Nova Geração de Mestres

Publicado em: 25-03-2008 @ 1:41 pm 
Postado em: Especiais
Escrito por: Aílton Monteiro

Mestres do Terror

Para você que está com saudades dos grandes filmes dos grandes mestres horror, vai aqui uma ajuda: uma lista dos mestres do horror da nova geração. Será que eles são tão bons como os antigos mestres?

Dos anos 60 e 70 para cá, a gente aprendeu a respeitar mestres como George Romero, John Carpenter, Dario Argento, David Cronenberg, Wes Craven, Lucio Fulci, Mario Bava, John Landis, Tobe Hooper, Joe Dante e, correndo por fora, David Lynch. Atualmente, novos nomes surgem para revitalizar o gênero. Surge uma nova geração de fãs dos velhos mestres que, em vez de renegar ou passar por cima de seus antecessores, prefere homenageá-los. Minha intenção nesse espaço é fazer um balanço dos nomes mais importantes surgidos nos últimos anos. Alguns desses cineastas são novatos, tendo dirigido apenas dois filmes. Outros têm mais tempo de estrada, mas só se tornaram mais famosos recentemente. Apresento, então, uma lista de nove novos mestres do horror.

Rob Zombie

Ele foi a principal razão de essa coluna existir, pois dia desses tive o prazer de conferir o excelente “Rejeitados pelo Diabo” (2005). Rob Zombie mostrou evolução técnica e sensibilidade impressionantes para alguém que está ainda começando. Seu estilo é descendente do horror rural americano dos anos 70, mas seu melhor filme também se parece bastante com um thriller policial. Para conhecer mais Zombie: “A Casa dos 1000 Corpos” (2003). Os dois filmes estão disponíveis em vídeo no Brasil. Sem falar que ele foi responsável pela nova versão do clássico “Halloween” (2007).

Eli Roth

Muitos que foram ao cinema para assistir “O Albergue” (2005) saíram com náuseas por conta da violência gráfica e do alto teor de gore. A ponta de Takashi Miike numa cena já entrega o tipo de filme de que Roth gosta. “O Albergue” teve total apoio de Quentin Tarantino, o que prova que o diretor está em boa companhia. A estréia de Roth veio com “Cabana do Inferno” (2002, disponível em DVD). Além da continuação de “O Albergue”, outros quatro filmes já foram anunciados sob a batuta do diretor. Recentemente ele fez parceria com o amigo Quentin Tarantino em “Grindhouse”, onde dirigiu um dos trailers falsos. Para o futuro, Roth dirigirá uma adaptação de Stephen King.

Kiyoshi Kurosawa

O Japão já tem uma boa tradição em cinema de horror. E um dos nomes mais importantes atualmente é o de Kiyoshi Kurosawa, que tornou-se mais conhecido em 2006 graças ao remake americano de uma obra sua: “Pulse” (2001). O “Pulse” original foi a única coisa que eu vi até o momento de Kurosawa, mas já deu pra perceber que o entusiasmo dos fãs não é em vão, sendo que o cineasta até já foi comparado com Andrei Tarkóvski! O diretor não é nenhum novato - já tem mais de vinte filmes em sua filmografia - mas só agora começa a ficar mais conhecido no ocidente. Seus títulos mais famosos, além de “Pulse”, são: “Charisma” (1999), “Seance” (2000) e Doppelgänger (2003). Seus filmes continuam inéditos em cinema e vídeo no Brasil.

Hideo Nakata

Se Kurosawa ainda é um pouco desconhecido no Brasil, o mesmo não se pode dizer de Hideo Nakata, que com o sucesso da série “Ringu” e dos posteriores remakes americanos, mostrou ser um mestre em criar boas histórias de fantasmas. Ele até já estreou em Hollywood, fazendo um remake de uma obra sua: “O Chamado 2” (2005). O legal é que ele reinventou o original, misturando um pouco com o também seu “Dark Water – Água Negra” (2002), não deixando muito espaço para o remake “oficial” de Walter Salles. Outros filmes de Nakata disponíveis em vídeo no Brasil: “Ring – O Chamado” (1998) e “Ring II – O Chamado” (1999). Possivelmente estará dirigindo “O Chamado 3″.

Lucky McKee

Dos apenas dois títulos que vi de McKee, deu para perceber que ele é um cineasta de personalidade. Ele ainda não se tornou famoso, mas os fãs do gênero – eu incluso - já o acompanham desde “May – Obsessão Assassina” (2002). Pude ver o seu segundo título, “Sick Girl” (2006), constante na antologia “Masters of Horror”, e são dois filmes com histórias bem diferentes, mas com um estilo bem parecido. Inclusive, a atriz Angela Bettis está presente nos dois. Ela teve sua voz presente em “A Floresta” (2006), outro filme de McKee. “A Floresta” e “May” podem ser encontrado nas locadoras.

John Fawcett

“Escuridão” (2005) não foi muito bem recebido pela crítica e pelo público, mas o filme tem seus admiradores. E aquele final é bem perturbador, não? O filme de Fawcett que obteve melhor repercussão, ainda que restrita aos fãs, foi “Possuída” (2000), um dos melhores filmes de lobisomem já realizados. Talvez não se trate de um caso de autor, mas não é um nome que mereça ser descartado. Os dois filmes citados estão disponíveis em vídeo.

Alexandre Aja

“Alta Tensão” (2003) foi o filme que fez com que o nome de Alexandre Aja se tornasse um dos mais quentes do mundo. Claro que Hollywood não ia deixar passar e também tirar uma casquinha do talento do rapaz. Podemos conferir a sua estréia americana do diretor no sangrento “Viagem Maldita” (2006), remake do clássico “Quadrilha de Sádicos”, de Wes Craven. Ele está cotado para dirigir o remake de “Piranha”.

Scott Derrickson

“O Exorcismo de Emily Rose” (2005) foi o melhor título de terror a passar nos cinemas recentemente. Uma belíssima mistura de filme de tribunal com horror satânico. Eu até hoje sinto um calafrio sempre que acordo às três horas da madrugada. O filme anterior de Derrickson foi “Hellraiser: Inferno” (2000), mais um da franquia iniciada por Clive Barker. Eu não vi esse Hellraiser, mas depois do filme da Emily Rose, fiquei até bem curioso. Outro filme dele a não perder de vista é “Paradise Lost”, previsto para 2009 e inspirado no clássico poema de John Milton que fala sobre a rebelião de Lúcifer no paraíso e a queda de Adão e Eva.

Ji-woon Kim

Não poderia faltar um exemplar do cinema sul-coreano que está passando pela melhor fase de sua história. Há desde filmes “de arte” a filmes de diversos gêneros. O título mais conhecido de Ji-woon Kim é “A Tale of Two Sisters” (de 2003, e que recebeu o horrendo título “Medo” no Brasil), que está dando o que falar mundo afora. Além da beleza plástica, seu filme é de arrepiar, o que prova que histórias de fantasmas ainda assustam. Nenhum filme do diretor foi lançado em vídeo no país ainda.

Poderia citar M. Night Shyamalan também, mas esse é um caso de diretor que transcende o gênero. Como David Lynch. Cada novo filme de Shyamalan é um acontecimento para mim. Também poderia citar Takashi Miike, mas esse maluco está muito tempo na direção de filmes, tendo mais de sessenta títulos no currículo. Então, não é bem uma revelação. Brad Anderson (“O Operário”) também poderia ser citado, já que ele até foi convidado para integrar a segunda temporada de “Masters of Horror”, mas ainda é cedo para considerá-lo um importante diretor do gênero.

Reflexões sobre a Morte

Publicado em: 13-02-2008 @ 11:49 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Reflexões sobre a morte. Como ela é mostrada em alguns filmes. A morte para os que vão e para os que ficam. Os segredos que vão para a sepultura. O simbolismo ocidental. A maior certeza da vida.

Vez ou outra a morte aporta em nossas vidas e nos faz refletir sobre o sentido disso tudo. Se não encontramos resposta, pelo menos ficamos mais conscientes de nossa finitude e de nossa fragilidade. Há alguns dias, morreu um grande amigo meu. Fiquei abalado não só pelo fato de o rapaz ter sido meu amigo, mas também por ele ter a mesma idade que eu. E pensar que eu ainda viverei coisas boas durante um bom tempo - pelo menos, assim espero - e que a vida dele já chegou ao fim é algo difícil de aceitar.

Desculpem o assunto mórbido para uma coluna de um site tão alegre como o CCR, mas esse é o assunto em pauta na minha cabeça atualmente. Até por estar lendo também o livro “Por um Fio”, de Dráuzio Varella, sobre a experiência do médico com pacientes com doenças terminais, como câncer e AIDS. Como esse espaço é sobre cinema, falemos, então, sobre alguns momentos marcantes onde a Dona Morte surge e de que maneira os vivos se comportam diante da perda do ente querido.

A cultura européia costuma materializar a morte como um homem trajando vestes pretas e empunhando uma foice. Às vezes esse homem pode surgir com o rosto de uma caveira. Recentemente algumas obras têm mostrado a morte como uma mulher sensual e atraente. É assim nos quadrinhos “Sandman”, de Neil Gaiman; é assim no filme “Alma Corsária”, de Carlos Reichenbach. Não deixa de ser mais confortante imaginar a morte como uma bela e gentil mulher, não?

No famoso “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman, um homem negocia com a morte - até joga xadrez com ela, em troca de mais uns dias no mundo. Mas isso, imagino eu, deve ser raro de acontecer. Geralmente não é possível negociar ou enganar a dita cuja. Dois filmes de terror recente - “Premonição” e “Premonição 2″ - mostram pessoas tentando driblar ou enganar a morte, mesmo sabendo que ela está espreita, esperando pelo melhor momento para atacar.

Como será a morte? Será como no filme “Ghost - Do Outro Lado da Vida”, em que o espírito do morto vê tudo que acontece ao redor e não tem condições de se comunicar com os vivos? Se for assim deve ser no mínimo perturbador. Acredito que um dia iremos saber como é.

Interessante notar também que, quando morremos, muitos de nossos segredos vão para a sepultura. Jamais conhecemos inteiramente alguém. Como acontece no clássico “Cidadão Kane”, de Orson Welles, aquilo que a pessoa morta um dia foi fica gravado de maneira diferente na memória dos vivos. Cada pessoa encara o sujeito de maneira diferente. O homem é um enigma.

Uma das coisas mais difíceis para quem fica é encarar a perda, o fato de nunca mais ver a pessoa amada. Em “Paraíso Infernal”, de Howard Hawks, o personagem de Cary Grant encara a morte como algo extremamente doloroso, mas que deve ser superado. A vida é urgente e cheia de preocupações. Não há tempo para chorar a morte do amigo. Nos filmes de Hawks, os homens são durões, não choram com facilidade, mas é fácil imaginar que Grant estivesse derramando algumas lágrimas, escondidas na chuva, numa das cenas finais do filme.

Há também os filmes sobre experiência de quase morte. Como é o caso de “Sem Medo de Viver”, de Peter Weir. Às vezes, uma experiência traumática pode mudar todo nosso conceito da vida, pode nos fazer enxergar as coisas de perspectivas diferentes.

Alguns dos filmes que mais me fazem chorar são aquelas que mostram pessoas sob a iminência da morte, como é o caso de “Os Últimos Passos de um Homem”, de Tim Robbins, de “Minha Vida”, de Bruce Joel Rubin, ou do mais recente “Minha Vida sem Mim”, de Isabel Coixet. No primeiro dos três filmes, o inimigo do homem é a lei do país, que utiliza a pena de morte para crimes hediondos. O personagem de Sean Penn estuprou e matou, mas a figura de uma freira, cheia de amor fraternal nos passa uma mensagem de amor que faz com que qualquer ódio que sintamos por aquele assassino caia por terra. Nos outros dois filmes, vemos duas pessoas que vivem felizes suas vidas normais até descobrirem que são portadoras de uma doença muito grave que lhes dá poucos meses de vida. Em “Minha Vida”, Michael Keaton é feliz, casado com uma bela mulher (Nicole Kidman), que está grávida de um filho seu. O maior desejo dele é estar vivo para testemunhar o nascimento de seu filho. Já a protagonista de “Minha Vida sem Mim” (Sarah Polley), prefere não contar para ninguém que está prestes a morrer. Ela prefere fazer uma lista de coisas que ela nunca fez e que pretende fazer antes de partir. Em todos esses filmes vemos o quanto a vida é importante e o quanto ela é breve.

A angústia da morte vai estar sempre perto, por mais que a expectativa de vida da gente tenha aumentado. Nem que um dia o ser humano possa viver mais de 200 anos, sempre vai haver um fim. Tem uma frase de Woody Allen que eu acho genial: “Não tenho medo da morte, só não quero estar presente quando ela chegar“. Uma coisa é sabermos que a morte é a maior certeza da vida, como já sabemos, outra coisa é vivenciar a expectativa dela de fato.

Rever Filmes

Publicado em: 12-12-2007 @ 1:15 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

“Mais importante que ver é rever”. O hábito de rever filmes. Os filmes que crescem na revisão, os que caem. A memória afetiva. As retrospectivas.

Certa vez, conversando com um amigo pela internet, ele me falou que tinha assistido a “Amor Flor da Pele”, de Wong Kar-wai, umas seis vezes, a fim de compreender melhor. Da primeira vez, ele não havia gostado muito, mas depois passou a achar Kar-wai um gênio. Fiquei realmente admirado com o que ele disse, já que tenho um problema de ansiedade que faz com que eu dificilmente adquira o hábito de rever filmes. São tantos os títulos pra se ver que eu ia achar que estaria perdendo tempo. Poderia estar vendo um inédito.

Lembro que há alguns anos, numa lista de discussão sobre cinema, um colega costumava dizer: “mais importante que ver é rever.” Rever um filme pode ser fundamental para uma melhor compreensão do mesmo. O lado ruim é rever um que se adorou no passado e ver cair a cortina do desencanto. Com medo de que isso aconteça, alguns filmes que eu gostei muito, até prefiro não revê-los para conservá-los em minha memória afetiva como peças mágicas.

Por exemplo, “Evil Dead” é um dos poucos filmes que vi duas vezes no cinema. Revi-o em DVD há algum tempo e não achei mais tão divertido ou assustador. Filmes que vejo mais de uma vez no cinema, eu posso contar nos dedos das mãos. O recordista dessa categoria é “Sociedade dos Poetas Mortos”, que eu vi três vezes no saudoso Cine Fortaleza. E teria visto mais, se o filme demorasse um pouco mais a sair de cartaz. Os outros que revi no cinema foram: “A Vila”, “Máquina Mortífera 4″, “Corra que a Polícia Vem Aí”, “Quem Vai Ficar com Mary?” e “Matrix”.

Alguns cineastas se beneficiam da revisão. Filmes de Jean-Luc Godard só têm a ganhar com as revisões. Recentemente pude rever “Acossado” e foi melhor do que a primeira vez. Em breve, poderei rever “Pierrot le Fou”. Suspeito que irei gostar muito mais. Francis Ford Coppola é outro cineasta que cresce muito com a revisão. Lembro que vi “Peggy Sue - Seu Passado a Espera” e da primeira vez não gostei. Na segunda, o filme foi pras alturas. Hoje é o meu favorito da fase oitentista de Coppola. A trilogia “O Poderoso Chefão”, então, é um caso especialíssimo. Ainda pretendo rever nessas edições especiais em DVD.

Há os filmes que vimos na infância e que consideramos especiais. Quando era criança, eu não gostava tanto de filmes. Os que eu mais via eram as comédias de Jerry Lewis, que passavam bastante na Sessão da Tarde. Agora que alguns desses filmes foram lançados em DVD, é possível ver se eles continuam tão bons. Tive a oportunidade de rever alguns deles no ano passado. O que muda é que agora estamos mais velhos e perdemos a inocência, algo que ajuda na apreciação dessas comédias. Por outro lado, o conhecimento que se adquire com o tempo nos permite ver o filme com outros olhos e ver o quanto Lewis era genial. Quase tanto quanto Charles Chaplin. Ainda sobre os favoritos da infância, recentemente adquiri o DVD de “Fugindo do Inferno”, de John Sturges. Finalmente vou poder vê-lo na janela correta.

De vez em quando, escolho alguns cineastas para acompanhar suas obras em ordem cronológica. Fiz isso com Alfred Hitchcock e com Howard Hawks e estou fazendo atualmente com Godard e Leo McCarey. Dentro dessas incursões, a gente, além de se divertir muito, aprende muito também. Quero ver quando eu tiver fazendo uma retrospectiva dos filmes de Orson Welles e tiver que rever “O Processo”, filme que da primeira vez que vi achei-o insuportável e perturbador. Eu chego lá.

Dez Filmes Gay

Publicado em: 22-11-2007 @ 11:22 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Um dia desses eu estava conversando com uma amiga minha, que dizia que alguns de seus amigos gays costumavam dizer que um dia eles (os gays) iriam dominar o mundo. Não sei se isso vai mesmo acontecer, ou se já está acontecendo, mas o mundo dos artistas sempre dá um passo adiante nas revoluções sociais. Assim que acabou a edição do Globo de Ouro de 2005, muitos falaram que essa foi a edição mais gay da história do prêmio. Senão vejamos: melhor filme (drama): “O Segredo de Brokeback Mountain”, atriz (drama): Felicity Huffman, pelo filme “Transamérica”, que trata de um transexual; ator (drama): Philip Seymour Hoffman por “Capote”, sobre o célebre escritor Truman Capote, gay assumido. Claro que isso foi repercutir também no Oscar. “O Segredo de Brokeback Mountain” foi o recordista das indicações nesse ano. Os outros dois filmes também ganharam destaque.

Aproveitando o hype em cima do tema, lembremos de alguns ótimos filmes que traziam protagonistas homossexuais. Lembrando que eu deixei de fora filmes “suspeitos”, isto é, que traziam apenas nas entrelinhas subtextos homo, como “Top Gun” ou “Rio Vermelho”.

1. A LEI DO DESEJO, de Pedro Almodóvar. Bem diferente da sutileza de Ang Lee, o Almodóvar dos anos 80 era visceral, subversivo e sem frescuras. Pra um filme gay, “A Lei do Desejo” é também bastante agressivo e as cenas de sexo são quase explícitas. Já faz muito tempo que vi esse filme no cinema, mas acho que até hoje nunca vi nada tão forte no gênero. Compre o filme aqui!

2. MORTE EM VENEZA, de Luchino Visconti. O mais aristocrata dos cineastas do mundo era gay e “Morte em Veneza” talvez seja um de seus filmes mais pessoais, ainda que seja a adaptação de um romance de Thomas Mann. Não era um roteiro escrito pelo próprio cineasta. O filme mostra a paixão de um homem doente por um adolescente de feições andróginas na Veneza dos tempos do cólera.

3. FELIZES JUNTOS, de Wong Kar-wai. O relacionamento conturbado de dois namorados que moram em Hong Kong e vão passar as férias na Argentina. Um filme sobre os altos e baixos de uma relação, com uma belíssima fotografia e as já conhecidas elipses de Kar-wai.

4. AS REGRAS DA ATRAÇÃO, de Roger Avary. Filme sobre uma ciranda de paixões das mais diversas envolvendo um bissexual, uma garota virgem, um traficante de drogas e um namorado ausente. Um filme com uma narrativa não-linear a cargo do roteirista de “Pulp Fiction”. Compre o filme aqui!

5. TRAÍDOS PELO DESEJO, de Neil Jordan. Na época que “Traídos pelo Desejo” surgiu nos cinemas, os responsáveis pelo marketing do filme recomendavam aos espectadores a não contar o final do filme pra ninguém. Pena que quando o filme chegou no Brasil todo mundo já sabia que a tal namorada de Stephen Rea era um transexual. Ainda assim, não deixa de ser surpreendente a cena da revelação. Compre o filme aqui!

6. MISTÉRIOS DA CARNE, de Gregg Araki. Esse filme pôde ser visto recentemente nos cinemas. “Mistérios da Carne” narra em paralelo a vida de dois rapazes que estudaram juntos na infância. Quando crescem, um vira garoto de programa para homossexuais e o outro fica obcecado por discos voadores. Filme “pancada”.

7. DEUSES E MONSTROS, de Bill Condon. A relação entre o diretor James Whale (dos clássicos “Frankenstein” e “O Homem Invisível”), vivendo seus últimos dias de vida, e um jovem que trabalha em sua casa como jardineiro. O diretor Bill Condon exploraria novamente a temática homo em filme mais recente: “Kinsey – Vamos Falar de Sexo”.

8. MENINOS NÃO CHORAM, de Kimberly Peirce. O filme que deu o primeiro Oscar para Hilary Swank, que levou a segunda estatueta no ano passado, com “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood. “Meninos não Choram” trata da dificuldade de uma moça que tenta viver como um rapaz numa cidadezinha do interior dos EUA. O filme é uma tragédia barra-pesada. Destaque para a cena de sexo entre Hilary e Chloë Sevigny. Compre o filme aqui!

9. DESEJO PROIBIDO, de Jane Anderson, Martha Coolidge e Anne Heche. A mesma Chlöe Sevigny, um ano depois de “Meninos Não Choram”, esteve em outra produção sobre lesbianismo. DESEJO PROIBIDO é um filme de segmentos produzido pela HBO, mostrando histórias que se passam nos anos 60,70 e 2000. Novamente, Chlöe arrasa quando está em cena. Compre o filme aqui!

10. MADAME SATÃ, de Karim Ainouz. Pra terminar, um filme brasileiro, dirigido por um cearense e brilhantemente protagonizado por Lázaro Ramos. O filme narra a vida de João Francisco dos Santos, vulgo “Madame Satã”, no Rio de Janeiro da década de 30. Além de homossexual, João Francisco era negro, o que só aumentava o nível de preconceito da sociedade. Felizmente ele tinha muita coragem. E quando precisava partir pra porrada, isso não era problema pra ele.

Cinema nos tempos de Internet

Publicado em: 21-11-2007 @ 3:21 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

O que mudou para os amantes da sétima arte em tempos de internet? Sites especializados, listas de discussão, blogs, filmes para download são algumas das novidades que têm contribuído para um enriquecimento da cultura cinematográfica. Uma breve reflexão sobre os novos tempos.

A internet tem mudado a relação das pessoas com o cinema. Não que se tenha passado a gostar mais ou menos de ver filmes. Mas houve uma mudança e ela veio para melhor. Hoje é possível encontrar filmes que seriam praticamente impossíveis de se ver dez anos atrás. Isso porque a internet se tornou não apenas um meio de se aprender sobre cinema através de sites especializados ou de listas de discussão: é que ela também disponibiliza os próprios filmes para download mesmo. Não duvido nada que filmes raros como “The Day the Clown Cried”, de Jerry Lewis, ou “Fear and Desire”, de Stanley Kubrick, já estejam nos e-mules ou torrents da vida.

Baixar filmes na internet é um ato ainda controverso e a indústria cinematográfica americana está lutando, com dificuldades, contra isso. Para alguns, pode parecer quase um roubo. Afinal, as pessoas estão deixando de ver o filme no cinema para ver na tela do computador. Eu por exemplo, só recorro aos filmes pelo computador quando não tenho outra alternativa. Só vou atrás de filmes raros ou inéditos no Brasil. Mas quem mora em cidades do interior que não têm nenhuma sala de cinema, com certeza, está sendo beneficiado com essa tecnologia. Principalmente agora, com o advento dos players que tocam divx.

Mas será que essa facilidade de baixar filmes está fazendo mesmo com que o público de cinema diminua? Se sim, como explicar as enormes filas nos cinemas, formadas em sua maioria pelo mesmo público jovem que tem intimidade com o mundo dos divx e codecs? Bom, a resposta não é tão simples e é preciso que se faça uma pesquisa séria antes de se dar qualquer diagnóstico, mas quando vejo filmes nos multiplexes reparo que a maior parte desse grande público está ali apenas por diversão. Para eles, o cinema é como um parque de diversões ou uma praia: um lugar para encontrar os amigos, paquerar, beijar na boca, comer pipoca. E não vejo nada de errado com isso. Esse povo está curtindo a vida. E alguns deles vão se tornar cinéfilos medida que o gosto pelos filmes for se solidificando e se transformando em amor.

Em certo sentido, a internet até tem ajudado a ampliar o público dos cinemas, já que ela se tornou uma ferramenta de informação muito importante. O fenômeno dos blogs de cinema também tem ajudado a divulgar filmes de menor repercussão na grande mídia. Divulgam o amor de seus mentores pela sétima arte, incentivando muitos a ver certos filmes que passariam desapercebidos se dependêssemos apenas da imprensa escrita ou da televisão.

Uma outra característica desses novos tempos é uma maior exigência dos cinéfilos com o formato de tela original dos filmes, a janela. Na época do videocassete pouca gente ligava para isso. A gente alugava “Era uma vez no Oeste”, por exemplo, e assistia só metade do filme, já que só era possível ver o filme em “tela cheia”, perdendo os lados do quadro. E pouca gente reclamava. Hoje é possível ver o filme bonitinho, integral, versão restaurada e em glorioso scope. E com um monte de extras.

Claro que há aqueles que ainda têm saudade do passado, mas mesmo o público mais idoso, que não liga muito para os novos filmes e não quer saber de baixar filmes pela internet, ainda pode fazer a festa alugando DVDs de filmes antigos. Distribuidoras como a ClassicLine, a Versátil, a Aurora, a Magnus Opus, além das majors (Columbia, Warner, Fox etc) que também têm lançado seus clássicos, têm contribuído para o enriquecimento do mercado de DVD no Brasil, que só tem crescido. Mas isso é assunto para uma outra ocasião. No mais, há que se concordar que vivemos em tempos de alegria para os apreciadores do cinema.

Lembrando que de forma alguma eu quero incentivar as pessoas a fazerem download de filmes, já que em vários países isso ainda é ilegal. É mais uma opinião pessoal sobre esse assunto que é realidade hoje em dia. Afinal, jogue uma pedra em mim caso você nunca tenha feito um download de um filme ou de uma mp3 na vida …

Falta de Idéias? Não é de hoje…

Publicado em: 14-11-2007 @ 1:18 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Muitas refilmagens, muitas adaptações de quadrinhos e muitos cineastas estrangeiros aportando em Hollywood. Seria isso um sinal de crise de criatividade na indústria cinematográfica americana?

Hoje em dia muito se tem falado de uma suposta falta de criatividade em Hollywood. Isso é atribuído principalmente por causa dos inúmeros remakes produzidos - sejam de produções americanas, sejam de outros países -, das várias adaptações de quadrinhos para o cinema e da “importação” de cineastas estrangeiros para a indústria hollywoodiana. Mas será que isso é verdade mesmo? Será que os produtores americanos estão recorrendo a isso simplesmente pela falta de idéias novas? Vamos por partes.

No que se refere s refilmagens, não é de hoje que isso se faz em Hollywood. Nos anos 50, o próprio Hitchcock chegou a fazer um remake de um filme seu da fase inglesa, “O Homem que Sabia Demais”. As versões mais conhecidas de “Ben-Hur” e “Os Dez Mandamentos” também são remakes, tentativas bem sucedidas de melhorarem o que já era bom. Acontece que ultimamente isso está sendo bem mais freqüente, principalmente no gênero horror. “Psicose”, “O Massacre da Serra Elétrica”, “Despertar dos Mortos”, “Assalto 13ª D.P.”, “13 Fantasmas”, “Museu de Cera”, todos já tiveram suas refilmagens recentemente. Para breve, vem aí remakes de “Quadrilha dos Sádicos”, de Wes Craven, e de “The Fog”, de John Carpenter. Nas próximas semanas, já estréiam no Brasil as refilmagens de “Guerra dos Mundos” e “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Além do mais, ainda está sendo cogitada uma refilmagem de “Os Pássaros”, de Hitchcock, uma heresia, ainda mais quando sabemos que quem está por trás disso é ninguém menos que Michael Bay, o horrível. Há também os remakes dos sucessos orientais, como “O Chamado”, “O Grito” e “The Eye”. Recentemente, já foi anuciado um remake do coreano “OldBoy”. Bom, pelo menos, a maioria desses remakes têm sido de alto nível.

Quanto s adaptações de quadrinhos para o cinema, elas são menos uma crise de idéias e mais a descoberta de uma mina de ouro para os executivos da indústria. E não devem parar tão cedo. Como o público jovem é responsável pela maior parte dos ingressos vendidos, temos que nos preparar para ver mais e mais super-heróis nas telas.

Quanto “importação” de diretores estrangeiros, não é de hoje que isso acontece na indústria. Basta lembrar que grandes diretores europeus como Fritz Lang, Ernst Lubitsch, Billy Wilder e Alfred Hitchcock fizeram obras grandiosas nos EUA. Já na época do cinema mudo, o genial F.W. Murnau teve uma de suas obras-primas - “Aurora” - financiada pelos americanos. O subversivo Paul Verhoeven, antes de estrear nos EUA, já era um diretor consagrado na Holanda. Por mais que acusem os americanos de protecionismo, há tempos o país tem aberto as portas para muitos estrangeiros. Mesmo assim, é digna de nota essa nova abertura que se tem dado a vários cineastas estrangeiros. Eles vêm de várias partes do mundo: Japão (Hideo Nakata, Takashi Shimizu), França (Alexandre Aja, Florent Emilio Siri, Jean-François Richet), Brasil (Walter Salles), Espanha (Alejandro Amenábar, Jaume Balagueró), México (Alfonso Cuarón, Alejandro González Iñárritu), China (Ang Lee, Chen Kaige).

Mas será que esses fatores se constituem como provas da crise de idéias em Hollywood? Será que um país que tem o luxo de ter nomes como Clint Eastwood, Martin Scorsese, Woody Allen, Brian De Palma, George Romero, John Carpenter, David Lynch e Steven Spielberg, todos cineastas que continuam realizando vez ou outra obras-primas, será que dá pra acreditar em falta de criatividade? Isso sem mencionar outros nomes mais recentes, como os de Richard Linklater, Gus Van Sant, Quentin Tarantino e M. Night Shyamalan, diretores que têm contribuído para fazer de uma simples ida ao cinema uma experiência inesquecível. Não se trata de estar supervalorizando os americanos em detrimento dos filmes produzidos no Brasil ou em outros países, mas não tem como não ficar admirado com um time desses. E eles ainda têm a sorte de terem disposição um bom dinheiro para gastar.

Por isso eu acho que não. Não está havendo essa chamada falta de novas idéias. O que pode estar havendo é uma preferência pela reciclagem e uma injustiça com alguns grandes cineastas. David Lynch e Brian De Palma, por exemplo, só tem conseguido realizar seus filmes com a ajuda dos franceses. George Romero só voltou a fazer uma produção de orçamento mais gordo (”Land of the Dead”) por causa do sucesso dos zumbis do remake “Madrugada dos Mortos”. John Carpenter continua com dificuldade de financiamento para seus projetos. Francis Ford Coppola sempre fez melhores filmes com muito dinheiro e não tem conseguido fazer mais nada bom desde a falência de sua produtora, a Zoetrope. Histórias de falência e prejuízo também perseguem o sumido e talentoso Michael Cimino. Hollywood não perdoa quem dá prejuízo e por mais que o cinema americano tenha uma história gloriosa, há sempre também histórias vergonhosas, como o descaso que se teve com o gênio Orson Welles. Mas como vivemos num mundo capitalista, isso já era de se esperar.

Cinema e Literatura

Publicado em: 13-11-2007 @ 9:03 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Foram poucos os livros que li que foram adaptados para o cinema. Sei que comparar dois tipos de arte não é muito aconselhável, seria comparar bananas com maçãs, alguns diriam, mas é mais ou menos isso que eu me proponho a fazer agora. A comparação, no caso, levaria em consideração o meu grau de satisfação depois de ter lido o livro ou visto o filme.

Geralmente, se eu for ler um livro adaptado para o cinema, prefiro que seja antes de ver o filme, já que o livro normalmente vem antes do filme. Mas já aconteceu de eu ler o livro depois de ter visto o filme. Por exemplo, só li “O Cemitério”, de Stephen King, alguns anos depois de ter visto o filme “O Cemitério Maldito”, de Mary Lambert. E o que aconteceu é que o livro deixou o filme bem atrás. Stephen King tem o poder de fazer com que a gente acredite naquilo tudo. Enquanto se está lendo “O Cemitério”, acredita-se piamente que aquele cemitério indígena tem mesmo o poder de ressuscitar os mortos, nem que eles venham como zumbis e com seus corpos ainda em contínuo estado de putrefação.

“Ah”, alguém poderia dizer, “mas o filme nunca é melhor que o livro”. Eu diria que isso é possível sim. Alfred Hitchcock, por exemplo, nunca gostou de pegar livros importantes para adaptar. Ele jamais pegaria “Crime e Castigo”, do Dostoiévski, pra citar o exemplo que o próprio mestre deu. Ele preferia pegar obras menores e transformá-las em filmes maiores. O exemplo vivido por mim foi o de quando li “O Chefão”, de Mario Puzo. Apesar de ser um ótimo romance, comparado com “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola, o livro perde muitos pontos. A força que Coppola imprime na saga dos Corleone é algo sem paralelos na história do cinema.

Alguns livros são tão grandes e importantes que sempre que alguém tenta fazer uma adaptação deles, acaba dando com os burros n’água ou, na melhor das hipóteses, realiza obras medíocres, como foi o caso de “Memórias Póstumas”, de André Klotzel, adaptado de um dos maiores clássicos da literatura (”Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis). No Brasil, eu diria que um dos melhores exemplos de boa adaptação para as telas foi o caso de CARANDIRU, que Hector Babenco fez do bonito livro de Dráuzio Varela.

É bem interessante ver alguns filmes tendo lido o livro em que ele se baseia. Uma das primeiras vezes que tive essa experiência foi quando vi no cinema “A Insustentável Leveza do Ser”, de Philip Kaufman, poucos dias depois de ter terminado de ler o romance homônimo de Milan Kundera. O livro até hoje está entre os meus preferidos de todos os tempos e o filme soube captar bem o espírito do romance, apesar da dificuldade que se tinha de adaptar as reflexões filosóficas de Kundera para as telas. A vantagem do filme é que vemos, materializadas em nossa frente, as personagens de Tereza e Sabina, que aparecem nuas no filme e na pele de duas atrizes excepcionais. O livro tinha alguns momentos bem quentes em se tratando de erotismo, mas o filme é mais explícito. Pode-se dizer que é um filme erótico. Até hoje me lembro de um texto de Eugenio Bucci, que saiu numa antiga edição da Revista SET, em que o crítico falava poeticamente dos pentelhos da personagem de Juliete Binoche. Acreditem, ficou muito bonito e nada vulgar.

Mais recentemente, pude ver a trilogia “O Senhor dos Anéis”, magnificamente dirigida por Peter Jackson, depois de ter lido os três livros de J.R.R. Tolkien. Eu diria que esse é o caso de filme que fica melhor pra quem leu os livros. Quem leu os livros e viu a bela adaptação - chegando perfeição no último filme, em se tratando de fidelidade ao texto original - deve curtir muito mais o filme. Enquanto isso, eu conheço gente que odeia a trilogia e não quer mais ouvir falar de hobbits de jeito nenhum. Coincidência ou não, essas pessoas nunca leram os livros.

Talvez seja o mesmo caso de quem leu “Duna”, de Frank Herbert. Eu, que nunca li o livro, acho o filme de David Lynch um erro em sua carreira. Sem DUNA, eu diria que a filmografia de Lynch seria irretocável, perfeita. Por outro lado, já conheço gente que leu o livro de Herbert e considera o filme de Lynch o melhor de sua carreira, mesmo com todos os problemas de cortes, edição e ritmo irregular. Existe até uma versão estendida do filme, que saiu recentemente em DVD, mas eu até agora não tive coragem de pegar pra ver. Vai que o filme melhora, fica mais palatável e compreensível…

Lembrei agora de “O Exorcista”. Li o livro de William Peter Blatty no início da minha adolescência. Na época, esse livro era visto como maldito e acredito que eu era muito novo para ler esse livro. Se bem que isso não me afetou muito não. O que mais me impressionou no livro - e que não tem no filme - foram as descrições das hóstias fabricadas para a missa negra. Mas faz muito tempo que li esse romance e fica difícil de lembrar de outros detalhes. Esse é talvez o caso de filme que ultrapassa a força do livro. “O Exorcista” de William Friedkin não é um filme de sustos, mas de mal estar, de clima pesado. Tanto que ele é um dos filmes que mais tem uma mitologia de maldição ao seu redor. Mas deve perder nesse quesito para “Incubus”, de Leslie Stevens.

Teria mais alguns para comentar, como “A Grande Arte” e “O Nome da Rosa”, por exemplo, mas esse texto já está ficando bem grande. Pra terminar: no ano passado li “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, e não gostei do livro. Não achei engraçado o senso de humor do autor e achei a história bem boba. Pode ser que o filme seja melhor, mas ontem mesmo um amigo que mora no Canadá falou que viu várias vezes o trailer do filme e achou insuportável. A seu favor: a) a obra serviu de referência para a obra-prima Ok, Computer, disco de 1997 do Radiohead; e b) a direção do filme é de Garth Jennings, que no currículo tem o interessante videoclipe “Imitation of Life”, do R.E.M.

Manias de Cinéfilo

Publicado em: 05-11-2007 @ 4:11 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Quem é cinéfilo deve ter alguma mania. Nem que seja uma bem discreta. Nessa coluna, eu enumero algumas manias de cinéfilo bastante conhecidas, tanto minhas, quanto de algumas pessoas que eu conheço.

Quem assistiu a “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, de Woody Allen, deve se lembrar daquela cena em que Allen e Diane Keaton vão ao cinema e chegam atrasados cinco minutos para a sessão. Para Diane, aqueles cinco minutos não significam muita coisa, mas Allen se recusa a ver o filme, preferindo rever um longo documentário sobre o holocausto, que estava passando numa sala ali perto.

No passado eu não ligava muito pra isso, mas hoje em dia eu só entro na sala se o filme ainda não tiver começado. Até porque o pedaço que foi perdido vai ser recuperado só se você pagar de novo pela sessão, já que a direção dos cinemas não permite mais que você permaneça na sala. Teve uma época em que era permitido que a gente ficasse na sala pra ver a mesma sessão novamente ou então pra ver o começo do filme - se você o tivesse perdido. Interessante notar que nos filmes é bastante comum a gente ver personagens entrando no cinema quando o filme já está passando. Parece que isso tem um efeito mais dramático do que simplesmente ver o personagem sentando numa sala com as luzes ainda acesas.

Nessa semana, eu fiz uma pequena pesquisa numa lista de discussão de que participo perguntando se algum dos colegas tinha alguma mania de cinéfilo. A mais curiosa das declarações, pra mim, foi a de Ana Ramgrab, de Porto Alegre. Ela disse preferir sentar na última fileira para poder ouvir o barulhinho do projetor. Achei isso bastante poético, embora prefira sentar mais perto da tela. Essa declaração, aliás, contraria o que a maioria dos cinéfilos mais radicais prefere, que é sentar numa das primeiras fileiras. Cheguei a imaginar uma vez que isso pode ser uma tentativa de entrar na tela, de absorver melhor a energia do filme. Ou pode ser também uma espécie de adoração, já que você tem que levantar um pouco a cabeça para ver a tela. Nesse caso, você se sentiria inferior ao cinema, que seria o seu deus, a sua religião. As salas dos Multiplexes, atualmente, têm diminuído essa coisa do espectador ter que levantar a cabeça, já que as cadeiras são dispostas como as de um estádio.

Marlonn Della Bruna, de Curitiba, falou que já foi uma pessoa que costumava fazer “shhhh” durante as sessões. Tem gente que fala demais e atrapalha a apreciação do filme. Eu gosto de pessoas que respeitam o filme, que dizem “shh” durante a sessão. Tem um crítico de cinema de um jornal local que eu sempre encontro em várias sessões que é o rei do shhhh. Agora, com o advento dos telefones celulares, esse problema se acentuou ainda mais.

Eu tenho algumas manias antes de ver um filme no cinema. Por exemplo, eu sempre tenho que ir ao banheiro segundos antes de entrar na sala. Nem que seja apenas para lavar o rosto. Entrar no cinema suado é horrível. Também odeio entrar com sede e, para evitar sentir sede no meio do filme, eu sempre levo alguma coisa pra beber, seja uma água ou um refrigerante. Nesse quesito (coisas que se compra antes de entrar no cinema), na lista de discussão, o exemplo mais curioso foi o do amigo Marcos Aurélio, de Natal, que sempre compra uma água mineral com gás e três jujubas. Uma amiga minha daqui de Fortaleza, que já me acompanhou em algumas sessões, sempre sente necessidade de comprar chocolates. Como eu tenho alergia aos chocolates, sofro em não aceitar alguma barra. Na sessão de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”, por exemplo, eu não resisti tentação.

Sentir vontade de urinar durante o filme não é bom. Acho que a sessão de “Dirigindo no Escuro” só foi pior porque eu resisti até o final a ir ao banheiro. O problema é que eu torcia para que o filme acabasse logo, já que não costumo sair de um filme no meio. Acho que o único filme de que eu saí antes que ele terminasse foi “Estorvo”, do Ruy Guerra. Isso porque o filme era muito chato, porque o protagonista era um cubano falando “portunhol”, porque o som da sala estava muito ruim e porque eu tinha que fazer uma ligação para a namorada.

Há quem diga que eu tenho mania de chorar em cinema. Meu amigo Renato Doho, de São Carlos, diz que seus olhos geralmente lacrimejam durante a sessão. Por isso, há quem pense que ele está chorando até em filme de ação. Eu dificilmente tenho esse problema, mas choro facilmente em melodramas. Uma das sessões mais bizarras pra mim foi a de “Carandiru”. Toda a sala gargalhando com o drama do Majestade, o sujeito que amava duas mulheres ao mesmo tempo, e eu chorando a valer. Bom, depende muito do estado de espírito. Tem dias que a gente está mais sensível.

Quem freqüenta o “circuito de arte”, costuma ver as mesmas pessoas durante as sessões. Querendo ou não, se chegamos um pouco mais cedo, acabamos prestando atenção naquelas pessoas que dividem com você o gosto pelos filmes. Pena que eu seja uma pessoa tímida e com mais dificuldade de socialização. É sempre bom trocar uma idéia com as pessoas que compartilham o mesmo prazer com você. Mal comparando, é como se você fosse pra cama com alguém e nem sequer lhe perguntasse o seu nome. (Falei que a comparação não era boa).

10 Road Movies

Publicado em: 25-10-2007 @ 2:07 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Viajar é sempre bom. É emocionante a ida a um território desconhecido. Claro que você, mesmo estando em sua própria cidade, também está sujeito a eventos totalmente desconhecidos - a vida é cheia de surpresas -, mas ter a oportunidade de mudar de ares é sempre uma sensação das mais agradáveis e excitantes.

Tendo em vista a minha ida recente para São Paulo e o fato de eu ter visto o road movie “Transamérica” por lá, pensei em enumerar dez filmes do gênero. O road movie é aquele tipo de filme que deixa a gente ansioso para chegar ao destino, ao mesmo tempo que nos dá tempo para curtir a paisagem. Na verdade, a viagem é tão ou mais importante que o destino. Então, como forma de celebrar as viagens, segue uma lista de dez road movies. Não necessariamente os melhores, mais os que mais rapidamente me vieram cabeça.

1. HISTÓRIA REAL (The Straight Story). Um filme atípico na filmografia de David Lynch, ainda que muito de sua marca esteja presente nessa história de um velhinho que parte numa longa viagem em cima de um cortador de grama. Ele atravessa várias cidades devagarinho, nesse “meio de transporte” com o objetivo de ver o seu irmão, que estava muito doente. Ele tem suas próprias razões para querer viajar em cima de um cortador de grama, em vez de um meio de transporte mais rápido. Pra que razão melhor do que ver aquele céu estrelado? Curiosamente, o veterano Richard Farnsworth, o protagonista do filme, cometeu suicídio poucos meses depois do filme, aos 80 anos de idade. Farnsworth foi indicado a dois Oscars, sendo que um deles por “História Real”.

2. O ESTRANHO CAMINHO DE SÃO TIAGO / A VIA LÁCTEA (La Voie Lactée). O genial Luis Buñuel conta a história de dois vagabundos saindo de Paris e seguindo o caminho de Santiago de Compostella, na Espanha. Ao mesmo tempo que mostra o percurso dos dois, Buñuel nos apresenta o que ele e Jean-Claude Carrière consideravam as seis maiores heresias. Os dois fizeram uma intensa pesquisa e fizeram um filme bastante polêmico e considerado ofensivo pelos católicos mais radicais.

3. E SUA MÃE TAMBÉM (Y Tu Mamá También). Talvez um dos filmes em que a gente mais sente a alegria de viajar. Talvez porque seus protagonistas são muito jovens e cheios de vida. No México, dois rapazes e uma mulher mais velha que eles partem numa viagem pelo interior do país. No caminho, eles aprendem muito sobre sexo, amizade e a valorização de cada momento da vida, como se fosse o último. Belíssimo e sensual trabalho de Alfonso Cuarón.

4. SIDEWAYS - ENTRE UMAS E OUTRAS (Sideways). Diferente dos jovens do filme de Cuarón, os protagonistas de “Sideways” já se aproximam da meia-idade e a vida já lhes trouxe muitas amarguras e decepções. Talvez por isso que o personagem de Paul Giamatti não consegue sentir se entusiasmar tanto com essa viagem. Para ele, o principal objetivo da viagem vai ser mesmo conhecer as principais rotas de vinho da Califórnia. Mas, para sua sorte, a amizade, o retorno da auto-estima e as mulheres estarão pelo caminho.

5. FLORES PARTIDAS (Broken Flowers). Assim como o personagem de Giamatti, o personagem de Bill Murray nesse filme é um homem anestesiado e que já perdeu o gosto pela vida. Até o dia em que ele recebe uma carta anônima que lhe avisa de um filho adolescente, do qual ele não sabia da existência. Auxiliado por seu vizinho e amigo, ele faz uma viagem em busca da mãe de seu filho. O final é belíssimo.

6. CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS. Um dos melhores filmes dos últimos anos do cinema brasileiro, essa pérola dirigida pelo pernambucano Marcelo Gomes é uma das mais inspiradas odes sobre a amizade já realizadas. Grande sacada colocar como um dos protagonistas um estrangeiro. É assim como nos sentimos naquele lugar devastado pela fome e pela miséria, mas que pelo menos não cai bombas do céu. Poucos filmes me deram tanto prazer nesse ano de 2006.

7. ONDE ANDA VOCÊ?. Já que estamos falando de filme brasileiro, lembro desse título tão mal recebido pela crítica e pelo público, mas que me proporcionou momentos de muita alegria. Na trama, um comediante decadente realiza uma viagem em busca de um comediante lendário que mora numa terra distante do Nordeste brasileiro. Vale tudo para alcançar a felicidade perdida. Adoro o tom agridoce desse filme. Dirigido por Sérgio Rezende, que voltou s telas com “Zuzu Angel”.

8. DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Diarios de Motocicleta / The Motorcycle Diaries). Projeto bem mais ambicioso dirigido por um cineasta brasileiro é essa cinebiografia de parte da juventude de Che Guevara, quando ele saiu de motocicleta com um amigo para conhecer a América do Sul. Este é o exemplo clássico de road movie que mostra o quanto uma viagem pode interferir na vida de uma pessoa e modificá-la para sempre.

9. THELMA & LOUISE. Já entrando no território misto de road movie com filmes de fuga, um dos exemplos mais acabados da filmografia de Ridley Scott é “Thelma & Louise”. O que acontece quando duas mulheres saem em busca da liberdade que há tanto tempo lhes foi negada? Na história, uma dona de casa e uma garçonete fogem de suas vidas e de seus maridos num Thunderbird. A viagem das duas vai ser no mínimo explosiva.

10. TRÊS ENTERROS (The Three Burials of Melquiades Estrada). A viagem não é nada agradável, principalmente para o homem que matou acidentalmente Melquiades Estrada. Para ele, essa viagem é como uma purgação pelos seus pecados. No meio do caminho, o deserto que castiga o corpo, cobras venenosas, a pobreza do México e um velho cego que pede para que uma alma caridosa lhe faça o favor de ceifar a sua vida miserável. Excelente estréia na direção de Tommy Lee Jones.

Preconceito com Gêneros

Publicado em: 09-10-2007 @ 11:51 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Uma das coisas que eu aprendi nesses últimos anos foi a não ter preconceito com qualquer tipo de filme. Como mantenho um blog de cinema há cinco anos, de vez em quando eu percebo o quanto alguns gêneros são desprezados e relegados a uma categoria inferior por uma parcela considerável do público de cinema.

Existem dois extremos: o público dos “filmes de arte” que rejeita os gêneros mais populares e o público leigo que rejeita o “cinema de arte”. Coloco as aspas nesses termos porque eu também considero o cinema de gênero uma forma de cinema de arte.

O filme de ação de baixo orçamento é constantemente alvo de repúdio dos espectadores mais exigentes. Eu mesmo confesso que não é o meu gênero favorito quando eu entro numa videolocadora. É verdade que existe muita porcaria e o pouco tempo que a gente dispõe nessa correria que é a vida não pode ser desperdiçado com qualquer tranqueira. Por isso, é preciso fazer uma seleção, seja ela por astros ou, melhor ainda, por diretores. Por esse critério, é possível encontrar preciosidades de mestres dos filmes B, como Larry Cohen ou John Flynn, pra citar os mais conhecidos.

Um exemplo clássico de preconceito é em relação aos filmes estrelados por astros como Jean-Claude Van Damme, Sylvester Stallone ou Charles Bronson. São três casos completamente diferentes e é verdade que há realmente uma série de filmes ruins nas filmografias desses camaradas, mas ignorá-los seria um erro. Van Damme fez filmes com mestres do cinema de ação de Hong Kong, como John Woo, Tsui Hark e Ringo Lam; Stallone, antes de sujar o seu nome com as continuações de “Rambo” e “Rocky” já foi mais respeitado; e Charles Bronson fez muitos filmes excelentes ao longo de sua longa carreira, tendo trabalhado com mestres como Sergio Leone, Sergio Solima, Walter Hill e John Sturges. Sem falar que esses três astros têm carisma suficiente para levar um filme inteiro nas costas.

O filme pornô é até desnecessário dizer o quanto é relegado mais baixa categoria. São filmes que já nascem marginais e proibidos. Mas mesmo esse gênero também possui os seus clássicos. E não me refiro a “Império dos Sentidos” ou coisa do tipo, mas a filmes de sexo explícito mesmo. É possível encontrar no meio da lama onde o gênero costuma nadar casos de filmes de vanguarda e que imediatamente se tornaram cultuados pelos fãs, ainda que continuem desconhecidos pela maior parcela dos fãs de cinema. Alguns casos que mereceriam destaque: “Café Flesh”, “Misty Beethoven”, “Fresh Meat”, “Justine”.

E do mesmo jeito que há o preconceito por parte desse público mais exigente, também há, naturalmente, das pessoas que não têm o hábito de variar o seu cardápio e provam sempre da mesma “fast food” servida por Hollywood. Para elas, “filmes-cabeça” é o mesmo que “filme sem pé nem cabeça”. Ver filmes de Robert Bresson, Luis Buñuel ou Alejandro Jodorowski seria então diversão pra gente doida. Até hoje não me esqueço do dia em que indiquei “Cidade dos Sonhos” para um amigo meu e ele saiu do cinema p. da vida comigo. Aí eu falei pra ele, rindo: “você é um privilegiado de ter assistido a esse filme no cinema.” E eu falava isso com convicção.

Há também preconceito relativo idade do filme. O público comum acha que filme produzido na década de 80 é filme antigo, enquanto que o cinema existe desde o começo do século e é possível ver obras-primas de quase cem anos de idade se você visitar a sessão de clássicos da locadora.

No fim das contas, é tudo uma questão de ver cinema com os olhos abertos e perceber o quão rica pode ser a apreciação de um filme. Claro que não é aconselhado a uma pessoa que não tem o hábito de ver filmes a pegar logo de cara um Godard ou um Tarkovski. A esses se chega aos poucos, através do interesse e da leitura. Hoje em dia, com a democratização da informação que veio com o advento da internet, o conhecimento está a um clique de distância.

Mortos em Cena

Publicado em: 17-09-2007 @ 5:27 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Teve um célebre diretor que chegou a dizer que ator era como gado. Mas por mais que não se dê a devida importância a eles, quando um deles morre no meio das filmagens, o diretor fica sem saber o que fazer e o filme fica seriamente prejudicado.

Lendo ontem uma entrevista de Leo McCarey publicada no livro “Afinal, Quem Faz os Filmes”, de Peter Bogdanovich, soube de um interessante fato ocorrido durante as filmagens de “Não Desonres o Teu Sangue” (1952). No meio das filmagens, o ator Robert Walker faleceu. Leo McCarey ficou sem saber o que fazer e teve uma solução inteligente para finalizar o seu filme. Ele modificou o roteiro, fazendo com que o personagem de Walker morresse e procurou alguma cena retirada de outro filme que mostrava Walker morrendo. Ele conversou com Alfred Hitchcock, que havia trabalhado com o ator em “Pacto Sinistro” (1951) e aproveitou uma cena do filme de Hitch que mostra ele morrendo - fingindo que estava morrendo, claro. Depois, fizeram uma trucagem para mudar o fundo, desenvolveram uma situação em que o personagem morre num acidente de táxi e o próprio McCarey gravou as últimas palavras do personagem com uma voz quase inaudível. Nunca vi esse filme, que parece não ser o melhor do diretor, mas confesso que fiquei curioso para assistir.

Uma das maiores tragédias da história do cinema aconteceu durante as filmagens de “No Limite da Realidade” (1983). Apesar de possuir suas qualidades, infelizmente, o filme ficou mais famoso pelo terrível acidente ocorrido durante as gravações do segmento de John Landis, quando Vic Morrow (justamente o protagonista!) morreu num acidente com um helicóptero, juntamente com mais duas crianças. A hélice do helicóptero cortou fora a cabeça de Morrow. Isso prejudicou bastante a carreira do diretor, que vinha de um grande sucesso, “Um Lobisomem Americano em Londres (1981). Landis teve que testemunhar várias vezes no tribunal, sendo acusado de negligência. É um caso bastante delicado que já deu muito o que falar.

Alguns casos de atores que morrem acabam virando motivo de piada. É o que aconteceu quando o então decadente Bela Lugosi faleceu durante as filmagens de “Plan 9 from Outer Space” (1959), de Ed Wood. Hoje o filme é conhecido como o pior filme de todos os tempos e Wood é considerado o pior dos diretores. Quem assistiu “Ed Wood” (1994), de Tim Burton, sabe qual foi a solução encontrada pelo cineasta para o problema da morte de Lugosi. Ele simplesmente colocou um dublê que ficava o resto do filme inteiro com o braço cobrindo o rosto. Não deixa de ser muito engraçado.

Saindo um pouco do cinema e entrando na televisão, aqui no Brasil, tivemos o caso da morte de Jardel Filho, durante as filmagens da novela “Sol de Verão” (1982), de Manoel Carlos. Na época, eu só tinha dez anos, mas fiquei bastante impressionado com o caso. Há cerca de três meses, assisti uma entrevista de Manoel Carlos no programa Conexão Roberto D’Ávila. Na entrevista, o escritor contou do impacto da morte do ator e do quanto isso significou pra ele o fim definitivo da novela. Manoel Carlos se demitiu da função de escritor e um outro assumiu o seu lugar, não conseguindo manter a novela no ar durante muito tempo e tendo que encerrar antes da época prevista.

Voltando para o cinema, um dos casos mais misteriosos é o da morte de Brandon Lee, filho de Bruce Lee, que recebeu um tiro de uma arma de verdade durante as filmagens de “O Corvo” (1994), de Alex Proyas. Até hoje a morte do jovem ator constitui um mistério e algumas pessoas até atribuem a uma espécie de maldição. Os negativos com a morte de Brandon Lee foram destruídos. Algo semelhante aconteceu com o seu pai, que faleceu durante as filmagens de “O Jogo da Morte” (1978). Os produtores usaram de picaretagem e conseguiram terminar o filme usando um dublê que aparecia sem mostrar o rosto. Usaram também uma filmagem real do funeral de Bruce. No entanto, a estória do filme foi totalmente prejudicada e o filme é extremamente confuso.

Um outro caso morbidamente curioso diz respeito ao filme “Tubarão” (1969), de Samuel Fuller. Conta-se que durante as filmagens, um dos dublês morreu de verdade de um ataque de tubarão. Obviamente, Fuller fez questão de retirar do filme essa cena. Até porque o sujeito que morreu era parceiro de copo de Fuller. No entanto, os produtores, contra a sua vontade, resolveram colocar a cena da morte do dublê no filme. Fuller ficou indignado e abandonou a produção, deixando por conta de outros montadores, que picotaram o filme e colocaram a tal cena.

Devo ter esquecido algum caso importante, mas acho que lembrei dos exemplos mais conhecidos de atores (ou dublês, no caso do filme de Fuller) mortos em cena. Desculpem o tema mórbido e que eles descansem em paz.

Lembranças do VHS

Publicado em: 11-09-2007 @ 2:50 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Hoje em dia, com a popularização do DVD e com a facilidade de se encontrar filmes na internet, pouca gente lembra o quão importante foi o surgimento das fitas VHS. Muitos, inclusive, até já aposentaram o seu videocassete. Eu, por enquanto, ainda uso o meu bastante. E estou aqui hoje para falar um pouco sobre a minha experiência com o velho VHS. Meu primeiro aparelho foi um Sanyo duas cabeças, que comprei em 1991. Foi o melhor que eu pude comprar na época. No começo, não fiquei muito satisfeito com o aparelho. A imagem das fitas não ficava tão boa quanto a recepção da Rede Globo, por exemplo. Mas com o uso e depois de uma limpeza nas cabeças a imagem ficou boa.


Hoje em dia pouca gente se dá conta da revolução que foi o videocassete. Imagina só: você mesmo fazer a sua própria programação e não ficar sujeito ao que as emissoras passavam. E ainda por cima, ter acesso a obras que só os seus pais ou avós tiveram a chance de ver no cinema. Lembro de alguns dos primeiros filmes locados: “A Maldição dos Mortos-Vivos”, de Wes Craven, “O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante”, de Peter Greenaway, “Coração Selvagem”, de David Lynch, “Eros – O Deus do Amor”, de Walter Hugo Khouri.

Depois de ver o que tinha de melhor nas locadoras do bairro, fui atrás das melhores locadoras da cidade. Na época, a King Vídeo, na Avenida Santos Dumont, era uma das melhores. Tinha um excelente acervo e as prateleiras reservavam espaço para clássicos e filmes alternativos. Os diretores que mais me atraíam eram Alfred Hitchcock, Woody Allen e Luis Buñuel. Pra você ver como a paixão por esses senhores é antiga. Em feriadões, como o Carnaval ou a Semana Santa, eu saía de lá com um pacote enorme de fitas. Pedia para a atendente colocar as fitas em dois sacos, já que eu ia pegar dois ônibus para chegar em casa e não queria correr o risco de o saco rasgar no caminho.

Como ainda não existia internet na minha vida, os meus meios de consulta eram os guias de vídeo da revista SET – a Cinemin já tinha acabado e eu nunca gostei dos guias da Nova Cultural. Todo ano a publicação lançava um guia atualizado. Dentro desses guias, sempre havia aqueles filmes que eu sonhava encontrar nas locadoras, mas nunca encontrava. Alguns desses títulos - “O Amigo Americano”, “O Medo do Goleiro diante do Pênalti” e “O Estado das Coisas”, todos de Wim Wenders; “Macbeth”, de Orson Welles, “Smoking/No Smoking”, de Alain Resnais -, até hoje eu não tive a oportunidade de ver.


A falta de internet também me deixava com a impressão de que algumas obras eram sagradas, de que alguns diretores eram inquestionavelmente sagrados. Por isso, sempre me incomodava com o fato de não ter gostado de alguns filmes de Fellini, Bergman ou Kurosawa. No tempo do VHS, também não se ligava muito para a “janela errada”. Hoje há uma exigência muito maior para o formato correto dos filmes. Com o tempo e a popularização maior dos televisores widescreen, isso vai se tornar cada vez mais importante.

O advento do videocassete também mudou a indústria pornográfica. Antes, os espectadores que iam para o cinema ver esse tipo de filme tinham mais paciência para acompanhar um filme pornô com estória. Com a chegada do vídeo e da tecla “fast forward” do controle remoto, a estória já não interessava mais. Por isso, os pornôs da era do vídeo partiam logo para os finalmente. Teve um tempo que eu era mais interessado nesse gênero, no tempo da excelente publicação Guia do Vídeo Erótico. Com o fim da publicação e a cada vez maior decadência do gênero com a facilidade de se baixar trechos de vídeos na internet, meu interesse pela pornografia como arte diminuiu.

Por outro lado, o western, que era um gênero que não me atraia muito, hoje se tornou um objeto de culto, graças possibilidade que eu tive de conhecer mais de mestres como John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann e Sergio Leone. Já o cinema de horror, que eu sempre gostei desde a infância, passou a ser ainda mais interessante depois que eu tive contato com um grupo de pessoas de uma lista de discussão. Mas isso já aconteceu no início do novo milênio e as fitas de vídeo passaram a se tornar ítem de sebos. As videolocadoras, com a chegada dos DVDs passaram a se desfazer de suas fitas mofadas. E assim, aos poucos, essa mídia vai morrendo e dando lugar aos mais práticos e baratos discos digitais. Foi bom enquanto durou.

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