Rapadura Blog - O Blog do Portal Cinema com Rapadura

Filmes pela Metade

Publicado em: 02-09-2008 @ 12:24 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Hoje em dia o tempo é um bem cada vez mais escasso na vida de todos, sempre estamos correndo contra o relógio. E para nós, amantes do cinema, duas horas passadas em frente a uma tela (seja do cinema ou da televisão) é um tempo bem precioso. Para não perder tempo, Rubens Ewald Filho, por exemplo, assiste vários filmes ao mesmo tempo em sua casa. Confesso que ainda não cheguei a tal extremo (sobretudo por falta de recursos financeiros), mas já aprimorei outro método de assistir filmes: filmes pela metade.

Logicamente que não se trata de assistir a todos os filmes que vejo pela metade, mas apenas aqueles que não valem o esforço de passar valiosos minutos concentrado em frente à tela. Por vezes dá pra ler um livro, escutar um disco, acompanhar a rodada do campeonato brasileiro, enfim, são várias as opções. E eis mais uma de minhas listas infames, com alguns dos filmes que tive a experiência de ver pela metade. Espero mais uma vez comentários e sugestões que possam aumentar essa lista:

Bad Boys 2 – Uma fórmula super batida: na falta de um roteiro coloque muitos tiroteios e explosões. Enquanto você procura os gols da rodada perde todas aquelas falas desnecessárias, até porque se você as ouvir vai desistir de ver o filme. Basta dizer que o ápice do filme é uma invasão dos policiais de Miami à Cuba!

Bandidas - Salma Hayek e Penélope Cruz são lindas em qualquer dia da semana, não é preciso assistir essa bomba pra perceber isso. Uma folhada nas revistas de celebridades para saber as últimas dessas divas é uma opção agradável enquanto piadas horríveis e tiroteios fracos ocupam a tela, de vez em quando uma olhada pra acompanhar as duas é o suficiente.

As Panteras – Outro exemplo de belas atrizes e nada a mais. Insinuações e coreografias sensuais dão o tom, chance de saber tudo que está passando nos demais canais, cuidado para quando trocar de canal não deixar passar uma dessas poucas cenas interessantes. Nem as belezas de Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu conseguiram salvar.

Ninguém é Perfeito – Parece uma nova versão para “Melhor é Impossível”. O que leva atores tão bons quanto Robert De Niro e Phillip Seymour Hoffman a estrelarem bombas como essa? Perguntas sem resposta que não são boas nem se pensar. Sabe aquele livro que você está com a leitura atrasada? Quando você quiser dar um tempo na leitura, dê uma olhada no filme e vai ver como o livro vale a pena.

Ó Pai Ô – Um filme feito para tornar Lázaro Ramos um superstar, ele dança, seduz, faz crítica social e até conta piada. Pena que esqueceram de contar uma história. Do elenco secundário ninguém se salva, até Wagner Moura tem a pior atuação de sua carreira. Entre um axé e outro, você pode escutar aquele disco que acabou de baixar com a televisão no mudo, e quando tiver alguma cena mais interessante nem se dê ao trabalho de erguer o volume, ao invés disso aumente o som de seu disco preferido.

Bater e Correr – Já não vi esse filme antes? Não, aquele era “A Hora do Rush” e ao invés do Chris Tucker aqui o parceiro do Jackie Chan é o Owen Wilson. Um faroeste engraçadinho no máximo. Não está na hora de conferir seus e-mails? Quer dar uma olhada nas mensagens do seu Orkut? Tudo bem! Alugue a continuação também e navegue tranqüilo.

O Star System Norte-Americano

Publicado em: 03-08-2008 @ 4:57 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

ATENÇÃO: Essa matéria contém spoilers de Vanilla Sky.

Das inúmeras críticas que se fazem ao cinema norte-americano, o hollywoodiano em especial, destacam-se aquelas que criticam o star system, mas o que é esse “star system”? Basicamente, este é o sistema de produção cinematográfico que dá maior destaque em seus filmes aos “astros” dos que aos roteiros e demais elementos que compõem uma narrativa. É um sistema predominante do cinema hollywoodiano, pois foi lá mesmo que ele surgiu nos anos 20, e nasceu da constatação dos produtores dos grandes estúdios que eram os nomes das estrelas e não as histórias que lotavam as salas de cinema.

Mas como podemos identificar o “star system” num filme? Quais suas conseqüências para a narrativa cinematográfica? Na tentativa de responder essas perguntas é que essa coluna foi pensada. E para falar das estrelas hollywoodianas, nada melhor do que falar da maior de todas, Tom Cruise. E um de seus filmes pode nos ajudar a responder as perguntas feitas acima: “Vanilla Sky”.

Trata-se de uma refilmagem de “Abra Los Ojos”, filme que revelou o diretor espanhol Alejandro Amenábar, em 1997. Do elenco original, o diretor Cameron Crowe manteve na versão hollywoodiana a então namorada de Cruise, a espanhola Penélope Cruz. A atriz manteve seu papel, de mulher dos sonhos do protagonista.

A trama também foi basicamente mantida. Nela, um playboy tem sua vida modificada por completo quando uma ex-namorada resolve cometer suicídio jogando seu carro de uma ponte, mas ela o leva junto tentando matá-lo também. Ele sobrevive ao acidente, mas tem seu rosto desfigurado. A partir de então, ele descobre o amor de outra mulher e passa a ter estranhas visões. De uma hora pra outra, realidade e fantasia se confundem de forma impressionante. O desenlace final do filme também é o mesmo.

Antes de “Quero ser John Malkovich” e outros filmes que impressionaram pela originalidade de seu roteiro, “Abra Los Ojos” já chamava atenção pela sua história inusitada. E a versão americana também conseguiu conquistar vários fãs pelo mundo, no entanto algumas diferenças tiveram de ser feitas em seu roteiro para que o personagem pudesse ser interpretado pelo astro Tom Cruise.

Antes de tudo um filme hollywoodiano é uma mercadoria, que deve vender bem, atingindo o maior número de consumidores possível. Para isso pode se valer de vários fatores: campanhas de marketing milionárias, personagens conhecidos de outras artes (como das HQ’s), e por vezes, até a qualidade dos filmes. Um dos artifícios mais utilizados é a escalação de algum astro no elenco, com seu carisma e fama ele é capaz de atrair multidões para as salas de cinema, mesmo que não seja um artista tão talentoso.

Pensando nisso, a imagem do astro chega a ser mais importante do que a própria história, e tudo na história tem de colaborar pra isso. Lembram aqueles filmes em que o herói milagrosamente salva o mundo sozinho, ou aqueles que ele é o único a sobreviver de uma batalha mortal ou catástrofe bíblica? Já vimos Tom Cruise em situações como essas várias vezes, e em “Vanilla Sky” não é diferente.

O personagem do astro, mesmo que seja o vilão da história, deve atrair a simpatia do público, afinal de contas ninguém nunca viu um garoto propaganda antipático. Pois bem, no original espanhol o protagonista era um playboy que passava os dias sem fazer nada a não ser correr atrás de mulheres, nem se interessava pelos caminhos de sua empresa, e após conquistar as mulheres, as tratava com desdém. Em suma, não passava de um calhorda. Cruise não poderia encarnar um tipo assim, quem iria ao cinema para vê-lo como um escroto?

Por isso algumas providências foram tomadas. Primeiramente, a própria caracterização do personagem sofreu algumas alterações, ficando muito menos deformado e passando bem mais tempo de máscara. Além disso, a empresa da qual ele é herdeiro (que nem é mencionado o ramo no original) é uma revista do mundo pop, que ele acompanha diariamente e o coloca em contato com diversas celebridades. E, além disso, trava uma batalha com os acionistas pelo controle dos negócios, é um playboy interessado e com talento para os negócios, longe do inútil que temos no filme espanhol.

Na vida pessoal ele também é perfeito, a culpa pelo fim de seu relacionamento é toda colocada em sua ex, retratada como uma louca desvairada que qualquer um largaria (mesmo sendo a Cameron Diaz). E irresistível a ponto de seu novo amor (Penélope Cruz) nunca esquecê-lo mesmo depois de sua tentativa de suicídio e posterior congelamento. Aqui é que acontece a maior mudança em comparação com o original.

Na primeira versão, ninguém sentia falta do “falecido”, nem mesmo a sua amada. O destino dos personagens é sequer comentado, mas em “Vanilla Sky” é inserida uma cena no final que trata de mostrar como o protagonista era amado: uma espécie de velório organizado pelos amigos, em que o amor de sua vida aparece para chorar sua perda. Nem na hora da partida um astro pode ser esquecido, mesmo que seja um escroque. O mais importante nesse exemplo não é a história, a narrativa original ou a profundidade dos personagens, mas a imagem irretocável do astro de plantão. Aqui o cinema está longe de ser visto e concebido como uma obra de arte, mesmo que utilize recursos e elementos artísticos, na verdade ele não passa de uma peça publicitária. Não que isso o desmereça totalmente, temos até festivais prestigiados (Cannes) para a publicidade bem feita. Um filme como esse poderia muito bem participar da premiação.

O Filme Ideal para o Verão

Publicado em: 01-07-2008 @ 1:29 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Agora que já estrearam a maioria dos blockbusters do ano, chegou a hora propícia para comentá-los. Não se trata aqui de comentar a qualidade dos filmes, mas de comentar uma tendência que o cinema americano vem mostrando cada vez mais forte dos últimos anos: a falta de originalidade.

Alguns anos atrás, li em algum site especializado em cinema (perdoem-me, mas não lembro qual site) uma coluna comentando que as principais estréias do verão americano daquele ano tinham em comum o fato de não serem roteiros “originais”. Adaptações de histórias em quadrinhos, remakes e continuações de blockbusters davam o tom, e não tínhamos nenhum grande sucesso escrito originalmente para o cinema.

Cada vez mais essa tendência foi ficando forte, a ponto de hoje os grandes estúdios preferirem não se arriscar colocando na disputa de verão uma produção que já não tenha pela menos uma fatia do público certa: fãs de hq’s, de séries de televisão ou de produções de sucesso do passado. Vide as principais estréias desse verão: “Sex And The City”, “Homem de Ferro”, “O Incrível Hulk”, “Speed Racer”, “Agente 86” e o novo “Indiana Jones“, que bem poderia se chamar “Em Busca de Mais Dólares”.

Essa tendência inclusive começa a contagiar outras épocas do ano, como foram as “ressurreições” de Rocky e Rambo no começo de 2007 e de 2008. E não deve parar por aí a onda de adaptações e “ressurreições”: já estão em produção “Wolverine Origins” e “Comandos em Ação”; e já foram anunciados “O Surfista Prateado” e a volta de “Conan” e “Robocop”.

Numa época como essa seria oportuna a estréia do último filme de um dos poucos cineastas que mantém a criatividade em Hollywood, Michael Gondry. Depois do belo “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” ele lançou em janeiro último “Be Kind Rewind”, com Jack Black e o rapper Mos Def. Na história, Black vive um homem que ao tentar sabotar uma estação de força, gera um campo magnético e acidentalmente apaga todas as fitas da locadora de vídeo em que trabalha seu melhor amigo, Mos Def. A saída encontrada pelos dois para salvar a locadora e o emprego do balconista é fazer eles mesmos “remakes” dos filmes da locadora: “Os Caça-Fantasmas”, “RoboCop”, “A Hora do Rush 2”, “2001”, “Os Donos da Rua”, “Quando Éramos Reis”, “King Kong” e “Conduzindo Miss Daisy” entre outros. Se permanecer a atual tendência dos grandes estúdios hollywoodianos, a saída para aqueles que gostam de cinema será a mesma sugerida no filme de Gondry: começar a contar suas próprias histórias.

Fim de Carreira

Publicado em: 02-06-2008 @ 4:21 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Dando continuidade às minhas listas infames, meus alvos de hoje são os ex-astros, aqueles que já faturaram milhões, foram sex symbols, mas hoje amargam papéis ridículos em produções idem. Pois todo mundo sabe: “Tudo que sobe um dia tem de descer”; “Mais difícil do que chegar ao topo é manter-se no topo” e toda sorte de ditado redundante sobre o assunto. Más escolhas, incompreensão do público ou simplesmente falta de sorte. Difícil explicar o que acontece para que de repente, não mais que de repente, os maiores astros de Hollywood passem a ser vistos apenas em sub-produções. Não é a toa a expressão “Fim de Carreira”, depois de amargar papéis inexpressivos por vezes nada mais resta a fazer senão adiantar a aposentadoria.

Essa foi a opção escolhida pelo primeiro nome de nossa lista: Whoopi Goldberg[1]. Em 2007, ela declarou que estava se retirando da carreira de atriz devido à escassez de bons papéis. Ela já ganhou um Oscar ganhou roubando a cena em “Ghost”, depois fez um bando de freirinhas nos dois “Mudança de Hábito”. Mas a seguir vieram filmes lamentáveis, como “Eddie - Ninguém Segura Essa Mulher”, no qual ela interpreta uma técnica de um time de basquete da NBA, ou o pior de todos: “Meu Parceiro é um Dinossauro”. Trata-se de uma comédia de ficção científica em que ela faz uma policial que tem o inusitado parceiro do título, motivo de riso? Só se for da desgraça alheia dos atores e equipe por ter esse filme no currículo.

Mas nem todo mundo segue o exemplo de Whoopi, e continuam insistindo, testando a paciência do público e aguardando uma chance de ressurgirem das cinzas como já tiveram John Travolta e Mickey Rourke. Mas enquanto isso, apenas vexames. Que o diga outro oscarizado, Cuba Gooding Jr.[2], parece que Jerry Maguire não lhe mostrou coisa nenhuma onde estava o dinheiro. Da comédia gay “O Cruzeiro das Loucas” ao suspense “End Game”, Cuba vem colecionando personagens nada memoráveis. Outro dia ainda passando em frente a uma locadora vi o cartaz de sua nova comédia: “O Acampamento do Papai”. O que pode-se esperar de um filme com um título desses?

Comédias parecem o último porto no destino inevitável da carreira de vários astros, como a ex-sex symbol Jamie Lee Curtis[3]. Ela despontou para a fama ainda nos anos 70 com a série Halloween, quando ganhou destaque graças à seus fortes pulmões (perdoem o eufemismo), a filha dos astros Tony Curtis e Janet Leigh parecia que construiria uma carreira sólida. E assim foi, até que surgiram atrizes mais jovens para ocuparem seu posto no imaginário masculino. Nos anos 90 até parecia que ela voltaria ao primeiro time de Hollywood com sua participação no divertido “True Lies”, com direito a Striptease e tudo. Mas não teve jeito, e ela acabou como coadjuvante de Lindsay Lohan (a bola da vez no quesito sex appeal) no nada original “Sexta-feira Muito Louca”, mais um dentre as centenas de produções em que duas pessoas trocam de corpos num passe de mágica.

Ainda falando em comédias, um comediante de sucesso das décadas de 70 e 80 que derrapou feio nas bilheterias e nas produções foi Dan Aykroyd[4]. Dos divertidíssimos “Irmãos Cara-de-pau” e “Os Caça-Fantasmas” ele passou aos insossos “Evolução” e “Mong e Lóide”, quando muito conseguiu papéis pequenos em filmes interessantes como “Matador em Conflito”. Mas se era pra fazer papéis pequenos deveria ter feito boas escolhas, convenhamos que ser o pai de Britney Spears em “Crossroads” não é uma boa opção pra ninguém. O Road Movie com a ex-namoradinha da América é um daqueles filmes que poderia nunca ter sido realizado, pois não passa de uma boa oportunidade que o diretor perdeu de ficar em casa com a família.

Já que falamos numa ex-queridinha do público, ninguém melhor do que a sensação da primeira metade dos anos 90: Alicia Silverstone[5]. Ela estrelou produções de sucesso como “Patricinhas de Beverly Hills” e até videoclipes do Aerosmith, que a transformaram da noite pro dia em símbolo sexual. Mas eis que no meio de seu caminho até o topo havia o diretor Joel Schumacher e “Batman e Robin”, estrelar o maior fiasco de uma franquia de sucesso e sair ileso é apenas para nomes consagrados, como os seus companheiros de cena George Clooney e Arnold Schwarzeneger. Todo a malhação pela qual passou pra entrar na roupa de Batgirl se revelou inútil, ah se arrependimento matasse. Desde então ela foi sumindo aos poucos, e hoje só é possível vê-la como coadjuvante de pequenas produções, como a comédia também dispensável “Um Salão do Barulho”, estrelada por Queen Latifah.

Minha breve lista está aí, a exemplo de minha lista anterior espero contribuições dos leitores. Falando na lista anterior, as pessoas esqueceram de um início de carreira bem vexatório: Hilary Swank em “Karatê Kid III”. Ela estava desesperada por um papel no cinema e o Sr. Miyagi devia já estar senil, só mesmo assim pros dois terem topado participar dessa asneira.

Bons Ventos para 2008 no Brasil

Publicado em: 29-02-2008 @ 3:31 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Isso é o que desejo para o cinema nacional. Pelo menos que seja um ano melhor do que foi 2007, quando apenas poucos filmes conseguiram se salvar e chegaram a ter alguma repercussão para além da crítica especializada, que até o momento parece a única parcela do público brasileiro a se interessar por nosso cinema. Até agora temos tidos bons sinais, tomara que eles se comprovem no decorrer do ano.

Já tivemos o primeiro sucesso do ano, “Meu Nome Não é Johnny”, com Selton Mello e Cléo Pires. Quase 2 milhões de pessoas fizeram fila, e foram ver a história do jovem de classe média que resolve levar uma vida bandida. O filme não é maravilhoso, mas se revela uma boa opção para as férias, melhor do que as enfadonhas produções da Xuxa. Falando na “Rainha dos baixinhos”, seu público desistiu de ver seu último trabalho, “Xuxa Em Sonho de Menina”. Talvez isso seja um sinal de que a família brasileira procura algo de melhor qualidade para seus filhos em férias.

Mas os nossos cineastas continuam a produzir filmes dispensáveis, que o diga Wolf Maia e seu recente “Sexo com Amor?”. Trata-se de mais uma daquelas produções bancadas por produtoras hollywoodianas, no caso a FOX, que tentam transportar para o universo carioca as comédias românticas americanas. Não sei porque ainda insistem em filmes nesses moldes, eles não dão certo artisticamente e nem em termos de público, amargando breves períodos nas salas de exibição.

Começamos o ano bem no quesito premiações, se “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias” não conseguiu sua vaga entre os indicados ao Oscar de Filme Estrangeiro, o blockbuster nacional “Tropa de Elite” faturou o urso de ouro no Festival de Berlim, mais de uma década depois de “Central do Brasil” faturar o mesmo prêmio. Se o filme de José Padilha seguir o caminho da produção de Walter Salles sua carreira internacional será bem sucedida, e o caminho para as categorias principais do Oscar do ano que vem pode estar se abrindo, resta esperar.

No mesmo festival de Berlim já tivemos a estréia de outra produção nacional: “Minha Vida não Cabe Num Opala“. O diretor Reinaldo Pinheiro adaptou para o cinema uma peça do dramaturgo londrinense radicado em São Paulo, Mário Bortolotto, o elenco conta com Milhen Cortaz, Jonas Bloch e Paulo César Peréio. No currículo o diretor tem o mais premiado curta da história nacional, BMW Vermelho, ganhador inclusive como melhor filme no Festival de Havana e Miami.

Ainda teremos a estréia do novo filme internacional de Fernando Meirelles, depois do bem-sucedido “O Jardineiro Fiel” ele volta com outra adaptação literária, desta vez da obra do português José Saramago: Ensaio Sobre a Cegueira. O nome do filme ficou “Cegueira” (Blindness), e o elenco conta com nomes de peso em Hollywood: Mark Ruffalo, Juliane Moore e Danny Glover. Se repetir o sucesso de seus filmes anteriores, o diretor brasileiro tem tudo para se firmar como um dos maiores nomes do cinema mundial.

Enfim, parece que mais uma vez nos resta ficar na torcida, esperando que apareça uma nova surpresa em nosso cinema. Para além dos sucessos de bilheteria, precisamos de um movimento mais propriamente político por parte de nossos cineastas, que discuta as leis de incentivo e a tão desprezada questão da distribuição. Se for possível discutir também questões estéticas melhor ainda, não custa lembrar que o último movimento nesse sentido no Brasil já tem mais de 40 anos, o cinema-novo. Desde lá temos tido bons filmes, mas apenas obras individuais, nada que caracterize uma escola de cinema brasileira. Enquanto isso, o cinema produzido em outros países periféricos vem se mostrando forte, em países como Irã ou na vizinha Argentina. O sucesso internacional de alguns de nossos cineastas não deve nos iludir a esse respeito, ainda temos um longo caminho pela frente até consolidar nosso cinema.

Teu Passado Te Condena

Publicado em: 20-01-2008 @ 7:38 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Não se vira astro da noite pro dia, mesmo os grandes nomes de Hollywood começaram por baixo, pontas em grandes filmes ou papéis importantes em filmes pequenos, aos poucos aqueles que mais se destacam vão calcando espaço em grandes produções. Mas durante esse caminho as futuras estrelas por vezes tropeçam, e fazem participações totalmente esquecíveis em filmes que também não são dignos de lembrança. Pois bem, este texto é um apanhado de alguns casos que eu lembro, e ao mesmo tempo um desafio: lembre também de algum vexame de sua estrela favorita e faça acréscimos nesta lista vergonhosa.

Nada melhor do que começar nossa lista com uma vencedora do Oscar, que também é símbolo sexual e uma pessoa engajada politicamente: Angelina Jolie. Antes de “Garota Interrompida”, do casamento com Brad Pitt, de virar embaixadora do UNICEF, a filha de John Voight tentou a sorte em produções de gosto no mínimo duvidoso, como a ficção futurista “Hackers”, uma trama estapafúrdia realizada nos primeiros anos de estouro da Internet. Antes dos irmãos Wachowski realizarem o filme definitivo do gênero, “Matrix”, Angelina andava por aí usando tranças e mal acompanhada por jovens aspirantes ao sucesso que nunca encontraram espaço. Sobre o filme? Para não desperdiçar muito espaço com essa bobagem digamos apenas que era uma mistura de “Barrados no Baile” com “A Rede”.

Falando em “A Rede” (outro filme sobre Internet, só que um caso bem sucedido) sua estrela principal, Sandra Bullock, também passou maus bocados no início de carreira. Além da besteira futurista “O Demolidor”, ao lado de Sylvester Stallone, Sandra marcou presença em pequenas comédias que só conseguiam arrancar gargalhadas dos espectadores devido precariedade de sua produção. Em “Poção de Amor nº9” ela faz uma nerd que de tão feia (sim, conseguiram deixar ela feia) precisa recorrer infame poção do título para se dar bem no amor, alguém se arrisca a procurar numa videolocadora? Outra pérola estrelada por Sandra Bullock é “Eu e a máfia”, uma das duzentas mil produções sobre a máfia ítalo-americana, e sua única função na trama é aparecer por vezes (detalhe: ela tem apenas duas cenas no filme) de lingerie, pelo menos aí se via que ela tinha potencial.

Falando em comédias, dois grandes comediantes da atualidade também já penaram por aí antes de alcançarem um lugar ao sol, são eles: Jim Carrey e Jack Black. Primeiramente Jim Carrey, dentre as inúmeras baboseiras que ele já fez na vida antes de ficar famoso uma se destaca, “Procura-se um rapaz virgem”. Nessa pérola uma vampira sexy procura o rapaz puro do título para escapar de uma maldição, e quem é o garoto de sorte? Sim, sim, nosso amigo James. Um roteiro tão original e inteligente que deve ter sido escrito pela filha de 13 anos do diretor, lamentável.

Quanto a Jack Black, antes dele fazer sucesso como o gordinho histriônico de “Alta Fidelidade” e “Nacho Libre“, ele andou por mega produções desastrosas, filmes de ação que não justificaram seus orçamentos milionários e nem seus elencos estelares. Primeiramente em “Waterworld - O Segredo das Águas”, o filme futurista responsável por afundar a carreira de Kevin Costner, literalmente. E depois em “O Chacal”, quando fez um mercador de armas que acaba sendo “explodido” por Bruce Willis, destino que poderia ser partilhado por todos no elenco desta “bomba”.

Nem mesmo astros nacionais conseguem fugir de seu passado, desde as atrizes hoje senhoras que nos anos 70 se sustentaram protagonizando cenas tórridas em pornôchanchadas até nomes da nova geração como o quase onipresente Lázaro Ramos. O talento do baiano é inegável, mas no início de carreira isso não foi suficiente para salvar “A Cinderela Baiana”, incursão fracassada de Carla Perez pelo mundo da sétima arte. Imaginem uma atriz com o “perfil” de pornô-chanchada protagonizando um filme infantil, espera aí, essa é a Xuxa, mas tudo bem, pois Carla é fã confessa da “rainha dos baixinhos”.

E pra terminar essa listinha infame falemos um pouco sobre o galã e ativista político George Clooney. Anos antes de ser o médico bonitão de E.R. ele protagonizou uma asneira chamada “Soberanos das Drogas – Tráfico Fatal” (belo título não? Mas o original não fica muito atrás: Red Surf), na “história” dois surfistas trabalham para perigosos traficantes, mas pior que o roteiro é o visual de Clooney, já imaginaram o elegante vencedor do Oscar usando mullets? Nem se preocupem em conferir, posso garantir que é ridículo.

Caros leitores, acrescentem nomes e filmes a essa lista, sei que ela é bem mais extensa. E da próxima vez voltarei com outra lista interessante, mas igualmente constrangedora: astros que em fim de carreira pagaram mico em sub-produções. Até a próxima.

Não Vi e Não Gostei

Publicado em: 19-12-2007 @ 8:02 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Minha paixão pelo cinema começou ainda na infância, com Jerry Lewis, Peter Sellers, o Gordo e o Magro e Charles Chaplin naquelas sessões dominicais dos anos 80. Mas foi na adolescência que me tornei aquilo que comumente chamam de cinéfilo, um verdadeiro compulsivo, chegando a assistir dois ou três filmes por dia. Confesso que não tinha muito critério para escolher qual filme assistir, bastava ligar a tv e ver os créditos iniciais para me dispor a passar duas horas ali parado, mesmo que fosse a maior bomba do mundo.

Mas de uns anos pra cá resolvi ser um pouco mais seletivo, decidi que já tinha visto bombas suficientes pelo resto da minha vida. E por algumas vezes sou radical a ponto de me recusar assistir alguns filmes, cheguei até mesmo a criar uma categoria pessoal para essas obras: NÃO VI E NÃO GOSTEI. Pode ser um nome no elenco, um trailler sem graça ou na maioria das vezes, a sinopse, e pronto, não faço o menor esforço para ver o filme. A princípio pode até parecer um preconceito, em alguns casos talvez seja mesmo, mas não é nada que não possa ser remediado. Eu disse que não me esforço para ver o filme, mas se estiver em casa e ele estiver começando na televisão, e eu não tiver nada melhor para fazer no momento, até me disponho a por prova minha pré-avaliação.

Deixem-me dar alguns exemplos. Primeiramente, novas versões para alguns de meus filmes preferidos: “Cidade dos Anjos” e “Mensagem para você”. O primeiro é uma versão hollywoodiana para um dos grandes filmes de Win Wenders, “Asas do Desejo”. No original um anjo passando por uma crise existencial, se questionando pelo sentido da vida eterna, acaba apaixonando-se por uma trapezista e resolve tornar-se um mortal para viver esse amor. Na versão americana temos os rostos conhecidos de Nicolas Cage e Meg Ryan, ela é uma médica e ele é o anjo caído e apaixonado.

O filme de Wenders possui beleza e sutileza apaixonantes, além do mérito de transformar filosofia em cinema a partir de uma história de amor. Isso sem falar na fotografia, belíssima feita metade em preto e branco e metade colorida. Todas essas qualidades afirmam o diretor como um grande artista, possuidor de uma linguagem tão própria e de uma obra tão característica que qualquer tentativa de copiá-las ou de se aproximar delas não passa disso, de uma cópia.

Agora falando de “Mensagem para você”, temos aí uma refilmagem de um clássico dos anos 40, “A Loja da Esquina”. Na primeira versão James Stewart e Margaret Sullavan são dois funcionários da loja do título, que se odeiam, mas trocam juras de amor por correspondência sob pseudônimos. Sessenta anos depois o casal é formado por Tom Hanks e Meg Ryan, dois livreiros concorrentes que trocam mensagens de amor por e-mail, estamos na era da Internet afinal de contas.

Aqui o central é justamente a questão conjuntural, simplesmente não estamos mais nos anos 40, toda a inocência e otimismo que dão o tom no clássico do diretor Ernest Lubitsch soam no mínimo démodé em nossos tempos cínicos. Isso sem contar no carisma de James Stewart, Tom Hanks pode ser o queridinho de Hollywood hoje em dia, mas com certeza não tem a mesma força que o ator preferido de Alfred Hitchcock, Frank Capra e John Ford (simplesmente os três maiores diretores do cinemão holywoodiano). Quanto a Meg Ryan não se trata de perseguição de minha parte, mesmo ela tendo atuado em um de meus filmes preferidos, “Harry e Sally”, não são todos os trabalhos dela que chamam minha atenção.

Já um ator que me afasta de qualquer filme simplesmente com seu nome nos letreiros é o ex-astro Kevin Costner, desde o mega fracasso “Waterworld” o nome do americano para mim é sinônimo de bomba. Me parece que o sucesso alcançado depois de “Dança com Lobos”, subiu cabeça dele, ou alguém se lembra de algum filme memorável após o oscarizado western? Ele teve a cara de pau de protagonizar bobagens como “O Mensageiro” e “Dez dias que abalaram o mundo”, além de recentemente ter bancado o serial killer em “Instinto Secreto” (e ameaçar que este na verdade é a primeira parte de uma trilogia). E pelos números das bilheterias não foi só o meu interesse pelos filmes de Costner que desapareceu, se um dia ele já foi o galã número um de Hollywood, hoje ele não passa de um coroa boa pinta.

Isso não quer dizer que meu interesse se conduz apenas pelo sucesso de público, alguns filmes que tiveram sucesso retumbante também não me apetecem, nesses casos é a temática nada original que me afasta. Vide a série “Jogos Mortais” e todos seus derivados: “Albergue” e “Turistas”. Todas essas produções possuem como maior atrativo o bizarro e o escatológico para fazer terror, me bastou assistir o primeiro “Jogos” pra constatar algo que parece claro como água, esse novo subgênero do terror nada mais é do que um derivado de mau gosto de “Seven”. Ao lado de “Clube da Luta”, outro filme também do diretor David Fincher, o suspense protagonizado por Brad Pitt e Morgan Freeman conseguia ir a fundo no que diz respeito banalização da violência e perda do valor da vida humana, enquanto o assassino Jigsaw se destaca exatamente pelo contrário: choca pelo excesso, transformando em mero espetáculo o grotesco como se fosse uma proposta estética. E essa receita parece ter sido feita para as bilheterias, tanto que já estamos na quarta parte dessa bizarrice.

Continuações despropositadas também me irritam, como as séries já infinitas “Premonição” e “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”. Idéias que a princípio eram até interessantes, e bem resolvidas num único filme são espremidas até o bagaço em mais duas ou três continuações, chegando a irritar os seus próprios fãs. Em suma, o grande problema de todas essas produções lamentáveis é um só: grana. É uma pena que em sua sanha por lucros astronômicos os grandes estúdios por vezes percam o bom senso, e revelem seu maior talento, acabar com qualquer idéia realmente original e inovadora.

Quando Um Filme é o que Menos Importa

Publicado em: 03-12-2007 @ 1:50 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Por vezes alguns filmes ultrapassam os limites de uma sala de cinema, ou da sala de casa (quando vistos em dvd), pois representam mais do que a história que contam, representam por vezes um estado de coisas latente na sociedade da qual são produtos. O mais recente exemplo de um filme assim é o novo longa de José Padilha (Ônibus 174), “Tropa de Elite”.

Desde antes de seu lançamento “Tropa” esteve envolvido em polêmicas, primeiramente quando foi alvo de pirataria até então inédita para um filme nacional, em qualquer esquina das grandes cidades do país era possível achar um dvd � cinco reais. Recém-lançado, para platéias seletas em festivais de cinema, o filme esteve mais uma vez no centro de debates calorosos, pois recebeu acusações de se tratar de uma obra fascista.

Mas o que é fascismo? Recorrendo � Wikipédia, que se referenciou num artigo da Enciclopédia Italiana de 1932, escrito por Giovanni Gentile e atribuído a Benito Mussolini, o fascismo é descrito como um sistema no qual “o Estado não apenas é autoridade que governa e molda as vontades individuais com leis e valores da vida espiritual, mas também poder que faz com que a sua vontade no estrangeiro prevaleça. …Para o fascista, tudo está dentro do Estado e … nem indivíduos ou grupos estão fora do Estado… Para o Fascismo, o Estado é absoluto, perante o qual os indivíduos ou grupos são apenas algo de relativo.” Nesse sentido, “Tropa” pode ser caracterizado como fascista? Creio que não, pois até certo ponto denuncia a falência de nosso Estado para resolver os problemas da segurança pública. Produções hollywoodianas recentes, como “300” e “Tróia” estariam mais próximas de serem fascistas, por trazerem toda uma simbologia embutida, como já apontaram diversos críticos. Isso quer dizer que “Tropa” faz um retrato contundente da realidade social brasileira dos dias de hoje? Que se trata de uma obra essencial para quem procura entender nosso país?

Para a primeira pergunta a resposta é sim, poucas vez se viu a violência em nossas favelas tratada de maneira tão nua e crua, mas para a segunda pergunta a resposta é não necessariamente. Justamente as características que fazem do filme uma obra tão forte é que colocam em cheque a sua interpretação da realidade social brasileira, primeiramente a opção do diretor de ter como narrador em off o capitão Nascimento (personagem de Wagner Moura): a versão que ouvimos da “guerra” do tráfico é a sua, somos levados a comprá-la como a verdadeira. Aqui não acontece como “Platoon”, no qual o narrador Charlie Sheen se divide entre a versão de dois superiores seus, Tom Berenger e Willen Defoe, e ao final acaba escolhendo um dos lados, já em “Tropa” não há opção: se correr o bicho pega se ficar o bicho come (ou melhor, mata). Ainda mais quando a narrativa se pretende tão próxima a de um documentário (no caso um documentário com um único entrevistado), estamos diante de uma testemunha ocular dos fatos, portanto qualquer opinião nossa vai parecer arrogante e infundada, tomada a partir da experiência de quem vive numa torre de marfim. E essa impressão fica forte por um detalhe muito importante: o personagem melhor desenvolvido de todo filme é o próprio Capitão Nascimento (interpretado magistralmente por Wagner Moura), cheio de contradições, motivações e o único capaz de interpretar a realidade que cerca a todos.

De um lado estão os traficantes sanguinários, de outro os policiais corruptos que não fazem seu trabalho direito, a única saída é o BOPE, que conta em seus quadros com policiais capazes de fazer o que deve ser feito. E justificando a existência do tráfico está a classe média, que sonha em consumir seu baseado impunemente nos intervalos de seu trabalho voluntário em ong’s. Esse é o máximo de complexidade com que o filme trata drogas e violência policial, algo estranho, para um cineasta que conseguiu tecer uma teia bem mais complexa a partir do caso de seqüestro do ônibus em 2000. Esse sim, um documentário que consegue construir uma história a partir de diversos pontos de vistas, conflitantes por vezes, mas que ajudam a compor um quadro geral a partir de um fato isolado.

Um filme é antes de tudo uma obra de arte, que se insere numa linguagem específica (no caso a cinematográfica), e que não necessariamente precisa falar das mazelas sociais para possuir valor artístico. Mas uma vez que resolve fazer dessas mazelas seu tema, espera-se que ao menos não pegue uma história e seus personagens (policiais, traficantes, “maconherinhos”) e os retire de seu contexto social mais amplo, isso o empobrece tanto como interpretação quanto como obra cinematográfica. Por exemplo, imaginem se mais alguns personagens do filme tivessem a mesma profundidade do Capitão Nascimento.

Num contexto social mais amplo é que a recepção do filme ganha mais significado do que o próprio filme, em entrevistas o diretor e os atores afirmam que não desejavam fazer uma apologia da tortura como prática comum da polícia, que leituras que sugerem isso estão totalmente equivocadas. Então uma pergunta faz-se não só necessária, mas urgente: que tipo de sociedade celebra cenas de tortura e as exalta como comportamento esperado de sua polícia? O mesmo tipo de sociedade que lava as mãos e não se responsabiliza perante seus atos, vejamos o caso dos viciados em drogas: se eu sou um filho da classe média viciado em maconha ou cocaína levo a morte pra dentro da favela, então se eu passar a consumir drogas sintéticas (como êxtase), vendidas por traficantes de classe média como eu está tudo resolvido, acabaram-se os problemas da favela. Afinal, quando se faz uma batida atrás de um traficante de êxtase não se tortura livremente seus vizinhos até que o entreguem, a sociedade se revoltaria com casos assim contra moradores de apartamentos bem localizados.

Mas o problema das inúmeras favelas no Rio e pelo Brasil a fora não se reduz � s drogas: saneamento básico, educação e desemprego também fazem parte do pacote. Enfrentar todos esses problemas requer responsabilidade e tomada de posição política (partidária ou não), e é muito mais fácil culpar traficantes, policiais corruptos, viciados ou até mesmo cineastas pelos problemas sociais. Enquanto isso não ocorrer o problema só tende a piorar, e quando o BOPE descer o morro pra fazer incursões na zona sul do Rio (porque uma hora fatalmente isso vai acontecer se não for feito nada), aí sim estaremos � beira do fascismo.

Fórmula para ganhar Oscar?

Publicado em: 14-11-2007 @ 6:44 pm 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Desde que Fábio Barreto conseguiu a façanha de ter um filme indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro, “O Quatrilho” (1995), a cada novo sucesso de nosso cinema, cogita-se quais as chances de finalmente um filme brasileiro ganhar o prêmio mais famoso do cinema mundial. Não que premiações internacionais sejam novidade para nós, Glauber Rocha, Anselmo Duarte, Hector Babenco (mezzo argentino mezzo brasileiro) e até mesmo Arnaldo Jabor já tiveram filmes premiados em importantes festivais como Cannes, mas o prêmio da Academia de Artes de Hollywood tornou-se uma verdadeira obsessão brasileira.

Depois de “O Quatrilho” tivemos outros indicados: “O Que é isso Companheiro?”, “Central do Brasil”, “Cidade de Deus” (que conseguiu indicações importantes em categorias técnicas, como edição). “Central do Brasil” ganhou o urso de ouro em Berlim, num dos mais importantes festivais do mundo, além do urso de prata para Fernanda Montenegro como melhor atriz. Outros filmes não chegaram a ganhar prêmios, mas foram bem recebidos pela crítica internacional, como “Ceú de Estrelas” de Tata Amaral, e “Baile Perfumado” de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Mesmo assim, todas as vezes que nossos filmes figuraram entre os cinco indicados a filme estrangeiro acabamos esbarrando em outras escolas cinematográficas, como Holanda (por duas vezes) e Itália.

Primeiramente precisamos admitir algo que pode ser doloroso para os cinéfilos mais nacionalistas: todas as vezes que perdemos o Oscar, perdemos para filmes melhores do que os nossos. A recusa em admitir isso levou a um certo ressentimento por parte de nossos cineastas, um complexo de inferioridade, e alguns filmes antes mesmo de estrearem são colocados como representantes oficiais do Brasil, porque teriam mais chances de enfim ganhar a estatueta. Filmes bem resolvidos tecnicamente, que procuram “fórmulas” que possam conquistar os membros da academia acabam se perdendo em suas narrativas, como foi o caso de “Olga”, que virou uma doce história de amor entre uma judia e um brasileiro interrompida pelo nazismo, uma tentativa de realizar uma “Lista de Schindler” � brasileira?

A categoria de melhor filme estrangeiro é justamente a categoria na qual fórmulas menos funcionam, enquanto categorias como melhor ator e atriz possuem favoritos � priori (aqueles que interpretam doentes terminais, homossexuais, pessoas com problemas mentais), o filme estrangeiro não possui nenhum tema ou conteúdo privilegiado. Se alguns anos temos verdadeiras barbadas, quando sucessos internacionais apenas se confirmam, como “O Tigre e o Dragão”, em outros temos grandes surpresas, vide quando o delicioso “O Destino de Amélie Poulain” perdeu mesmo sendo um sucesso consolidado internacionalmente. Este ano tivemos outra surpresa, o maravilhoso “O Labirinto do Fauno”, mesmo recebendo três prêmios técnicos, perdeu justamente na categoria que era considerado favorito absoluto.

Neste ano já tivemos uma surpresa no próprio representante brasileiro, a comissão do Ministério da Cultura contrariou as expectativas de muita gente e indicou “O Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias”. Muitos preferiam o sucesso instantâneo “Tropa de Elite”, por suas inegáveis qualidades técnicas e por sua temática supostamente “social”. Sejamos sinceros mais uma vez: as tão aclamadas qualidades de “Tropa…” nos parecem tão grandes por se tratar de um filme nacional (mais uma vez nossos cinéfilos nacionalistas na área), qualquer filme de ação norte-americano como “Duro de Matar 4.0” ou “Transformers” possui as mesmas qualidades e mesmos truques pirotécnicos. Não que isso chegue a comprometer, é apenas um fato que deve ser reconhecido.

Já quanto ao “O Ano…”, me pareceu uma boa escolha. Trata-se de um filme que faz parte de uma onda recente de resgatar histórias da época do regime militar no Brasil, um tema sempre necessário, mas que acrescenta � sua história a maior paixão nacional, o futebol. Enquanto o menino Mauro espera pela volta de seus pais, militantes políticos que partiram para a clandestinidade dizendo que estavam saindo de férias, torce pela seleção brasileira de futebol na Copa do México. O clima político do Brasil nos anos de maior repressão do regime contrasta com a euforia provocada por Pelé & Cia, o que sugere uma reflexão sobre a luta política, o ufanismo provocado pelo futebol, e a alienação diante de uma ditadura no país.

A delicadeza com que o diretor Cao Hamburger conduz a história, aliada � s boas interpretações (principalmente do elenco infantil) são os grandes trunfos do filme. Se o filme tem chances de ganhar o Oscar? Essa é outra história, e francamente, ganhar prêmios é sempre bom, mas consolidar nosso cinema com linguagem e temática próprias é mais importante. A academia inclusive reconhece isso, por vezes o melhor filme estrangeiro vai justamente para escolas que alcançaram esse grau de maturidade, como China ou Itália. Essa é a grande contribuição de “O Ano…”, a partir de uma temática específica nossa faz um cinema que pode ser considerado universal, provando que nada substitui o valor de uma boa história bem contada, para isso não existem fórmulas mágicas.

O Segredo da Vida

Publicado em: 22-10-2007 @ 12:56 am 
Postado em: Mistureba
Escrito por: Luiz Belmiro

Eles estão chegando! Depois de venderem milhões de livros pelo mundo inteiro os magos da auto-ajuda finalmente (ou infelizmente) estão chegando s telas de cinema, com suas fórmulas mágicas de sucesso e fortuna ao alcance de qualquer um. O grande representante dessa nova “escola” cinematográfica é o “Segredo”, que conta a história de uma conspiração milenar para ocultar da humanidade a “Lei da Atração”, o tão afamado segredo do título. A tal “Lei” consiste basicamente em acreditar na força do pensamento, na sua capacidade em atrair para si tanto coisas boas (dinheiro, dinheiro e mais dinheiro) quanto coisas ruins.

Uma vez que a qualidade cinematográfica do documentário é baixíssima, a ponto de parecer um daqueles vídeos de formatura (inclusive com animações toscas no estilo do 3D-Max), nos resta discutir a “Lei” em questão. Vejamos como tudo funciona, a história de um homossexual que sofria preconceito no trabalho é belo exemplo da teoria defendida no filme: segundo a “Lei da Atração” ele atraia pra si com seus pensamentos negativos toda a discriminação que sofria. Ou seja, o problema não estava na sociedade homofóbica em que ele vivia, mas no fato dele pensar constantemente em coisas negativas, ao invés da sociedade mudar e ser mais tolerante ele é quem teve mudar seus pensamentos e pronto, sucesso, dinheiro e fim do preconceito.

A fórmula é basicamente a mesma de outros sucessos do lucrativo mercado da auto-ajuda: a resposta está sempre no indivíduo, ele tem a chave para todos seus problemas, caso não consiga resolvê-los a responsabilidade é toda sua, e não do guru do sucesso que estiver na moda (ótima válvula de escape teórica, qualquer problema com a teoria está no intérprete, e não na formulação). O significado do sucesso tão almejado pode ser resumido a uma simples palavra: dinheiro. Amor, amigos, fraternidade e solidariedade são todos frutos do dinheiro. E mais uma vez é reforçada a lógica individualista, você e seu sucesso em primeiro lugar, todo o resto do mundo será automaticamente feliz se você também for. O fato do ser humano viver em sociedade, e de que todos dependemos em maior ou menor escala das pessoas com quem convivemos, sequer são abordados pelo filme. Se você pretende se inserir numa lógica arrivista do “salve-se quem puder” esse é o filme ideal, depois de assistir pode se inscrever no “Aprendiz” do Roberto Justus e mentalizar que ficará igualzinho a ele. Mas e se a resposta não estiver em você, mas justamente nas pessoas ao seu redor? E se a fórmula mágica para a felicidade não puder ser encontrada sozinho?

Dois dos melhores filmes de 2006 investem mais nessa possibilidade, e se revelam muito mais interessantes, seja como cinema ou então como teoria (ou “Segredo”, como queiram). Em “A Fonte da Vida”, um médico vivido por Hugh Jackman pesquisa obsessivamente uma cura para o câncer de sua amada esposa (interpretada por Rachel Weiz), sua busca é incansável a ponto de fazer com que sacrifique as últimas horas que teria ao lado dela no laboratório. A angústia do personagem não se deve apenas ao medo da perda, mas também ao fato de não entender o mistério da morte. Por outro lado, mesmo estando com as horas contadas, sua esposa aceita seu destino e acaba por lhe dar a resposta para todos seus questionamentos por meio da forma como encara a morte. Ela mostra que uma vida nunca faz sentido sozinha, mas apenas em complementaridade s vidas ao seu redor, em especial aqui a vida da pessoa que se ama. Tanto que ela deixa seu último livro inacabado para que ele termine, a história dela é a história dele.

O diretor Darren Aronofsky (”Réquiem Para Um Sonho“) utiliza os recursos narrativos do cinema para melhor desenvolver sua “tese”, em especial a fotografia: uma mesma luz ilumina o filme inteiro, a luz de uma estrela para a qual todas as vidas convergem, aí a vida transcende a morte, no momento em que os dois se tornam um. No final, poderia ser apenas mais um filme romântico com queda para o melodrama, mas toda simbologia da trama (religiosa, filosófica) consegue superar um único gênero, flertando até mesmo com a ficção cientifica de forma convincente. O amor entre os dois personagens principais nos faz lembrar dos versos da última canção dos Beatles: “e no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá”.

E quanto ao dinheiro e bens materiais? Igualmente podemos dizer que eles não fazem o menor sentido sem o componente humano, como mostra “Filhos da Esperança”. Num futuro próximo, por algum motivo desconhecido as mulheres não conseguem engravidar, e a morte da pessoa mais jovem do planeta desencadeia uma onda de protestos e confrontos violentos por todo planeta. Mas o aspecto mais interessante é quanto s conquistas materiais da humanidade, os avanços tecnológicos desse futuro alternativo pararam na década de 90. Sem futuras gerações para herdarem o mundo, não quer dizer mais nada um tv de plasma ou um celular com bluetooth. A certa altura, o personagem de Clive Owen interroga o curador do maior museu de Londres: de que adianta preservar todas estas obras-primas se dentro de cinco décadas não vai haver mais ninguém para apreciá-las?

Sucesso, fama e dinheiro, bem como todas as conquistas materiais da humanidade são vazias quando não podem ser aproveitadas em benefício das pessoas, e de preferência em benefício de mais de uma pessoa, ou seja, da coletividade. Se existe mesmo algum “segredo”, com certeza ele não pode ser descoberto sozinho, e tão pouco ser apropriado em benefício próprio, porque se assim o for o “segredo” pode ser definido numa simples palavra: egoísmo.

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