“We live in an age of mediocrity. Stars today are not the same stature as Bogie, James Cagney, Spencer Tracy, Henry Fonda and Jimmy Stewart” (Lauren Bacall)
Há 50 anos, Humphrey Bogart morreu em conseqüência de um câncer na garganta, vitimado pelo cigarro. Apesar desta inevitável sensação da perda daquele que foi um entre os grandes astros do cinema americano, Bogie deixou um precioso legado: seus filmes. Entre eles, estão A Floresta Petrificada, Anjos de Cara Suja, Vitória Amarga, O Último Refúgio, O Falcão Maltês: Relíquia Macabra, Casablanca, Uma Aventura na Martinica, Passagem Para Marselha, À Beira do Abismo, Prisioneiro do Passado, O Tesouro de Sierra Madre, Paixões em Fúria, Uma Aventura na África, Sabrina, Horas de Desespero. Bogart dividiu sua carreira com grandes diretores, como Raoul Walsh, Howard Hawks, Michael Curtiz, John Huston, Billy Wilder, William Wyler, entre outros. Trabalhou com outros grandes atores e atrizes. Aliás, de suas quatro esposas, três eram atrizes. Entre elas, Lauren Bacall, com quem compartilhou seus últimos anos. Como cinéfila, é inegável a minha paixão pelo cinema clássico, então torço para que agrade aos leitores do CCR lerem, quinzenalmente, um texto sobre o assunto. Prometo não ficar limitada e discutir os mais variados aspectos desta era do cinema. De forma alguma intenciono dar � minha coluna um aspecto nostálgico. Para começar, cumpri com minha vontade de homenagear Humphrey Bogart em seu qüinquagésimo ano de morte, comentando dez de seus filmes em uma coluna dividida em duas partes. Boa leitura.
A FLORESTA PETRIFICADA (COMPRE O FILME)
(The Petrified Forest, 1936. De Archie Mayo. Com Leslie Howard, Bette Davis, Dick Foran, Charley Grapewin)
O deserto é um cenário incomum para um filme de gângster, mas é onde se concentram as ações de A Floresta Petrificada. Um escritor andarilho (Howard) encontra um pequeno restaurante onde aproveita para descansar e acaba se deparando com algo surpreendente: um velho orgulhoso de ter levado um tiro de Billy the Kid e uma jovem leitora de poesia francesa (Davis). Excêntrico e incrédulo nas questões sentimentais, aceita com relutância o fato de se apaixonar pela moça, até que chega ao restaurante o temido criminoso Duke Mantee (Bogart), que lhe ajudará � sua maneira a promover seu sacrifício sentimental. Howard e Bogart haviam protagonizado esta história no teatro, e Howard impôs ao estúdio que o colega repetisse na produção o papel do gângster. Foi a oportunidade para Bogie escapar dos dramas e comédias meia-boca que lhe ofereciam, além de ter despertado o estúdio para uma característica que marcaria sua carreira: sua vocação para o vilanismo. Bogart faria novamente o papel de Duke Mantee em 1955, em seu único trabalho para a televisão. Contracenariam com ele Henry Fonda e Lauren Bacall.
ANJOS DE CARA SUJA (COMPRE O FILME)
(Angels with Dirty Faces, 1938. De Michael Curtiz. Com James Cagney, Pat O’Brien, Ann Sheridan, George Bancroft, ‘The Dead End Kids’)
Dois meninos são pegos roubando um trem de carga. Na fuga, um deles consegue pular a cerca que dá acesso ao seu esconderijo e fugir da polícia; o outro não. Este simples fato influi no destino de ambos: Rocky Sullivan (Cagney), o garoto que não conseguiu escapar, torna-se um gângster temido; seu colega, Jerry Connelly (O’Brien), vira padre. Ao fim de uma de suas diversas passagens pelo presídio, Rocky parte em busca de Jim Frazier (Bogart), um advogado ardiloso que lhe passou a perna; e acaba conhecendo e se envolvendo com um grupo de jovens delinqüentes como ele fora um dia. Anjos de Cara Suja foi uma das vítimas da Legião da Decência, um órgão católico que tratava de censurar os filmes (principalmente os de gângsteres). Isso gerou toda uma nova onda de filmes do gênero, que passaram a mostrar a origem desses criminosos, o que os motivou a serem quem são; além de um final obrigatoriamente moralista, contornado com sabedoria por alguns cineastas (é o caso de Curtiz). Bogie, que mais uma vez interpreta um homem inescrupuloso, era na época apenas um ator contratado da Warner e estrelou em seguida uma série de filmes do mesmo modelo.
O ÚLTIMO REFÚGIO (COMPRE O FILME)
(High Sierra, 1941. De Raoul Walsh. Com Ida Lupino, Alan Curtis, Arthur Kennedy, Joan Leslie)
Roy Earle (Bogart), um articulado criminoso, é liberado da prisão em troca de um favor: liderar um grande assalto a um hotel fino. Junto do bando que o acompanhará está Marie (Lupino), uma mulher de história não muito digna, mas que se mostra dedicada e interessada em Roy. Por sua vez, ele se apaixona por outra moça (Leslie, então com 16 anos incompletos), uma jovem que conhece na estrada em uma de suas andanças. Este é um dos últimos exemplares do filme de gângster, que dominou o cinema de Hollywood na década de 30. Bogart, que estava exausto de incorporar personagens menores, lutou para fisgar o papel de Roy ‘Cão Doido’ Earle, um criminoso astuto, mas sentimental. Com este papel, Bogie pôde destacar-se e entrar para a chamada “Fila de Assassinos”, da qual faziam parte ninguém menos do que Edward G. Robinson, James Cagney, George Raft e Paul Muni, os maiores foras-da-lei da História do cinema americano. O Último Refúgio foi o filme que apresentou Bogie a John Huston, co-roteirista e futuro diretor, com quem manteria uma parceria frutífera. Além disso, o filme foi para Bogart a razão de seu reencontro com a magnífica atriz Ida Lupino e o realizador Raoul Walsh, com quem houvera trabalhado em Dentro da Noite (1940). Lupino, futuramente, se destacaria também na carreira de diretora. Nostálgico, O Último Refúgio lamenta o fim do gênero, mas abre alas para a estética que dominaria o cinema de Hollywood nos anos 40: a estética do noir.
O FALCÃO MALTÊS: RELÍQUIA MACABRA (COMPRE O FILME)
(The Maltese Falcon, 1941. De John Huston. Com Mary Astor, Gladys George, Peter Lorre, Sydney Greenstreet, Elisha Cook Jr.)
Em 1539, o rei da Espanha foi presenteado pelos Templários de Malta com um imponente falcão de ouro maciço, incrustado de pedras preciosas. Atacado por piratas, o rei teve o seu suntuoso objeto roubado, sem jamais conseguir notícias de seu paradeiro. 400 anos depois, o detetive Sam Spade (Bogart) é contratado por uma jovem (Astor) para que encontre sua irmã, mas logo percebe tratar-se de um blefe. A mocinha, aparentemente inocente, faz parte de um grupo de pessoas dispostas a arriscar suas vidas em busca do falcão maltês. Interessado em livrar-se da culpa por dois assassinatos que acredita ter ligação com o caso, Spade resolve observar de perto a procura pela estatueta e conhece os limites da ganância humana. O romance O Falcão Maltês, de Dashiell Hammett, havia sido adaptado para o cinema duas vezes: em 1931 e 1936, mas fracassaram. Em sua estréia como diretor, Huston criou o filme com o qual todos os filmes de detetive seriam comparados. Além disso, com uma história de crime e ambição, personagens peculiares e astutos, e uma estética sombria influenciada pelo Expressionismo Alemão, Huston criou aquele que é considerado o primeiro filme noir da História do cinema. O Falcão Maltês: Relíquia Macabra definiu a carreira de Bogart. Traçou sua imagem de ator de face expressiva, para a qual apenas olhando podemos saber seus pensamentos. E, como sabiamente professaria Norma Desmond, um ator é, antes de tudo, um rosto.
CASABLANCA (COMPRE O FILME)
(Casablanca, 1942. De Michael Curtiz. Com Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre)
Após viver um passado tenebroso, Rick, um norte-americano, consegue estabelecer-se como proprietário de um bar em Casablanca, no Marrocos francês. O país está prestes a ser invadido pelo exército nazista e a cidade torna-se uma espécie de estada para aqueles refugiados políticos que querem viajar a Portugal e, de lá, tomar um navio rumo aos Estados Unidos. Porém, os vistos estão cada vez mais raros e um importante líder da resistência tem seu destino confiado a Rick, um caso de amor mal-resolvido de sua esposa. Talvez seja duro acreditar, mas Casablanca tinha tudo para não dar certo. Era apenas mais uma produção, e a equipe estava estranhamente dispersa. O roteiro, baseado na peça “Everybody Comes To Rick’s”, era escrito em cima da hora; a maior preocupação de Ingrid Bergman era se teria de cortar o cabelo para o seu próximo trabalho, Por Quem os Sinos Dobram (1943), com Gary Cooper; implicavam com “As Time Goes By” por achá-la inadequada etc. Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, este tornou-se o tópico preferido do cinema. Apesar da grande quantidade de filmes desta temática, Casablanca se sobressaiu, levando os principais prêmios no Oscar de 1944: melhor filme, melhor direção e melhor roteiro. Lançado há 65 anos, freqüenta até hoje a lista dos dez melhores filmes americanos de todos os tempos. Além de uma história repleta de tensão e romance, da notável trilha sonora de Max Steiner, dos diálogos cínicos e inteligentes etc, um fator que colaborou para tamanho sucesso é incontestável: o elenco. Este foi quase que completamente feito de excelentes atores estrangeiros (o diretor Michael Curtiz, inclusive, era húngaro, e foi escalado pela Warner para ser um novo Lubitsh), com exceção do nova-iorquino Bogart. O que observamos é uma reunião de talentos em prol de Casablanca. O filme, por sua vez, retribuiu com a imortalidade que só o cinema pode oferecer, transformando Bergman e Bogart astros absolutos.
Continua…