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Guarnicê!

Publicado em: 13-06-2006 @ 12:03 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Provavelmente a equipe dos Rapaduras ainda está curtindo o final da ressaca pós-Cine Ceará. Quem viu, aproveitou. Quem não foi, perdeu. Mas quem disse que a maratona de Festivais termina por aí? O cinema nacional já pode contar com o Guarnicê, o festival de cinema que acontece em São Luiz - Maranhão.

Do dia 31 a 08 de junho, Fortaleza foi invadida por uma onda ibero-americana da Sétima Arte. Sim, sim. o 16o Cine Ceará chegou cheio de novidades, trazendo filmes de outras nacionalidades, com diferentes linguagens e realidades. Certamente foi um evento muito rico e, por parte das equipe do CCR, deveras divertido. Mas isso vocês podem conferir nos bastidores da nossa cobertura.

Pois sim. Quem pensa que a maratona de festivais acaba por ali está redodamente enganado. Dia 13 de junho já começa o 29o Festival Guarnicês de Cinema e Vídeo, outro grande evento da área do cinema que acontece na capital Maranhense, São Luiz. O Cine Ceará acabou de debutar, está na sua 16a edição. Já o Guarnicê está um pouco mais adulto, contando com mais de duas décadas de história.

Ele é realizado pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O festival exibe filmes de curta, média e longa metragens nos formatos 8mm, 16mm e 35mm, em mostras informativas e competitivas. Também são organizados concursos de vídeo em várias categorias, de telecomerciais e telereportagens. Até semelhante com o Cine Ceará, certo?

O festival acontece no mês de junho, durante a maior festa cultural do estado. Neste período, grandes manifestações folclóricas, como o Bumba-Meu-Boi, atraem pessoas de todo o mundo capital São Luís - Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. E olha que mexe mesmo, viu? Eu estou aqui conferindo as preparações para as festas do Boi e fiquei até surpresa com o envolvimento das pessoas.

O festival aproveita essa leva de festa e se baseia nesse tema. Na verdade, o termo “guarnicê” se refere a um momento de preparação, momento em que os brincantes do Bumba-Meu-Boi se reúnem em torno da fogueira onde esquentam os seus tambores e pandeirões, cantando a toada que anuncia a chegada do Boi. Guarnicê é a palavra chave da maior manifestação folclórica do Maranhão. É a expressão que representa simbolicamente o espírito cultural da terra e sintetiza o vigor de suas tradições.

Mas, ele nem sempre teve esse nome, viu? Em 1977, quando foi lançado, era chamado de Jornada Maranhense de Super 8, passou para Guarnicê e cada vez mais vem crescendo. No início reunia um grupo de cineastas locais que durante toda a década de setenta produziram filmes de curta-metragem exibidos em pequenas mostras realizadas em São Luís e no interior do estado. As mostras foram crescendo ano após ano com o aparecimento espontâneo de novos realizadores e através de cursos e oficinas ministradas por grandes nomes do cinema nacional. Assim como o Cine Ceará, ele recebe filmes de todo o Brasil. A diferença é que agora o Cine Ceará abriu as telonas para os países ibero-americanos…

Felizmente a cena do cinema nacional não está tão parada! E antes que eu me esqueça, os cearenses ainda vão ter mais oportunidades no segundo semestre com a segunda edição do eufórico Curta Canoa (Festival Latino-Americano de Curta-Metragem de Canoa Quebrada). Aproveitem!

Código dos Livros para o Cinema

Publicado em: 29-05-2006 @ 12:02 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Esse negócio de transformar livro em filme é meio complicado, vocês não acham? Andei pensando nisso já várias vezes, mas o assunto me veio tona novamente após a estréia do famoso “O Código DaVinci” nos cinemas.

Eu ainda não vi o filme. E podem me chamar do que for, mas eu não estou morrendo para vê-lo ainda. Os motivos? São vários. Primeiro, não gosto das adaptações de livros para o cinema. Sempre deixam a desejar. Não por incompetência, mas porque nunca é a mesma coisa, já que cada um é cada um – mas falo sobre isso mais adiante. Segundo, esse filme, para mim, é apenas um caça-níquel. Achei o Ron Howard até corajoso demais ao assumir um projeto tão perigoso. Sim, perigoso, já que o livro foi super polêmico, super lido, super comentado, super exposto. Até o Diabo deve ter lido. Terceiro, os personagens principais não me convenceram nos trailers. Sim, não posso julgar o filme pelo trailer, mas trailers são feitos para causarem impacto e chamarem a atenção das pessoas, certo? Pois bem, não funcionou muito bem comigo. Fora que eu detesto salas lotadas demais. Vou esperar a poeira baixar e então confiro o filme, que até agora chegou aos meus ouvidos como uma produção medíocre, de atores descartáveis. O que foi que houve com o Tom Hanks? E a tal da Audrey deveria ter ficado no mundo fabuloso da Amelie. Que pena!

Mas antes de começar a coluna de fato, alguém pode me explicar quem foi o maluco que deu a idéia do filme estrear em Cannes? Quem foi o insano?! Central do Brasil recebeu cinco minutos de palmas, de pé, e eles querem estrear “O Código DaVinci” em Cannes?! Confundiram com o Oscar, não foi? Só pode. Cannes é conhecido por ser exigente. Que pretensão estúpida a desse povo… Não é porque tem o nome do grande Leonardo Da Vinci que a obra leva o crédito dele não, hein!

Mas, saindo do foco do superpop aí, vou voltar para a coluna. Essa parceria de filmes e livros tem futuro? Acho que ela sempre aguça a curiosidade de quem leu o livro, cria uma expectativa. E justamente por gerar uma espera é que a possibilidade de se acontecer uma frustração é maior. Se você vai sem esperar nada, qualquer coisa pode ser lucro. Mas se você tem uma idéia do que pode ser, qualquer coisa que saia desse modelo pode causar reações adversas.

Ao ler um livro, você automaticamente produz um filme na sua cabeça. Imagina as cenas, os personagens. Eu mesma imaginei o Robert Langdon completamente diferente! E imaginei a Sophie Neveau realmente ruiva, sabe? Aí já começa aquela sensação de “Vai, me convence!”. A leitura provoca essa criação. A imagem não, ela já chega com tudo pronto para ser projetado nas nossas cabeças. Por isso não gosto da adaptação. É preciso sempre lembrar que o filme é uma versão dos olhos do diretor. Não podemos exigir que seja igual nossa, certo?

Acho que estou começando a ficar curiosa para ver “O Código” não pelo filme, mas pela curiosidade em ver minha cara após o filme. Será exceção ou cairá na rotina dos que deixaram a desejar?

Terapia no Cinema

Publicado em: 23-05-2006 @ 12:00 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Acho que em todos os aspectos da nossa vida, esperamos um final feliz. Exceto quando pessoas do nosso desafeto estão envolvidas, né? Tem gente que adora ver a desgraça daquela criatura que atrapalha sua vida. Mas de qualquer forma, é verdade que esperamos sempre algo agradável no fim de uma história, logo, sempre esperamos finais felizes nos cinemas. Mas qual o porquê mesmo, hein?

Já ouvi muitas pessoas saírem da sala do cinema dizendo que o filme era horrível simplesmente porque não encontraram um final feliz, ou porque não entenderam, ou porque não era óbvia a resposta – como até comentei na coluna passada. Que absurdo, não? Ou não? Será justo julgar um filme pelo fim? Tal qual julgar um livro pela capa?

Semana passada conferi o previsível “Terapia do Amor”. Empolguei-me para conferir esse filme simplesmente porque queria algo leve, que servisse como ferramenta para uma desopilação do mundo “workaholic” que vivo. E serviu. Só não tão bem porque me deixou muito sensível pelas causas amorosas… Tá certo que a amiga que me fez companhia é sensacional, maluca como eu, mas um príncipe contemporâneo seria bem mais condizente com o contexto!

Ah, antes que você passe para o próximo parágrafo… Se você não viu o filme e não quer saber o final caso pretenda ver, pule o próxima parágrafo e volte depois da seção para ler a coluna completa!

Enfim, por incrível que pareça, “Terapia do Amor” não foi tão previsível quanto eu esperava. No último suspiro, ele virou a mesa. O filme não acaba no “e foram felizes para sempre”. Milagre!

Intencionalmente ou não, o final do filme proporcionou uma compreensão até madura sobre a relação dos dois, atrapalhados pela idade e pela crise ética da mãe. Sei que eu e minhas viagens cinéfilas chegamos num ponto interessante. Dois, aliás.

Primeiro, sobre o próprio filme. Acho que os dois personagens alcançaram um amadurecimento sobre a relação. Será que não importa apenas gostar da pessoa para ficar com ela? Eu sou a favor dessa filosofia, particularmente. Mas isso agora não importa. Quero pensar no geral. Será que ainda existe espaço para tanto romantismo no mundo de hoje? Num mundo que para ter um filho, tem que se pensar não só no nome do menino e na cor do quarto do bebê, mas nas contas que virão. Temos que calcular o planejamento, o investimento e o prejuízo de se ter um filhote! Exagerada? É, bem capaz. Mas sou fã de Cazuza. Faz parte do meu show.

Segunda questão. Por que as pessoas anseiam tanto por um final feliz? Provavelmente pelo mesmo motivo que já falei em colunas passadas: por que muitos vão ao cinema e se projetam nas telonas. Vivem junto com o personagem o seu drama. Mesmo que temporariamente. Sendo assim, não seria conveniente passar por situações desagradáveis. Quase uma frustração.

Mas que complexo, não? O ingresso como passaporte para um mundo virtual mais agradável, uma fuga da realidade. Quase um projeto de “a la Vanilla Sky”.

Nas Entrelinhas de Selvagem

Publicado em: 26-04-2006 @ 11:57 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Por trás do que pode parecer inofensivo e normal, pode-se esconder intenções duvidosas. Tudo, inclusive a arte, pode sofrer da “síndrome da faca de dois gumes”. O cinema não fica fora disso e muitas vezes foi usado para limpar nomes, desmistificar e mistificar histórias, criar lendas… “Selvagem” foi o último filme que vi que me fez repensar sobre essa idéia, por incrível que pareça.

Mais uma vez, eu falando do meu vício: animações. “Selvagem” é algo meio “chapado” de “Madagascar”, que mistura um drama a lá “Rei Leão” e personagens típicos. Tem seus momentos engraçados, mas não passa de uma diversão despretensiosa e que pode até cansar o cidadão por alguns instantes.

Mas o que me fez vir citá-lo no início dessa coluna não foi isso, mas sim uma idéia nas entrelinhas do filme, idéia que inclusive vi outros amigos da área discutindo. “Selvagem” conta, ligeiramente falando, a história de um grupo de bichos do zoológico de Nova York que viaja para a África em busca de um companheiro que foi parar lá por acidente. Chegando lá, eles recuperam o amigo perdido e ainda detonam com a religião dos gnus, convertendo-os para o lado deles e destruindo o líder dos gnus. Perceberam algo? Ok. Vou facilitar. O nome do líder era Kazaan e os gnus têm rosto estreito, olhos redondos e barba preta. E aí? Sim, eles devem ser descendentes dos árabes. Olha só, caiu a ficha? A América vai até a África em um ato heróico e detona com o que encontram por lá, trazendo de volta seu tesourinho e uns novos convertidos.

Alguém pode me dizer o porquê do líder “ter” que se chamar Kazaan? E de ele viver em cavernas sombrias? Tá, eu posso estar exagerando, mas convenha: você já ouviu essa história antes, e ela está muito parecida com uma sátira da realidade. Vou ser ingênua e pensar: será que alguém da equipe se inspirou no arquivo EUA x Oriente Médio? Ou na novela mexicana “Bush, onde estará Bin Laden?” ? Não sei, não sei. Mas que está estranho, está.

Sacanagem. Apelaram para as animações. Já foi visto muito isso em trocentos filmes épicos e verídicos. Quantas vezes Hollywood não tentou minimizar a vergonha da Guerra do Vietnã? Não sabem perder. Até hoje tem o orgulho ferido porque foram derrotados por uns cabinha de olho puxado que usam armas inferiores e calçavam pneus! E não só isso. Depois do 11/9, quantos filmes apareceram abordando o tema de diversas formas? E quando falo filme, coloco os documentários no meio. Michael Moore saiu de primeira com “Fahrenheit”, e o Bush ainda saiu em outro, ridículo por sinal, apelando para o patriotismo e compaixão da humanidade. Eu passei mal assistindo.

Mas não vou discutir política aqui. É que nem outra coisa aculá, cada um tem o seu. Seu time, seu gosto e o que mais tiver que ser. Meu ponto é o poder de formar opiniões que o cinema tem, podendo ser usado das formais mais explícitas, como das mais sutis.

Outra coisa que pensei é que o cinema, por ser arte talvez, tem a capacidade de romantizar as histórias, distanciar da realidade. Por exemplo, a questão da África. Quantos filmes temos falando diretamente da questão? Ou colocando-a como plano de fundo? “O Jardineiro Fiel”, “O Senhor das Armas”, “Amor Sem Fronteiras”… Sabe aquele argumento da percepção que diz que o exagero pode intensificar a idéia, mas também banalizá-la? Talvez isso aconteça. Se acontece na televisão, quando vemos as notícias dos jornais e tem gente que acha que está longe daquela corrupção e miséria! Imagine se isso for maximizado e passar para a telona. Talvez seja algo que não dependa apenas da intenção do diretor, mas da consciência crítica de quem assiste. E essa segunda é de vital importância. Com ela, dispensariam-se os alardes, não precisaríamos colocar em xeque a urgência de certos problemas. Apenas citando-os já teríamos uma análise mais crítica. Sem ela, muitas intenções tornam-se inúteis porque que as assiste não tem capacidade de absorvê-las. E pior, pode absorver completamente errada. Cabe até piada para pessoas inteligentes nessa parte…

É. Muitos filmes fantasiados ainda virão. Muitos filmes realistas e consistentes também virão, como veio os que citados acima e como veio “Crash”. A influência do cinema continuará, cada vez mais adaptada, e nós continuaremos consumindo-o. A questão é: você engole sem processar tudo que consome ou analisa as entrelinhas do que lhe é servido? Não seja um selvagem. Faça bom uso do que te distingue dos bichos da arca de Noé!

Era do Gelo para Adultos

Publicado em: 13-04-2006 @ 11:41 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Engraçado. Ingênuo. Previsível. Talvez… “Era do Gelo 2” pode ser uma animação, mas seu tom de brincadeira e de muitas cores pode esconder uma série de reflexões sobre os tipos de pessoas que habitam nosso mundinho.

Eu sou fã de animações. Não perco uma! Me troco pelos bichinhos fofinhos e rio por qualquer besteira. Talvez seja mais fácil agradar a mim do que a uma criança de verdade! Mas depois de assistir “A Era do Gelo 2” e matar minha sede de risadas, percebi que esse filme segue uma linha de animações para adultos, no mesmo estilo de “Shrek”.

Após algumas conversas com um amigo cinéfilo e com outro companheiro fã de animações – principalmente do tipo monocromática, percebi mesmo que poderíamos tirar boas reflexões do filme.

Aquele esquilo mazelado eternamente em busca da última noz. A gente ri da desgraça do pobre coitado, mas muitos de nós podemos nos identificar com ele. E deveríamos nos inspirar nele! Apesar de todos os obstáculos, ele não desiste. Tá certo que ninguém sobreviveria ao que ele passou, mas ninguém aqui também é doido de levar tudo ao pé da letra. Eu acho… Quem sabe um aviso “não façam isso em casa” seria conveniente durante o filme. Mas independente do sucesso do infeliz, devemos invejar a disposição que ele tem, a garra!

Mas sim. Continuando. De cara, já temos uma lição de determinação e força de vontade. Depois chegam as mais mastigadas: instinto de sobrevivência, necessidade de provar coisas a todos e a si mesmo, checar os fatos antes de fazer algo…

Agora tiveram duas que achei mais interessantes: a do Sid, a preguiça aglutinadora, e a crise de existência da Ellie, a mamute-gambá. Devo dizer que sou fã do Sid. Ele é um prego carismático. Ninguém dá nada pelo pobre. Ele é alvo de chacotas sempre e nada que ele fala é levado em consideração a princípio. Mas acontece que apesar disso tudo, ele é um dos melhores personagens, de grandíssima importância. É ele quem une a turma. É ele quem faz o Diego vencer o medo de água. É ele quem manobra a cabeça-dura do Manny. É ele quem faz a galera rir também. Ele é o chiclete necessário. Aquela coceirinha chata, mas boa de sentir. Sim, sim.

E a questão da Ellie? Para começo de conversa, que viagem torta! Uma mamute pensar que é uma gambá! Mas nem falem muito. Aquilo ali nem está tão longe de nós. O mundo aí está cheio de casos assim.

Mamutes que pensam que são gambás. Gambás que pensam que são mamutes. Mas esses não são os piores casos. Pior é um gambá que pensa que é mamute e convence os outros de que é mesmo um mamute! Aliás… Tem coisa pior. Pior ainda é um gambá que sabe que é gambá, finge que é mamute e convence os outros disso. Já dizia Picasso: para ser um gênio, basta convencer os outros disso. E por aí temos muitos casos assim. São os famosos “convencidos”. Ou também chamados de esnobes, sem-noção, enxamistas… Existem diversos nomes para esse tipo de comportamento. Mas ainda acredito que isso é coisa de “gente sabida”…

E para começar falando disso, vamos diferenciar o que é sabedoria e o que é sabidoria. Sabedoria é digno daquele que é sábio, sapiente. Inteligência. Sabidoria é digno do malandro, do “sabido”, do espertinho que tem sempre um jeito de facilitar a própria vida s custas dos outros. É nesse quadro que encontramos o tal “jeitinho brasileiro”.

Tem gente que acha a sabidoria um “must”. “É o certo mesmo!” Mas acontece que nos dias de hoje as coisas estão mudando, e nem sempre o espertinho consegue se safar de tudo. Ninguém consegue fechar todas as torneiras, certo? Prova disso são as várias descobertas e punições que estão acontecendo por aí. Estamos longe de alcançar o “nirvana” da justiça, mas quem sabe estamos dando os primeiros passos da ética.

Já é um ponto de reflexão interessante. Hoje em dia, dizem que é mais importante “parecer” do que “ser”. Será que continuará assim por muito tempo? Ou as máscaras estão começando a cair mais rapidamente? Os gambás estão sendo descobertos e os mamutes descobrindo sua real capacidade?

Leonardo Boff já falou sobre isso usando águias e galinhas. Não usando necessariamente essa minha abordagem do “fingir para enganar”, mas usando a do “fingir por que não sei quem sou”. Uma pessoa-mamute que cresceu entre pessoas-gambás não vai saber que tem sangue de mamute. Não vai conhecer sua força e sua capacidade, e logo pode tornar-se alguém medíocre involuntarimente. Ainda tem a pessoa-gambá que quer pertencer aos mamutes e se esforça ao máximo para isso, ultrapassando seus limites, passando até para o grupo das pessoas-esquilos!

Já viram que dá para sair classificando as atitudes e os indivíduos de diversas maneiras, hein? Cada personagem do “Era do Gelo 2” pode representar um perfil. Quem sabe aquilo ali é uma paródia de situações corriqueiras nossas, disfarçadas com humor. Descubra qual personagem combina com você, então. Só não tente enganar os outros. A conta sempre chega para ser paga.

O Plano Perfeito, no Brasil

Publicado em: 04-04-2006 @ 11:38 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Lembro que quando soube daquele roubo “cinco estrelas” ao Banco Central aqui em Fortaleza, pensei brincando: eita, esse povo deve Ter visto muita televisão! Na verdade, nem duvido que eles tenham tido as idéias por alguma mídia por aí, mas gostaria mesmo é de que fosse adicionado ao programa da Escola dos Ladrões o filme “O Plano Perfeito”

Todo mundo sabe da influência que a mídia tem sobre as pessoas. De forma positiva ou negativa, forte ou fraca, ela sempre atinge os telespectadores. O que varia é o senso crítico e o poder de reflexão com que o indivíduo rebate isso. Mas, não vou aqui voltar ao velho discurso da indústria cultural, do julgamento da televisão. Quero falar de algo mais específico. E divertido.

Nós temos vários filmes que abordam assaltos a bancos. Roubos magníficos, como em “Ladrão de Diamantes”. A lista é vasta. E metade vieram da mesma “sala de criação”. Foi quando lançaram ‘O Plano Perfeito’. “Outro!” Acontece que o elenco me fez pensar duas vezes antes de classificá-lo como mais um “10 dicas de como assaltar um banco com glamour”.

Denzel Washington tem uma filmografia maravilhosa. “Chamas da Vingança”, “O Colecionador de Ossos”, O Dossiê Pelicano”… Clive Owen, sou suspeita a falar. Sou fã. “Closer”, “Sin City”, “A Identidade Bourne”. E para quebrar o patriarcalismo, Jodie Foster. A premiada de “O Silêncio dos Inocentes” e “Taxi Driver”. Seria muita decepção “O Plano Perfeito” ser apenas mais um filme de assalto a bancos!

Felizmente, eu me enganei. Não é um filme espetacular. É um filme normal. Mas eu gostei muito das impressões que pude tirar dele. Spike Lee fez bem na direção. Os roteiristas Russel Gewirtz e Menno Meyjes acertaram no desenrolar. O elenco está adequado e a trilha sonora está uma graça. A música de início é muito legal! É corrido, com takes diferentes do que costumamos ver, com detalhes interessantíssimos.

Na verdade, eu menti para vocês. O filme não fala de um assalto a um banco, do tipo normal. É quase isso. Mas não é. Os malandros daqui deviam mesmo assistir a esse filme e seguir a sua cartilha. Quem sabe o Brasil não melhorava! Na verdade, o ladrão é quase um mocinho. Ele tem pinta de malvado, mas é gente boa. Deve ser até um dos mais corretos por ali. Só é um pouco drástico!

Estou enrolando vocês, não é? É que não queria entregar a surpresa do filme. Mas vou falar apenas o que as próprias sinopses liberaram. É um roubo com intenções “nobres”, digamos. E quando ele começa, muitas pessoas entram em jogo. Interesses de pessoas poderosas valem mais do que a ética ou a lei. Suborno. Chantagem. Ninguém pode confiar ou ser confiado. Vence quem é mais esperto e ousado. Nada que não costumamos ver na nossa realidade.

O personagem de Clive Owen, Dalton Russel, é inteligente e meticuloso. Mesmo passando a maior parte do filme mascarado, o cara deixa você “trancado”. E o mais engraçado é que algumas cenas do filme alfinetam temas que fogem do principal. No final, tudo pode ser encarado como pequenas críticas.

A educação das crianças, a produção de jogos violentos, a má educação de algumas criaturas, o preconceito, a corrupção. Tudo é tocado no filme, mas de forma tão sutil que pode passar despercebido por aqueles desatentos ou com fraco poder de reflexão.

Se um roubo daquele tivesse que ser realizado no Brasil, acho que quem sairia no prejuízo seriam os ladrões. Primeiro, eles não conseguiriam metade da atenção que iriam querer de principio. Iria demorar uns dias, já que a polícia daqui não é das mais eficientes. Segundo, roubar já é rotina. Não está na lista Top de Alarme. Terceiro, haja paciência para escolher alguém a ser “punido”. Aqui é tanta gente que não presta, que tem passados comprometedores, que não bastaria ser apenas um assalto. Teriam que ser vários, uma maratona! Quarto, não poderia ser em qualquer época do ano. Teria que passar longe do Carnaval, da Copa do Mundo, do fim de novela das oito. Não poderia ser no fim-de-semana nem na Segunda-feira, porque até aí ninguém trabalha direito. Coisa complicada, não?

Tem até uma cena engraçada. Quando os policias estão todos ao redor do banco, nervosos e em posição de ataque, a câmera dá uma visão aérea e lá se vê uma pombinha branca atravessando a rua muito tranquilamente. Parecia até que ela estava gozando da cara daqueles caras uniformizados com armas na mão. Somos muito medíocres mesmo. Só não sei se a Dona Pomba foi convidada especial ou deu uma de “Robert”.

Enfim, “O Plano Perfeito” é um filme inteligente, que pode até dar idéias para os espertinhos de plantão. Mas calma, aqui no Brasil, não é tão fácil acontecer algo daquele tipo. Só as coisas normais mesmo: bang-bang e dinheiro.

Crash

Publicado em: 30-03-2006 @ 11:56 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

“Closer” escancarou a realidade dos relacionamentos amorosos. “Crash” escancarou a realidade social do mundo estúpido em que vivemos. E essa é uma ferida que afeta toda e qualquer criatura que sobreviva nessa bomba que chamamos “sociedade”.

Falaram e falaram desse filme. Mais ainda quando ele ganhou o Oscar. Antes tarde do que nunca, fui conferir o tal de “Crash” essa semana. Para o meu completo espanto, pude ver que ele, mais do que merecidamente, fez jus a todos os bons comentários. Com um elenco estupendo, com um roteiro maravilhoso, com uma trilha sonora curta e mais instrumental, muito bem escolhida, “Crash” certamente foi um dos melhores filmes que já tive o prazer ver. Daqueles que fazem você se sentir diferente na volta para casa. E melhor ainda, daqueles que te dão um “pedala” e dizem: que mundo insano é esse, hein?

Raiva. O filme todo é cheio de raiva. Impressionante como o ser humano consegue ser vingativo e violento. Impressionante como vivemos num mundo de bola de neve. Impressionante como a teoria do caos ganha asas com pouquíssimas faíscas. Impressionante como somos hipócritas ao achar linda a harmonia das sete cores do arco-íris enquanto não conseguimos viver em harmonia com a monocromática. Sim. Negros. Brancos. Isso sendo bem generalista e deixando de lado os pardos, mestiços, amarelos e a “paleta” a quatro.

A impressão que tive é que, na verdade, estão todos perdidos. Confusos com tanta informação e com tanta injustiça. A rotina embaça a vista, já disseram. E pode até fazer você ver o que quer ver, ao invés do que realmente é. Não existe mais distinção entre preconceituosos e não-preconceituosos, racistas ou não. Existe quem foi e quem não foi afetado por ele. E todo mundo está vulnerável a isso. Absurdamente.

A dignidade não vale mais nem um piper. O respeito já pediu demissão. O senso crítico virou um covarde. A justiça está de férias nas Bahamas alegando que estava com problemas de saúde – estava daltônica. A humanidade voltou para a selva. Chutaram o pau da barraca e ninguém está nem aí para catar os cacos.

Eu fiquei impressionada como o filme é sensível, sem ser clichê. Ele não amola, nem faz sensacionalismo. Ele só mostra o que acontece no mundo afora. Simples assim. E para quê inventar histórias mirabolantes, revoltantes e malucas se o nosso mundo nos dá tudo isso, de graça e a cada 5 minutos? “Crash” é duro por isso: ele cutuca a ferida. Arregaça as suas pálpebras e mostra o que acontece do lado de fora do seu carro. Não é o moleque do sinal que pede uma ajuda e você vira a cara para não encarar. No cinema não dá para fazer isso. A não ser que você queira jogar fora a pequena fortuna que pagou antes de entrar na sala…

Dizem que o que diferencia o homem do animal é a consciência. Mas eu, sinceramente, acho que não há mérito nenhum em ter consciência e se fazer o que é feito por aí. Pior do que fazer o mal, é ter consciência de que esse mal está sendo feito. Que honra se tem nisso? O homem é um bicho complexo. Constrói templos e campos de concentração. Aprende a medicina e provoca a morte. Acaricia e estapeia. Dualidade caótica, não?

Onde foi que perdemos o nó da meada, hein? E é maravilhoso saber que um filme como “Crash” foi produzido. Mas quem disse que ele vai mudar a realidade? Quem disse que nós vamos cair na real e fazer algo? E não é só questão de saber o que fazer, é ter coragem para tal. Hoje em dia, quem tenta ser correto pode levar uma bala no meio da testa. Falar num tom mais alto pode ser a senha para a violência. Quem se arriscaria?

Todas as cores. Todas as raças. Todas as religiões. Tanta riqueza cultural e tanta desordem social. E nem quem é do mesmo “time” se respeita. Um por ninguém e todos por nenhum. Está aí, na vista de todos. Só abrir a janela. Só não vê quem não quer.

Agora, falei muito da questão do preconceito… Mas o filme não fala apenas disso. Tem muito mais. Ele mostra vidas paralelas que se colidem. Talvez por isso as batidas no início e no final do filme. As nossas vidas são cheias de colisão. Muitas vezes explosivas.

Mas o filme tem esperança também. Esperança de que essa raiva passe. Que essa sensação carente de conforto e compreensão se acalme. Nem todo mundo é mau. A maioria só está cansada. Revoltada. Inerte. Assustada. É como diziam os sociólogos: o homem é produto do meio. Mais do que nada, o homem é um simples homem. Um animal. E por ser isso, é bom e é ruim. Tem seus defeitos e qualidades. E “Crash” mostra isso cruamente.

Não sei mais como definir esse filme. É muito bom. As histórias que vão se desenrolando e se entrelaçando, fazendo você ficar tenso na poltrona… “De cara”. E ele não é tão “americano”. Ele não é óbvio. Em nenhum momento ele é previsível. Palavras são ótimas, mas olhares dizem muito mais. Esse filme tem cenas maravilhosas. Quase emblemáticas! Como a cena em que a menina corre para salvar o pai. Jogue pipoca quem não ficou no mínimo com um nó na garganta durante o filme!

As atuações estão ótimas. Matt Dillon ganhou meu respeito. Até a Sandra Bullock! Sempre achei que eles dois faziam papéis medíocres… A trilha sonora, maravilhosa. Maior parte sendo toda instrumental, apenas para dar o clima e manobrar as emoções. O final com “Maybe Tomorrow” do Stereophonics foi a gota d´água para eu me apaixonar…

Espero que a maioria das pessoas que puderam assistir ao filme tenham uma boa reflexão. Assim como as histórias do filme não mudaram no final ou foram solucionadas, nossa realidade não vai mudar só por que conseguimos enxergá-la na tela do cinema. Confira o filme. E deixe ele fazer um “crash” na sua miopia social.

Match Point!

Publicado em: 21-03-2006 @ 11:55 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Eu passei a olhar para a sorte de um jeito diferente depois de assistir ao último filme do baixinho Allen, “Match Point – Ponto Final”. Esse pequeno grande diretor, mais uma vez, se saiu muito bem no novo filme, mudando um pouco os tons, mas deixando seu jeito se sair nos pequenos detalhes. Se duvidar, vou começar a jogar tênis também!

O cara pegou de jeito! Fez a sorte me pregar uma peça! “Caba” quente! É, tô falando do Woody Aleen. E pior, ainda cutucou minhas feridas! Quero ir para Londres! Quero ouvir o sotaque britânico no meu pé do ouvido! Por que eu já estou sofrendo demais… Semana passada fui tentada pelo Hugh Grant e o Colin Firfh, enquanto menos tinha me recuperado da overdose platônica com o Jude Law e o Clive Owen. Agora, tive que me segurar com o Jonathan Rhys Meyers e seus olhos fuzilantes de azul intenso. Fala sério, vamos maltratar, mas torturar é terrorismo! Ah. Ok. Acabou o desabafo. O filme.

Eu jurava que sabia o final. E pior que mesmo achando que sabia, estava nervosa do mesmo jeito. Woody brincou conosco nesse filme! Lembro que assisti com uma amiga que sofreu bem essa ansiedade nervosa que o filme passa. Aliás, ela sofreu e o meu braço também! A sorte realmente é um bicho estranho. E a comparação que é feita no início do filme é maravilhosa. Os momentos de pequeníssimo espaço de tempo que decidem uma partida, que decidem uma vida. O minuto que você se atrasa e perde o ônibus, escapa de um acidente e pega o próximo e conhece o homem dos seus sonhos. Há! Sorte demais, né? Mas o Chris Wilton, personagem fofo-vilão, estava lambuzado dela. Aparentemente. Eu não sei lá bem se ele foi sortudo, felizardo feliz, com o resultado da sua “sorte”… Mas eu não posso falar senão vou entregar o filme. E como pessoa boa que eu sou, quero forçá-los a assistir!

Como se não bastasse a trama já ser excelente, o Allen ainda investe nas boas óperas para rechear o filme. Escolhidas a dedo! Maravilhosas! Estupendas! Adoro óperas. Tão emocionantes! E eu lembro que de tão mergulhada que estava na história, nem parava para raciocinar: olha, é ópera! O encaixe está perfeito. Você vibra, torce, teme. Acaba que você não sabe exatamente para quem está torcendo. E ainda tem um detalhe: nos momentos de tensão, a música sempre se repete, como um vinil arranhado. Sensacional.

Não posso deixar de falar da Scarlet Johanson. Go, girl! Ela, além de estar linda, mulherão sensual, ainda encarou o papel super bem. Essa garota me fascina, desde “Encontros e Desencontros”, quando fez uma criatura meio garota-nerd-gente-fina. Sem falar de “Moça do Brinco de Pérola”, que ela passa toda emoção e confusão do personagem pelos gestos e olhares, já que ela quase não fala. Palmas para ela.

E quem esperava ver Nova York e viu Londres? Novidade, hein? Os sotaques estavam bem carregados. O estilo londrino também. Mas se você prestar atenção, as cenas de Londres que são mostradas lembram Nova York. As ruas cheias de lojas, os parques ao estilo Central Park… Uma leve relembrança ao seu estilo americano. E por sinal, esse filme não tem nada do cinema americano. O cinema que resolve todas as questões e não deixa problemas, com finais felizes ou previsíveis.

Mas, espera. É complicado falar desse filme. Eu ainda estou digerindo as suas idéias. O que até agora tem me pegado mais é a questão de saber o que é sorte. Sorte é uma força que nos leva s coisas boas? À felicidade? Sorte é tipo aquela mulher sacana que fica brincando de uni-duni-tê lá em cima, escolhendo quem vai se dar bem, quem vai se dar mal? Sorte é uma invenção nossa para explicar acontecimentos maravilhosos? E também para explicar os desgraçados ao cubo… Sim, não esqueçam que existe a presença da sorte e a sua ausência também, viu?

E o filme parece ser uma história de amor. Mas não lá muito romântico da forma convencional. E também não é história de trapaças. É mais complexo do que isso, por que mistura várias coisas, por que se pode tirar várias interpretações e por que apresenta várias tópicos para serem discutidos. É um filme bastante denso.

Como disse uma vizinha minha, será que a sorte e a felicidade andam juntas? Sempre? Até por que no filme dizem “não desejo felicidade, desejo sorte”. Como se uma fosse conseqüência da outra? Parece utopia. Sorte. Felicidade. Até o amor entra no meio. São apenas conceitos abstratos. Subjetivos demais para serem tachados. Cada um escolhe a sua sorte, eu acho. Depende da facilidade de se satisfazer, das ambições. Você pode achar que não tem sorte por que não tem dinheiro. Alguém pode se achar super sortudo por que tem amigos verdadeiros. Varia. Eu me acho super azarada por não ter aquele sotaque britânico só para mim. Mas acho que a sorte olhou para mim quando me apresentou filmes bons, como esse do Woody Allen. Coisa volúvel. Efêmera. Mesmo assim, desejo boa sorte para vocês. Mesmo não sabendo exatamente o que quero dizer com isso!

Essência a la Bridget Jones

Publicado em: 13-03-2006 @ 11:45 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Por que o gênero mulher-desastrada provavelmente-desquitada provoca tanta simpatia? Estava eu assistindo ao hilário “O Diário de Bridget Jones” pelas terceira vez e fiquei me fazendo essa pergunta: será que todas as mulheres tem uma Bridget dentro de si?

Vou começar logo dizendo que a coluna dessa semana está a mais feminina de todas. Desculpem-me, rapazes. Prometo que recompenso vocês na próxima vez. Mas foi uma mera coincidência do destino eu estar, ontem noite, na casa da minha vizinha, reassistindo casualmente “O Diário de Bridget Jones”. Acontece que fiquei me perguntando: por que será que esse filme é tão queridinho? Vou sair elencando pontos que podem ser responsáveis por esse carinho todo.

Tá certo. Tem o Hugh Grant e o Colin Firfh. Me dá uma dor só de olhar aqueles dois britânicos maravilhosos. Ai, só perdem para o Jude Law e o Clive Owen em “Closer”… Enfim, já temos nossa dupla de galãs: o canalha e o correto. Temos uma protagonista hilária e desastrada, talvez a mistura certa para arrecadar empatia do público. Sim, só na primeira cena ela já nos ganha. Bridget, uma garrafa de vodka (e Absolut ainda!) e Celine Dion detonam no dueto de “All By Myself”! Atirem a primeira bolsa aquela que nunca cantou emocionadamente um desses clássicos melosos em situações desbotadas da sua vida! No chuveiro ou na cozinha, no carro ou no elevador… Podem admitir. Rola uma identificação sim, bem básica, mas rola!

Fora isso, logo de começo a Bridget já declara guerra s gordurinhas indesejadas - drama de toda mulher de verdade, fora os cigarros e
abstinência sexual. Vou ignorar as últimas duas opções, mas da primeira, ninguém escapa. Nem a Kate Moss, nem a Gisele Bundchen. Gordurinhas indesejadas estão no topo da lista negra feminina. E nossa heroína desastrada vive bem esse drama. “Eu pensei que você tinha dito que ela era magra”. Ninguém merece ouvir isso, ainda mais no instante em que se descobre que é corna!

E falando em chifre… Que mulher nunca sofreu nos braços de um canalha por excelência? Pior quando é do tipo do personagem do Hugh Grant. Daniel Cleaver: lindo, charmoso, rico e canalha. Para quê melhor? Ou pior? Até o nome do cafajeste já diz: Cleaver. Do inglês “cleaver”, inteligente, sabidinho. Pensa que engana! Mas engana. E a infeliz da personagem de Renée Zellweger caiu que nem uma patinha, e não só ela.

Mas para equilibrar a gangorra, aparece o personagem do Colin Firfh: Mark Darcy. Discreto, mas desconcertante. Inteligente e com futuro promissor. Sem muitas ações, mas com uns olhares fuzilantes. O típico queridinho da mamãe e das mulheres adjacentes também! E melhor, ele ainda gosta dela do jeito que ela é. Matou. Tá amarrado!

Claro que isso tudo não foi desenrolado tão facilmente. Quase que não sai, por sinal. E no durante, é uma mescla de risada com agonia, sorte e azar. Só sei que se você parar para prestar atenção, o público que se envolve com o filme acaba se transformando numa torcida organizada! Justamente pelas possíveis identificações que podem vir a surgir, de
forma bem brincalhona, claro. O filme é uma comédia romântica, mas que traz dramas bem comuns de nós todas, de uma forma bem descontraída. Por isso deve ter tanta empatia. Afinal, eu ainda acho que dentro de cada mulher por aí, existe uma essência a la Bridget Jones. Nem que seja por uma fase, nem que seja o tempo de uma garrafa de vodka!

Vanilla Sky

Publicado em: 07-03-2006 @ 11:42 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Viajando pelo céu de baunilha, pode-se subtender muitas coisas através da máscara de David Aames. Dispensando a ficção científica, para mim, Vanilla Sky é muito mais uma exposição dos efeitos e conseqüências das sensações que qualquer viagem futurística. Sem querer concluir ou responder questões, a coluna dessa semana se trata apenas de rascunhos e pensamentos “vanillianos”…

Doce e amargo. Será que pode? Pode. E como! Como disse Brian Shleby: eu conheço o amargo, o que me favorece a apreciar o doce. Você só valoriza o doce do amor quando prova a sua amargura. Se duvidar, dá para dizer que nós, seres humanos e mortais, somos viciados em relacionamentos. Mesmo sabendo da dor. Da dor desgraçada e quase interminável que sentimos quando o amor se acaba para uma das partes, principalmente quando é “apenas” para uma das partes. Somos viciados no doce? Ou no amargo? Ou no eterno ciclo de temperos da vida?

Transformar a vida num sonho lúcido para reviver um amor falido. Mais ou menos isso que o personagem de Tom Cruise, David Aames, fez em Vanilla Sky. Mas imagine se pudéssemos fazer isso realmente. Viver num mundo onde o céu era pintado por Monet, onde os vinhos eram escolhidos por Modigliani, onde a música era tocada por Jeff Buckley (que inclusive dá uma canja com “Last Goodbye” no filme). Tão perfeito que poderia virar pesadelo. Se não sentissemos mais o amargo, o doce perderia o valor.

Apesar de toda a loucura de Vanilla Sky, eu me apeguei muito ao lance do doce e amargo. Na psicologia do lado emocional humano, tão surpreendente. Impressionante o que as sensações podem fazer conosco. Se acabar num minuto, e no instante seguinte, por um motivo qualquer, emergir. Mais ou menos que nem a personagem Sofia falou: cada minuto que passa é uma chance para virar a mesa.

Abra os olhos. Ou deixe-os bem fechados. Qual a diferença, afinal? Se você não conseguir distinguir sonho de realidade, as duas ações se tornarão sinônimos. Vai ver o que interessa mesmo é viver o que se pode viver, sentindo. Real ou ilusão. Mas sentindo. “A maioria de nós vive a vida toda sem nenhuma aventura de verdade para chamar de própria”. Algo como o que Oscar Wilde disse: a maioria de nós não vive, apenas existe. Sendo assim, aventure-se. Aproveite o dia. Sinta tudo que puder sentir, do doce ao amargo. Até o sem gosto, para depois valorizar o apimentado demais.

Falando assim chega a dar medo. Quem não tem medo de sentir o extremo? Até euforia em excesso pode causar danos. Nem que seja um AVC. O excesso é tão mais perigoso que a falta. Ele pode banalizar, desvalorizar. Para quê ter todas as mulheres do mundo se ainda quem vai pra cama com você é a solidão, David Aames? Ele, que “nunca sentirá a dor de voltar para casa sozinho”, e logo, não valoriza uma boa companhia. Sem sentir nada, além do peso da carteira no bolso da calça de grife…

Estranho ter medo de sentir dor, mas ao mesmo tempo viver sempre tão perto dela. “Depois de cair de uma ponte a 120km/h, eu só deixo a felicidade entrar quando a revisto dos pés a cabeça”. Medo de sentir. Conheço pessoas assim, que são pior que São Tomé. Nem vendo acreditam. Esperam sempre o próximo momento para ver se a felicidade não vai embora. Será que é melhor se afogar no doce, chegando até o vício, e depois sofrer uma crise violenta de abstinência? Ou viver cautelosamente, medindo as doses de sentimento na vida, apelando para o racional?

Até que ponto o racional atrapalha a culinária das emoções? Até que ponto os momentos realmente fazem a diferença? “Eu perdi você quando entrei naquele carro. Sinto muito”. Era destino? No final das contas, isso vai ser uma dúvida filosófica que poderia levar muita gente a loucura. Ou ao não-viver, na agonia de ficar sempre no “e se eu fizesse aquilo ao invés disso?”. Vai ver o fim dessa criatura era viver enrolada em pensamentos. Ninguém nunca vai saber, mas tem sempre alguém que vai se consolar pondo a culpa no destino. Tão mais fácil do que assumir as próprias escolhas.

Enfim, sonhem com céus de baunilha, com momentos doces e amargos. Mas sintam. No final das contas, é isso é a realidade.

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