O Star System Norte-Americano

Publicado em: 03-08-2008 @ 4:57 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

ATENÇÃO: Essa matéria contém spoilers de Vanilla Sky.

Das inúmeras críticas que se fazem ao cinema norte-americano, o hollywoodiano em especial, destacam-se aquelas que criticam o star system, mas o que é esse “star system”? Basicamente, este é o sistema de produção cinematográfico que dá maior destaque em seus filmes aos “astros” dos que aos roteiros e demais elementos que compõem uma narrativa. É um sistema predominante do cinema hollywoodiano, pois foi lá mesmo que ele surgiu nos anos 20, e nasceu da constatação dos produtores dos grandes estúdios que eram os nomes das estrelas e não as histórias que lotavam as salas de cinema.

Mas como podemos identificar o “star system” num filme? Quais suas conseqüências para a narrativa cinematográfica? Na tentativa de responder essas perguntas é que essa coluna foi pensada. E para falar das estrelas hollywoodianas, nada melhor do que falar da maior de todas, Tom Cruise. E um de seus filmes pode nos ajudar a responder as perguntas feitas acima: “Vanilla Sky”.

Trata-se de uma refilmagem de “Abra Los Ojos”, filme que revelou o diretor espanhol Alejandro Amenábar, em 1997. Do elenco original, o diretor Cameron Crowe manteve na versão hollywoodiana a então namorada de Cruise, a espanhola Penélope Cruz. A atriz manteve seu papel, de mulher dos sonhos do protagonista.

A trama também foi basicamente mantida. Nela, um playboy tem sua vida modificada por completo quando uma ex-namorada resolve cometer suicídio jogando seu carro de uma ponte, mas ela o leva junto tentando matá-lo também. Ele sobrevive ao acidente, mas tem seu rosto desfigurado. A partir de então, ele descobre o amor de outra mulher e passa a ter estranhas visões. De uma hora pra outra, realidade e fantasia se confundem de forma impressionante. O desenlace final do filme também é o mesmo.

Antes de “Quero ser John Malkovich” e outros filmes que impressionaram pela originalidade de seu roteiro, “Abra Los Ojos” já chamava atenção pela sua história inusitada. E a versão americana também conseguiu conquistar vários fãs pelo mundo, no entanto algumas diferenças tiveram de ser feitas em seu roteiro para que o personagem pudesse ser interpretado pelo astro Tom Cruise.

Antes de tudo um filme hollywoodiano é uma mercadoria, que deve vender bem, atingindo o maior número de consumidores possível. Para isso pode se valer de vários fatores: campanhas de marketing milionárias, personagens conhecidos de outras artes (como das HQ’s), e por vezes, até a qualidade dos filmes. Um dos artifícios mais utilizados é a escalação de algum astro no elenco, com seu carisma e fama ele é capaz de atrair multidões para as salas de cinema, mesmo que não seja um artista tão talentoso.

Pensando nisso, a imagem do astro chega a ser mais importante do que a própria história, e tudo na história tem de colaborar pra isso. Lembram aqueles filmes em que o herói milagrosamente salva o mundo sozinho, ou aqueles que ele é o único a sobreviver de uma batalha mortal ou catástrofe bíblica? Já vimos Tom Cruise em situações como essas várias vezes, e em “Vanilla Sky” não é diferente.

O personagem do astro, mesmo que seja o vilão da história, deve atrair a simpatia do público, afinal de contas ninguém nunca viu um garoto propaganda antipático. Pois bem, no original espanhol o protagonista era um playboy que passava os dias sem fazer nada a não ser correr atrás de mulheres, nem se interessava pelos caminhos de sua empresa, e após conquistar as mulheres, as tratava com desdém. Em suma, não passava de um calhorda. Cruise não poderia encarnar um tipo assim, quem iria ao cinema para vê-lo como um escroto?

Por isso algumas providências foram tomadas. Primeiramente, a própria caracterização do personagem sofreu algumas alterações, ficando muito menos deformado e passando bem mais tempo de máscara. Além disso, a empresa da qual ele é herdeiro (que nem é mencionado o ramo no original) é uma revista do mundo pop, que ele acompanha diariamente e o coloca em contato com diversas celebridades. E, além disso, trava uma batalha com os acionistas pelo controle dos negócios, é um playboy interessado e com talento para os negócios, longe do inútil que temos no filme espanhol.

Na vida pessoal ele também é perfeito, a culpa pelo fim de seu relacionamento é toda colocada em sua ex, retratada como uma louca desvairada que qualquer um largaria (mesmo sendo a Cameron Diaz). E irresistível a ponto de seu novo amor (Penélope Cruz) nunca esquecê-lo mesmo depois de sua tentativa de suicídio e posterior congelamento. Aqui é que acontece a maior mudança em comparação com o original.

Na primeira versão, ninguém sentia falta do “falecido”, nem mesmo a sua amada. O destino dos personagens é sequer comentado, mas em “Vanilla Sky” é inserida uma cena no final que trata de mostrar como o protagonista era amado: uma espécie de velório organizado pelos amigos, em que o amor de sua vida aparece para chorar sua perda. Nem na hora da partida um astro pode ser esquecido, mesmo que seja um escroque. O mais importante nesse exemplo não é a história, a narrativa original ou a profundidade dos personagens, mas a imagem irretocável do astro de plantão. Aqui o cinema está longe de ser visto e concebido como uma obra de arte, mesmo que utilize recursos e elementos artísticos, na verdade ele não passa de uma peça publicitária. Não que isso o desmereça totalmente, temos até festivais prestigiados (Cannes) para a publicidade bem feita. Um filme como esse poderia muito bem participar da premiação.

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16 Comentários

  1. Thaynam
    3 | August | 2008 às 13:17

    hahahahaha hahahaha
    hahhahahahaha!!

    Abre los Ojos é uma obra-prima do cinema espanhol!! xD

    Vanila Sky é…. :roll:

  2. felipe
    3 | August | 2008 às 16:07

    sem muito a acrescentar…
    mas vc poderia avisar q esse texto tem spoilers…
    [tirando isso,muito bom o post!]

    :grin:

  3. Gabriela - Porto Alegre/15 anos
    3 | August | 2008 às 16:50

    Ainda não vi Vanilla Sky,e a cada dia que passa tenho menos vontade de ver…. mas é triste ver como manipulam uma obra de arte em prol de $uce$$o as bilheterias…

  4. Amenar Neto
    3 | August | 2008 às 18:06

    Meu Deus, achava que só eu percebia que o nome de Tom Cruise muitas vezes vinha com tanto destaque quanto o nome do próprio filme. Uma peça publicitária sim, porém um absurdo.

    Enquanto a Vanilla Sky, acho ele infinitas vezes melhor que Abre Los Ojos. A idéia é a mesma, o contexto é o mesmo, mas a beleza não. Vanilla Sky é belo como a vida, e dói de tão poético. Coisa que o filme espanhol não é. De tão poético, é incompreendido. É o cinema de Holywood feito para vender, mas não feito para as massas (!)(?). Possível?

  5. Joaquim Henrique
    3 | August | 2008 às 18:33

    Assisti ambos filmes e prefiro “Vanilla Sky”!!!

    Adoro Tom Cruise como astro e sei que não é um ator de primeira categoria… Mas escolhe bem seus projetos e já interpretou muito bem (vide “Nascido em 4 de Julho” e e “Magnólia”).

    Vc realmente esplicou o que é “Star System”, só não acho que o exemplo seja o mais correto!

    Cameron Crowe mescla muito o cinema pipocão com o de arte (roteiro bem escrito, atores e filme bem dirigido e incorporando caguetes de filmes blockbusters).

    Acho que Tom Cruise não foi escolhido somente por causa de Marketing não, e sim pq Crowe achou que ele tinha competencia para o papel o qual ele mostrou que tem e, tbm não acredito que trechos do original foi modificado pq ele é um astro e não ficaria bem.
    Pois em “Magnólia” ele é um crápula e concilia com seu pai por causa da história e não pq ele como astro teria que terminar o filme bem.

  6. Guilherme Diniz
    3 | August | 2008 às 19:18

    Não gosto do Tom Cruise. Ás vezes ele resolve se esforçar e ter uma atuação digna, mas em seus blockbusters é sempre a mesma atuação, sempre o mesmo sorriso bobo e infeliz. Já li críticas ótimas de “Vanilla Sky”, e já comecei a assisti-lo umas 3 vezes, mas nunca sai do começo.

  7. Embora ver um filme com um grande ator seje legal…. não gosto dessa ideia de vender um filme pela grandeza do elenco… adianta se ter um cast de estrelas com um roteiro ralo??? muitas vezes o roteiro e outros elementos do filme são otimos mas acabam ofuscados por um atuação desastroza dos protagonistas

  8. Samuel Varela - 30 anos - Crato-CE
    4 | August | 2008 às 09:51

    Não vi “Abra Los Ojos”, mas vi Vanilla Sky e gostei muito do filme. Mesmo com todas essas mudanças citadas o filme ainda ficou bom.

  9. Alexandre Montenegro, 20 anos, Pacajus-Ce
    4 | August | 2008 às 11:28

    POrra! “Vanilla Sky” é muito bom….não vi este outro ai nao, mas a fita do Cruise não é ruim.

  10. Amenar Neto
    4 | August | 2008 às 20:48

    Tom Cruise tem fama de ser um ator ruim. As pessoas o subestimam demais. Acredito que isso se dá, devido ao fato de suas atuações se assemelharem demais; o que não é mentira.

    Mas, mesmo sabendo que suas interpretações se parecem muito, gosto dele como artista. Ele fez bons papéis em “Vanilla Sky”, “Magnólia”, “Missão Impossível 3″ e mais alguma listinha. Parecidos sim. Ruins não.

  11. Plínio
    5 | August | 2008 às 00:44

    ” Para cada Magnólia de Cruise existe um Jerry maguire, um O último Samurai e um Missão Impossível.”

  12. jose almeida
    5 | August | 2008 às 08:40

    Esse negocio de Star system so funcionou mesmo nas eras de ouro de Hollywood(30/40/50)quando os estudios disputavam as estrelas a tapa.Filmes eram escritos pra determinados atores ou atrizes, diretores que trabalhavam sempre com os mesmos atores(james stewart e hitchcook), filmes epicos que so aconteciam se determinado ator/atriz aceitasse faze-lo (cleopatra com a elizabeth taylor por exemplo).Da decada de 60 pra frente com a popularizaçao da tv, isso foi diminuindo cada vez mais e da decada de 80 pra frente com o videocassete e o dvd muito pior.Claro que ainda existem nomes que fazem a diferença num letreiro, mas isso nao impede que se apostem em filmes que sao verdadeiros fracassos.Uma boa prova e cavaleiro das trevas, que apesar de ser um filme muito esperado, esta sendo um sucesso absoluto com atores/atrizes sem grande apelo comercial, ou homem de ferro, ou algumas comedias recentes que foram muito bem de bilheteria sem nenhum grande astro a frente. Pode-se ate modificar algumas coisas em um filme pra se adequar a um determinado ator, mas pra mim esse negocio de star system nao existe mais.

  13. Joaquim Henrique
    5 | August | 2008 às 11:25

    Falou tudo José Almeida!!! (Concordo)

  14. Darth Cesar
    6 | August | 2008 às 17:58

    Falou tudo José Almeida!!! (Concordo)
    (2)

    Gosto do Tom Cruise, mas as vezes ainda banca o mala em seus filmes, melhor exemplo é aquele inicio de MI2, ganhou até do Shatner.

  15. Gil Marcel
    7 | August | 2008 às 01:24

    Vanilla Sky é dosado, bem roteirizado, e tras o Tom Cruise como.. Tom Cruise. O filme é tão bom quando Abre los Ojos. O trio é tão bom quanto a primeira versão. A trilha então, nem se fala… E a brincadeira proposta por Cameron Crowe (que na verdade circula a maioria de seus longas) envolvendo videos, e fotos, e objetos, e produtos que nos causam empatia e nos fazem se aproximar ainda mais daquele universo, funciona o tempo todo.

    Doce, doce! :)

  16. jose almeida
    8 | August | 2008 às 12:12

    Pois e, eu gostaria de ter vivido nessa epoca de Star System
    quando atores e atrizes eram considerados deuses e deusas, perfeitos fisica e moralmente ha,ha,ha.Astros e estrelas(principalmente)eram descobertos ou fabricados da noite pro dia, nao e pra menos que os estudios alem de administrar a vida profissional tinham de administrar tambem a vida pessoal dos respectivos evitando qualquer tipo de escandalo .Traiçoes, vicios em geral, escandalos sexuais podiam acabar com a carreira de qualquer um, hoje em dia isso ate acaba promovendo.Quem vai deixar de ver um filme de um ator so porque ele foi preso dirigindo embriagado, ou porque foi pra clinica de reabilitaçao e etc…….Os tempos mudam e os costumes tambem.

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