Assistir a um grande filme de um grande super-herói no cinema é indescritível. Agora, na minha opinião, sentar na sala escura e passar duas horas diante de cenas que acontecem no dia-a-dia, mas que evitamos saber, ou melhor, que fingimos não existir, é uma dádiva. Isso acontece com poucos filmes que tem nas salas uma chance de exibição.
DOWNLOADING NANCY, que tem sua estréia no festival de Sundance, é um destes filmes. Talvez ainda é cedo para dizer se ele vai ter sua história nos cinemas do Brasil. Mas é agora mesmo que devo dizer: é um filme necessário. Sem super-heróis, mas com gente real. Atores que mesmo atuando, falam tudo o que acontece, no seu bairro, na parede ao lado da sua. Que acontece comigo e contigo.
Temos no trailer Maria Bello (“Show Bar”), que deixa seu marido para conhecer Jason Patrick (“Velocidade Máxima 2”). Ao que parece, esse encontro foi arranjado via Internet. Mas isso não importa, pois o “Downloading” no nome, não refere-se a chats ou e-mails, mas ao arquivo chamado Nancy (e isso significa pessoas). Ela se encontra com Jason e pede: “Você pode me beijar delicadamente?”
Logo temos Maria na cama com Jason, recebendo um tratamento nada delicado. Usam de ferramentas no sexo, como ratoeiras e cacos de vidro. Uma agressão que ela mesma procura e induz. Que ela pede. Assistimos também ela tentando cortar seus próprios pulsos. Seguimos os olhos em Rufus Sewell (“Cidade das Sombras”), que é o marido de Maria. Ele está desesperado atrás dela. Maria não só foi a um encontro, ela o deixou. E por quê?
Acompanhamos um diálogo de Maria com (ao que parece) Amy Brenneman (“88 Minutos”), sua terapeuta:
- Você entende que relacionamento, não significa machucar aquele a quem você ama, não é mesmo?
Amy fala de um “machucar físico”. Maria está usando do seu corpo para se machucar, talvez com o objetivo de entender a dor do amor na pele. Então que Jason bate na porta de Rufus. E se apresenta para levar porrada. Mas não soco ou pontapé. Ele quer ser torturado, assim como faz com Maria. No trailer ele diz a Rufus:
- Você deve estar pensando em como poderia ter feito diferente, não é mesmo? Essa mulher está querendo se machucar tão profundamente por sua causa!
Rufus, o marido, não admite ouvir essas palavras. Jason já está com sua boca sangrando e amarrado. Ao que parece, seu objetivo foi atendido. Está na mira para ser torturado. E agradece por isso. Rufus não acredita quando ouve tal agradecimento.
E é isso. O trailer acaba, entendendo eu, assim:
O amor é manifestado de muitas formas. Com socos e chutes. Masoquismo seria o querer se relacionar? Pode ser. Desde que passamos de colo para colo quando pequeno, procuramos outros, quando agora, adultos somos. E nosso choro não basta pra receber um peito em contato ao nosso. Tentamos de tudo. Conversas já não adiantam mais. A velocidade que chegam as informações hoje, nos faz sentir como arquivos, prontos para serem baixados. E baixamos. Vamos de encontro a humilhação, para entender nossos sentimentos. Aliás, para sentir, sem querer entender.
DOWNLOADING NANCY é um filme. Mas é real. Nossa vida é todo dia filme. Não filmamos a nada que não casamentos e festas de aniversário. Mas se filmada, nossas vidas, todo dia assistidas, teriam outro sentido. Seria uma forma de tortura? Talvez sim. Talvez não. Mas é certo que não nos assistimos. E é essa a maravilha do cinema, de podermos nos identificar, com um retrato real, mesmo que subentendido como ficção.
Nossa vida é cinema. E por mais que desejamos passear no parque, é no movimento do corpo, seja ele qual for, que sentimos a força que possuímos. E isso é sempre amor. De uma vez por todas temos que entender que não existe destruição. Tudo o que fazemos é para encontrarmos amor. Talvez seja difícil de compreender, assistindo cacos de vidro sendo usados como ponte para tal tarefa. Mas é isso. O sangue escorrido não designa morte. É sangue, o mesmo que trafega por volta do nosso coração.
AVALIAÇÃO DO TRAILER: 10/10
ESTRÉIA NOS EUA: 21 de Janeiro de 2008 (Sundance Film Festival)
