Viajar é sempre bom. É emocionante a ida a um território desconhecido. Claro que você, mesmo estando em sua própria cidade, também está sujeito a eventos totalmente desconhecidos - a vida é cheia de surpresas -, mas ter a oportunidade de mudar de ares é sempre uma sensação das mais agradáveis e excitantes.
Tendo em vista a minha ida recente para São Paulo e o fato de eu ter visto o road movie “Transamérica” por lá, pensei em enumerar dez filmes do gênero. O road movie é aquele tipo de filme que deixa a gente ansioso para chegar ao destino, ao mesmo tempo que nos dá tempo para curtir a paisagem. Na verdade, a viagem é tão ou mais importante que o destino. Então, como forma de celebrar as viagens, segue uma lista de dez road movies. Não necessariamente os melhores, mais os que mais rapidamente me vieram cabeça.
1. HISTÓRIA REAL (The Straight Story). Um filme atípico na filmografia de David Lynch, ainda que muito de sua marca esteja presente nessa história de um velhinho que parte numa longa viagem em cima de um cortador de grama. Ele atravessa várias cidades devagarinho, nesse “meio de transporte” com o objetivo de ver o seu irmão, que estava muito doente. Ele tem suas próprias razões para querer viajar em cima de um cortador de grama, em vez de um meio de transporte mais rápido. Pra que razão melhor do que ver aquele céu estrelado? Curiosamente, o veterano Richard Farnsworth, o protagonista do filme, cometeu suicídio poucos meses depois do filme, aos 80 anos de idade. Farnsworth foi indicado a dois Oscars, sendo que um deles por “História Real”.
2. O ESTRANHO CAMINHO DE SÃO TIAGO / A VIA LÁCTEA (La Voie Lactée). O genial Luis Buñuel conta a história de dois vagabundos saindo de Paris e seguindo o caminho de Santiago de Compostella, na Espanha. Ao mesmo tempo que mostra o percurso dos dois, Buñuel nos apresenta o que ele e Jean-Claude Carrière consideravam as seis maiores heresias. Os dois fizeram uma intensa pesquisa e fizeram um filme bastante polêmico e considerado ofensivo pelos católicos mais radicais.
3. E SUA MÃE TAMBÉM (Y Tu Mamá También). Talvez um dos filmes em que a gente mais sente a alegria de viajar. Talvez porque seus protagonistas são muito jovens e cheios de vida. No México, dois rapazes e uma mulher mais velha que eles partem numa viagem pelo interior do país. No caminho, eles aprendem muito sobre sexo, amizade e a valorização de cada momento da vida, como se fosse o último. Belíssimo e sensual trabalho de Alfonso Cuarón.
4. SIDEWAYS - ENTRE UMAS E OUTRAS (Sideways). Diferente dos jovens do filme de Cuarón, os protagonistas de “Sideways” já se aproximam da meia-idade e a vida já lhes trouxe muitas amarguras e decepções. Talvez por isso que o personagem de Paul Giamatti não consegue sentir se entusiasmar tanto com essa viagem. Para ele, o principal objetivo da viagem vai ser mesmo conhecer as principais rotas de vinho da Califórnia. Mas, para sua sorte, a amizade, o retorno da auto-estima e as mulheres estarão pelo caminho.
5. FLORES PARTIDAS (Broken Flowers). Assim como o personagem de Giamatti, o personagem de Bill Murray nesse filme é um homem anestesiado e que já perdeu o gosto pela vida. Até o dia em que ele recebe uma carta anônima que lhe avisa de um filho adolescente, do qual ele não sabia da existência. Auxiliado por seu vizinho e amigo, ele faz uma viagem em busca da mãe de seu filho. O final é belíssimo.
6. CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS. Um dos melhores filmes dos últimos anos do cinema brasileiro, essa pérola dirigida pelo pernambucano Marcelo Gomes é uma das mais inspiradas odes sobre a amizade já realizadas. Grande sacada colocar como um dos protagonistas um estrangeiro. É assim como nos sentimos naquele lugar devastado pela fome e pela miséria, mas que pelo menos não cai bombas do céu. Poucos filmes me deram tanto prazer nesse ano de 2006.
7. ONDE ANDA VOCÊ?. Já que estamos falando de filme brasileiro, lembro desse título tão mal recebido pela crítica e pelo público, mas que me proporcionou momentos de muita alegria. Na trama, um comediante decadente realiza uma viagem em busca de um comediante lendário que mora numa terra distante do Nordeste brasileiro. Vale tudo para alcançar a felicidade perdida. Adoro o tom agridoce desse filme. Dirigido por Sérgio Rezende, que voltou s telas com “Zuzu Angel”.
8. DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Diarios de Motocicleta / The Motorcycle Diaries). Projeto bem mais ambicioso dirigido por um cineasta brasileiro é essa cinebiografia de parte da juventude de Che Guevara, quando ele saiu de motocicleta com um amigo para conhecer a América do Sul. Este é o exemplo clássico de road movie que mostra o quanto uma viagem pode interferir na vida de uma pessoa e modificá-la para sempre.
9. THELMA & LOUISE. Já entrando no território misto de road movie com filmes de fuga, um dos exemplos mais acabados da filmografia de Ridley Scott é “Thelma & Louise”. O que acontece quando duas mulheres saem em busca da liberdade que há tanto tempo lhes foi negada? Na história, uma dona de casa e uma garçonete fogem de suas vidas e de seus maridos num Thunderbird. A viagem das duas vai ser no mínimo explosiva.
10. TRÊS ENTERROS (The Three Burials of Melquiades Estrada). A viagem não é nada agradável, principalmente para o homem que matou acidentalmente Melquiades Estrada. Para ele, essa viagem é como uma purgação pelos seus pecados. No meio do caminho, o deserto que castiga o corpo, cobras venenosas, a pobreza do México e um velho cego que pede para que uma alma caridosa lhe faça o favor de ceifar a sua vida miserável. Excelente estréia na direção de Tommy Lee Jones.
Existem dois extremos: o público dos “filmes de arte” que rejeita os gêneros mais populares e o público leigo que rejeita o “cinema de arte”. Coloco as aspas nesses termos porque eu também considero o cinema de gênero uma forma de cinema de arte.
Lendo ontem uma entrevista de Leo McCarey publicada no livro “Afinal, Quem Faz os Filmes”, de Peter Bogdanovich, soube de um interessante fato ocorrido durante as filmagens de “Não Desonres o Teu Sangue” (1952). No meio das filmagens, o ator Robert Walker faleceu. Leo McCarey ficou sem saber o que fazer e teve uma solução inteligente para finalizar o seu filme. Ele modificou o roteiro, fazendo com que o personagem de Walker morresse e procurou alguma cena retirada de outro filme que mostrava Walker morrendo. Ele conversou com Alfred Hitchcock, que havia trabalhado com o ator em “Pacto Sinistro” (1951) e aproveitou uma cena do filme de Hitch que mostra ele morrendo - fingindo que estava morrendo, claro. Depois, fizeram uma trucagem para mudar o fundo, desenvolveram uma situação em que o personagem morre num acidente de táxi e o próprio McCarey gravou as últimas palavras do personagem com uma voz quase inaudível. Nunca vi esse filme, que parece não ser o melhor do diretor, mas confesso que fiquei curioso para assistir. 

Comecemos com o pai de todos: Luis Buñuel (foto ao lado). Esse senhor espanhol é um dos poucos diretores de cinema que pode ser tranqüilamente chamado de gênio sem que isso pareça um exagero. Dom Buñuel começou ainda no cinema mudo com uma obra de referência para o Movimento Surrealista no começo do século XX. Ele aliou-se ao pintor Salvador Dali para compor a obra-prima “Um Cão Andaluz” (1928), cuja cena da navalha cortando o olho de uma mulher está no imaginário até de quem nunca viu o filme completo. Nunca existiu outro cineasta como Buñuel. Ele também era famoso por ser um crítico ferrenho da Igreja Católica. A frase “sou ateu graças a Deus” ficou popularizada graças a ele. Ele era tão contraditório quanto essa frase: um de seus melhores amigos era um padre, e ele tinha uma obsessão pelos símbolos e dogmas do catolicismo.
O chileno Alejandro Jodorowsky (foto ao lado) é bem menos conhecido pelo público e o surrealismo em seus filmes era ligado a suas crenças religiosas. Junto com os cineastas Roland Topor and Fernando Arrabal criaram em 1962 o “Movimento Pânico” em homenagem ao deus mítico Pã. O único filme de Jodorowsky que tive contato até o momento foi “The Holy Mountain” (1973). Esse filme é melhor compreendido por quem conhece um pouco de astrologia. Parte da trama desse filme gira em torno dos simbolismos relacionados aos planetas regentes dos signos. Nos últimos anos, Jodorowsky tem se dedicado ao estudo do tarô e trabalhado como roteirista de histórias em quadrinhos. Espero ter a chance de ver outros filmes desse diretor instigante em breve.
Apesar de ser o mais popular dos três diretores, David Lynch (foto ao lado) é famoso por sua ousadia e coragem de lançar no circuitão filmes que desagradam os desavisados que entram no cinema para ver filmes com explicações fáceis. Dois de seus filmes se passam literalmente no mundo dos sonhos - “A Estrada Perdida” (1997) e “Cidade dos Sonhos” (2001) - e outros trazem elementos de estranheza perturbadores, como “Eraserhead” (1977), “Veludo Azul” (1987) e “Coração Selvagem” (1990). Inclusive, “Coração Selvagem” foi o primeiro filme que tive o prazer de ver no cinema desse que eu considero um dos cinco mais importantes cineastas americanos da atualidade.