10 Road Movies

Publicado em: 25-10-2007 @ 2:07 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Viajar é sempre bom. É emocionante a ida a um território desconhecido. Claro que você, mesmo estando em sua própria cidade, também está sujeito a eventos totalmente desconhecidos - a vida é cheia de surpresas -, mas ter a oportunidade de mudar de ares é sempre uma sensação das mais agradáveis e excitantes.

Tendo em vista a minha ida recente para São Paulo e o fato de eu ter visto o road movie “Transamérica” por lá, pensei em enumerar dez filmes do gênero. O road movie é aquele tipo de filme que deixa a gente ansioso para chegar ao destino, ao mesmo tempo que nos dá tempo para curtir a paisagem. Na verdade, a viagem é tão ou mais importante que o destino. Então, como forma de celebrar as viagens, segue uma lista de dez road movies. Não necessariamente os melhores, mais os que mais rapidamente me vieram cabeça.

1. HISTÓRIA REAL (The Straight Story). Um filme atípico na filmografia de David Lynch, ainda que muito de sua marca esteja presente nessa história de um velhinho que parte numa longa viagem em cima de um cortador de grama. Ele atravessa várias cidades devagarinho, nesse “meio de transporte” com o objetivo de ver o seu irmão, que estava muito doente. Ele tem suas próprias razões para querer viajar em cima de um cortador de grama, em vez de um meio de transporte mais rápido. Pra que razão melhor do que ver aquele céu estrelado? Curiosamente, o veterano Richard Farnsworth, o protagonista do filme, cometeu suicídio poucos meses depois do filme, aos 80 anos de idade. Farnsworth foi indicado a dois Oscars, sendo que um deles por “História Real”.

2. O ESTRANHO CAMINHO DE SÃO TIAGO / A VIA LÁCTEA (La Voie Lactée). O genial Luis Buñuel conta a história de dois vagabundos saindo de Paris e seguindo o caminho de Santiago de Compostella, na Espanha. Ao mesmo tempo que mostra o percurso dos dois, Buñuel nos apresenta o que ele e Jean-Claude Carrière consideravam as seis maiores heresias. Os dois fizeram uma intensa pesquisa e fizeram um filme bastante polêmico e considerado ofensivo pelos católicos mais radicais.

3. E SUA MÃE TAMBÉM (Y Tu Mamá También). Talvez um dos filmes em que a gente mais sente a alegria de viajar. Talvez porque seus protagonistas são muito jovens e cheios de vida. No México, dois rapazes e uma mulher mais velha que eles partem numa viagem pelo interior do país. No caminho, eles aprendem muito sobre sexo, amizade e a valorização de cada momento da vida, como se fosse o último. Belíssimo e sensual trabalho de Alfonso Cuarón.

4. SIDEWAYS - ENTRE UMAS E OUTRAS (Sideways). Diferente dos jovens do filme de Cuarón, os protagonistas de “Sideways” já se aproximam da meia-idade e a vida já lhes trouxe muitas amarguras e decepções. Talvez por isso que o personagem de Paul Giamatti não consegue sentir se entusiasmar tanto com essa viagem. Para ele, o principal objetivo da viagem vai ser mesmo conhecer as principais rotas de vinho da Califórnia. Mas, para sua sorte, a amizade, o retorno da auto-estima e as mulheres estarão pelo caminho.

5. FLORES PARTIDAS (Broken Flowers). Assim como o personagem de Giamatti, o personagem de Bill Murray nesse filme é um homem anestesiado e que já perdeu o gosto pela vida. Até o dia em que ele recebe uma carta anônima que lhe avisa de um filho adolescente, do qual ele não sabia da existência. Auxiliado por seu vizinho e amigo, ele faz uma viagem em busca da mãe de seu filho. O final é belíssimo.

6. CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS. Um dos melhores filmes dos últimos anos do cinema brasileiro, essa pérola dirigida pelo pernambucano Marcelo Gomes é uma das mais inspiradas odes sobre a amizade já realizadas. Grande sacada colocar como um dos protagonistas um estrangeiro. É assim como nos sentimos naquele lugar devastado pela fome e pela miséria, mas que pelo menos não cai bombas do céu. Poucos filmes me deram tanto prazer nesse ano de 2006.

7. ONDE ANDA VOCÊ?. Já que estamos falando de filme brasileiro, lembro desse título tão mal recebido pela crítica e pelo público, mas que me proporcionou momentos de muita alegria. Na trama, um comediante decadente realiza uma viagem em busca de um comediante lendário que mora numa terra distante do Nordeste brasileiro. Vale tudo para alcançar a felicidade perdida. Adoro o tom agridoce desse filme. Dirigido por Sérgio Rezende, que voltou s telas com “Zuzu Angel”.

8. DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Diarios de Motocicleta / The Motorcycle Diaries). Projeto bem mais ambicioso dirigido por um cineasta brasileiro é essa cinebiografia de parte da juventude de Che Guevara, quando ele saiu de motocicleta com um amigo para conhecer a América do Sul. Este é o exemplo clássico de road movie que mostra o quanto uma viagem pode interferir na vida de uma pessoa e modificá-la para sempre.

9. THELMA & LOUISE. Já entrando no território misto de road movie com filmes de fuga, um dos exemplos mais acabados da filmografia de Ridley Scott é “Thelma & Louise”. O que acontece quando duas mulheres saem em busca da liberdade que há tanto tempo lhes foi negada? Na história, uma dona de casa e uma garçonete fogem de suas vidas e de seus maridos num Thunderbird. A viagem das duas vai ser no mínimo explosiva.

10. TRÊS ENTERROS (The Three Burials of Melquiades Estrada). A viagem não é nada agradável, principalmente para o homem que matou acidentalmente Melquiades Estrada. Para ele, essa viagem é como uma purgação pelos seus pecados. No meio do caminho, o deserto que castiga o corpo, cobras venenosas, a pobreza do México e um velho cego que pede para que uma alma caridosa lhe faça o favor de ceifar a sua vida miserável. Excelente estréia na direção de Tommy Lee Jones.

Preconceito com Gêneros

Publicado em: 09-10-2007 @ 11:51 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Uma das coisas que eu aprendi nesses últimos anos foi a não ter preconceito com qualquer tipo de filme. Como mantenho um blog de cinema há cinco anos, de vez em quando eu percebo o quanto alguns gêneros são desprezados e relegados a uma categoria inferior por uma parcela considerável do público de cinema.

Existem dois extremos: o público dos “filmes de arte” que rejeita os gêneros mais populares e o público leigo que rejeita o “cinema de arte”. Coloco as aspas nesses termos porque eu também considero o cinema de gênero uma forma de cinema de arte.

O filme de ação de baixo orçamento é constantemente alvo de repúdio dos espectadores mais exigentes. Eu mesmo confesso que não é o meu gênero favorito quando eu entro numa videolocadora. É verdade que existe muita porcaria e o pouco tempo que a gente dispõe nessa correria que é a vida não pode ser desperdiçado com qualquer tranqueira. Por isso, é preciso fazer uma seleção, seja ela por astros ou, melhor ainda, por diretores. Por esse critério, é possível encontrar preciosidades de mestres dos filmes B, como Larry Cohen ou John Flynn, pra citar os mais conhecidos.

Um exemplo clássico de preconceito é em relação aos filmes estrelados por astros como Jean-Claude Van Damme, Sylvester Stallone ou Charles Bronson. São três casos completamente diferentes e é verdade que há realmente uma série de filmes ruins nas filmografias desses camaradas, mas ignorá-los seria um erro. Van Damme fez filmes com mestres do cinema de ação de Hong Kong, como John Woo, Tsui Hark e Ringo Lam; Stallone, antes de sujar o seu nome com as continuações de “Rambo” e “Rocky” já foi mais respeitado; e Charles Bronson fez muitos filmes excelentes ao longo de sua longa carreira, tendo trabalhado com mestres como Sergio Leone, Sergio Solima, Walter Hill e John Sturges. Sem falar que esses três astros têm carisma suficiente para levar um filme inteiro nas costas.

O filme pornô é até desnecessário dizer o quanto é relegado mais baixa categoria. São filmes que já nascem marginais e proibidos. Mas mesmo esse gênero também possui os seus clássicos. E não me refiro a “Império dos Sentidos” ou coisa do tipo, mas a filmes de sexo explícito mesmo. É possível encontrar no meio da lama onde o gênero costuma nadar casos de filmes de vanguarda e que imediatamente se tornaram cultuados pelos fãs, ainda que continuem desconhecidos pela maior parcela dos fãs de cinema. Alguns casos que mereceriam destaque: “Café Flesh”, “Misty Beethoven”, “Fresh Meat”, “Justine”.

E do mesmo jeito que há o preconceito por parte desse público mais exigente, também há, naturalmente, das pessoas que não têm o hábito de variar o seu cardápio e provam sempre da mesma “fast food” servida por Hollywood. Para elas, “filmes-cabeça” é o mesmo que “filme sem pé nem cabeça”. Ver filmes de Robert Bresson, Luis Buñuel ou Alejandro Jodorowski seria então diversão pra gente doida. Até hoje não me esqueço do dia em que indiquei “Cidade dos Sonhos” para um amigo meu e ele saiu do cinema p. da vida comigo. Aí eu falei pra ele, rindo: “você é um privilegiado de ter assistido a esse filme no cinema.” E eu falava isso com convicção.

Há também preconceito relativo idade do filme. O público comum acha que filme produzido na década de 80 é filme antigo, enquanto que o cinema existe desde o começo do século e é possível ver obras-primas de quase cem anos de idade se você visitar a sessão de clássicos da locadora.

No fim das contas, é tudo uma questão de ver cinema com os olhos abertos e perceber o quão rica pode ser a apreciação de um filme. Claro que não é aconselhado a uma pessoa que não tem o hábito de ver filmes a pegar logo de cara um Godard ou um Tarkovski. A esses se chega aos poucos, através do interesse e da leitura. Hoje em dia, com a democratização da informação que veio com o advento da internet, o conhecimento está a um clique de distância.

Mortos em Cena

Publicado em: 17-09-2007 @ 5:27 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Teve um célebre diretor que chegou a dizer que ator era como gado. Mas por mais que não se dê a devida importância a eles, quando um deles morre no meio das filmagens, o diretor fica sem saber o que fazer e o filme fica seriamente prejudicado.

Lendo ontem uma entrevista de Leo McCarey publicada no livro “Afinal, Quem Faz os Filmes”, de Peter Bogdanovich, soube de um interessante fato ocorrido durante as filmagens de “Não Desonres o Teu Sangue” (1952). No meio das filmagens, o ator Robert Walker faleceu. Leo McCarey ficou sem saber o que fazer e teve uma solução inteligente para finalizar o seu filme. Ele modificou o roteiro, fazendo com que o personagem de Walker morresse e procurou alguma cena retirada de outro filme que mostrava Walker morrendo. Ele conversou com Alfred Hitchcock, que havia trabalhado com o ator em “Pacto Sinistro” (1951) e aproveitou uma cena do filme de Hitch que mostra ele morrendo - fingindo que estava morrendo, claro. Depois, fizeram uma trucagem para mudar o fundo, desenvolveram uma situação em que o personagem morre num acidente de táxi e o próprio McCarey gravou as últimas palavras do personagem com uma voz quase inaudível. Nunca vi esse filme, que parece não ser o melhor do diretor, mas confesso que fiquei curioso para assistir.

Uma das maiores tragédias da história do cinema aconteceu durante as filmagens de “No Limite da Realidade” (1983). Apesar de possuir suas qualidades, infelizmente, o filme ficou mais famoso pelo terrível acidente ocorrido durante as gravações do segmento de John Landis, quando Vic Morrow (justamente o protagonista!) morreu num acidente com um helicóptero, juntamente com mais duas crianças. A hélice do helicóptero cortou fora a cabeça de Morrow. Isso prejudicou bastante a carreira do diretor, que vinha de um grande sucesso, “Um Lobisomem Americano em Londres (1981). Landis teve que testemunhar várias vezes no tribunal, sendo acusado de negligência. É um caso bastante delicado que já deu muito o que falar.

Alguns casos de atores que morrem acabam virando motivo de piada. É o que aconteceu quando o então decadente Bela Lugosi faleceu durante as filmagens de “Plan 9 from Outer Space” (1959), de Ed Wood. Hoje o filme é conhecido como o pior filme de todos os tempos e Wood é considerado o pior dos diretores. Quem assistiu “Ed Wood” (1994), de Tim Burton, sabe qual foi a solução encontrada pelo cineasta para o problema da morte de Lugosi. Ele simplesmente colocou um dublê que ficava o resto do filme inteiro com o braço cobrindo o rosto. Não deixa de ser muito engraçado.

Saindo um pouco do cinema e entrando na televisão, aqui no Brasil, tivemos o caso da morte de Jardel Filho, durante as filmagens da novela “Sol de Verão” (1982), de Manoel Carlos. Na época, eu só tinha dez anos, mas fiquei bastante impressionado com o caso. Há cerca de três meses, assisti uma entrevista de Manoel Carlos no programa Conexão Roberto D’Ávila. Na entrevista, o escritor contou do impacto da morte do ator e do quanto isso significou pra ele o fim definitivo da novela. Manoel Carlos se demitiu da função de escritor e um outro assumiu o seu lugar, não conseguindo manter a novela no ar durante muito tempo e tendo que encerrar antes da época prevista.

Voltando para o cinema, um dos casos mais misteriosos é o da morte de Brandon Lee, filho de Bruce Lee, que recebeu um tiro de uma arma de verdade durante as filmagens de “O Corvo” (1994), de Alex Proyas. Até hoje a morte do jovem ator constitui um mistério e algumas pessoas até atribuem a uma espécie de maldição. Os negativos com a morte de Brandon Lee foram destruídos. Algo semelhante aconteceu com o seu pai, que faleceu durante as filmagens de “O Jogo da Morte” (1978). Os produtores usaram de picaretagem e conseguiram terminar o filme usando um dublê que aparecia sem mostrar o rosto. Usaram também uma filmagem real do funeral de Bruce. No entanto, a estória do filme foi totalmente prejudicada e o filme é extremamente confuso.

Um outro caso morbidamente curioso diz respeito ao filme “Tubarão” (1969), de Samuel Fuller. Conta-se que durante as filmagens, um dos dublês morreu de verdade de um ataque de tubarão. Obviamente, Fuller fez questão de retirar do filme essa cena. Até porque o sujeito que morreu era parceiro de copo de Fuller. No entanto, os produtores, contra a sua vontade, resolveram colocar a cena da morte do dublê no filme. Fuller ficou indignado e abandonou a produção, deixando por conta de outros montadores, que picotaram o filme e colocaram a tal cena.

Devo ter esquecido algum caso importante, mas acho que lembrei dos exemplos mais conhecidos de atores (ou dublês, no caso do filme de Fuller) mortos em cena. Desculpem o tema mórbido e que eles descansem em paz.

Lembranças do VHS

Publicado em: 11-09-2007 @ 2:50 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Hoje em dia, com a popularização do DVD e com a facilidade de se encontrar filmes na internet, pouca gente lembra o quão importante foi o surgimento das fitas VHS. Muitos, inclusive, até já aposentaram o seu videocassete. Eu, por enquanto, ainda uso o meu bastante. E estou aqui hoje para falar um pouco sobre a minha experiência com o velho VHS. Meu primeiro aparelho foi um Sanyo duas cabeças, que comprei em 1991. Foi o melhor que eu pude comprar na época. No começo, não fiquei muito satisfeito com o aparelho. A imagem das fitas não ficava tão boa quanto a recepção da Rede Globo, por exemplo. Mas com o uso e depois de uma limpeza nas cabeças a imagem ficou boa.


Hoje em dia pouca gente se dá conta da revolução que foi o videocassete. Imagina só: você mesmo fazer a sua própria programação e não ficar sujeito ao que as emissoras passavam. E ainda por cima, ter acesso a obras que só os seus pais ou avós tiveram a chance de ver no cinema. Lembro de alguns dos primeiros filmes locados: “A Maldição dos Mortos-Vivos”, de Wes Craven, “O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante”, de Peter Greenaway, “Coração Selvagem”, de David Lynch, “Eros – O Deus do Amor”, de Walter Hugo Khouri.

Depois de ver o que tinha de melhor nas locadoras do bairro, fui atrás das melhores locadoras da cidade. Na época, a King Vídeo, na Avenida Santos Dumont, era uma das melhores. Tinha um excelente acervo e as prateleiras reservavam espaço para clássicos e filmes alternativos. Os diretores que mais me atraíam eram Alfred Hitchcock, Woody Allen e Luis Buñuel. Pra você ver como a paixão por esses senhores é antiga. Em feriadões, como o Carnaval ou a Semana Santa, eu saía de lá com um pacote enorme de fitas. Pedia para a atendente colocar as fitas em dois sacos, já que eu ia pegar dois ônibus para chegar em casa e não queria correr o risco de o saco rasgar no caminho.

Como ainda não existia internet na minha vida, os meus meios de consulta eram os guias de vídeo da revista SET – a Cinemin já tinha acabado e eu nunca gostei dos guias da Nova Cultural. Todo ano a publicação lançava um guia atualizado. Dentro desses guias, sempre havia aqueles filmes que eu sonhava encontrar nas locadoras, mas nunca encontrava. Alguns desses títulos - “O Amigo Americano”, “O Medo do Goleiro diante do Pênalti” e “O Estado das Coisas”, todos de Wim Wenders; “Macbeth”, de Orson Welles, “Smoking/No Smoking”, de Alain Resnais -, até hoje eu não tive a oportunidade de ver.


A falta de internet também me deixava com a impressão de que algumas obras eram sagradas, de que alguns diretores eram inquestionavelmente sagrados. Por isso, sempre me incomodava com o fato de não ter gostado de alguns filmes de Fellini, Bergman ou Kurosawa. No tempo do VHS, também não se ligava muito para a “janela errada”. Hoje há uma exigência muito maior para o formato correto dos filmes. Com o tempo e a popularização maior dos televisores widescreen, isso vai se tornar cada vez mais importante.

O advento do videocassete também mudou a indústria pornográfica. Antes, os espectadores que iam para o cinema ver esse tipo de filme tinham mais paciência para acompanhar um filme pornô com estória. Com a chegada do vídeo e da tecla “fast forward” do controle remoto, a estória já não interessava mais. Por isso, os pornôs da era do vídeo partiam logo para os finalmente. Teve um tempo que eu era mais interessado nesse gênero, no tempo da excelente publicação Guia do Vídeo Erótico. Com o fim da publicação e a cada vez maior decadência do gênero com a facilidade de se baixar trechos de vídeos na internet, meu interesse pela pornografia como arte diminuiu.

Por outro lado, o western, que era um gênero que não me atraia muito, hoje se tornou um objeto de culto, graças possibilidade que eu tive de conhecer mais de mestres como John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann e Sergio Leone. Já o cinema de horror, que eu sempre gostei desde a infância, passou a ser ainda mais interessante depois que eu tive contato com um grupo de pessoas de uma lista de discussão. Mas isso já aconteceu no início do novo milênio e as fitas de vídeo passaram a se tornar ítem de sebos. As videolocadoras, com a chegada dos DVDs passaram a se desfazer de suas fitas mofadas. E assim, aos poucos, essa mídia vai morrendo e dando lugar aos mais práticos e baratos discos digitais. Foi bom enquanto durou.

O Cinema e o Sonho

Publicado em: 04-07-2007 @ 4:02 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Aílton Monteiro

Nietzche uma vez disse: “A maior das calamidades cairá sobre a humanidade no dia em que todos os sonhadores desaparecerem”. Há aqueles que sonham para transformar a realidade. E há aqueles que sonham e transformam o próprio sonho em algo próximo do palpável. No cinema, alguns poucos diretores souberam transmitir o clima onírico de uma maneira tão especial que temos certeza de que eles têm um nível de percepção do inconsciente diferente da maioria de nós. Como sou canceriano, signo dos sonhos e das fantasias, isso sempre vai ser objeto de fascínio pra mim.

O cinema é a arte que melhor se aproxima do sonho, afinal os nossos sonhos parecem pequenos filmes protagonizados por nós mesmos - há quem diga que a gente sonha em preto e branco. Selecionei, então, três dos diretores mais ligados ao sonho que eu conheço. Esses três diretores são Luis Buñuel, Alejandro Jodorowsky e David Lynch. Eles são provavelmente os grandes mestres do cinema surreal.

Comecemos com o pai de todos: Luis Buñuel (foto ao lado). Esse senhor espanhol é um dos poucos diretores de cinema que pode ser tranqüilamente chamado de gênio sem que isso pareça um exagero. Dom Buñuel começou ainda no cinema mudo com uma obra de referência para o Movimento Surrealista no começo do século XX. Ele aliou-se ao pintor Salvador Dali para compor a obra-prima “Um Cão Andaluz” (1928), cuja cena da navalha cortando o olho de uma mulher está no imaginário até de quem nunca viu o filme completo. Nunca existiu outro cineasta como Buñuel. Ele também era famoso por ser um crítico ferrenho da Igreja Católica. A frase “sou ateu graças a Deus” ficou popularizada graças a ele. Ele era tão contraditório quanto essa frase: um de seus melhores amigos era um padre, e ele tinha uma obsessão pelos símbolos e dogmas do catolicismo.

O que pode ser visto em filmes como “Nazarin” (1959), “Viridiana” (1961) e “A Via Láctea” (1969). Esse último filme, inclusive, é um de seus trabalhos que privilegiam pouco a história e valorizam mais a atmosfera surreal, ao lado de “O Discreto Charme da Burguesia” (1972) e “O Fantasma da Liberdade” (1974). São filmes que não possuem uma narrativa linear tradicional. O surrealismo de Buñuel também estava presente na sua brilhante fase mexicana, que antes era considerada a mais comercial de sua carreira, mas que tem sido cada vez mais valorizada nos dias de hoje. Foi em sua temporada no México que Buñuel nos presenteou com obras-primas como “O Alucionado” (1953), “Ensaio de um Crime” (1955) e “O Anjo Exterminador” (1961). Claro que Buñuel é muito grande para ser descrito apenas em um tópico num texto generalizador sobre o cinema-sonho, sem falar que não me julgo apto para analisar sua obra tão rica, sem sequer ter visto metade de seus filmes. Ainda assim, deixo registrado o meu respeito e carinho por seus filmes fabulosos.

O chileno Alejandro Jodorowsky (foto ao lado) é bem menos conhecido pelo público e o surrealismo em seus filmes era ligado a suas crenças religiosas. Junto com os cineastas Roland Topor and Fernando Arrabal criaram em 1962 o “Movimento Pânico” em homenagem ao deus mítico Pã. O único filme de Jodorowsky que tive contato até o momento foi “The Holy Mountain” (1973). Esse filme é melhor compreendido por quem conhece um pouco de astrologia. Parte da trama desse filme gira em torno dos simbolismos relacionados aos planetas regentes dos signos. Nos últimos anos, Jodorowsky tem se dedicado ao estudo do tarô e trabalhado como roteirista de histórias em quadrinhos. Espero ter a chance de ver outros filmes desse diretor instigante em breve.

Apesar de ser o mais popular dos três diretores, David Lynch (foto ao lado) é famoso por sua ousadia e coragem de lançar no circuitão filmes que desagradam os desavisados que entram no cinema para ver filmes com explicações fáceis. Dois de seus filmes se passam literalmente no mundo dos sonhos - “A Estrada Perdida” (1997) e “Cidade dos Sonhos” (2001) - e outros trazem elementos de estranheza perturbadores, como “Eraserhead” (1977), “Veludo Azul” (1987) e “Coração Selvagem” (1990). Inclusive, “Coração Selvagem” foi o primeiro filme que tive o prazer de ver no cinema desse que eu considero um dos cinco mais importantes cineastas americanos da atualidade.

Foi na mesma época que tive contato com “Twin Peaks” (1990), a revolucionária série de tv que parecia um peixe fora d’água em meio mediocridade dos seriados de televisão da época. Foi o momento da febre “Twin Peaks”, que hoje está sendo revivida graças ao lançamento em DVD da primeira temporada da série e da expectativa do lançamento da segunda. Lynch foi o diretor que mais me fez sentir medo. Senti um calafrio ao olhar para o rosto do “homem misterioso” de “A Estrada Perdida”; gelei ao ver a entidade demoníaca BOB na casa de Laura em “Twin Peaks” - “Os Últimos Dias de Laura Palmer” (1992); senti pavor do mendigo escondido na lanchonete e da mulher de cabelo verde do Clube Silêncio de “Cidade dos Sonhos” (2001). E o mais surpreendente, pela telinha de 14 polegadas do meu computador, ao ver uma série de curtas para a internet chamada “Rabbits” (2002), senti um medo do irracional que não encontro paralelo em momento algum. David Lynch, esse homem que fisicamente parece uma versão moderna de James Stewart, com aquele aspecto de bondade e generosidade, tem o poder de materializar os nossos sonhos e pesadelos como nenhum outro.

Bons sonhos!

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