O drama “Pigmalião” (1938) usou como base a peça teatral de George Bernard Shaw para ir ao cinema. Em 1964, “My Fair Lady - Minha Bela Dama” refilmou a história como musical, aproveitando a época de ouro dos musicais. Foram doze indicações ao Oscar, onde oito foram premiadas, incluindo melhor filme e diretor. Feito com um orçamento modesto para os dias de hoje, cerca de US$ 17 milhões, o musical encanta gerações e parece nunca envelhecer. Agora, uma refilmagem é planejada para servir à incrível ambição de Hollywood em ganhar dinheiro.
Audrey Hepburn e sua beleza encantadora no filme original agora darão espaço ao talento de Keira Knightley. O papel de Eliza Doolittle requer algo que Knightley já declarou não gostar de arriscar: humor; principalmente na parte inicial do longa. Na trama, Eliza é uma florista desajeitada e sem instrução que conhece um professor de fonética que promete transformá-la em uma dama da alta sociedade em pouco tempo. Temas como diferenças de classes sociais, relacionamentos conturbados e emancipação feminina são alguns dos ganchos tratados no filme, que nunca perde o ritmo com suas canções deliciosas.
A refilmagem será roteirizada por Emma Thompson, que terá nas mãos um dos maiores sucessos do cinema mundial. É irônico saber que depois de tantos anos a tecnologia pode fazer muito mais por um filme do que antes, inclusive eliminando erros bobos do original. Entretanto, acaba sendo uma audácia mexer em uma obra clássica por ambição. O talento de Audrey Hepburn é insubstituível e sua malícia ao interpretar Eliza também. O figurino, para a época, é mais charmoso do que muitos filmes contemporâneos e será mais um desafio reproduzi-lo. Quando algo está bom do jeito que está, me irrita plenamente tudo o que se torna desnecessário.
Quando se mexe em um patrimônio artístico, dá a sensação de prepotência. Só em pensar na possibilidade de revisitarem sucessos como “Cidadão Kane“, “Casablanca“, “Cantando na Chuva” e “Melodia na Broadway” eu me tremo dos pés à cabeça. São obras que, pelo sucesso e originalidade, acabam sendo exploradas pelo potencial conseguido em uma determinada época. Hollywood não é o melhor quando o assunto é refilmagem, porém também está escasso de idéias boas. Então para não perder a prática monetária que move o mundo, a refilmagem acaba sendo uma opção.

Acredito que Keira Knightley possa compor um bom personagem, principalmente se ela aprender a cantar e desenvolver seu timing cômico. Se eu pudesse escalar o restante do elenco, até consigo imaginar nomes como Jim Broadbent, Helen Mirren, Gary Oldman, Jonathan Rhys-Meyers e Philip Seymour Hoffman fazendo um trabalho competente. Já me acostumei com a idéia de assistir a uma nova versão de “My Fair Lady”. O que não consigo me conformar é com a sensação de que daqui a uns quarentas anos, novas versões de clássicos atuais como “Moulin Rouge” possam ser refeitas. Espero que até lá o cinema tenha encontrado um caminho menos pedante.
CURIOSIDADES COMENTADAS:
- Ao ser levado do teatro para o cinema, Rex Harrison interpretava o papel do professor Henry Higgins na Broadway. Sua ida ao cinema rendeu o Oscar merecido de melhor ator, principalmente pela voz potente e a facilidade com que varia facilmente a recepção do público, que em um momento simpatiza com Henry, mas outras vezes ele é irritante.
- A atriz Julie Andrews, que também trabalhava com Harrison na Broadway, foi convidada para o papel de Eliza. Porém, o produtor Jack Warner não a contratou após ela se recusar a fazer um teste para o papel. Como Hepburn estava construindo uma carreira brilhante em Hollywood, sua escolha foi sábia e talvez marketeira. Muitos ainda comentam a injustiça feita com Andrews, que no mesmo ano atuou em “Mary Poppins”, criando um clima de competição entre os dois musicais.
- Audrey Hepburn passou muito tempo se preparando para interpretar Eliza, porém acabou sendo dublada por Mami Nixon. Esse tipo de prática era bastante utilizada na época, enquanto atualmente vemos que é quase um diferencial o ator saber cantar. Também acaba sendo uma exigência do público, que se satisfaz quando o talento em cena do elenco é natural. Jeremy Brett, que interpreta o galante Freddie, foi dublado por Bill Shirley.
- Stanley Holloway interpretou Alfred Doolittle na Broadway e acabou sendo chamado também para o papel no cinema, após a desistência de última hora de James Cagney. Por mais que tenha poucas aparições em cena, o personagem Alfred é carismático e tem boas performances musicais.
- No Oscar, o longa venceu nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Rex Harrison), Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia - A Cores, Melhor Figurino - A Cores, Melhor Trilha Sonora e Melhor Som; além de ser indicado também nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Stanley Holloway), Melhor Atriz Coadjuvante (Gladys Cooper), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição. A exclusão de Audrey Hepburn na listagem ainda estranha muitos cinéfilos e críticos. No Globo de Ouro, Hepburn foi indicada, mas, ironicamente, perdeu para Julie Andrews por “Mary Poppins”.
Abaixo uma cena onde Audrey Hepburn e Jeremy Brett interpretam um número musical em “My Fair Lady”:


6 | agosto | 2008 às 22:37
Ainda mais essa? Nunca ouvi falar deste aí. Perdoe-me a iguinorância, Rapadura.
6 | agosto | 2008 às 22:38
*ignorância
MEU DEUS!
7 | agosto | 2008 às 02:25
Ah com certeza Keira Knightley vem a cabeça de todo mundo, além da semelhança com a atriz, seria muito interessante tal refilmagem. Uma atriz brasileira que tem uma semelhança grande com a Audrey é Lavínia Vlasak.
Keira tem capacidade da dar conta do recado, com certeza.
7 | agosto | 2008 às 10:19
Nunca assisti “My Fair Lady”, mas conheço o filme.
Muitas vezes uma refilmagem, traz de volta a vontade de ver ou rever o filme original. Eu sempre procuro fazer isso, ver o original antes de ver a refilmagem.
Algumas vezes a refilmagem não sai como deveria ser, mas de modo algum tira a magia do original.
7 | agosto | 2008 às 10:57
É verdade, Samuel. E boa parte da magia parte, além de uma história deliciosa, principalmente do carisma de Audrey Hepburn. Ela definitivamente é genial. A Keira ganhou mais minha simpatia após “Desejo e Reparação”, mas até então ela era indiferente para mim. De primeira não consegui vê-la no papel, mas depois que eu revi o filme, fiquei na espectativa que possa dar certo. Mas nada será com o original. Fato.
7 | agosto | 2008 às 11:09
Gosto demais desse tipo de musical, espero que já que vão fazer, que façam bem feito.
7 | agosto | 2008 às 11:49
Achei no mínimo ultrajante. A Emma Thompson, deve realmente estar com muitas contas pra pagar pra cometer o sacrilégio de reescrever “My Fair Lady”.
7 | agosto | 2008 às 13:43
Quando assisti, gostei da história, mas não consegui gostar das músicas… sempre achei a Natalie Portmann parecida com a Audrey.
7 | agosto | 2008 às 14:04
A natalie portman seria uma boa idéia para o papel, já que ela tem carisma.
Ótimo texto, diego. Vamos esperar a refilmagem e ver no que da!
7 | agosto | 2008 às 15:59
Audrey é minha atriz favorita, já vi quase todos os filmes dela (só falta aquele com o Sean Connery), mas esse é o que eu menos gosto, talvez por ser musical, ou por ter um visual muito antiquado. Até aquela versão brega de “Guerra e Paz” foi mais fácil de assistir.
Quem sabe uma refilmagem ajude o filme a melhorar. Ainda mais com a Keira Knightley.
Mas também pode acontecer o mesmo que aconteceu com “Sabrina”.
Refilmagem de “Casablanca” ou “Cantando na Chuva”? Espero nunca ver isso!
7 | agosto | 2008 às 19:09
Sou totalmente contra o remake deste filme, é o tipo de clássico que não se faz isso!
Pra mim é um filme (****), não acho (*****) pq achei cansativo… Mas é um dos maiores clássicos do cinema!
7 | agosto | 2008 às 21:17
O problema é justamente isso virar moda. Não acredito em refilmagens, por si só. Se é pra refilmar, tem que ser pra fazer uma coisa diferente do que foi feito originalmente. Usar um outro enfoque, um outro visual. Se é pra fazer isso, então que seja uma coisa ousada. Se não, qual é o objetivo, além do $$? Cópia do original? Principalmente em se tratando de clássico como My Fair Lady, um filme lindíssimo, que tenho o DVD e volta e meia estou vendo novamente. O risco de sair um trabalho inferior é muito grande!
E não gosto da Keira como atriz e, neste caso, acho a fisionomia dela muito parecida com a da Audrey.
7 | agosto | 2008 às 21:32
Lembrei de um bom exemplo de refilmagem: A fantástica fábrica de chocolate. Um outro visual, outro enfoque. Gostava do original, mas a refilmagem do Tim Burton foi perfeita e, pra mim, ganhou do original.
7 | agosto | 2008 às 23:24
Alexandre - Ok, estamos aqui não só para os que conhecem refletir sobre o filme, mas também para apontar filmes que devem ser assistidos! Este é um clássico não só do gênero musical, mas do Cinema como um todo.
Allan - Também espero por demais que façam direito! ;~
Ana Karla - Eu gosto da Emma Thompson e fiquei mais aliviado quando ela foi apontada como roteirista. Ela como mulher e talentosa do jeito que é pode trazer uma versão bem interessante!
Darth Cesar - Também gostei de imaginar a Natalie no personagem!
Eduardo - Obrigado pelo elogio. Espero sempre aparecer aqui pelo blog também e não somente no portal ahhaa
Guga - Eu citei refilmagens de Casablanca e Cantando na Chuva, mas espero que nenhum executivo de Hollywood leia. Acho que será deprimente se refilmarem também esses dois outros clássicos. Tempo desses apontaram que a Madonna queria protagonizar uma nova versão de Casablanca. Me deu calafrios!
Joaquim - Eu pensei que fosse achar o filme cansativo, mas achei tão gostoso que nem vi as quase três horas passando.
Patrícia - Pois é. Mas o grande problema é que refilmagens já são tendência. Eles começaram refilmando filmes medianos ou ruins, e agora estão investindo nos realmente bons. Me dá medo, sabia? É descaracterizar algo que já é por si só perfeito! E ah! Concordo que uma refilmagem decente foi a do Tim Burton para A Fantástica Fábrica de Chocolate, e também prefiro essa versão mais recente do que a anterior, apesar de as duas serem diferentes e muito boas!
8 | agosto | 2008 às 17:57
Diego, infelizmente, não se estou certo, ja querem fazer um remake de E o Vento Levou,
8 | agosto | 2008 às 23:17
Em primeiro lugar, tenho que dizer que esse texto foi muito bem escrito. Parabéns, Diego, muito bem elaborado e enfocado.
Agora cá pra nós, não gosto do trabalho da Keira Knightley, salvo raríssimos casos, como “Orgulho e Preconceito” e “Desejo e Reparação”. No mais, acho ela bem mediana e fraca.
Sempre desconfio de refilmagens, e não gosto muito da idéia como um todo. É como a Patrícia disse aí em cima: se for pra fazer, aborde com algo novo, tente, ouse, enfim, crie em cima.
Agora eu confesso que, nessa moda de refilmagens, sempre que eu pensava na possibilidade de isso acontecer com “My Fair Lady”, imaginava que o papel da Audrey Hepburn ficaria com a Audrey Tautou, a eterna Amélie de “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Acho que ela tem talento, tem carisma, e o trabalho dela, assim como a carreira que vem traçando, me lembra bastante da trajetória da Hepburn. Inclusive, se fosse ter um remake de “Bonequinha de Luxo” (sei lá, vai saber o que os estúdios planejam!), o papel tinha de ser dela.
9 | agosto | 2008 às 09:47
Refilmar classicos na maioria das vezes nao da certo, vide Sabrina, Psicose, Rollerball,etc….O cinema de hoje em dia ja e dominado por adaptaçoes de livros, quadrinhos, refilmagens de franquias da decada de 80, parece que todo mundo ta com preguiça de pensar em algum argumento(ou roteiro)original.Ja refilmaram Invasores de corpos,oplanneta dos macacos,guerra dos mundos,o dia em que a terra parou….em alguns casos ate e valido pois a tecnologia de hoje permite coisas que ha 30 ou 40 anos atras nao era possivel, mas tambem nao precisa exagerar.Daqui a pouco vao querer refilmar A um passo da Eternidade, Juventude transviada, nao da ne.Criar ideias novas nao faz mal pra ninguem.
14 | agosto | 2008 às 15:42
mmmmmmmm parece interessante, talvez saia um bom filme
…nunca refilmem casablanca!
17 | agosto | 2008 às 11:38
Minha preferência recai totalmente sobre ANNE HATHAWAY !!!
Além dela ser linda, ter formação musical (é soprano na Escola de Artes de NY), as iniciais de seu nome são as mesmas de Audrey Hepburn (quer mais…)
Ela é a Linda Mulher (filme que também é baseado em My Fair Lady) atual.
Keira não chega aos pés dela. Pena que os produtores não enxergam isto.
Em tempo: tive a sorte de poder assistir a montagem brasileira em São Paulo. Quem quiser ter uma palhinha das músicas adaptadas em português para o teatro acesse http://www.myfairlady.com.br.
O filme é um dos musicais que eu mais gosto, porque não param a ação para colocar uma cantoria desnecessária.
22 | agosto | 2008 às 17:46
22 | agosto | 2008 às 17:48
Desculpa, eu escrevi “mezer”, eu nem sei oque eu quis dizer, mas deve ter sido algo do tipo refilmar.