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REC e o Jornalismo

Publicado em: 28-11-2008 @ 2:33 pm 
Postado em: Especiais
Escrito por: Diego Benevides

O Cinema se apropria de diversas artes para construir suas histórias. Não é novidade que o Jornalismo e jornalistas já foram temas de vários filmes, desde o acompanhamento mais detalhado da profissão a meras citações em comédias românticas. Filmes como “Cidadão Kane”, “Mera Coincidência”, “O Quarto Poder”, “Todos os Homens do Presidente”, “A Vida de David Gale” e “Capote” traçam perfis, analisam o lado profissional, abordam a ética, o sentimentalismo (ou a falta dele), o exercício da notícia, a ânsia por uma verdade, seja esta verdadeira ou inventada.

Várias facetas do Jornalismo podem ser vistas e, para os estudantes da área, profissionais ou espectadores comuns, a curiosidade pela profissão rende sempre bons frutos. Em épocas em que o Cinema está cansado de criar e vive a Era das Adaptações (e simpatizantes), o filme espanhol “REC” chega não só para aterrorizar o público mundial com suas cenas viscerais, mas também para puxar, mais uma vez, o exercício jornalístico nas telas.

Atualmente, uma longa discussão sobre o exercício jornalístico nas mídias é alvo de especialistas e estudantes. A obrigatoriedade de um diploma para exercer a profissão é questionada. Uns acham que saber, na teoria e na prática, o que é o Jornalismo é a melhor forma de aprender a segurar um microfone, fazer uma investigação ou atuar em qualquer área jornalística. Outro acham que o diploma é questionável, já que alguns sem especialização podem exercer a profissão de forma tão competente quanto um jornalista graduado. Mas não é essa a discussão que quero levantar. A idéia ao tocar neste ponto é voltar a analisar o lado jornalístico em “REC”.

No filme de Jaume Balagueró e Paco Plaza, conhecemos desde a primeira cena a repórter Angela Vidal, vivida pela atriz Manuela Velasco. Junto a seu câmera Pablo, eles gravam mais uma edição do programa “Enquanto Você Dorme”, que acompanha uma equipe do Corpo de Bombeiros em uma noite rotineira. A primeira observação é o aparente despreparo de Angela frente à câmera, por não passar tanta credibilidade e ser apenas uma jovem simpática fazendo reportagem. Seria ela uma jornalista graduada? Particularmente, esse foi o primeiro pensamento que eu tive. Ela segue alguns padrões básicos do telejornalismo, como a confiança constante no cinegrafista para saber mais sobre enquadramento, plano adequado, se “valeu ou não”, mas ao mesmo tempo esbanja uma imaturidade que às vezes percebemos ser da própria personagem, não da profissão.

Por ser um programa de variedades, Angela é uma repórter quase investigativa, mas que acompanha de perto cotidianos que talvez nem sempre são atrativos. É interessante um argumento que um dos bombeiros usa quando ela diz o nome do programa para qual trabalha: “Enquanto Você Dorme”. O bombeiro diz: “Então quem assiste?”. Ela não responde. Às vezes, Angela se preocupa em seguir uma linha jornalística certinha, preocupada com o público, mas em outros momentos é tomada por um provável sensacionalismo. “Não pare de filmar”, ela diz algumas vezes. Estaria ela tão preocupada mesmo com a situação dentro do prédio ou ela queria só uma fita com um grande furo para ficar bem no meio dos grandes editores televisivos? Isso porque a fita que Pablo consegue filmar é incrivelmente fantástica para denunciar problemas sociais avassaladores. Angela queria mesmo essa denúncia? A história a ser registrada seria aquela mesma ou teria um pouco mais de sal após um processo de edição e exposição nas telas?

Como repórter, Angela demonstra sua esperteza ao entrevistar as vítimas apelando para alternativas diversas. Os chineses e a pouca capacidade de se expressar às vezes causam risos, enquanto Angela repete a mesma pergunta e dá a resposta por si só. A menininha é quase um melodrama mexicano, usada para sensibilizar o espectador. O casal de velhinhos disputa a atenção da câmera, e Angela prioriza seus argumentos baseado na experiência de vida deles, como se fossem incapazes de mentir e ignorando o fato de que eles podem sofrer de algum transtorno que altere os fatos decorrente da idade. Um morador começa a ter seu depoimento filmado antes mesmo de ser avisado disso. O outro, residente médico, é visto como o herói, e dá a Angela a oportunidade de filmar a carnificina nos corpos das vítimas.

Até onde o jornalista deve chegar para um furo? Existem perguntas cujas respostas acabam sendo respondidas em outras palavras. A fome por uma notícia faz com que os repórteres se submetam a situações extremas. Tim Lopes morreu para escrever seu nome. Em contrapartida, a importância de um furo também acaba dependendo muito da linha editorial de um jornal ou de uma emissora, e do próprio programa. A bomba que Angela tinha registrado na câmera de Pablo poderia ser simplesmente confiscada por agentes do governo ou pelos “poderosos”, dos quais nunca sabemos na realidade quem são. Angela poderia ter o maior furo epidêmico ou nuclear dos últimos tempos, mas tudo dependeria de alguém superior. Se Pablo parasse de filmar e tentasse ajudar as vítimas teria sido diferente? Valeria a pena? São perguntas a se pensar.

Inúmeros posicionamentos de Angela em “REC” poderiam ser debatidos, desde a simples ‘passagem’ feita enquanto a polícia arromba a porta de um dos apartamentos até o conflito que Angela cria quando o policial pede para a filmagem ser encerrada. Quem é mais poderoso? A imprensa ou a polícia? Não há regras. No Jornalismo, a única regra é mostrar o que acontece. Se são usados a verdade, a maquiagem, o sensacionalismo, isso depende da ética do veículo e do profissional. Onde está a importância de Angela vasculhar as paredes da cobertura e ler matérias que justificam em partes a epidemia? Seria mais rápido ela tentar fugir ou o risco de ficar ali mais tempo contribuiria para o furo jornalístico? Naquele instante, quando o filme está perto do fim, é mais importante ela sair viva ou registrar tudo? São questões que eu coloco para serem debatidas. Creio que não existam respostas científicas.

Diego Benevides é estudante do 8º período de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade de Fortaleza (Unifor). Também estuda Audiovisual e Novas Mídias na mesma universidade e é Editor Geral do portal Cinema com Rapadura. Atualmente desenvolve pesquisa em Televisão e Ficção Seriada.

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17 Comentários

  1. Amenar Neto
    29 | novembro | 2008 às 15:05

    ô Diego… Parabénszão pelo texto!

    Só rola uma ponta de raiva porque eu não consegui ver Rec. Mas esse texto era algo que eu precisava ler para aguçar minha curiosidade a respeito da experiência do filme em si. Isso sem contar com o debate do tema jornalismo e sua devida influência.

    Grande Abraço.

  2. daniel londrina
    29 | novembro | 2008 às 16:19

    excelente a matéria Diego!

    como estudante de comunicação, fico feliz pelo enfoque e pela visão de análise que vc deu ao filme!

    PARABENS!

    pena, que como o amenar, nao tenha conseguido assistir ao filme ainda… pena mesmo!

    abraço!

  3. Leandro - 29 anos - Campo Grande / MS
    29 | novembro | 2008 às 20:26

    Parabéns pelo texto!

    Acabei de ver REC e suas palavras me fizeram relembrar exatamente as cenas e os sentimentos que tiver sobre elas.

    Apenas deixe-me colaborar com o momento em que a repórter ainda está no corpo de bombeiros e que está visivelmente entediada com a tal ‘rotina’ de trabalho e começa, ao que me parece, a desdenhar de tudo aquilo. Alguma ética lhe faltou, talvez.

    Sinceramente, até chegarem à ocorrência no prédio, achei estar vendo o filme errado (:D), por não ter lido qualquer referência ao filme antes de assistí-lo.

    A partir daí percebi a ‘interação’ do jornalimo com mais um filme de zumbis (ou serão possuídos) em que a repórter chega aos extremos de pavor e desespero.

    Achei interessante o cinegrafista Pablo não aparecer em momento algum (ao que me lembre, apenas seus pés apareceram).

    É o tipo de filme em que você desejaria estar dentro, com uma moto-serra, para fazer algo pelos possíveis sobreviventes. :D

    Parabéns!

  4. Diego Benevides
    30 | novembro | 2008 às 13:10

    Amenar e Daniel, é uma pena que vocês não tenham conseguido assistir ao filme.. realmente é um filmão e gera debate sobre várias coisas, o que é mais interessante.

    Obrigado a vocês e ao Leandro pelos elogios, que bom mesmo que gostaram do texto. ;)

  5. Pablo Cordeiro
    30 | novembro | 2008 às 21:18

    Muito pertinentes suas colocações, concordo com seu texto. Após a leitura notei algo interessante. Também faço jornalismo e já vi o filme duas vezes. A primeira logo quando saiu no ano passado e a segunda agora nos cinemas. Muitas diferenças consegui identificar nessa segunda vez.

    Principalmente em relação a profissão, pois anteriormente estava na metade do curso e agora, já na parte final. Importante ressaltar essa questão do “furo”. Será que vale qualquer coisa pra conseguí-lo? Até porque, prédios não são lacrados sem explicação e como as mídias são quase infinitas e em toda esquina existe um veículo de comunicação, o furo passa facilmente a categoria de “mito”.

    Com certeza a repórter puxou para o lado sensacionalista. Sem dúvida, se estivesse em situação semelhante faria a mesma coisa. Até pela própria proposta do programa “Enquanto você dorme”, ou seja, uma chatice. Diante daquela oportunidade as imagens do ocorrido seriam a matéria da vida de qualquer jornalista.

    Sobre a posição do câmera Pablo (:p) teve uma cena que me chamou bastante a atenção. Mais para o final o bombeiro segura um contaminado e o câmera continua filmando, até que ele é chamado para ajudar. Não sei se realmente foi a intenção mostrar essa questão do “furo” ou só a reação de espanto diante da cena forte. Longe de tocar em questões éticas ou mais pessoais do profissional, mas com certeza o jornalista em campo deixa muito de sua “humanidade” na redação.

    Uma das coisas que percebi nos diferentes momentos em que assiste o filme foi a certeza de que na profissão, principalmente no jornalismo policial, o sangue frio é um dos fatores principais. Muitas das vezes o dito sensacionalismo nada mais é do que o público anseia e compreende, ou mesmo aquilo que seu editor “prefere”.

    Em relação ao longa, gostei muito. Há tempos não assistia a um terror bem montado como esse. Só uma questão interessante: queria saber qual modelo de bateria e qual fita são aquelas para durarem tanto. rsrsrsr

  6. Lívia
    1 | dezembro | 2008 às 11:56

    Não consegui terminar de ler… muita besteira mesmo. A idéia transmitida é que o autor não é capaz de distinguir realidade e ficção. Isso pq o texto não tem pé nem cabeça mesmo! A proposta de analisar os dois aspectos era interessante (tanto que chamou minha atenção para a leitura), mas o texto ficou completamente perdido,na tentativa de traçar um perfil psicológico da personagem e fazer uma contextualização nada a ver. Ao relacionar o caso Tim Lopes com a protagonista de um filme de terror, a coisa ficou indigesta. A intenção pode ter sido boa, mas o resultado foi trash…

  7. caracolis,exelente texto,nada mau prá um estudante de comunicação,eu senti exatamente o que você falou,eu digo ainda que so doido prá que um dia por exemplo UM MONSTRO invada minha cidade prá que eu possa filmar tudo,e juro prá voc6es que não seria pelo furo e sim pela senssação,só que vendo pelo lado de valesco…….pho….ai seria dificil,zumbis correndo todo tempo atraz de vocêfica até dificil de dizer se filmaria ou não,mas acho que sim,com uma 12 na mão e muita munição, é claro!!!

  8. Diego Benevides
    1 | dezembro | 2008 às 15:10

    Lívia querida, é uma pena que seu poder de compreensão de um texto não tenha conseguido entender o que foi escrito. Mas se quiser, volta depois! Beijo

    Luis Fernando, obrigado pelos elogios!! Abraços!

  9. Breno
    1 | dezembro | 2008 às 16:12

    “Às vezes, Angela se preocupa em seguir uma linha jornalística certinha, preocupada com o público, mas em outros momentos é tomada por um provável sensacionalismo. “Não pare de filmar”, ela diz algumas vezes. Estaria ela tão preocupada mesmo com a situação dentro do prédio ou ela queria só uma fita com um grande furo para ficar bem no meio dos grandes editores televisivos? Isso porque a fita que Pablo consegue filmar é incrivelmente fantástica para denunciar problemas sociais avassaladores. Angela queria mesmo essa denúncia? A história a ser registrada seria aquela mesma ou teria um pouco mais de sal após um processo de edição e exposição nas telas?”

    tah….não concordei totalmente com essa parte…..já que o tempo todo em que os policiais mandam ele(Pablo) desligar a camera ela(angela)se mete na conversa e manda ele nao parar de filmar…piois ela queria mostrar o que realmente aconteçeu lá dentro…e todos sabemos que na maioria das vezes a policia encobre muitas coisas sobre alguns casos….e ela queria mostrar a realidade e o que estava aconteçendo….jah mudando de assunto…sobre o filme…eu li sobre possiveis continuações da historia..e a mais plausivel foi d que seria com o pai da Jenifer(akele q foi compra remedio…)e que a infecção podeira tomar a cidade ou algo assim….alguem tem conheçimento de um possivel roteiro para essta continuação?!?!?!?!

    Vlw…Paabéns Diego….Belo texto!…(eu juro q li tudo^^)

  10. Amenar Neto
    2 | dezembro | 2008 às 00:57

    Ufa!

    Acabei de assistir “Rec”. Sem comentários. Não consigo formulá-los ainda.

    Após ler o texto “pós-Rec”, percebo ainda mais o que você Diego, quis exemplificar em sua explanação. Raciocinei - ou ao menos tentei fazê-lo - durante diversos períodos do filme, onde Angela perdia completamente o controle no intuito de defender e seu “furo de reportagem”. É questionável até quando ela era uma simples vítima curiosa, ou uma repórter investigativa disposta a não só entender o que se passa, mas transmitir para as demais pessoas. Genial essa jogada bem como a evolução dela no filme, sabendo lhe dar com a dualidade entre o ser pessoal e profissional, por assim dizer.

    Recomendadíssimo! Obs: Para quem não sofre do coração.

  11. Allan
    2 | dezembro | 2008 às 21:08

    Mandou mto bem vey!

    Concordo contigo…
    Assisti Rec sozinho no cinema e adorei o filme…
    É tratado de uma forma mto diferente de outros filmes do mesmo seguimento,como Cloverfield E a Bruxa de Blair…Achei fantastico o modo como Angela prefere q tudo seja filmado,mesmo correndo todos os riscos!
    As vezes há a duvida de se ela esta se defendendo ou apenas seguindo seu trabalho…
    A história é fantastica,com tudo q um bom filme precisava ter…

    Recomendo q todos assistam,só não vão sozinho pra num sair da sala como eu sai! :mrgreen:

  12. Daniel Lima
    3 | dezembro | 2008 às 22:00

    Ae Diego, parabéns pela matéria!

    Assim como você sou estudante de Jornalismo, e ao ver REC. pela primeira vez confesso que em nenhum momento me lembrei de questionar as atitudes da Jornalista.

    No filme, Angela age com com a inexperiência de um foca, que adoraria ter sua matéria estampada nas manchetes de um jornal, e dá a clara impressão de que trabalha num programa sensacionalista, ou apenas de entretenimento.

    Entretanto, me parece também que os rumos que são dados a história praticamente à obrigam a agarrar-se ao exagero que é peculiar ao sensacionalismo. Aos mais desatentos, talvez isso possa soar como uma defesa aos tablóides de fofoca, mas, sinceramente, penso que um furo como esse seria sensacionalista o bastante por si só, e a verdade (ou o fato jornalístico) seria TÃO absurda, que não faria a mínima diferença se a repórter estivesse fantasiada de jason, ou gritando “olha, lá vem o zumbi”.

    E quanto ao filme, achei fantástico. Um terror bom como a muito não se via.

    o/

  13. Lívia
    8 | dezembro | 2008 às 17:58

    Diego,

    Uma pena que alguém que se proponha a escrever não saiba aceitar críticas.

  14. Diego Benevides
    8 | dezembro | 2008 às 18:08

    As críticas foram bem aceitas, Lívia. Só creio que elas são mais válidas ainda quando a matéria é lida por inteiro, além de pensar sobre o que foi proposto.
    No mais, sem ressentimentos. Beijos.

  15. Beatriz Saldanha
    9 | dezembro | 2008 às 20:01

    Acho que é um pouco de ingenuidade questionar as intenções da repórter. Um dos maiores méritos do filme é justamente a intensidade com que trata o sensacionalismo da menina. Aquela frase ao final serve como alívio cômico depois de tanta tensão, uma irônica confirmação: “Pablo, grava lo todo. Por tu puta madre”.

  16. Diego Benevides
    10 | dezembro | 2008 às 11:51

    Bia, não questiona-se ingenuidade, mas os recursos que ela se utiliza para ter um grande furo. Você mesma registrou o ‘grava tudo’ e é um questionamento comportamental da repórter, ou seja, do profissionalismo (ou falta de) dela.

  17. Samuel Varela - 30 anos - Crato-CE
    11 | dezembro | 2008 às 17:08

    Ótimo texto.
    Muitas vezes o reporter vai longe demais nas suas matérias pensando em seu trabalho, mas muitas vezes também ele usa seu trabalho como forma de denunciar, de ser a voz do povo.

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