal ja que sempre somos bairristas (o carioca acha q o Rio é a cidade mais linda do mundo, o paulista acha q o Brasil vive a custa da economia de SP e etc) mas só somos bairristas quando estamos em “casa” mas é só ele mudar pra outro lugar (ou alcançar outra posição, seja social, intelectual etc) q ele começa a por defeitos de onde ele veio, não é atoa q qse todo turista q vem aqui so vem atras de carnaval, futebol e outros rotulos q são vendidos la fora qse sempre por brasileiros principalmente a midia…
    vide exemplo do atacante da França Thierry Henry nas quartas de final da copa contra o Brasil qdo perguntado sobre o talento dos brasileiros no futebol ele disparou “Eles tem mais é q ser bons mesmo, já q não estudandam e vivem na praia jogando futebol”. E sinceramente alguem acha q essa imagem do brasil é culpa dele? ou foi algo q ele ouviu ou leu em algum lugar??
    simplesmente abomino todo tipo de preconceito sou neto de nordestino (avó paterno) filho de negro (pai) e branco (mãe). E agora me fala, quem no Brasil pode ter 100% de certeza q não tem sangue negro, nordestino ou indio???

  8. Marcus Rocha
    16 | May | 2008 às 23:46

    Eu já disse isso em outro lugar e vou repetir. Quando você divide, separa uma coisa única, você cria um fosso chamado preconceito. Somos todos seres humanos, mas como temos nossas diferenças geográficas, culturais, econômicas, físicas, as pessoas acabam querendo distinguir-se tanto das outras que acabam ofendendo o outro lado só para defender o seu próprio.

    Devemos parar de dividir e começar uma união. Somos todos iguais no fim das contas. Só falta as pessoas perceberem isso.

  9. Joaquim Henrique
    17 | May | 2008 às 21:02

    Maior ignorância ser preconceituoso nesta questão de sotaque!!!
    Que idiotice!!!
    Esse país é como um continente e bobo aquele que ignora isso!!!
    Adoro quando viajo e conheço palavras e sotaques novos!!!
    QUEM PERDE EM NÃO LER O CCR E ESCUTAR O PODCAST SÃO ESSES IGNORANTES!!!

  10. Vanessa Carvalho (31 Anos Manaus)
    17 | May | 2008 às 21:49

    Infelzimente isso ainda existe no nosso mundo… Mais do que se pensa…

  11. realmente criticar alguem pelo sotaque é uma coisa no minimo idiota, essa fatia de pessoas q agem assim esquecem uma coisa… q qdo eles forem minoria eles serão ridicularizados!
    o paulista rir o baiano estando em sp é fácil, pq não tentar fazer isso la?? ou pior vai falar com esse sotaque sulamericano em londres por exemplo e veja a receptividade q vai ter…

  12. Celso R. Costa
    23 | May | 2008 às 15:17

    Zé Ronaldo virei fã dos seus posts. E pode ter certeza que o CCR e toda sua equipe conseguiram conquistar todo o Brasil independente do Estado a qual pertence.

  13. JOÃO PAULO
    24 | May | 2008 às 10:32

    Kra esse teu post é arretado!

    PRECONCEITO É UM CÚ! Aqueles q são preconceituosos são fracos de espírito, e sistematicamente ignorantes!

    A idade da pedra já passou!

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