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Chapeuzinho na versão B

Publicado em: 26-10-2006 @ 12:27 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Apesar de ser nova no mercado das animações, a Blue Yonder Films/Kanbar Entertainment não se saiu mal. Com uma interpretação diferente da história super conhecida da menina de capuz vermelho, a animação me rendeu boas risadas, apesar dos vacilos nos clichês e nas musiquinhas bregas.

Apesar dos traços diferentes e dos personagens não tão desenvoltos como estamos acostumados a ver nos sucessos da Pixar e da Dreamworks, “Deu a Louca Na Chapeuzinho Vermelho” conseguiu tirar boas risadas da minha pessoa. E, diga-se de passagem, da minha vizinha mais ainda!

Desde a primeira vez que vi o trailer, fiquei ansiosa para ver o filme na íntegra. Aquele esquilo hiperativo e aquelas tartarugas tentando correr me mataram de rir. Mas eu costumo rir de muita besteira e tenho um verdadeiro vício em animações, principalmente com bichinhos e com muito humor – melhor ainda se for inteligente, como em “Os Sem-Floresta”.

Então, finalmente assisti ao lado B da história da Menina-Chapéu e, apesar do estranhamento com a forma de desenho diferente, gostei bastante. Sim, adoro ver versões das coisas. Tanto de músicas como de filmes. E quando parte para a comédia, melhor ainda. A história da Chapeuzinho original é um porre. Sou mais a da Branca de Neve – aqueles anões são sensacionais! Então, fazer uma versão daquela historinha foi uma tirada super bacana. E já que é uma versão nova, que seja a versão inesperada de cada um dos personagens principais.

O Lobo. Não, ele não é tão mal assim. E nem queria comer a Chapeuzinho. Nem no sentido literal, nem no sentido dos tarados de plantão! Na verdade verdadeira, ele era um jornalista! Genial! Será que o diretor tem raiva de jornalista? Quis comparar a raça a lobos? Bem, eu, como publicitária, sou suspeita a fazer piadinhas. Até porque gosto mesmo é de Comunicação, logo, me apetece muito certas áreas do jornalismo. Enfim, o Lobo era um jornalista famoso por seus furos de reportagem e estava buscando informações para sua coluna sobre o “ladrão das receitas de doces”. A Chapeuzinho apenas estava no meio da enrolada, ora. Agora, melhor do que ele ser um jornalista, é a frase que ele solta durante um momento difícil: Devia ter sido mesmo era crítico de cinema! Olha só! Estou no caminho certo!

Ligerinho. Um lobo jornalista precisa de uma equipe, certo? Então, aqui está o fotógrafo. Um esquilo extremamente hiperativo, obviamente chamado de Ligeirinho. Sim, o nome não foi lá muito original, mas o esquilo é dos bons. Hilário! Deve ser um primo não tão famoso do Hammy. Identifiquei-me demais com o pequeno peludo. Primeiro, ele é hiperativo, nervoso, fala rápido e quase ninguém o entende. Segundo: ele é fotógrafo! E ainda fala o nome das lentes e das câmeras! Muito bom.

Chapeuzinho. Ah, ela só é uma menina que sabe lutar bem. Não me provocou muita empatia não. Tem a voz da Anne Hathaway, que já não é uma das minhas preferidas (essa aí só começou a ter moral comigo depois da partipação em “O Diabo Veste Prada”, então…), fora que os dotes dela não são nem de longe engraçados. Acho que faria muito mais sucesso se ela fosse uma patricinha reclamona da vida na floresta, desengonçada ou com algum tique nervoso engraçado… Sei lá.

A Vovó. Essa daí também não fez muito meu gênero. Gostei do inverso extremo de ser uma vovó radical e tal. Mas não morri de rir. Tem, sim, umas encaixadas legais. Por exemplo, quando ela está no telefone com a Chapéu e parece que está com agulhas de tricô na mão, enquanto, na verdade, são dois esquis.

O Lenhador. Pronto. Esse daqui eu gostei também. O ator mongol que quer passar num comercial de desodorante ou sei lá o que é. As partes dele tentando aprender a cortar madeira são divertidas. E as referências a ele dentro do filme também são bem engraçadas.

Resumindo. Entre os quatro personagens, o Lobo e o Ligeirinho são os mais queridos. O Lenhador vem na rabada e a Vovó e a Chapeuzinho, bem, vamos deixá-las de lado.

Mas isso não é tudo. Acho que os personagens que nasceram especialmente para essa versão B são os mais legais da história. O porquinho policial, a cegonha assistente, o sapo inspetor… Todos têm tiradas engraçadas. Agora, não posso ficar sem falar do mais perturbado de todos: o Bode!

O Bode. Só com aqueles chifres o cara já ganha! É chifre para tudo! Os cornos devem ter ficado felizes descobrindo tanta utilidades para seus chifres, ou com inveja, diante do aparato do Bode. Mas ele vai além da estética! Ele canta! Aliás, ele “só” canta, por causa do tal feitiço da bruxa. Mesmo nos momentos mais inconvenientes, lá está o Bode tiroleando coisas. É para chorar de rir.

Voltando ao desenrolar do filme, pensei que eles fossem fazer referências a outros filmes, como fizeram com o sapo Pirueta no flashback explicando o porquê desse apelido com trechos do John Travolta em “Os Embalos de Sábado a Noite”. Mas me enganei. Depois disso, só a Vovó imitando o Tom Cruise em Missão Impossível, e a Chapeuzinho sendo amarrada e carregada como o Hannibal Lecter em “O Silêncio dos Inocentes”.

Basicamente, o filme é um passatempo despretensioso e com sacadas legais. Faltou um pouco mais de envolvimento na trama. Tiveram longos momentos sem piadas, o que esfria o público, além dos musicais bregas que só divertem as crianças e do drama dispensável e barato da Chapéu com a Vó.

Mas, para ter sido o primeiro, já está de bom tamanho. Querer algo altura dos grandes nome do 3D já é pedir demais.

Mestre Griffith

Publicado em: 16-10-2006 @ 12:26 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Provavelmente, poucos ouviram falar dele. Pelo menos, todos aqueles que não são realmente aficionados por cinema. Mas todos já viram traços do seu trabalho, do seu estilo. Aliás, ele deve ser o favorito de muitos, por tabela.

D.W. Griffith. É desse cara aí mesmo que estou falando. O pai do “cinemão” americano. Sim, o cinema hollywoodiano. Ele quem criou esse “modelo” de filmes que tanta gente adora ver. Ele quem ousou e delineou a linguagem cinematográfica na sua época. Ele quem primeiro trabalhou como um verdadeiro “diretor”.

Em 1915, Griffith lançou o filme “O Nascimento de uma Nação”. Um drama que tem uma história com fortes expressões racistas, ditas até indignas por alguns críticos de cinema. Entretanto, independente das recriminações em torno do conteúdo ou dos questionamentos sobre os valores colocados pelo filme, não se pode desmerecer o longa-metragem simplesmente pela importância e pelo marco na história do Cinema com o qual ele passou a ser lembrado.

O filme é preto e branco, obviamente, mas tem uma textura de sépia. Ele começa apresentando os personagens. Vale a pena perceber como ele realmente introduz cada elemento, dando informações a fim de situar o espectador na história que logo virá a se desenrolar, além de apresentar o ambiente. Esse detalhe de apresentar tanto os personagens quanto o ambiente ainda é um traço forte no cinema americano. Vendo “Dália Negra” foi que me lembrei mesmo como isso ainda existe, mais forte em certas décadas, mais sutil noutras.

A história de “Nascimento”, por sinal, é contada de uma forma envolvente e com uma perspectiva interessante, levando em consideração a época na qual o filme foi feito. Gostei bastante do fato de Griffith ter retratado as conseqüências da Guerra Civil através da relação entre duas famílias, uma do Norte e outra do Sul, fazendo conexões com determinados acontecimentos históricos, como a Guerra da Secessão, o assassinato de Lincoln e o nascimento do Ku Klux Klan. Ele poderia simplesmente ter retratado os acontecimentos históricos ou produzido uma ficção sobre duas famílias que se desentenderiam por motivos quaisquer. Entretanto, ele mesclou as duas idéias em um encaixe eficaz, levando o espectador a se envolver com a trama a partir da já citada introdução de personagens e dramas fictícios em um contexto histórico. Deve-se lembrar que tem diretor dos dias de hoje que não consegue fazer isso…

Pensando bem, o primeiro detalhe do filme que me chamou a atenção não foi a história, mas o tempo de duração do filme: 165 minutos. Em uma época na qual as pessoas eram acostumadas a ver apenas curtas-metragens, certamente esse tempo de produção foi uma audácia. Foi o primeiro filme a ultrapassar 100 minutos de duração, exigindo bem mais do espectador, principalmente levando em conta que o filme não tinha diálogos, apenas os textos escritos intercalados entre um momento e outro. Por sinal, nota-se aqui uma influência da literatura. E essa questão do tempo, nem a evolução do cinema deu jeito. De fato, hoje as pessoas tem mais paciência e sabem que vão a um filme para demorar no mínimo 40min, Mas mesmo assim, ainda vemos aqueles que “capotam” no meio da história, saem da sala entediados… Eu mesma admito que já me inquietei muito em filmes longos demais. “Alexandre”, “Ray”, “O Aviador”… Todos eles tiveram meus 5 minutos de “e-isso-não-acaba-não!”. É aí que digo que o cinema do futuro pertencerá aos curtas-metragens, já que cada vez mais, o tempo se torna um artigo raro.

Pois bem. Além do enredo de Griffith, me chamou a atenção o comportamento da câmera. Até então, a câmera era predominantemente estática, tendo a única e mera função de registrar o que estava sendo encenado. Algo extremamente semelhante a um espetáculo de teatro. Em “O Nascimento de uma Nação”, já se percebe uma câmera mais flexível e arrojada, direcionada a obter determinadas impressões, tornando-se um recurso de linguagem mesmo que timidamente. Mudanças de pontos de vista, close-ups, alternação entre planos, enquadramentos, profundidade de campo. Diversos recursos começam a definir a narrativa, recursos esses que, aplicados por Griffith, revolucionaram a maneira de se fazer filmes, estabelecendo inovações que são utilizadas nos dias de hoje. Em relação câmera, um dos momentos que lembro que me surpreendeu foi quando uma das personagens anda em direção câmera, criando a idéia de espaço além do plano, tornando aquilo um recorte de um mundo expandido além dos limites do enquadramento.

Percebe-se muito a utilização de planos gerais ou planos de conjunto, além da aplicação dos cortes mostrando ações paralelas com o cuidado de manter a noção de continuidade – e conseguindo. Fica bem clara a utilização da decupagem clássica, refletida diretamente no modo da narrativa, que justamente por apresentar uma história mais complexa e detalhada, exigia a representação simultânea de dois espaços, principalmente quando havia perseguições. “O Nascimento de uma Nação” apresenta a trama linear, com roteiro e marcação de cenas. Griffith realmente delineou o papel de diretor.

As cenas de batalha filmadas de longe ou com a câmera posicionada de forma mais incisiva gera a sensação de espetáculo, semelhante a sensação que os filmes comerciais de hoje passam. Interessante a utilização de bombas de fumaça e de filtros para provocar mais realismo ao público, e a orquestração durante as batalhas são memoráveis. O conjunto que trabalha para captar o envolvimento do espectador.

As próprias interpretações estão mais exigentes, a câmera trabalha junto com os atores para melhor expressar as emoções e acontecimentos. As imagens passaram a expor com mais detalhes as expressões faciais dos atores, possibilitando uma encenação mais contida, diferenciando-se do teatro.

Há ainda a presença de fades entre o texto e a seqüência seguinte, assim como também entre os cortes de duas seqüências, mostrando elipses temporais.

É inegável a sua influência na estrutura narrativa do cinema hoje. Os personagens, a criação do conflito, o clímax, a solução. A demora em determinadas cenas, ora para aumentar o suspense, ora para romantizar o momento. Griffith não criou os recursos, mas soube usá-los como ninguém havia feito até então, virando um mito do cinema mundial.

World Trade Center

Publicado em: 13-10-2006 @ 12:24 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Depois de todo o sensacionalismo da época, cinco anos depois resolvem fazer um filme abordando o acidente do World Trade Center. O famoso 11/9. Com Oliver Stone na direção, a minha expectativa ficou confusa. Na verdade, a única coisa que soube dizer ao certo após sair da sessão foi: me livraram do sensacionalismo ridículo.

Política é um daqueles três assuntos que não é aconselhável discutir, certo? E religião também, não é? Imagine, então, um evento que junta esses dois assuntos e ainda mexe com a (in)sensibilidade humana. Mistura inflamável, certo? Aliás, literalmente inflamável, tendo visto a guerra no Iraque depois…

Mas não vou me ater s homéricas discussões do 11/9. Aquilo ali, para mim, foi apenas mais uma desgraça no livro da história humana, e não foi nem de longe a maior. Apenas foi nos EUA, país prepotente o bastante para se achar o centro do mundo, intocável, que tem uma grande máquina de comunicação a seu favor. Por algum caso, as mortes desumanas na África foram citadas de forma tão intensa? Sim, aquelas pessoas que morrem de fome ou são assassinadas em bandos todos “santo” dia. Ou as mini-guerras que o Bush tanto almejava? Não, não. Então, não vamos ser injustos, certo?

Existem sim filmes que retratam os absurdos que acontecem em outros países. “O Jardineiro Fiel”, “Amor Sem Fronteiras”, “Senhor das Armas” – e não vou citar os filmes brasileiros porque acredito que eles são bem melhores nesse ponto do que os americanos. A impressão que eu tenho é que todos tem o tom de ficção maior que o tom de realidade. É como se aquilo fosse distante da nossa realidade e não tivesse efeito algum, talvez por não ter sido televisionado e dissecado pela imprensa. Sim, o acidente das torres gêmeas foi transmitido quase que ao vivo, e isso influiu em muita coisa. Mas não vamos tornar maior do que é. Vamos cair na real, certo?

Pois bem. Aí chega Oliver Stone, com a fama de controverso, e resolve fazer um filme sobre essa mistureba toda. Baseado nas porcarias que eu vi logo após o acidente, exceto o documentário do Michael Moore, eu fiquei extremamente decepcionada: lá vem! Felizmente, tive um resultado bem melhor quando saí da sala de exibição.

Não achei o filme sensacionalista. Acho que ele foi humano. Tratou de forma até normal, levando em conta as pessoas que foram afetadas no dia do desabamento. Não houve esclarecimento sobre o porquê nem sobre quem. Bin Laden nem foi citado, nem ninguém do Oriente Médio. A suposta febre terrorista foi controlada. E o petróleo não apareceu nem em forma de gasolina. A única coisa que interessou mesmo foi a dupla de policiais que ficaram soterrados e as suas respectivas famílias. Por sinal, sou suspeita a falar, mas adorei o Nicolas Cage no papel, principalmente com aquele bigode! E acredito que os dois policiais e as famílias são espelhos de outros.

Agora, alguns detalhes me chamaram a atenção.
Início. O começo do filme, sincronizando o acordar dos dois policiais e o relógio em cima da cômoda, fazendo um tic-tac insistente lembrando o som de uma bomba prestes a explodir. A idéia de duas vidas aparentemente diferentes que se tornariam tão próximas por uma desgraça que estava prestes a acontecer.

Questão Étnica. A seqüência de cortes que mostra o sobrenome de cada policial que seria voluntário para entrar na Torre 1, e conseqüentemente, ser soterrado. A maioria dos nomes, salvando o do Sargento John McLoughlin (Nicolas Cage), tem origem estrangeira: são latinos ou descendente de europeus. A primeira coisa que me passou na cabeça foi: e nem foram os norte-americanos que se lascaram, olha só. Uma viagem completa, talvez. Mas não tem aquela velha história da colonização: os menos favorecidos vão para a linha de frente de ataque ou para os serviços mais pesados. Sendo os EUA o país de primeiro mundo, o resto da América vira o quintal.

Jimeno e a filha. Michael Peña interpreta o personagem de Will Jimeno, o policial que faz companhia a John McLoughlin (Cage) nos escombros. Mas, a parte que me chamou atenção é que, assim como em “Crash – No Limite da Razão”, ele fez aquela cena que ficou na mente de todos que assistiram ao filme: o abraço emocionante com a filha nos braços. Flashback total para a cena de “Crash”, quando a filha tenta protegê-lo da bala com a capa mágica! Será que no próximo vai ter também? O cara gosta mesmo de crianças…

O Choro. A mulher do John, a Donna McLoughlin, ao contrário da mulher do Jimeno, não conseguia pôr pra fora o desespero. Ou vai ver, nem sempre todo mundo tem que chorar na hora da agonia, certo? Mas ela, ou por ter esperanças ou por não querer acreditar, ou quem sabe um pouco dos dois, não caiu no desespero e na fase ‘ai-meu-deus-fiquei-viuva’. Achei muito bacana ela ter conseguido fazer isso no final - deveria estar matando a mulher! e principalmente por ela ter feito isso na ala do hospital (um lugar até democrático) e nos braços de uma mulher que teve o filho desaparecido nos escombros. Mas não era uma mulher qualquer: ela era negra e seu filho era o ascensorista. Não era um alto executivo nem um norte-americano típico. Certeza aquela mulher e aquela história representam várias pessoas que foram afetadas naquele dia. O desabafo das duas abraçadas foi uma cena que me marcou durante o filme.

Patriotismo. Acho que além do patriostismo em alguns momentos, a vontade de ajudar e a preocupação com os feridos foi o que houve de mais humano e mais legítimo no filme. Mas falar sobre o WTC e não citar absolutamente nada sobre o patriotismo fanático que os EUA tem, seria meio absurdo. Então, assim como os outros personagens representam um grupo de pessoas, houve um outro personagem que representou essa massa fanática. O sargente Karnes. A cena dele no celular dizendo que “precisa pegar os responsáveis por isso” e que “deve haver contra-ataque” devem ser notadas. Muito bem colocado. E sem ofender ninguém nem ser exagerado. Apenas, apareceu.

Gravidez. Fiquei me questionando se o fato das duas esposas estarem grávidas era uma dose dupla de clichê ou uma mensagem subliminar de esperança, de futuro.

Clichês. Não digo que houve clichês descarados. Mas rola aquela sensação de “filme americano”. Mas vai ver foi sensibilidade demais. As conversas dos dois sobre a família, as sempre eternas frases de “diga para a Fulana que eu a amo”. A corrente humana que luta para salvá-los. Sim, isso aí todo mundo já viu. Mas emociona. E é verdade. Durante o filme, a primeira coisa que pensei foi: se isso fosse no Brasil, morri mais gente pela falta de recursos do que pelo acidente em si. Exagero, ta. Mas tem lá sua verdade, ora. Se o acidente fosse na hora do jogo ou do show dos Rebeldes/Tati Quebra-Barraco e o escambau, a atenção ia ser disputada!

Prada

Publicado em: 02-10-2006 @ 12:22 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Eu me acostumei a não criar grandes expectativas em relação a nenhum filme pelo simples fato de que a expectativa é diretamente proporcional satisfação e igualmente proporcional frustração. Felizmente, abri uma exceção para esse filme, e não me arrependi de forma alguma.

Pensando bem, acho que só me permiti ficar mais animada com o filme na semana que antecedeu o meu primeiro “encontro” com ele. Li várias matérias e fiquei imaginando como seria. No final das contas, nem lembro como imaginei. Só sei que adorei o filme e saí soltando foguinhos, super contente e satisfeita com o que vi.

Adianto logo que eu sei que o filme tem uma história pobre de tão óbvia, mas não são apenas os filmes “cabeça” que fazem a minha cabeça. Como já falei anteriormente, o que me interessa é a reação que o filme provoca em mim, mesmo que isso seja algo extremamente subjetivo e relativo. Mas é verdade, eu adorei o diabo no mundo da moda.

A começar pelo título: “O Diabo Veste Prada”. Eu sei que isso soa estranho e terrível para muita gente, mas eu simpatizo demais com o personagem do Diabo. E dispensem as ladainhas religiosas. O Mister D. faz o maior sucesso, já tendo estrelado grandes filmes e ganhado músicas geniais. Aí vem a parte mais óbvia: Prada. Definitivamente, bom gosto não está em discussão aqui. O título já exala a estética da produção.

Depois vem o elenco. Anne Hathaway. Ok, aquele “O Diário de um Princesa” nem de longe me desperta interesse, e eu criei um pouco de preconceito com a moça. Mas lembrando do seu papel em “O Segredo de Brokeback Mountain” como uma texana legítima, pensei duas vezes antes de prever algo. Quem sabe ela estivesse começando a escolher melhor os papéis e mostrando talento, que nem o Josh Harnett anda fazendo… Stanley Tucci. Esse eu sempre gostei. Seus personagens sempre foram convincentes. Prova da versatilidade e competência dele é o filme “Xeque-Mate”, que estreou recentemente aqui no Brasil, no qual ele faz o papel de um detetive, completamente diferente do profundo conhecedor de moda em “Diabo”. Agora você pára tudo e muda para outro parágrafo porque chega a hora da pérola do filme.

Meryl Streep. Magnífica. Não teria outra pessoa para fazer melhor esse papel do que ela. Ninguém com tanta moral, tanto charme, tanto talento. Para não dizer que eu não imaginei ninguém mesmo, eu pensei na Glenn Close, mas ela ficaria realmente beirando para o lado do Diabo mesmo… Enfim, Miranda Pristley está uma megera de causar medo e admiração encarnada pela premiada Meryl. Apesar de eu ter ouvido chiliques fenomenais escarrando a grande diva das telonas, isso prova apenas o quanto ela é boa. Afinal de contas, quanto mais importante a pessoa, maior o efeito nas pessoas.

Dito e feito. O filme começa bem. A trilha sonora está sensacional, empolgante desde o início ao som de KT Tunstall. Ainda teve uma canja do U2 – que eu particularmente gosto bastante, e óbvio, Madonna deixou sua marca. “Material Girl” e “Vogue” apareceram em momentos super oportunos, causando empolgação nos fãs e simpatizantes. Aliás, essa foi uma diferença divertida que percebi. Vou logo admitindo que assisti ao filme duas vezes. E já quero o DVD. A primeira vez, assisti com poucas pessoas, toda contida – na medida do possível. A segunda foi na esperada estréia nos cinemas daqui. A sala estava lotada e o ar-condicionado nem de longe conseguiu esfriar os ânimos dos pagantes. E a segunda vez foi muito melhor. Os comentários e os cantarolados pagaram o ingresso! “Ai meu Deus, Madonna!”, “Voogue! Adora essa música”. “Meu Deus, olha essa bolsa!” E o mais engraçado é que basta um acorde para despertar essa identificação toda. Mas se bem que eu ouvi coisas estranhas, do tipo: “Quem é esse daí?”, quando Valentino estava cumprimentando a poderosa “Mulher Dragão”.

Outra coisa que causou suspiros preocupantes foi o figurino. Bastava a sombra de um scarpin ou o relance de uma bolsa para algumas criaturas quererem pular na tela e levar para casa. Ali, todo mundo tinha o gosto pela moda. De diversas formas. Das saudáveis s obsessivas. Vi gente vestida como se fosse provar que era digna de assistir quele filme. Credo.

Mas enfim, voltando para o filme de fato. Ele é lindo. As roupas estão sensacionais. As músicas estão empolgantes… Quem gosta disso, vai amá-lo. E as interpretações estão super maravilhosas. Até a Emily Blunt, que faz o papel da primeira-assistente Emily e que eu não conhecia, está bem no papel. Fiquei surpresa. Nem o fato de história ser super clichê – salvando uns três momentos do filme, me deixou desanimada.

Agora, saindo do óbvio. O filme tem muitos pontos que me agradam. E que me causaram uma identificação tremenda. Um deles foi o dilema da jovem Andrea. Bem, um coisa que não posso deixar de falar: graças Miranda ela amadureceu e deixou de se chamar Andy e passou a usar o nome mesmo. Andrea é tão bonito. E Andy é tão babaca… Mas sim, o dilema da Andrea. Atire a primeira pedra quem não conhece um “workaholic”. Ou alguém que tenha um celular tão gasguito quanto aquele, ou uma vida tão corrida quanto aquela. Para uns, aquilo é uma inferno. Para outros, um inferno bom de se ter, tão bom que o céu só pareceria convidativo se fosse um lounge com “open” bar. Essa variação de ponto de vista é sempre polêmica. E depende da personalidade e do limite de cada um saber que tipo de “workaholic” ser, ou melhor: que tipo de “workaholic” não ser. Mas o que vale é que aquela situação acontece com várias pessoas. Aquelas discussões entre os casais por motivos profissionais já virou pauta das DRs, e isso sim é um sinal da vida moderna. E eu tenho que desabafar: aquele namoradinho me deu nos nervos em alguns momentos…

Outro ponto que achei positivo foi o fato de não se exibir modelos, exceto a participação especial da Gisele Bündchen, que nem estava como top model. De qualquer forma, o filme não explora as modelos, nem a anorexia, nem o consumismo. Esse lado da moda já foi super explorado, e continua sendo. E deve continuar sendo. Mas “O Diabo Veste Prada” explora mais as relações, de trabalho e pessoais. Moda é uma área de trabalho, afinal de contas, e não uma brincadeira de escolher as roupas da estação. Pode parecer tolo e inútil para muitos, mas é uma área extremamente valorizada e rica no mundo atual. Não se trata apenas de estilistas, pessoas chiliquentas e cheias de fru-frus. Esse estereótipo só cola nos ignorantes. Trata-se de uma indústria, com pessoas competentes e empresários engajados.

“O Diabo Veste Prada” é um colírio para os olhos de quem gosta de moda, um divertimento despretensioso com ótimas atuações.

Filmes Cults - O Retorno

Publicado em: 19-09-2006 @ 12:19 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Sim, sim, sim. Eu já falei sobre esse assunto! Mas é que li algo sobre isso essa semana e quis puxar essa pasta mais uma vez. Até porque, agora meu foco não é as pessoas “cults” ou “pseudo-cults”, mas sim os próprios filmes! Sim, sim, sim: as películas vão para o banco dos réus!

Estava eu, distraidamente, passeando por uma livraria, encantada por todos aqueles livros caríssimos que eu adoraria poder levar para casa, quando avistei lá na estante das revistas algo do tipo “30 filmes cults do cinema”. Meu primeiro pensamento foi: se é filme, é quase óbvio que seja do cinema, né Chiquinho? Depois seguiu para algo do tipo: e por que mesmo que vocês não publicaram isso quando eu tive a idéia da coluna, hein? Ora, bolas… Lá fui eu buscar a revista para ver do que se tratava.

Foi quando achei uma matéria sobre os 30 maiores filmes cults do cinema. Rá! Voei para as páginas “cults” e percebi que não tinha muito – bem dizer, nada – a ver com o tipo de conteúdo que eu tinha colocado naquelas minhas duas colunas sobre “Filmes dos Pseudo-Cults”. Sim, porque eu tinha falado sobre as produções que eu achava que tinham essa fama de ser “filme de gente inteligente e etc tal”. E a revista nas minhas mãos estava falando sobre os próprios filmes, e diferencialmente, não estava se referindo aos supostos filmes “inteligentes”. O ponto divisor ali era diferente do qual eu havia colocado. E foi aí que eu gostei mesmo. Claro, é sempre muito bom ter visões diferentes.

Aí lá fui eu ler. E entendi que eles estavam listando filmes que marcaram o cinema. E quando digo marcaram, nem sempre foi porque o filme foi “inesquecível”. Aliás, pode até ser, mas nem sempre foi por seu talento na técnica ou por sua excelência no enredo. Exemplo? “Pink Flamingos” (1972). Uma história que fala sobre um travesti que deseja reaver o título de pessoa mais “podreira” do mundo deixaria até os carinhas do Jackass e os irmãos Farrelly enjoados. E é disso que se trata o filme de John Waters, filmado em dois dias e com baixíssimo orçamento. Imagina aí… Esse seria um DVD que eu daria de Amigo da Onça.

Mas nem só de horrores a lista foi feita. E nem só de produções “que até o Diabo duvida”. “O Massacre da Serra Elétrica” (1974) está no páreo, filme no qual Tobe Hooper diz adeus sutileza com o seu orçamento de 300 mil dólares. Por que dizem que é cult? Ora, você nem deve ter assistido a essa versão de 1974, mas já viu ou pelo menos ouviu muito falar dos remakes, dos fãs e da lenda do Leatherface. Ai vem “Faster, Pussycat! Kill! Kill!” (1966), que nem de longe lembra o “Kill Bill”, falando sobre uma stripper karateca. Isso já basta para causar risos, né? E cinematograficamente falando, Russ Meyer escancarou o erótico e a violência, influenciando uma pessoa aculá que vocês já devem ter imaginado: Quentin Tarantino. Precisa ainda falar o porquê de ser cult?

Aí aparecem algumas figurinhas carimbadas: “O Estranho Mundo de Jack” (1993), no qual Henry Selick resgatou a animação em stop-motion, “Como Enlouquecer Seu Chefe” (1999), a suposta mancada de Mike Judge que virou sucesso quando passou para DVD e que conta com a atuação de Jennifer Aniston como garçonete! Aparece também “A Bruxa de Blair” (1999), a pegadinha que Daniel Myrick e Eduardo Sanchéz pregaram em todo mundo, alegando ser um vídeo verídico.

Eis que surge uma pérola que me emocionou só de ler: “Cães de Aluguel” (1992). Primeiro filme do querido Tarantino, que tarantaniou muita gente com os “moços coloridos” e a cena dos seis ladrões andando em direção câmera. Como se não bastasse, o já falado e idolatrado – tanto que ensaia perder a graça, “Laranja Mecânica” (1971), mas que nunca deixa o posto de polêmico. Kubrick se tornou subversivo, levando em conta o momento e todo o efeito que o filme provocou, desde estudos aprofundados a fãs aprendendo o dialeto dos druguis. “Matrix” (1999) chega para dar uma passada também, e nem eu nem o Neo precisamos explicar o porquê. E “Donnie Darko” (2001) também não passa despercebido. Por sinal, ele foi muito bem lembrado por minha colega Yumi nas listas anteriores… E ele além de cult é louco. Richard Kelly deve ter sofrido para criar um coelho gigante que prevê o apocalipse e sai praticando o vandalismo por aí.

E de repente, não mais que de repente, me aparece o fantástico “Clube da Luta” (1999). Nossa, eu fico sem palavras. Como se não bastasse ter o Brad Pitt e o Edward Norton, dois atores que eu adoro, a história ainda é algo assim, bom demais. Quem não viu, tem que ver. E quem já viu, custa nada ver de novo – é, quase aquele “vale a pena ver de novo” da Globo, só que esse vale a pena mesmo!

E esses foram alguns filmes da lista que chamaram a minha atenção. E acho que a intenção da lista foi válida. É sempre bom lembrar dos filmes que marcaram época ou qualquer coisa. Seja por ser muito bom, seja por ser muito ruim. Aliás, devemos louvar a coragem dos que lançam lixos na telona… Serve como exemplo, ora. E se não tivéssemos algo tão ruim assim, não poderíamos comparar e enxergar outra coisa tão boa! Só não exagerem na dosagem…

A Vida Se Mistura Com o Cinema

Publicado em: 05-09-2006 @ 12:18 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Eu sempre me pego imaginando como seria a nossa vida mortal se ela fosse passada nas telonas. Mas, por algum acaso do destino – ou da película mesmo, nos últimos dias, me peguei pensando o contrário: como seriam certas situações do cinema se estas fossem colocadas na vida real?

Vamos logo ser práticos: tudo o que se vê no cinema, provavelmente saiu dos trilhos da vida real. Até mesmo o Darth Vader e o Gandalf. É sim, ou o diretor de cada um desses filmes não era humano, com uma criatividade extremamente fértil e alguns parafusos a menos? Quem disse que o Darth Vader não poderia ser aquele chefe megalomaníaco que invade o escritório para manipular e acabar com todos os estagiários que sonham em ser modelo da empresa? E quem disse que a Mary Poppins e a Noviça Rebelde não são o grito de desabafo de uma babysitter, de uma faxineira, de uma “Marinete” estrangeira?

Certamente, todos os personagens que marcaram nossa ida ao cinema devem ter marcado, antes, a vida do diretor ou do roteirista, a ponto de eles buscarem inspiração nisso e colocar no filme. Imagina aí. Se você pudesse transformar em filme algumas cenas da sua vida, que cenas pegaria? Aquela briga fenomenal com o namorado(a), tanto aquela em que você dá uma de megera indomada e acaba com ele, quanto aquela que ele joga você no chão, chama de lagartixa e bate a porta – algo no estilo de “Sr. e Sra. Smith”. Ou aquela reconciliação super romântica, tão “i will always love you”, que o câmeraman teria ficado diabético? Ou aquele pé na bunda digno de uma garrafa de vodka e alguns dvds ao estilo flashback para sofrer ao som de “more than words to show you fell”, parecida com “Bridget Jones”?

O cinema se mistura com a vida e a vida se mistura com o cinema. É por isso que nos identificamos tanto com certos filmes. Por isso nos emocionamos tanto. E odiamos tanto também… Quem não sentiu uma ponta do chifre nascendo ao final de “Closer”? Com aquela voz do Damien Rice dizendo que não poderia tirar os olhos de você? Aposto que teve um grupo de “acompanhantes” que olhou o parceiro de rabo de olho e pensou: será? E aposto mais ainda que teve outra “banda” que olhou e pensou: será que ele(a) desconfia? Claro que teve. “Closer” é um dos filmes que fala da vida nua e crua. E pior, de um assunto super popular na relações: síndrome da infidelidade justificada. “Bridget Jones” é outro. Duvido que a maioria das mulheres não tenha se identificado com a simpática Miss Jones em algumas situações. Tá bom que provavelmente, se a Bridget fosse passar para a vida real, ela não teria aquela sorte toda de arranjar um canalha lindo como o Daniel Cleaver, muito menos um partidão charmoso como o Mark Darcy. Poderia chegar perto, mas ia demorar, hein? Se alguém achar por aí, me avisem!

E imagina ai se a vida fosse um musical. Hilário! Essa foi a primeira palavra que me ocorreu. Como brincou um professor da faculdade, o famigerado Bittencourt, até os ônibus entrariam na história. “Trocador, quero o meu trocô!”. E os passageiros, todos sincronizados e empolgados, “Dê o troco, Dê o trocô!”. Olha só… cada uma teria uma trilha sonora. E você poderia até antecipar o que iria acontecer com você dependendo da música que começasse a tocar. Por exemplo, se viesse a vinheta do Plantão da Globo ou de “Psicose”, era melhor você sair correndo. Como já diria uma amiga minha, “o rabo era um rei”! Mas se viesse uma musiquinha estilo “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, você poderia partira para o abraço. Ou se começasse a tocar um “I Fell Good”, era hora de curtir a vida adoidado. Seria bem legal, né? Mas por enquanto, e pelo menos por aqui, a única trilha sonora que aparece inevitavelmente na minha rotina é o forró da minha vizinha, que passa a ser combatido ferozmente pelo meu “bom-gosto player”.

Olha só, “O Show de Truman”. Vai ver o diretor tinha síndrome de perseguição e teve um ataque de ansiedade no meio de um supermercado, agoniado com todas aquelas câmeras. Aí ele escuta a voz do gerente avisando “Atenção, cliente problemático no portão B” e no subconsciente dele, e na loucura também, ele imagina a vida dele vigiada por câmeras e guiadas por uma voz do além.

Ah, são tantas cenas que podem ter inspirado filmes e tantos filmes que podem coincidir com cenas do nosso cotidiano. É divertido procurar essas coincidências e semelhanças. Quem sabe você não tenha alguns takes de fama, achando-se em algumas situações do cinema…

Saga dos Pseudos-Cults

Publicado em: 22-08-2006 @ 12:16 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Continuando o que eu falei na semana passada, a coluna dessa semana trás a Parte II daquela hipotética lista dos filmes dos “Pseudo-Cults”. Como na coluna passada eu já havia dissertado sobre o tema, agora eu vou apenas repassar mais uma parte da listinha.

Ao contrário do que eu tinha dito semana passada, eu achei uma denominação para “cult” no dicionário, mais especificamente, no dicionário Koogan-Houaiss. Quem quiser se aventurar procurando, aí está. Mas a de “pseudo-cult” ainda não foi adicionada… De qualquer forma, quem quiser se informar mais, procura o verbete “cult” + “pseudo” + “moda” + “tendência” + “volúvel” + “vazio” + “encenação” que você deve achar algo parecido…

Os Sonhadores (2003). Talvez por ser uma metalinguagem do cinema, por ter por si só um clima meio intelectual, aquele ar de estudante rebelde, ousado e prepotente, “Os Sonhadores” se encaixa perfeitamente nos anseios “pseudo-cultistas”. Assim como Giuseppe Tornatore em “Cinema Paradiso”, Bernardo Bertolucci investiu na metalinguagem, mas de uma forma completamente diferente. Enquanto “Cinema Paradiso” é mais emocional, sensível em todos os aspectos, bem mais puro e humano até, “Os Sonhadores” é uma história mais específica, sensual e ousada, que gira em torno de três personagens distintos e tem como fundo o Cinema Novo e as questões sociais e protestos da juventude da época. Mas isso é só pano de fundo mesmo. É um bom filme, e para os psicólogos, a personagem de Eva Green é um prato cheio. Mas acho que algumas pessoas exageram nos elogios… Potencializam e intelectualizam até o vácuo, se duvidar.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembraça (2004). É um filme louco. Extremamente inteligente. Por isso tem a fama de louco. E a protagonista expressa toda essa complexidade simpática nas suas madeixas. “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança” é capaz de causar grandes discussões, muito riso e muito choro, principalmente naqueles que compartilham experiência igual ou semelhante a do casal, Clementine e Joel . Kate Winslet e Jim Carrey estão ótimos. Até me espantei porque nunca havia imaginado nem um nem outro num drama daquele… E muito dificilmente alguém os escalarias para algo “cult”. Mas entraram no projeto e se saíram muito bem. Gosto demais desse filme. E não só eu. Argh! Tem gente que só porque sofreu uma dor de cotovelo, elege “Brilho Eterno” como filme da sua vida, e de uma hora para outra, pessoas que se faziam de inatingíveis, dissecam seu “sofrimento” se comparando Clementine, querendo pintar os cabelos e ter Alzheimer genérico e específico também. Como Ana Lee fala: é o filme da minha vida! Credo, viu. Esse é filme de “pseudo-cult” demais. Além de ser filme, é fonte de inspiração para como se tornar um sofredor. Porque o sofrimento é arte. Ui! Tem gente que confunde o fim de uma relação íntima com arranhão proposital no cotovelo… E dessa confusão, vem a idolatria vazia esse tipo de filme.

Edukators (2004). Ai vem a onda dos filmes estrangeiros, e quando digo “estrangeiros” me refiro aos filmes não-americanos, já que o cinema mais conhecido é o deles e quando não são eles, são estranhos. Daí surge a falsa idéia de que todo filme europeu faz sucesso, provavelmente pela fama artística que a Europa tem. Como eu suspeito, deve ser o sotaque diferente que cativa as pessoas… O cara pode falar a maior besteira do mundo, o maior clichê, mas fez biquinho, cuspiu rápido, falou com charme, tá valendo. É aqui que lembro de ” Edukators”.

Kill Bill (2003). Ok. Eu realmente nem acho que esse seja um filme de “pseudo-cult” de verdade não. Mas ele é do Tarantino, e Tarantino é ícone “pseudo-cult”, sim. Porque ele é louco. Loucura deve ser coisa de “pseuco-cult”… Como ouvi Ana Lee hoje dizendo: eu não gosto de coisas normais, de coisas que todo mundo tem. Então, filosofo eu nessa atitude - nada clichê… – e penso que, como o normal é ser normal, ser louco vai virar – se não já virou – moda. Crazy Fashion Show. Sei lá. Então, meu querido Quentin Tarantino tem que aparecer na lista. E esse, para mim, foi o filme dele mais banalizado e idolatrado toa. Mesmo assim, o filme é muito divertido, a Uma Thurman está de dar inveja aos sedentários e aos samurais, mas eu ouvi muita gente babando nele sem motivo aparente. A Ana Lee tem fortes motivos. O tênis amarelo que ela comprou na semana seguinte, por sinal, é um deles. Eu acho “Pulp Fiction” e “Cães de Aluguel” muito melhores, desculpa aí. Mas aí já exigir demais dos “pseudo-cults”, né? Vamos combinar… Eles teriam que pesquisar um pouco para descobrir… E já me falaram que pensar dói.

Ok. Já estiquei demais o assunto, certo? E ele já deixou de ser novo. Eu quis apenas cutucar. Digamos que as últimas duas colunas foram um desabafo, e acredito demais, não foi apenas meu.

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