
Começou o Festival de Cinema de Cannes. E a abertura foi com o esperado “Blindness”, de Fernando Meirelles, o mesmo diretor de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. As primeiras noticias indicam que o filme foi recebido com um silêncio sepulcral da platéia do festival. Se isso é bom ou ruim, eu não sei, mas o próprio diretor achou que o filme era muito pesado para abrir o evento.
Algumas opiniões da crítica internacional (extraído do Terra):
1| Foi “a abertura mais deprimente para um festival internacional que eu já vi” , escreveu James Christopher, do jornal britânico The Times. “Depois da glamurosa esteira rolante de estrelas no ano passado, para comemorar os 60 anos sensacionais de estréias de filmes artísticos, o festival apagou as luzes de Natal, apertou o cinto e voltou ao austero negócio de mostrar os auto flagelados diretores-autores do futuro“, escreve o crítico, para quem a noite de abertura foi “um choque azedo e inesperado“.
2| O jornal argentino La Nación disse que o filme foi recebido com “muita frieza“, mas se trata de um exemplo da crescente globalização cinematográfica, destacando que muitas análises em Cannes compararam a produção - que fala da degradação da sociedade durante uma epidemia de cegueira que assola uma cidade - a desastres naturais como o causado pelo “furacão Katrina, a fome da Somália e os excessos na Guerra do Iraque“. Mas o jornal afirma que, apesar do profissionalismo e dos desafios assumidos por Meirelles, “o filme é bastante óbvio em sua apresentação de um universo sórdido e em sua denúncia da manipulação, da miséria e da precariedade da sociedade contemporânea. Além disso, não consegue transmitir os climas e a emoção que levaram o romance original publicado em 1995 pelo ganhador do Prêmio Nobel à consideração mundial“.
3| O La Nación ressalta que Meirelles tentou filmar o romance vários anos antes, mas Saramago se recusou a vender os direitos do livro durante anos porque, segundo o escritor, “o cinema destrói a imaginação“. “Em vista do medíocre resultado final do filme, o notável autor de O Evangelho Segundo Jesus Cristo tinha razão“, afirma a reportagem.
4| Já o crítico do jornal britânico The Guardian deu ao filme quatro estrelas, descrevendo Ensaio sobre a cegueira como “um pesadelo apocalíptico adaptado de um romance de 1995 do vencedor do Nobel José Saramago e dirigido por Fernando Meirelles, que nele encontrou a exposição brutal da lei da selva das favelas que vimos em seu filme de 2002, Cidade de Deus“.
“Cegueira”, título de Blindness em português, só estréia em setembro aqui no Brasil. E isso dá tempo a todos que não leram o livro de José Saramago, vencedor do Nobel de Literatura em 1998, conhecerem a história que será mostrada nas telonas. O curioso foi saber que quando Meirelles procurou Saramago pela primeira vez, com o projeto de trazer a obra literária para as telas do cinema, ele ouviu um NÃO. O escritor afirmou na época que o cinema destrói a imaginação das pessoas, pois entregava toda a história pronta.
Mesmo sendo amante também da literatura, não chego a concordar com o escritor. Vários filmes de grande sucesso, verdadeiros clássicos são adaptações de livros. Apesar de amar 2001: Uma Odisséia no Espaço, nunca tive a paciência de acompanhar o livro, pelo seu excesso de ficção cientifica. O dialeto russo que apimenta o filme Laranja Mecânica, no livro vira um grande tormento, fazendo você ir e voltar o tempo todo para um glossário.
É claro que o livro é sempre mais rico em detalhes, e sim, a imaginação do leitor tem que compor a história de uma maneira diferente. Mas não dá para dizer que o cinema estraga a imaginação. Afinal, é o espectador que dá o ritmo aquela história que esta vendo, entendendo o motivo de cada objeto mostrado, cada construção de cenário, cada cor de fundo de cena, enfim, no cinema você também tem que sentir o clima de tudo e viajar com ele para entender.
Para os que gostam de folhear bons livros, que viraram bons filmes, ficam algumas dicas. “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto”, ambos de Nick Hornby; “Prenda-me se for Capaz”, de Frank Abagnale; os já citados “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Artur C. Clarke e “Laranja Mecânica”, de Antony Burgues e muitos, muitos outros.
E você, lembra de mais algum livro que virou um bom filme? Comentaí!