O cinema é uma forma de comunicação forte. Assim como o jornalismo, ele pode divulgar idéias de forma eficiente, justamente por envolver tantas ferramentas poderosas na sua linguagem. E pensando nessa possibilidade, imaginei dois filmes que trataram de um tema que sempre é polêmico e que cutuca a nossa realidade.
Política. Acabamos de sair de um período de eleições. Acho que cada um percebeu como política é algo complicado e “gelatinoso”. E que aqui no Brasil, cada vez mais vira palco de palhaçada. Ela sempre trás polêmica quando é citada, seja na escrita, na música ou no cinema. Cada um tem sua opinião, e eu nunca vi um povo para ter tanta opinião como as pessoas de hoje. E vale lembrar que ter opinião, agora, não quer mais dizer ter “discernimento sobre o assunto e ter argumento formado”, mas apenas “eu tenho boca e quero falar”.
Então, puxando a pauta da política, lembrei dois filmes que tive o prazer de rever nos últimos dias. “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles e “Todos os Homens do Presidente” (1976), de Alan Pakula.
Ambos são filmes que abordam temas políticos. Um mais direto que o outro. Um mais histórico que o outro. Um mais audacioso. Mas ambos polêmicos para a sua época. Ambos antigos. Ambos atemporais. Ambos excelentes e que deveriam constar na lista de qualquer um que se interessa pela “arte” da comunicação.
Para não ficar extenso, dividirei a coluna em duas partes. Falarei de um filme, e próxima semana, vocês conferem o outro e a conclusão do tema.
Cidadão Kane. Primeiro de tudo, devemos levar em conta a época em que o filme foi realizado. Se hoje ele provoca discussões e faz a gente pensar, imaginem o impacto que ele teve na década de 40, denunciando a sujeira do sistema jornalístico em uma época cheia de regras de conduta e tradição!
Depois, Welles trouxe quase o anticristo para protagonizar o filme! Um cara egoísta, egocêntrico, quase um canalha… Enfim, o lado B dos galãs. Resultado: críticas ruins e pessoas saindo da sala de exibição no meio do filme.
Rola uma metalinguagem de leve no filme: um documentário é exibido e nos avisa que um homem importante da época acabara de morrer. Aquele mesmo que sussurrou “Rosebud”… Charles Foster Kane. É sobre ele que se desenrolam as próximas cenas do filme. Na tentativa de descobrir o significado do último suspiro (sem piadinhas) de Kane, um grupo de jornalistas sai em busca de descobrir a resposta. Tudo para tornar mais interessante e inédita a matéria que seria produzida. Inicia-se, então, um processo investigativo. Jornalistas colocando-se como “detetives da matéria mais verdadeira”.
O jornalista Thompson (William Alland) entrevista várias pessoas que tiveram contato intenso com o faleicido magnata: sua ex-mulher, seu melhor amigo, seu mordomo etc. A busca pelo significado da palavra “Rosebud” vira, então, apenas um pretexto para explorar os limites do homem na época.
Tornando ainda mais polêmica a obra de Welles, existe a incrível semelhança entre a vida do jornalista William Randolph Hearst, que organizou um movimento anti-Kane, movimento esse que ocasionou o pouco público do filme. Nos dias de hoje seria o contrário! Prova disso foi o livro “O Código Da Vinci”, de Dan Brown. Bastou a Igreja dizer que o livro não deveria ser lido que até quem não gostava de ler quis ler o tal.
Imagino se, quando o Roberto Marinho morreu, alguém ouviu as suas últimas palavras ou se houve algum processo jornalístico como esse… Assim, óbvio, tiveram inúmeras matérias escritas sobre o falecimento do homem por trás do império da Globo, sistema de comunicação que tem a capacidade de provocar mudanças em trajeto de furacões aqui no Brasil. Teve inclusive o livro do Pedro Bial, que pode até se encaixar nesse estilo de jornalismo investigativo, já que ele usou de diversas fontes – oficiais, secretas e profissionais, diversas entrevistas com pessoas que participaram direta ou indiretamente da vida de Roberto Marinho. No mínimo, semelhante com o Thompson “xeretando” sobre o Sr.Kane aí, não? Entretanto, hoje em dia a imprensa anda tão apática e vendida, que eu, como leiga no assunto, considero essa produção do Bial uma exceção.
Existe outra relação com tempos mais atuais. Em determinado momento de “Cidadão Kane”, Sr. Kane se candidata ao posto de governador. Bem possível que ele ganhasse, certo? Ele era popular, era dono de um jornal querido e lido pela maioria, tinha a simpatia de muitos. Todavia, o “comigo-ninguém-pode” é ferido com o próprio “ganha-pão”. Seu suposto caso com uma cantora qualquer vira manchete e toda a fachada de “chefe de família e ilustre marido” vão por água abaixo. E lembrem que isso costumava ser um valor respeitadíssimo na época… Essa situação me lembrou o Escândalo Lewinsky, quando veio tona a notícia de que o presidente dos EUA na época, Bill Clinton, mantinha uma relação não muito ética com a sua secretária, Mônica Lewinsky. E tudo isso começou quando Linda Starr, amiga da Lewinsky, entregou gravações das conversas do Clinton com Lewinsky para o jornal Kenneth Starr. Olha só.
“Cidadão Kane” é sensacional. Mantém-se atual, apesar de ser o senhor de sessenta anos. E o motivo para tanto “rejuvenescimento”? A nossa contínua situação política. Todas as críticas feitas no filme podem ser feitas a elementos contemporâneos. Em uma época em que notícias são escolhidas de acordo com a reação intencionada para o telespectador, e não de acordo com sua veracidade e importância, “Cidadão Kane” cai como uma luva. Toda a corrupção que é cometida dentro até da normalidade, os egos inflamadíssimos…
É compreensível que muitos não gostem do filme. Mas é inacreditável que alguém não reconheça a sua importância, tanto no avanço em termos de linguagem cinematográfica (roteiro, fotografia, interpretações, maquiagem, posição de câmera, profundidade…) como pelo conteúdo explorado por Orson Welles em seus jovens 25 anos de idade.
Partindo para um roteiro mais biográfico, “Todos os Homens do Presidente” trás uma exposição maior e uma possibilidade de acompanharmos esse jornalismo investigativo no cinema. Quem não viu algum dos dois filmes, vale muito a pena! Até a segunda parte e, por hoje é só, pessoal!
Apesar dos traços diferentes e dos personagens não tão desenvoltos como estamos acostumados a ver nos sucessos da Pixar e da Dreamworks, “Deu a Louca Na Chapeuzinho Vermelho” conseguiu tirar boas risadas da minha pessoa. E, diga-se de passagem, da minha vizinha mais ainda!
D.W. Griffith. É desse cara aí mesmo que estou falando. O pai do “cinemão” americano. Sim, o cinema hollywoodiano. Ele quem criou esse “modelo” de filmes que tanta gente adora ver. Ele quem ousou e delineou a linguagem cinematográfica na sua época. Ele quem primeiro trabalhou como um verdadeiro “diretor”.
Política é um daqueles três assuntos que não é aconselhável discutir, certo? E religião também, não é? Imagine, então, um evento que junta esses dois assuntos e ainda mexe com a (in)sensibilidade humana. Mistura inflamável, certo? Aliás, literalmente inflamável, tendo visto a guerra no Iraque depois…
Pensando bem, acho que só me permiti ficar mais animada com o filme na semana que antecedeu o meu primeiro “encontro” com ele. Li várias matérias e fiquei imaginando como seria. No final das contas, nem lembro como imaginei. Só sei que adorei o filme e saí soltando foguinhos, super contente e satisfeita com o que vi.
Estava eu, distraidamente, passeando por uma livraria, encantada por todos aqueles livros caríssimos que eu adoraria poder levar para casa, quando avistei lá na estante das revistas algo do tipo “30 filmes cults do cinema”. Meu primeiro pensamento foi: se é filme, é quase óbvio que seja do cinema, né Chiquinho? Depois seguiu para algo do tipo: e por que mesmo que vocês não publicaram isso quando eu tive a idéia da coluna, hein? Ora, bolas… Lá fui eu buscar a revista para ver do que se tratava.
Vamos logo ser práticos: tudo o que se vê no cinema, provavelmente saiu dos trilhos da vida real. Até mesmo o Darth Vader e o Gandalf. É sim, ou o diretor de cada um desses filmes não era humano, com uma criatividade extremamente fértil e alguns parafusos a menos? Quem disse que o Darth Vader não poderia ser aquele chefe megalomaníaco que invade o escritório para manipular e acabar com todos os estagiários que sonham em ser modelo da empresa? E quem disse que a Mary Poppins e a Noviça Rebelde não são o grito de desabafo de uma babysitter, de uma faxineira, de uma “Marinete” estrangeira?
Ao contrário do que eu tinha dito
Inteligência. Bom gosto. Sensibilidade. Alguém diz mais? Mais alguma característica que a Sétima Arte pode agregar a uma pessoa? Acredito que podem ser várias, e como vivemos hoje na Era da Aparência, uma época na qual as pessoas se preocupam mais em “parecer” do que em “ser” realmente, é bem capaz de terem elaborado um “Manual de Como Parecer ____ - escolha sua opção”. Um desses manuais deve ter sido “Lista de Filmes Para Ser um Cult”.
Desde o início da coluna, aviso logo. Juro que tentei não expor tanto o filme, a ponto de prejudicar a expectativa daqueles que não o assistiram. Mas não consegui. Até peguei leve, mas alguns detalhes tiveram que ser revelados. Então, se você não conferiu ainda essa película, e quer vê-la genuinamente, deixe para ler a coluna dessa semana depois. Caso contrário, seja bem-vindo.