Missão dada é missão cumprida. Filme assistido é filme absorvido. E inspiração batida é coluna escrita. Depois de escutar comentários, curtir as frases de efeito e as músicas do filme e ignorar toda e qualquer pirataria, conferi “Tropa de Elite” nos cinemas. Seria impossível escrever sobre qualquer outro assunto nessa semana.
“Papara-papara-papara-clack-bum“. Essa foi a batida mais cantada por mim nos últimos dias, antes de ver o filme “Tropa de Elite”, até conseguir um tempo para conferi-lo no cinema. Tirar onda babando o personagem do Capitão Nascimento na pele do Wagner Moura virou rotina. Afinal, eu sempre adorei o Wagner Moura, profissionalmente e esteticamente, diga-se de passagem. E a boina “a la personal stylist Guevara” caiu muito bem. Acontece que depois de tirar essa “tropa” de brincadeiras e interpretações triviais sobre o filme, após assisti-lo, me senti uma idiota “de elite” por ter levado tudo tão frívolamente princípio.
Fazia tempo que eu não sentia um leve frio na barriga antes de entrar na sala de exibição para ver um filme. Que ficava ansiosa para ouvir os primeiros tons do início da trilha sonora, no caso, com o tão conhecido “Rap do Dendê”. Ver o rosto em close parado do Capitão Nascimento, com uma boquinha emburrada e a boina que triplicava o charme do Wagner Moura também foi outro “tiro” de emoção. Mas eu tenho que desabafar, porque eu saí com um transtorno interessante do cinema: uma mescla de revolta e compreensão.
Me senti estúpida por tratar o tema com banalidade, dançando o “Rap do Dendê” e brincando com as frases do Bope. Me senti mais uma no meio da multidão, sendo hipócrita, superficial e ignorante. Em determinada cena do filme, que novamente toca o refrão do “Rap do Dendê” – a qual eu não citarei para evitar atrapalhar quem ainda não viu, a ficha caiu: o que é que eu estava fazendo? Sim, porque normalmente não é esse o meu comportamento, não com os filmes nacionais que eu levo a sério. E digo nacionais porque eu tenho um cuidado maior com eles: são nossos.
Foi quando eu percebi que, para mim, “Tropa de Elite”, assim como outros filmes, contava uma história. Uma história até ordinária. Simples: como outros infinitos filmes, ele trazia uma narrativa. Ok. Acontece que aquela narrativa é a fotografia de histórias que se repetem no país, com personagens que podem ser encontrados facilmente na realidade, estampados em “curtas” nos noticiários de toda noite ou em “pôsters” na primeira página do jornal.
Não consegui analisar o filme de forma técnica, pelo menos, não claramente. Não consegui porque acredito ser mais importante analisar a mensagem dele no primeiro momento. Acho que a maioria dos filmes brasileiros usam o cinema para mostrar retratos de realidades nossas, e merecem ser absorvidos. Uma parcela do nosso cinema – e acredito que a maior e a melhor – usa o cinema como arte para invocar uma reflexão. É a expressão de um mundo. E “Tropa de Elite” entrou nessa linha, como um filme simples que pode ser compreendido por qualquer um. Talvez por usar uma linguagem fácil, ter ação e uma música-chefe conhecida (Tropa de Elite, do Tihuana) ele tenha atingido uma parcela maior dos brasileiros do que os outros filmes mais densos. E vejo isso de forma positiva. E esclareço: bom por ter sido divulgado e conhecido pela maioria, mas não necessariamente compreendido por ela.
Ver um filme assim, que traz um ponto de vista da realidade para a grande tela, me deixa aliviada e orgulhosa. Mesmo que fique chocada e fadada a crer que o melhor para a sociedade seria o seu fim: o homem, definitivamente, é o pior bicho que já pisou na Terra. Nesse ponto, sou radical e pessimista. Admito.
Você é um fanfarrão! Todos nós somos, na minha opinião. E muitos são moleques, como é afirmado em determinado momento pelo Capitão. Quem realmente pode julgar a realidade? Quem pode dizer se ele falou a verdade ou não? Quem pode dizer que está certo ou não, se tem jeito ou não? Quem ousa jogar uma pedra e dizer que nunca se comportou como um daqueles “playboys” estudantes de Direito, nem que seja pela corrupção, pela omissão ou pela estupidez de achar estar fazendo “consciência social” enquanto vive em cima do muro com a classe média? Todos nós somos culpados, civis e polícia, e até o Papa, que insiste em ser estrela e se hospedar em zona de risco. Fazemos todos parte dessa “merda” e somos todos hipócritas. Cínicos. A dose pode variar de um para outro – e varia. Mas não vamos deixar de dormir por causa disso. Podemos aliviar e dizer que é culpa do sistema. E até é. Nascemos nele e não é fácil mudar. Aliás, vendo os próprios argumentos do filme, eu nem sequer acredito que seja possível mudar. Somos todos fanfarrões. Fato.
Shine happy people. A trilha do sonora do filme é irônica e conveniente. “Rap do Dendê” chega com uma apologia ao crime organizado, como um hino contra os “alemão”. O nome do filme lembra a música do Tihuana, que para mim, é uma banda de “fanfarrões”, para não dizer outra coisa. E nos créditos temos O Rappa, banda de grange referência social, cantando “Lado B, Lado A”. Digno. Até o famoso “Rap da Felicidade” marcou presença. Agora, para mim, a pérola da trilha é quando toca “Shine Happy People” durante uma festinha. Tapa na cara da classe média. Soco no estômogado dos blasés que acham que podem julgar algo e que “metralham” frases feitas sobre a realidade e os problemas do país. Pessoas felizes e radiantes no meio de uma guerra fria e não-declarada. Pessoas omissas e sem ética. E todos dançando ao som de alguma melodia que bote pra correr a culpa. Eu não tenho raiva da polícia ou dos traficantes. Antes de ter algum tipo de sentimento em relação a eles, eu fico indignada com a classe média, que não caga nem descupa o mato, e acaba condizendo com a realidade, tendo a cara de pau de criticar como vemos claramente no filme. Os personagens do filme são reais demais. É isso que tira do sério.
Pede pra sair, pede pra sair! Todo mundo quer sair. Ninguém aguenta viver com o peso dos problemas do Brasil nas costas. Ninguém aguentaria ser patrulheiro para mudar o mundo o dia todo, vários dias. Não é fácil. E existem pessoas e pessoas. Fábios e Netos. Matias e Marias. Seria muita ingenuidade minha ser utópica e dizer que todos deveríamos sair s ruas e mudar. Não faz parte do nosso DNA isso, da nossa geração. Mas eu torço para que aconteça o mínimo: a consciência. Aquele tapa, tão bem dado pelo Capitão Nascimento repetidas vezes, foi um tapa que o filme tentou nos dar. E nós merecemos bem mais do que um tapa bem dado. Precisaríamos de um saco para nos sufocar até que acordássemos desse estado de comodismo-programado e compreendêssemos o que realmente acontece. Ou tentássemos simplesmente entender.
Põe na conta do Papa. Eu não sou muito religiosa, daí começa a meu sarcasmo quando entendo a missão para garantir o sono do Papa. Adoraria dizer para ele que a Igreja poderia rezar menos e investir os dízimos em algum laboratório “santo” que inventasse uma injeção contra o vírus da corrupção. Ou um bloqueio contra as influências do meio, já que no final das contas, nota-se que o homem é um produto do meio, meio criado por ele mesmo. É um ciclo vicioso e virulento, e o Papa só entra para atrapalhar essa emboscada toda.
Jack Baüer e Capitão Nascimento. Eu queria utilizar a vassoura, como o Capitão Nascimento sugeriu em uma seqüência do filme, em quem disse que o ele era o Jack Baüer brasileiro. Para mim, o pequeno Jack é um personagem de entretenimento, que tem lá suas ligações com a realidade e abusa das tecnologias e da equipe competente pronta para safar o seu rabo. Já o Capitão Nascimento é que chega mais perto de ser um herói, nem por tentar ser justo ou salvar A ou B, mas por conseguir voltar para casa todo dia, com as mazelas do sistema e a briga emocional interna. São duas realidades absurdamente diferentes, que só uma pessoa muito ingênua poderia realmente pensar em cogitar seriamente. A única coisa que as duas tem em comum é a violência, que assume inúmeros papéis: o de defesa, o de sobrevivência, o de educação, o de ataque e aí é ladeira abaixo.
Enfim, “Tropa de Elite” é um filme que merece ser assistido. No mínimo, será divertidos para quem quiser ser um fanfarrão – e somos muitos. Não esperem esclarecimentos sobre a política ou a política. Para mim, a maior crítica ali não é polícia, e sim classe média. A lama da corrupção já está alta demais para perdermos tempos com julgamentos superficiais. E até o Papa seria chamado para o réu se a corrupção fosse ser julgada. O silêncio s vezes é a melhor opção para ocultar a ignorância. E como o Bope falou: ninguém é obrigado a ver o filme ou levar o tapa que ele dá. Então, peça para sair.

Eu tenho uma amiga com quem eu já deixo pré-combinado: ó, se faltar assunto, joga algum filme na conversa. Ou o cinema entra como tábua-da-salvação para evitar o silêncio constrangedor entre as pessoas ou entra como fonte de pesquisa sobre a pessoa com quem se está conversando. Sempre muito útil!
Nerds sempre foram personagens de histórias engraçadas – e até de arquitetados planos malignos. Figuras cativas em comédias estudantis, eles sempre batem ponto e marcam presença em qualquer foto de formatura. Acontece que, de uns tempos para cá, ser Nerd não ficou apenas para a figura estereotipada do bobão inteligente (ou não) que era o rei da impopularidade e da gozação. Nerd agora está mais relacionado a conhecimento mesmo, da cultura inútil, passando pela cultura útil e rodando pelas áreas virtuais, principalmente os videogames e jogos para computador. Ser Nerd virou até uma espécie de atitude, criando um estilo e um novo grupo para os sensíveis e semelhantes causa. É o Nerd Pride truando com gosto de gás.
Não vou sair pensando nas melhores trilhas sonoras e etc tal. Não acho que eu tenha bagagem e moral para julgar o cinema dessa maneira. Escolhi ir pelo lado divertido e momentâneo do desafio, lembrando rapidamente de músicas que me marcaram de alguma forma. Não foi nem um pouco difícil, já que a música é outra paixão que eu alimento diariamente, até com mais intensidade do que o cinema – apenas por quesito de tempo.
Vou dispensar os comentários sobre “O Primo Basílio“, que é ruim, com cenas sem justificativas, atuações medíocres (com exceção da Glória Pires e da Simone Spoladore) e uma trilha sonora medonha. É uma comédia, feito para rir do filme e não com o filme. Mas, depois de rir e entender que o Daniel Filho não sabe a diferença entre Cinema e TV, percebi uma lição de moral no filme: pulem a cerca direitinho, porque o Ministério da Boemia adverte – chifre mata.
Naqueles testes de personalidades de revista feminina de quinta categoria, rola sempre uma pergunta do tipo: Qual celebridade/ícone você gostaria de conhecer? Eu mudo um pouco o foco e pergunto para mim mesma: E se eu pudesse conhecer de verdade algum personagem do cinema, quem seria?
Lendo uma entrevista com o cantor nova-iorquino Rufus Wainwright, certa citação do músico do pop melancólico me chamou a atenção. “Eu prefiro as biografias. Acho a vida real muito mais interessante que a ficção. Sempre fico chocado com as biografias.” Nesse exato momento, parece que o “desktop” da minha cabeça foi acionado e todas as biografias que eu já tinha visto ou ouvido falar começaram a passar em flashes na minha memória. Fiquei pensando sobre o que o Rufus disse e tive que concordar: a vida real realmente é muito mais interessante, principalmente se essa vida for de alguém notório - visto que nem todos vivem: alguns só sobrevivem mesmo. Afinal de contas, em colunas anteriores, eu mesma afirmei que nós somos a matéria-prima bruta da realidade do cinema. As biografias só explicitam isso, transformando uma figura real em personagem da própria vida em uma cine-biografia.
Em colunas anteriores, eu expliquei por A mais B o motivo de detestar criar expectativas para qualquer coisa. Odeio o sentimento de frustração. Fora que colocar o emocional no meio, complica uma crítica técnica do filme, e eu gosto de ter as duas na mão. Afinal, o filme pode ser um lixo tecnicamente, mas me agradar pessoalmente por algum motivo absurdo. Ou pode ser muito bom, porém não provocar lá uma grande identificação, e nem por isso será um filme indigno. Pois bem. Eu fui bem sucedida evitando criar expectativas, em ignorar as notícias, fotos, teasers, trailers o máximo possível e só chegar no dia da estréia e ponto final. Sem mais delongas. E estava muito feliz assim, sabe? Até o dia em que ouvi falar de dois filmes que acabaram com o meu sossêgo: “
Antes, era notória a diferença entre TV e Cinema. Agora, essa linha fica cada vez mais tênue. E não acho que seja para provocar uma fusão, mas sim, uma mudança de formatos e estilos. Estamos vendo uma série de trocas, de mesclas, de adaptações nos dois mercados. Fico, então, pensando onde essa “gelatina” toda vai dar.
Filmes com personagens fortes, acredito eu, tendem a provocar uma maior empatia com o público, principalmente se colocamos o cinema como uma imitação da vida, uma reprodução dela, de forma livre, na telona. Exemplos? Joel e Clementine, do várias vezes aqui citado “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Jack Twist, de “Brokeback Mountain”. Alice Ayres, de “Closer” e os outros três também. Rick, de “Casablanca”. James Bond, o homem do 007. David Aames, de “Vanilla Sky”. Ah, são inúmeros os personagens que cativaram o público, que tornaram-se tão importantes – ou até mais – que os próprios filmes e ganharam até comunidades no Orkut. Depende de cada um, mas acredito que quem gosta mesmo de cinema, deve ter seus personagens favoritos e seus momentos de êxtase profundo ao se imaginar na pele de algum deles.
