Quase todo mundo já começou um blog. Muitos já começaram mais de um. Alguns mais de dois. Com certeza, teve gente que chegou a ultrapassar uma dezena, quem sabe. O fato é que muitos sabem o que é blog. Alguns gostam, outros não. Há, inclusive, disputa de ego dentro e fora da blogosfera. Mas, o que menos se comenta, é em que se constitui um blog. Amontoado de textos, pensamentos, devaneios, status, moda? Talvez a resposta seja isso tudo e nada ao mesmo tempo.
NOME PRÓPRIO bem que passa por essas questões. Será mesmo que tudo aquilo que se é vivido deve ser jogado em um post? Para a personagem principal do longa, a blogueira Camila Jam, sim. E disso ninguém pode discordar. Afinal, a ferramenta está aí para fazerem dela o que bem entenderem e, se assim Camila quis que fosse, assim foi.
O mais novo trabalho de direção de Murilo Salles (“Todos os Corações do Mundo”, “Seja o que Deus Quiser!”), protagonizado por Leandra Leal (Camila Jam), é uma adaptação dos livros “Máquina de Pinball” e “Vida de Gato”, ambos por Clarah Averbuck, bem como alguns de seus textos para blog. Todavia, vê-se é que o longa-metragem transcende a adaptação e passa a ser quase compreendido como um blog. Pouquíssimo na trama é por acaso e, mesmo antes do final, já se enxerga o porquê de vários elementos estarem sendo utilizados.
De começo nervoso, as tomadas bem fechadas no rosto da personagem principal, fazem logo sentido. O diretor Murilo Salles quer deixar o filme altamente palpável, acessível. Tal como um blog é. Aliado a tais tomadas estão os planos longos, demonstrando tanto a competência do diretor, quanto dos atores em questão. Na cena inicial, em vez de sermos apresentados aos personagens, somos apresentados ao filme em si; como ele será conduzido. Apesar de algumas quebras de ritmo, na média final, o longa é reflexo puro da sua grandiosa cena de início: loucura, choro, frustração, desapego, planos longos, câmera livre e tomadas fechadas. Tudo em uma única cena.
Nem mesmo o que em muitas fitas parece desnecessário para o todo, acontece em “Nome Próprio”: nudez. Mesmo havendo demais, não se pode reclamar de um exagero. Pelo contrário, tudo relacionado ao corpo (tanto a nudez, quanto ao sexo) apresentou-se altamente cabível no exato momento que se enxerga uma vontade da protagonista em sempre externar o que sente. Inclusive o desapego por si mesma relacionado ao apego para com os outros, no caso, seus poucos amigos, fiéis leitores, suas diversas relações amorosas – ou sexuais… carnais… enfim. Além do mais, estávamos falando de uma blogueira bem solitária. Convenhamos, nem tudo é novela de grande emissora onde os personagens transitam em suas casas quase que de fraque. Ainda nesse âmbito, palmas para Leandra Leal. A atriz se desprendeu completamente dos seus personagens globais. Além de não palpitar em cenas complicadas, mostrou uma personagem forte, crua, real.

No final das contas, temos que repensar o início da projeção para, só assim, aceitarmos tudo que aconteceu. Não encarar os acontecimentos como simples passagens do roteiro (assinado por Melanie Dimantas, Elena Soarez e Murilo Salles) é válido para a aceitação do longa. Pensemos: para que serviu a cena em que Camila vai ao mar e quase não volta? Bem como a que ela se relaciona com um nerd que acompanhava seus posts? E quando ela finalmente encontra o seu leitor preferido? Faça esse exercício. Assista NOME PRÓPRIO, pense essas três perguntas e relacione-as.
Seja de nicho, seja de um assunto bem definido, seja pessoal ou, até mesmo, os que se dizem ser sobre nada e acabam sendo sobre tudo. Blog, na acepção da ferramenta, é “Nome Próprio”. É gerador de cultura, de conteúdo, de atitude. E o pagamento? Um simples comentário.
Trailer do filme, abaixo:





