Esperança no fim do… ruim?

Publicado em: 05-05-2008 @ 1:04 am 
Postado em: Colunas - Maíra Suspiro
Escrito por: Maíra Suspiro

Curtindo os antibióticos e o sofá companheiro da casa alheia, uma velha idéia passou pela minha cabeça: tem filme que é tão ruim, tão chato, que você não consegue parar de assistir, só pela curiosidade de saber se pode piorar ou se existe esperança no fim do… ruim.

(Para ler ouvindoI Just Can´t Get Enough“)
Vez ou outra, me pego em algum fim de semana livre zapeando a TV, procurando algo para puro e despretensioso entretenimento. Eis que paro em algum filme por distração. E eis que, em algumas das vezes, o filme não era bem um filme “de vergonha”. Mas, e daí? Vamos ver no que dá - ou no que não dá, mais especificamente falando…

Foi o que aconteceu depois de um jantar na casa do meu pai. Super convenientemente, quando sentamos para a sobremesa no sofá, começou o SuperCine da Globo. Sim, por ser da Globo, já é um sinal divino de que não é algo bom, mas, deixa lá… E deixei mesmo, percebendo que estava começando um tal de “Garganta do Diabo”. Na hora, eu só pensei em “Garganta Profunda”, mas aí ia ser pano para outro tipo de conversa, certo? Enfim, sei que o filme é com o Dennis Quaid, o Christopher Plummer, a Juliette Lewis e a Sharon Stone. E não, não pensem que isso melhora algo. Só piora: o Quaid está da cor de terracota, o Plummer tá parecendo emaranhado de pêlo de gato, a Juliette me faz ter pena das cenas esdrúxulas e a Sharon provou que estava ruim (eufemismo) de atuação nessa época. Efeito dominó. Catastrófico.

Como que eu superei os “reclames do plim-plim” e não mudei de canal ou apelei para um DVD? Freud pode explicar, talvez. Mas tem filme que é tão ruim, que me faz ficar grudada na tela para ver se pode ficar pior. E é ruim de ruim mesmo! Não digo só aqueles filmes de “começo-meio-e-fim”, como meu pai costuma falar. Aqueles que são bobos, mas redondos, e que aliviam o drama da vida real. São os ruins mesmo! A vantagem é que eu esqueço eles logo… Depois de dois dias, nada mais resta. Aproveito então, que a memória ainda dura para ilustrar a situação com o tal “Guela do Diabo”, aliás, “Garganta”…

Pensando bem aqui, ele até que rendeu umas risadas. “Vá-botar-um-ovo!”. Melhor frase do roteiro, certeza. A menina grita isso quando o irmão mais novo a acorda imitando um galo no último volume. Ou as caretas que a Sharon “Sem-Cruzada-de-Perna” Stone faz fingindo estar com medo…. E a direção de som é típica de um repeteco direto do Media Player.

Afinal, sou só eu ou alguém mais tem esse comportamento avesso? Será que tem um limite? O filme tem que ser “para cima” para ganhar nossa empatia. Ou ele tem que ser de ruim a ladeira abaixo para provocar nossa inquietude curiosa. Mas se ele ficar entre a linha tênue – ou não tão tênue – desses dois tipos, ele passa batido. Será? Por exemplo, outro filme desse mesmo diretor, o Mike Figgis, me fez querer ver o filme depois e não grudar pelos defeitos dele. Ah, o filme em questão é “Despedida em Las Vegas”… Comecei a ver, não peguei o ritmo e preferi ver depois, com um humor melhor. Mas com “Garganta do Diabo” foi exatamente a mesma sensação de “será que pode ficar pior?” ou “e essa pizza vai acabar como?”.

Enfim, se existir um estudo do comportamento dos cinéfilos, me voluntariaria para a causa das reações absurdas. Alguém mais sugere uma reação absurda?

A dois, por dois e em dois

Publicado em: 21-04-2008 @ 10:41 pm 
Postado em: Colunas - Maíra Suspiro
Escrito por: Maíra Suspiro

Depois de mudar de assunto inúmeras vezes, finalmente decidi qual seria o motivo das linhas desta semana. Por puro acaso – e agradável sorte, o domingo teve um final surpreendente, com uma ida ao cinema. E durante 96 minutos, passei dois dias em Paris, vendo a loucura - ora cômica, ora trágica - que são os relacionamentos.

(Para ler ouvindo “Waltz For You”, com a Julie Delpy)

Ah, mais um filme de relacionamento!”. Esse pode ser o pensamento de alguns. E de fato, não é uma mentira. Mas “2 Dias em Paris” é cheio de leveza, sutileza e humor, combinação ótima para se curtir em um final de feriado, sem muitas pretensões, mas ainda sim, querendo algo mais após o fim da sessão.

Indo completamente para o oposto do esperado dos filmes que tratam de relacionamentos de forma mais profunda e reflexiva, “2 Dias” conseguiu ser leve. Deliciosamente leve. E me fez rir enquanto encarava os detalhes loucos de uma relação a dois.

Os diálogos do filme são sensacionais. De rir da cena e rir de como é verdade. E quando temos um roteiro digno, o filme ganha muito mais força. “Isso quer dizer que se eu não fosse sua namorada, eu não seria boa o suficiente para ser sua amiga?“. Sim, é a retrucada que Marion, a namorada, fala para o namorado Adam quando ele afirma que não tem relacionamento algum com suas ex-namoradas. Bizarro. E sensacional como ela falou isso de forma objetiva e rápida. Eu tentaria falar a mesma coisa. Quem já teve relacionamento sério deve saber: quantas vezes a criatura do passado não foi pivô de briga? Para alguns (como eu), é estranho cortar relações com um (ex) namorado, uma pessoa com quem você viveu tanto e compartilhou momentos bons e ruins, simplesmente porque não estão mais juntos. (Claro, a não ser que ele/a tenha aprontado bonito para o seu lado ou realmente seja uma pessoa insuportável…)

Mas, sim, os diálogos. Cheio de frases cheias de sarcasmo e ironia. Adoro! “Você poderia me trazer uma tigela cheia de vidro moído?”, é o que Adam pede ao garçom durante uma conversa incômoda com a namorada. “Ah, você é o novo namorado?”. Ai, os comentários inocentemente inconvenientes que os conhecidos fazem ao novo namorado… Eu mesma sofri com eles após o filme. Essas mil situações corriqueiras que acontecem no meio de um relacionamento. Altos e baixos. “E muitos entremeios”, como a própria Marion fala. Todos que provocam uma identificação instantânea. Algo bem “a vida como ela é”. Com todos os defeitos que fazem a nossa graça.

Acho difícil comentar o filme. Ele me pareceu tão simples que me complico ao tentar falar o óbvio. Quem sabe devo assistir novamente… Certamente irei. Os personagens são adoráveis. E quando vejo o caos deles, é como se enxergasse o nosso. Até as relações “pisando em ovos” com os sogros é retratada no filme. E para quem viu ou for ver a produção: o sogro é absurdamente hilário.

Os sogros, o ciúme, os ex-relacionamentos, as diferenças. O pacote completo. E o que mais me fez gostar do filme é o final, espetacular: condensado e claro, resumindo a essência do filme. A gente reclama da dor de cotovelo, reclama dos problemas a dois. Reclama. E sofre. Mas sempre procura um novo grande amor. E isso é bom. Achar o possível novo grande amor é revigorante. E sofrer por amor, bem, é clássico. Mas, amadurecer no amor… Acho que essa é a melhor parte. Quando se aprende – e consegue – não desistir do relacionamento por causa dos defeitos, e aí, aprendemos a relevar. Quando criamos coragem para encarar o passado desagradável, ao invés de fazer vista grossa. Quando aprendemos a ajudar a relação e não pular fora no primeiro problema. É ser sincero e contar apenas com a verdade entre os dois. Sei lá. É tão simples e tão difícil de falar. Ao invés de me enrolar em uma coluna, seria mais efetivo simplesmente colar o link para a cena final do filme, dizendo: eu assino embaixo.

Mas, para não tirar a graça do filme, termino com uma frase final de Marion, belamente interpretada por Julie Delpy: “Existe um momento na sua vida quando você não consegue mais se recuperar de um rompimento. E mesmo que essa pessoa encha seu saco 60% do tempo, você não consegue viver sem ela. E mesmo que ela acorde espirrando no seu rosto, bem, você ama os espirros dela, mais do que os beijos de qualquer outra pessoa.”

Mulheres, Desesperadas

Publicado em: 14-04-2008 @ 2:29 pm 
Postado em: Colunas - Maíra Suspiro
Escrito por: Maíra Suspiro

Semana passada, o RapaduraCast tratou de como o Cinema pode influenciar a vida. Pensando sobre o que escrever neste começo de semana, aproveitei uma idéia sobre essas influências, inclusive dada por uma criatura de azul aculá, e vi ligações entre os filmes e um seriado em particular. “Desperate Housewives” e as mulheres desesperadas do Cinema é o tema desta segunda-feira de Abril.

(Para ler ouvindo “Feeling Good“, Nina Simone)
Ando me envolvendo com as personagens do seriado “Desperate Housewives” de uma forma bastante agradável, seja pelas risadas, pelas identificações óbvias ou pelas semelhanças surpreendentes. Eis que eu queria muito falar sobre isso aqui explicitamente. (Sim, já que a coluna sobre o passado começou por uma reflexão provocada por uma personagem do seriado). Aí, ouvi a sugestão do menino de azul e pensei: de fato, existem várias mulheres desesperadas no Cinema.

Julianne Moore, em “As Horas”, é a minha favorita. O filme por si só é sensacional. E digamos que ele tem três mulheres desesperadas. Mas Laura Brown, sua personagem, é a típica dona de casa americana desesperada. E o desespero dessa ruiva me deixou no chão. Engraçado como eu passei a ver a vida de donas de casa de forma diferente depois do seriado, depois de prestar atenção nesses filmes. Sim, uma workaholic como eu se enrola para enxergar o valor de uma dona de casa ordinária, justamente pelo extremismo de realidades. Mas cuidar de uma casa é mais do que “pilotar” o fogão. Às vezes, é agüentar tudo o que a casa abriga. Mrs. Brown me sugeriu isso.

Depois, lembro da querida Diane Lane no filme “Infidelidade”. Ela interpreta uma esposa que se muda para o subúrbio e passa a ter um caso, provavelmente para desafogar a solidão e a rotina apática. Assim como Moore, ela é um poço de desespero. E o que as salva é o apego à família. Mas o interessante do desespero dessas duas donas de casas é que, antes de tudo, elas se mostram absurdamente humanas e sensíveis. Mas não ousaria dizer que essa sensibilidade seria uma fragilidade, porque é nessa sensibilidade que elas encaram a dor e o desespero e se tornam fortes para superar, seja por contar com elas mesmas, seja para estarem lá para apoiarem quem conta com elas.

Pensando, então, nesse lado desesperadamente sensível, lembro de uma dona de casa que me pareceu uma dona de casa por conformação, não por escolha ou vocação. Kate Winslet, em “Pecados Íntimos”. Assim como “As Horas”, esse filme está na minha lista de dramas favoritos. Ambas as personagens me pegaram de jeito. Sarah, personagem de Kate, entra de cabeça no tema dessa semana. Ela é puro e total desespero. Sensibilidade inconformada. Nota-se sua emoção desordenada desde o começo do filme e é isso que apaixona sobre ela. Mais do que as outras duas, aqui se vê a mulher com fontes maiores.

O mesmo acontece com Hermila, em “O Céu de Suely”, outro favorito. Impregnado da imagem feminina, o filme apresenta Hermila, condensa o que comentei sobre as outras três: o lado dona de casa, o lado feminino, o lado sensível e o lado da força. Com perdão da palavra, ela é escr*ta. Vai atrás do que quer, mesmo tendo um mundo de obstáculos contrariando, e dá orgulho de ser mulher.

Orgulho esse que podemos ter de forma mais singela e dinâmica com Penélope Cruz, em “Volver”. Outro filme favorito e impregnado de feminilidade. Penélope e Hermila partilham dessa sensibilidade velada mostrada no filme. Não dão o braço a torcer, mas nem por isso deixam de mostrar o desespero. É como se encarar ele com a cara limpa fosse o motivo de orgulho destemido. Chamaria de coragem. Coragem que muito par de bolas masculinas não tem.

São todas mulheres. Donas de um lar. Que enfrentam os problemas que quatro paredes podem ocultar. Tudo em um desespero muitas vezes silencioso. E é nesse silêncio que vemos a força de cada uma. Termino a coluna com orgulho de ter TPM todo mês e mesmo assim, rir da cara dos problemas desse mundo louco. No dia que a cólica estiver pior, buscarei inspiração em alguma dessas quatro mulheres desesperadas. Certamente lembrarei que o desespero é doloroso, mas ser mulher é superar isso – com orgulho e sem cair do salto. (E para quem ficou com a dúvida: sim, estou de TPM).

Clube dos Ciclos

Publicado em: 07-04-2008 @ 4:10 pm 
Postado em: Colunas - Maíra Suspiro
Escrito por: Maíra Suspiro

Quem ouviu os RapaduraCasts sobre “Lições para a Vida” e “Influências” vai se sentir bem íntimo com o tema dessa semana. Quem sabe, eu devesse até evitar falar novamente sobre o assunto, mas acho relevante e sempre existe a possibilidade de apresentar um ponto de vista diferente. Sendo assim, o comportamento e o consumo são a dupla dinâmica dessa semana.

Depois do podcast rapadureano sobre lições para a vida, resgatei meu DVD do “Clube da Luta” e fui revê-lo depois de muito tempo. “Caceta!”. Tinha esquecido, realmente, como esse filme é espetacular. E para alguém apaixonada por Marketing, por comportamento e por reflexões, ele vira um prato cheio. Ele dá pano para inúmeras análises. Lembrei de colocá-lo no “Top of Mind” da minha memória, ao lado de “Obrigado Por Fumar”. Quem não viu, veja. Vale a pena demais. Pelo menos para ver o Brad Pitt mais querido (eufemismo) do que nunca e o Edward Norton, mais uma vez, provando que sabe o que faz. (Para ler ouvindo “Where´s My Mind”, do Pixies).

Começando de vez a coluna e deixando de enrolar vocês, devo dizer que “Clube da Luta” pega pelo “colarinho” logo no começo. (E aqui, vou pegar apenas uma das análises que ele permite acontecer.) Sutil e objetivo, o roteiro traz falas que resumem, quase fotografam, o que vivemos hoje. “Antes tínhamos a pornografia, agora temos os catálogos de lojas”. “Que tipo de porcelana me define como pessoa?”. Essas duas frases fizeram meus olhinhos brilhar. Consumo. Vivemos intensamente a “vibe” do consumo mais do que nunca, principalmente porque agora vivemos intrinsecamente o consumismo – sim, é diferente. Precisamos comprar, consumir algo, para nos sentirmos bem. Completos. Até, feliz. Por isso é comum ouvirmos “Ai, eu PRECISO daquela jaqueta”. Precisa? E existe felicidade?

Consumimos idéias, consumimos serviços, consumimos produtos e, agora, consumimos informações. E tudo isso é previsto e analisado pelo “povo” das “comunicações”.

Comportamento do Consumidor. Quem estuda Publicidade e Propaganda deve ter um espaço para estudar isso. E quem não estuda vira “cobaia” disso. E essa parte da faculdade é espetacular. Boa ou ruim, não vou julgar isso. Vou deixar a hipocrisia e o Fidel fora dessa. Quero apenas comentar alguns fatos…

Pois bem. O “Comportamento”. Estudar o comportamento do consumidor nada mais é que analisá-lo e imaginar o que ele fará logo depois. Como ele vai reagir. O que ele vai querer em seguida. Que necessidade ele vai ter, ou mais, que necessidade iremos criar para ele e que consumo irá satisfazê-lo. Sim, é tudo premeditado. “Guilty!” As grandes multinacionais não gastam tubos de dinheiro em comunicação para nada: eles querem lucro. E você também iria querer. “Welcome to the jungle, baby”, já diria os Guns´n´Roses. É o capitalismo.

O personagem de Edward Norton, o narrador, pode ser visto como a personificação disso. Ele está tão inserido nesse contexto que nem nome ele tem. Como Marla Singer diz: “Qual é o seu nome, afinal?”. Porem, a “válvula de escape” dele tem: Tyler Durden. Radical e descolado, Sr. Durden vem e quebra com a apatia do consumo compulsivo e “cortar o mal pela raiz”. (E não só isso, mas também).

Minha pergunta, saindo do filme, é: será que iríamos mesmo topar explodir as empresas de cartões de crédito? Afinal de contas, podemos ser levados e influenciados a fazer algo, mas não somos obrigados. No final das contas, gostamos de consumir, sim, e não aprovaríamos voltar ao tempo da pedra. Para começar, se não fosse esse ciclo de consumo e movimentação de dinheiro, não existiria um filme como “Clube da Luta”. Primeiro, porque não iria rolar pagar o cachê do pessoal e manter um estúdio para tal. Segundo, não teríamos material para tanto, já que a realidade seria outra.

É tudo cíclico. Che Guevara, aquele rapaz barbudo que ficou famoso como ícone do Socialismo. Sabe? Pois é, o capitalismo movimenta muitas verdinhas vendendo camisas com a fotos, boinas e broches. Simpático, hein? Rola até a piada de que, assim como o Elvis, Guevara não morreu e só se escondeu nos matos e abriu uma serigrafia. E os sabonetes do filme me soam até engraçados, pensando assim. Consumimos uma estética-padrão e, para isso, lipoaspirações são feitas. E do “lixo” dessas lipoaspirações – caríssimas, sabonetes maravilhosos são feitos e vendidos de volta para as “dondocas” desenhadas. Nada é desperdiçado. Tudo é ciclicamente reciclado. E o engraçado é criticarmos o consumo na Internet, segmento que cresce cada vez mais e assume papel de mídia do futuro. Aquela mesma mídia que “sustenta” o sistema. Ai, Clube das Contradições, talvez. Ou Clube dos Ciclos. Escolha o seu e nunca, nunca comente sobre ele com os outros.

O Passado Hoje

Publicado em: 31-03-2008 @ 2:08 am 
Postado em: Colunas - Maíra Suspiro
Escrito por: Maíra Suspiro

Então, tentativa n.101 de se escrever uma coluna. Penso, penso… Jogo as idéias para o futuro e não fisgo nada. Rebolo as caixas do presente, mas não ouvi nenhum click. E aí? Bem, me resta o passado. E na mesma hora que trago o passado para a mesa, mil clicks estalam e algumas memórias fílmicas aparecem para compor as linhas de hoje.

Ultimamente, andei me apegando a certas idéias ditas por pessoas do meu convívio ou personagens das historias que vejo. Idéias como “desapego ao passado”, “desespero silencioso” e “enjôo emocional” andaram recorrentes nas últimas semanas. Até eu me espantei com as descobertas que fiz, e em todas elas, o passado era o protagonista.

Paro para pensar um pouco, com a ajuda de um passarinho azul, e me recordo de personagens que desenrolaram histórias com o “Passado”. A primeira que me veio à mente nem é exatamente de um filme, mas de um seriado. Susan Mayer, de “Desperate Housewives”, personagem da atriz Teri Hatcher, vive uma série de dramas pessoais, porque não consegue se desvencilhar do ex-marido, o passado, que vive interferindo no seu presente e bagunçando as possibilidades de futuro feliz.

Partindo do mesmo princípio da Susan, mas com personalidades e situações diferentes, lembrei de Hermila Guedes, que interpretou a Hermila, em “O Céu de Suely”. Ela começa presa por uma relação do passado, ansiando para que isso continuasse fazendo parte do seu presente, mas o destino não quis assim. Então, Hermila se desapega do fato do passado, engolindo o sofrimento e encarando a situação. Mas, apesar de ter conseguido tomar uma atitude prática, esse ponto do passado dela ainda vai ser relembrado.

São duas formas sofridas de viver o passado no presente. Ansiedade, angústia, tristeza. Costumo me referir aos medos do passado como “fantasmas”. E foi lembrando de “Casablanca” que identifiquei melhor isso. Nenhum dos personagens fala isso, mas o modo como Ricky, personagem de Humphrey Bogart, reage ao encontrar Ilsa, encarnada por Ingrid Bergman, me fez ouvir um click mais alto, dizendo “fantasma!”.

Ricky parecia completamente atormentado pelo passado com Ilsa, e o ar displicente dele tentava disfarçar isso. Ou, por outro lado, justificava o tormento. É dele um dos diálogos que mais me agradam no cinema, quando em uma conversa no bar, ele responde “faz tanto tempo que não me lembro”, quando perguntam sobre o que tinha feito na noite anterior. E quando perguntado sobre o que fará na noite seguinte, ele retruca: “Não faço planos com antecedência”. Aquele que ignora o ontem, releva o agora e aparenta expectativa pelo amanhã. Toda essa relação sentimental com o tempo é capaz de te pôr para pensar… E digo sentimental, porque friso principalmente as relações pessoais.

No seriado “Sex and the City”, em determinado episódio, as personagens discutem quanto tempo leva para curar uma dor de cotovelo. E essa pergunta me foi feita semana passada também. Afinal, tem como medir? Quanto tempo do futuro leva para esquecer algo do passado? Há quem diga nunca. Há quem diga que depende da intensidade da relação. Há quem diga, metodicamente, que leva metade do tempo que a relação toda durou. Eu acho que só o tempo vai dizer. Literalmente.

E pensando em (Hector) Babenco, fiquei remoendo isso, já que no seu último filme, “O Passado”, o personagem de Gael Garcia Bernal passa por um redemoinho de relações atormentadas por passados e presentes e futuros. Bem, foi o que eu entendi, na verdade, porque ainda não vi o filme. Certamente ele vai me dar o que pensar. Talvez, pontos com os quais vou me identificar. Ou, no mínimo, vou ficar com a música do Cazuza passando de background na cabeça: “eu vejo o futuro repetindo o passado, eu vejo um museu de grandes novidades, o tempo não pára”. Dizem para a gente aprender com o passado. Subtendo, então, que devemos superar e entender o que nos aconteceu, para evitarmos dor de cabeça no futuro. Seria ótimo se funcionasse assim, bem certinho na prática, hein?

No final das contas, o passado não pode ser deletado, como “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” insinuou. Ele pode ser superado, jogado de lado, colocado na prateleira menos importante da estante, mas ele faz parte da gente. Somos hoje o que fizemos no passado, enfim. Melhor ou pior, não interessa, mas um reflexo das águas que já passaram. Logo, logo, essa coluna, por exemplo, vira passado. Ou já virou? O tempo não pára.

Desconstruindo uma Suspiro

Publicado em: 24-03-2008 @ 1:34 am 
Postado em: Colunas - Maíra Suspiro
Escrito por: Maíra Suspiro

Dizem que assumir a idade é algo que assusta a mulher. Dizem também que encarar os medos é sinal de maturidade. Dizem que 100 colunas é muito. Dizem muito, enfim. O negócio é que aqui estou eu, sem (muito) medo de admitir as 100 colunas, rir dos próprios erros escritos e das fotos bizarras, e lembrar os desabafos subliminares. No final das “colunas”, é tudo diversão.

Maíra Suspiro deixando o pato de lado!Admito que duvidei que esse dia fosse chegar. Pensei que eu iria me esgotar no meio do caminho, o Jurandir iria me cortar da equipe ou o contador do blog iria me enrolar para sempre. Mas olha só! Cheguei. Ganhei até três velinhas numéricas para comemorar, que querido… E eis que eu penso: sobre o que se escreve em uma centésima coluna? Silêncio. Ok, vou ser egocêntrica e comentar da viagem divertida até aqui.

Entrei para o time dos Rapaduras e já comecei a escrever as benditas colunas. Logo, posso dizer que acompanhei as rapaduras do caminho desse portal. (Isso me soa tão jurássico…). Enfim, é por isso que chegar até as 100 foi divertido: a casa é agradável, logo, a gente se inspira. Se inspira até demais, diga-se de passagem.

Ainda estou em estado de choque por lembrar das pérolas que já tive a audácia de postar por aqui. (Coragem, Suspiro). Por exemplo, a minha primeira coluna. “João, Maria e os Fuzis”. Jesus, Mary and Joseph, eu seria presa por aquela foto! Trombadinha, total! E em “Qual será o segredo?”, que eu entrei no clima da coluna e fiz a foto com um terninho? Tos-co, meu povo. Entrei no clima demais da conta: “Os Astros Também Amam”, “Auto-Biografia”…

Mas, nem só de fotos toscas eu vivi. Tive meus momentos introspectivos também, com desabafos em linhas tortas. O mais marcante de todos? “Closer”. Filme assistido na estréia, com os Rapaduras, as minhas tentações e o dilema da época. Devo ter escrito a coluna em 15 minutos, imediatamente após chegar em casa. Ai teve outra específica, sobre “Vanilla Sky”, que anos depois viraria roteiro de situações malucas e gostosas. E algumas outras comentando sobre filmes que me quebraram ao meio, como “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança”, que vi uma semana depois de terminar o namoro mais sério até então, ou “Encontros e Desencontros”, que foi visto de forma inusitada em uma viagem conturbada e solitária � dois. Ai, meu Deus, me tragam uma dose que o negócio ficou melancólico!

Passando a linha desabafo, que que eu lembro mais de ter escrito? Ah, as viagens da Comunicação. Lembro que pegava temas discutidos na faculdade e tentava relacionar com Cinema para poder criar a coluna da semana. Bem, a intenção era louvável, mas pensando bem, acho que o resultado não foi dos melhores. Exceto pela ajuda acadêmica que eventualmente servia para alguns estudantes da Publicidade.

Mas, fazendo a linha vinho e melhorando com o tempo, até que algumas saíram interessantes, como a do “Oscar, de cobre?”, a “Pornô também é Cultura”, a “Roteiristas em Greve”, o “Close nos Publicitarios” e blá. Tiveram as colunas exclusivistas, quando eu me agarrava com um só filme e desatava a escrever. E dentro desse time, lembro de uma recente, sobre o “Tropa de Elite”, que veio de um transe imediato após ver o filme e que fez lá a sua polêmica. As colunas oriundas de situações corriqueiras, como “Preliminares”, “Interação Com a Telona”, “Peças da Vida, Trunfos do Cinema” foram queridas de escrever, já que todas me faziam lembrar situações bacanas.

Enfim, foram 100 tentativas ingênuas de mostrar o Cinema através de um ponto de vista diferente por uma cabeça estudante. Em todas as 100, uma curiosidade ansiosa sobre o que os leitores do Rapadura achariam… Curiosidade que foi felizarda com a chegada dos comentários do nosso Rapadura Blog, que permitiram mais ainda a troca de figurinhas entre leitores e autores, críticas e opiniões. Sim, olhando daqui nem parece que já foi isso tudo. E ainda estou no comecinho da nova viagem, doida por um fogo de palha para me inspirar para a 101ª coluna.

Oscar, de cobre?

Publicado em: 13-03-2008 @ 12:43 pm 
Postado em: Colunas - Maíra Suspiro
Escrito por: Maíra Suspiro

Você pode até não ser cinéfilo, mas já ouviu falar do Oscar, o tal homezinho nu e dourado. A festa mais pop de Hollywood que premia os – supostos - melhores do ano nas categorias que tanto conhecemos. Então, o Oscar já bateu os 80 anos de idade e eu resolvi comentar sobre ele essa semana.

De fato, estou atrasada. O Oscar já virou jornal velho que serve para pano de chão. Mas eu não fofoquei sobre ele aqui e além do mais, essa semana estava lendo meu jornal de cabeceira, Meio&Mensagem, e vi uma matéria sobre pequeno pervertido amarelo.

Oscar é sempre nervosismo pelos vencedores e ansiedade para checar o tapete vermelho. Os bem vestidos, as cafuçus, os nonsenses, os meros mortais que acompanham as estrelas e por aí vai. Eu, particularmente, acho o tapete vermelho mais divertido do que a cerimônia. A cada ano ela se torna mais enfadonha. E este ano não poderia ser diferente…

O que é que custa colocar umas apresentações mais bacanas? Parece que fazem no PowerPoint e renderizam depois. Tirando pela apresentação da Beyoncé com a Tina Turner, o resto foi ladeira abaixo, segundo o que lembro. Para mim, ficou registrado como o “Oscar que assassinou a moda”. Só perde para o Grammy: a Aretha Franklin vestida de abacate; a Rihanna que rolou “ milanesa” na palha e se amarrou com um cinto; a Cyndi Lauper com o vestido de alcinhas frouxas; a Tina Turner, diva, mas com uma vibe astronauta-de-aluminio total. Loucura, loucura. No Oscar, o povo quer ser fashion e acaba sendo “trashion”, com oncinhas, plumas, brilhos… Ai.

Porém, para compensar a bizarrice, tivemos Javier Bardem ensinando com quantos suspiros se faz um homem charmoso. Tivemos Daniel Day-Lewis com a vibe pirata e o discurso dúbio (partner?). Tivemos a Marion Cotillard linda. Enfim, vamos ao que interessa, parando o papo fútil.

Voltando a falar sobre a matéria da “Meio&Mensagem”, devido impressão que comentei agora acima, não me espantei quando li a manchete que dizia que o Oscar, coitado, teve a pior audiência desde 1974.

Matando a cobra e mostrando a ferramenta com a qual matei, vou comentar os números que provam que o homem de ouro não anda mais tão brilhante quanto antes. Comparado a 2007, a premiação deste ano teve 21% menos espectadores. E pior do que isso, só saber que 2008 ficou abaixo de 2003, ano em que o Oscar aconteceu dias depois da invasão do Iraque.

Outro detalhe: como já comentei, o Oscar anda cada ano mais tedioso. E os números comprovam! A média da primeira hora foi bem maior que a média da hora final. Começou com 32,3 milhões e terminou com 25,4 insones de plantão. Triste.

Aí o Oscar, melancólico, fazendo a linha polidinho do “ninguém me ama, ninguém me quer, todos me olham com desprezo”, senta no divã para descobrir porque ele perdeu a vaga de queridinho. Bem, a gente pode ajudar, certo? Teve a greve dos roteiristas que durou quatro meses e acabou pouco antes da premiação. Teve a bilheteria fraca dos filmes indicados. Teve também os “estrangeiros” desconhecidos pela maioria dos “Estúpidos” Unidos da Amédica, como a Marion Cotillard e o Javier Bardem. Até a popularização dos gravadores digitais de vídeo entram nessa. Enfim, quem tem saco de ficar madrugada adentro se pode gravar para ver depois?

Bem, Oscar, nem tudo está perdido. 2008 não foi um fracasso com “F” maiúsculo. As vendas dos espaços publicitários da premiação já estavam fechadas desde muito cedo. Sorte sua. American Express, Unilever, Coca-Cola e General Motors concordaram em pagar até US$ 1,82 mi por 30 segundinhos dentro dos intervalos. É mole? Não, é grana mesmo. A festa roda em torno de US$ 80 mi de investimento total. Então, a audiência caiu, mas a renda com comerciais aumentou 7%. Não fique tão triste. Você ainda tem cash no banco.

Enfim, vamos esperar para ver o resultado de 2008. E torcer para que essa queda não faça o pobre do Oscar abandonar o modelito glamour do ouro e passar a usar Cobre.

E agora, José?

Publicado em: 26-02-2008 @ 5:22 pm 
Postado em: Colunas - Maíra Suspiro
Escrito por: Maíra Suspiro

Não só atores passam por dramas, viu? Roteiristas passam por isso também, como notamos bem de perto na última greve. E colunistas também! Cada um ao seu modo, enfim, mas todos com seu drama. Por exemplo, a coluna dessa semana é sobre nada. Exatamente. E eu vou explicar o porquê.

Até onde eu sei, já passei da 97ª coluna. São mais de 90 textos diferentes, abordando assuntos diferentes com observações diferentes. Aí você pensa que ainda existe muita coisa para falar, mas quando faz as contas, bem, não fica tão fácil assim. Ainda mais quando você faz parte do grupo de pessoas como eu: sem inspiração não sou ninguém. É. Racionalmente eu até sei que tem muita coisa para se falar em linhas tortas rapadurianas, mas, mas… Estou em crise de inspiração. Perdão.

Podem ser as 97 colunas escritas. Pode ter sido a febre que me quebrou nos últimos três dias. Pode ser o aquecimento global, que me desidratou até o último suspiro. Podem ser os cavaleiros do Apocalipse dando sinal de chegada. Ou meu Distúrbio de Déficit de Atenção (DDA). Pode ser muita coisa. Mas para tudo tem jeito, não é mesmo? Menos para a morte. E a minha inspiração não morreu, só anda meio desanimada, tadinha.

Quem sabe eu devesse escrever uma coluna com o nome “Mais do Mesmo”, mas me soa tão Legião Urbana… Ou sei lá, fazer releituras do que eu já escrevi. Ou comentar minhas garfes nas outras 90 e poucas colunas. Ah, isso seria interessante! Provavelmente, morreria iria me esconder relembrando textos passados.

Já falei de chifre, de música, de trilha sonora, de filmes específicos, de consciência social, até teorias da Comunicação entraram nessas colunas semanais. Já foi fofoca, já foi questionamento, já foi sobre história do Cinema, já foi psicologia, já foi até seriado! E agora, José? O que é que eu faço? Já foi pornografia, já foi retrospectiva, já foi a vibe “Top 5” de coisa-tal.

Ah, me ocorreu uma idéia! E se eu falasse, não só das minhas colunas, mas dos comentários que elas tiveram? Sim, sim, porque uma vez até comentei respondendo aos comentários de uma coluna tal: tão divertido quanto escrever uma coluna é ler os comentários que fazem dela. Por bem ou por mal, sempre gosto de ler o que vocês acham. E muitos me fazem rir – no sentido legal da risada.

Outra coisa que fico pensando nas vésperas de escrever a coluna é: o que os rapaduras gostariam de ler sobre? Não, não foi uma pergunta retórica. Perguntei de verdade mesmo, e caso vocês tenham um assunto de preferência, me digam! Não prometo milagres, mas a gente tenta. Ah, eu poderia falar sobre o Oscar, né? Sobre a chatice que ele se tornou… Ótimo, essa já vai pra cadernetinha de pautas!

Gente, fui até o Google e digitei: socorro, estou sem inspiração! Mas aí vi que tem gente em situação pior do que eu… Menos mal! Nessas horas, admito que fico feliz de ver a falta de graça dos outros. Sim, se eu estivesse tão assim, sem graça, gracinha alguma, eu poderia apelar para falar do Big Brother Brasil 8. Ou do jogo de futebol de ontem que teve aqui (que meu time perdeu, por sinal). Ou do show da Ivete que teve lá no Rio Grande do Sul e eu vi tudo pela TV, eu e minha febre. Ou sobre a reprise do Grammy na Sony ontem noite. Mas não. Sou sincera com vocês e admito: eu não sei sobre o que escrever hoje. Escrevo sobre nada. E dispenso a filosofia. É, nada de estilo “socratiano” aqui dizendo que “tudo que sei é que nada sei”.

Bem, fazendo a linha Rick Astley, essa coluna foi “cry for help”, com estilo de ouvidoria. É. Waldick Soriano disse no DVD dele, produzido pela Patrícia Pillar – super chique, que “a voz do povo é a voz de Deus”. Bem, não sou lá muito católica, mas adoraria ouvir o que vocês tem para me sugerir. Afinal de contas, as colunas são para vocês. :mrgreen:

Culpa da Disney!

Publicado em: 30-01-2008 @ 1:47 pm 
Postado em: Colunas - Maíra Suspiro
Escrito por: Maíra Suspiro

Assistindo a um de meus seriados favoritos, escuto a frase: é tudo culpa da Disney! No meio de risadas frouxas, imagino que, de fato, a afirmação tem lá seu fundo de verdade, e que as mulheres mal resolvidas ou enroladas de hoje são resultados de uma infância regada por historinhas da Disney.

PS: Antes de tudo, aviso que a coluna dessa semana exige um certo senso de humor, já que a seriedade descabida pode levar a interpretações exageradas.

Na primeira temporada de “Ally McBeal”, a personagem de Calista Flockhart discute com sua “rommie” seus problemas de relacionamento. De repente, sai o disparate: eu não sou desesperada! Passei a infância vendo os contos de fadas, isso é tudo culpa da Disney! Bem, vindo da Ally McBeal, advogada campeã em alucinações, isso não deveria ser levado a sério. Mas, ou eu sou tão doida quanto ela ou isso tem lá sua lógica. Afinal de contas, o mundo está cheio de mulherzinhas mal-resolvidas e de meninos afetados, ambos enrolados tal qual cabelo “pixain” em dia de ventania. Felizmente, esses dois tipos não são unanimidade, mas ainda perturbam bastante o universo de quem tenta se dar bem por aí.

Aí eu lembro que, quando criança, viviam querendo me descer aquelas história de princesas. E eu, rebelde, detestava. Achava um saco. Assisti a todos, claro, mas sem nutrir muita simpatia. E começo a pensar que isso me fez muito bem! Exceto pela rebeldia da Ariel e por “A Bela e a Fera”, só gostava da Branca de Neve por causa dos anões, da Cinderela, por causa do sapato e da Bela Adormecida, porque ela sabia passar bem as horas livres. Mas parei e lembrei das minhas coleguinhas que adoravam a Disney e sonhavam em ser princesas e tento vê-las hoje em dia: a maioria virou pseudo-dona-de-casa ou ainda reclama a busca do príncipe encantado montado em um cavalo branco. Aliás, se ele viesse como príncipe em um cavalo branco, eu até simpatizaria. Pior que ele se adaptou para um playboy dirigindo uma Hilux com um paredão de som gritando forró, ou, de fato, ficou bastante encantada, se é que você me entende, bee…

Enfim, lembrando das princesas, a gente pode até imaginar um padrão de comportamento atual inspirado nelas. E certos fatos de hoje até se parecem com os das historinhas. Tudo colaborando com a teoria do “put the blame on Disney” – parodiando Gilda e a vaquinha Mame. (Sim, vou me divertir com o exagero.)

Branca de Neve. O nome já insinua que esse padrão deve ser relacionado com mulheres das áreas frias do mundo, nada de muito tropical. Ou, como os boatos já diziam, que são mulheres viciadas em cocaína. Para variar, tem uma madrasta no meio que super perturba a vida da menina Branca por invejar a beleza dela. Bem, não lembro Sr.Branco de Neve, pai da princesinha, mas deveria rolar um mimo exagerado dele pela Branca de Neve, o que ocasionou o ciúme da madrasta e a inveja desequilibrada pela menina. Aquela insegurança da mulher de meia-idade pelo cálculo “uma de quarenta por duas de vinte”, bastante recorrente. E aí, a Branca de Neve foge e vai se esconder com sete anões. Claro, ela não poderia ir atrás de um homem de verdade, aí vai e fica com sete anões. Outro cálculo bizarro que insinua as mulheres papa-anjos que existem mundo afora. Rola também uma maçã envenenada, não é? Ora, uma prévia da anorexia. Fora que todo bom farrista sabe que maçã é a melhor fruta para combater uma ressaca: limpa tudo e hidrata. Pelo visto, a Branca de Neve também sabia disso. Sendo princesas, todam tinham que ser belas. A apologia beleza enjoa, até. E aquela fixação pelo espelho prova isso rapidinho. A madrasta da Branca que o diga… Mas, vamos dar um desconto para a megera: era estava insegura pela crise da meia idade, sem os aparos do botox e da Victoria Secret. Claro, outro ponto recorrente nos contos e na pós-modernidade é a secura. Como? Ora, a Branca de Neve só voltaria vida se um Príncipe Encantado pegasse ela de jeito. E ok, essa parte não seria tão ruim, mas tudo era resolvido na base do quê? Preciso dizer? Pois é, com o tempo, isso inspirou a promiscuidade. Freud concordaria comigo.

Cinderela. Ah, a Gatinha Borralheira, miau. Sim, sim, seguindo a linha dos casamentos falidos, tem uma madrasta no meio do engodo. Tinha uma vibe de inveja também. A pobre da Cinderela se lascava por ser bonitinha e as irmãs trash dela obrigavam-na a fazer trabalhos de E.D (empregada doméstica). Até que finalmente chega a Fada Madrinha e deixa a menina se jogar num baile (que não, não era funk). A Cinderela se empolgou tanto que perdeu a hora de voltar para casa e esqueceu o sapatinho lá nas escadas da boate. E fina como ele era, apesar da vida de E.D, o sapato ainda era de cristal. Arrasou! Adoraria que a Disney me contasse sobre o estilista desse conto.

Tem também a Bela Adormecida, a viciada em Lexotan. A Bruxa Má deu um coquetel de antidepressivo para a princesa e ela capotou. Ta, não foi um drink, foi uma espetada de dedo da roca… Mas nos dias atuais, a roca pode ser trocada por uma agulha, tipo aquelas que usam para heroína. Enfim, ao invés da Bela ir atrás de resolver a vida, ela ficou lá, babando, esperando pelo Príncipe Encantado. É tanta supervalorização por esses príncipes que hoje a gente vê o mundo entupido de metrossexuais, a versão realidade-conseqüente dos contos de fadas.

Finalmente, depois de muita princesa insossa, chega a menina, literalmente, com sal. É, a tal sereia que vivia nas profundezas do mar, a Pequena Sereia. Começa mandando bem, porque ela é ruiva. Adoro ruivas. A bichinha ainda era desaforada e rebelde. Aí, claro, se apaixona. Só que por um humano. Ai ela dá uma de menina de quinze anos desesperada e apela para uma bruxa, tal qual umas meninas de hoje apelam para simpatias, cartomantes e enroladores afins. Será que se ela existisse hoje, A Ariel seria fã do RBD? Mas sim, continuando com o paralelo da Disney, finalmente tem uma figura paterna na história de forma mais ativa! Vai ver por isso a menina tem um comportamento diferente das outras… Só não me perguntem se isso é bom ou não. Não vamos discutir educação aqui. Mas que fique registrado que a Ariel é menos bundona que as outras. E pelo menos não anda dormindo pelas tabelas ou incentivando a pedofilia. Ela tinha até de esportista, nadando para lá e para cá. Provavelmente, deveria ser fumante, por sinal.

Sim, aí lembrei da Bela, a que morava com a Fera. Minha historia favorita. Essa também teve um envolvimento maior com o pai. Para salvar o velho gagá, ela virou prisioneira da Fera. E o resto vocês já sabem. Essa da Disney, certeza, foi para amenizar a supervalorização da beleza. Oh. Mas ela, a Bela, era ótima. Além de ser boa dona de casa, era inteligente e tirava a Fera de tempo rapidinho. Ela deveria ser mais valorizada pela massa feminina, e não as outras chatinhas do começo da coluna.

De qualquer forma, dá para perceber certas nuances semelhantes entre as princesinhas e a ala feminina de hoje. Logo, imagine a lavagem cerebral que pode acontecer com as criancinhas. Que horror! Ainda bem que a infância pós-moderna dura quase nasce nada.

Mataram o marido alheio!

Publicado em: 15-01-2008 @ 2:07 am 
Postado em: Colunas - Maíra Suspiro
Escrito por: Maíra Suspiro

Mataram o marido alheio! Eu cresci vendo filmes românticos com casais fofos e histórias melodramáticas, que emocionam e dão aquela luz de esperança de que, um dia, todo mundo vai ter um “happy ending” no amor. De repente, acendem a luz da sala de exibição e eu penso: mataram o marido alheio!

Como disse, era comum ver historinhas bonitinhas com casais fofinhos e etc tal. E hoje, temos muitos filminhos assim. Mas agora rola uma diferença que se mostrou para mim esses dias: alguém tem que estar morto, e no caso, é o maridão. Exato. Em um só dia, conferi 2 filmes e meio – o outro, peguei de arrebaba - e todos tinham uma viúva no meio. Todos. E, por sinal, eram viúvas bonitonas, viu? Nada de preto murcho.

O primeiro filme da saga da viuvez foi “Coisas Que Perdemos no Caminho”, com a Halle Berry, o Benício Del Toro e o eterno agente Mulder, o David Duchovny. Deu para sacar que a viúva da vez é a Halle, certo? E o presuntão foi o David. O Benício DelToro é o amigo legal que ajuda a segurar a onda, outro personagem importante na saga da viuvez. É quase o Ricardão do Sétimo Dia, que chega para aplacar a “saudade” da viúva novata.

Depois de ver a menina Berry e o charmosão El Touro – ok, Del Toro, muito bem encarnados, por sinal, eu tenho que me aguentar com o Gerard Butler e a Hillary Swank em “PS: Eu Te Amo”. Antes de tudo, preciso dizer: um marido desse, eu queria até morto. Dito. Pois bem, esse foi o segundo karma de viúva do dia. E foi quando percebi que os mortos poderiam estar voltando do além para as telonas. Dois filmes em cartaz e ambos com caixão e vela preta no meio? Eu, hein…

Em seguida, na maratona do audiovisual, por acaso começo a assistir “Sal de Prata”, filme nacional que fala de um roteirista que morreu, deixando como viúva a Cátia, personagem da Maria Fernanda Cândido. É mole? Nesse caso, tinha sim um amigo garotão, mas ele não ganhou lá muito espaço não. Quem aparecia mais era a possível amante do falecido, interpretada pela Camila Pitanga. Notaram que a moça aí tem uma “vibe” para esse tipo de papel, não é?

Cortando o ar de humor negro – literalmente negro, devo dizer que achei simpática a coincidência. E não, não acho que seja uma tendência. Mas, nunca se sabe… Sei que os três filmes levam bem o lance da viúva, que, por sinal, é uma personagem que pode dar muito pano para manga.

Fiquei surpresa com a atuação da Halle Berry. Determinadas cenas dela fazem você querer abraçar a criatura ao lado e chorar junto, como se realmente tivesse perdido alguém amado. Algo como a sua outra metade. A menina tem talento, só precisa ser bem dirigida e produzida. Já sobre o Benício Del Toro nem preciso dar muitas explicações. Ele ainda tem um borogodó latente e consegue fazer qualquer personagem crescer. Fora que tem duas coisinhas pequenas no filme que me fazem lembrar o Ben Harper na questão mais capilar de se dizer.

Depois da overdose de luto, fiquei pensando em mil formas de como contar a história de uma viúva. Certamente, é um personagem cheio de camadas e sentimentos que podem ser explorados de diversas formas, desde a mais clichê até a mais subjetiva. Fico tentando me lembrar agora de outros filmes que também trazem uma viúva como protagonista. Alguém arrisca?

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