Massa significa o mesmo que multidão? Público acaba sendo uma massa específica ou minoria? Quem é que vai ao cinema afinal: o público, a massa ou a multidão? Ou ninguém? Esses são alguns conceitos usados diariamente. Mas quem disse que eles são tão simples quanto aparentam?
Ultimamente, tenho vivido no mundo das teorias da comunicação. Influências da faculdade, perdoem! Mas vejo tanto coisa interessante e intrigante todo dia, que fico com uma vontade louca de traduzir para o ‘coloquial’ e relacionar com cinema, para finalmente transformar numa coluna semanal.
Dessa vez foi a confusão comum entre conceitos que me levou a escrever. Na coluna de hoje vou trabalhar com quatro conceitos: público, multidão, massa e minoria. Parecem sinônimos? Antagônicos? Farinha do mesmo saco? Neologismo? Nada com nada? Palavrão? Quem dá mais? Quem dá mais?
Ok. Para começo de conversa, vamos por tudo nos lugares corretos. Público fica perto de multidão. Massa fica perto de minoria. Vou trabalhar em duplas e depois complicar tudo, tá? Na verdade, nem vai complicar tanto. Em colunas passadas, já falei sobre público e sobre multidão. Então, quem já leu, tem idéia do que pode ser dito aqui.
Pois bem. Multidão. Multidão é a torcida do Flamengo. É a fila na estréia de Star Wars. É o engarrafamento nas avenidas na hora do rush. Algo daquele tipo que vemos em ‘Encontros e Desencontros’, ‘Coração Valente’… É isso tudo e mais qualquer coisa que você imaginar visualmente que tenha uma ‘ruma’ de gente. Isso mesmo. Multidão é um conceito quantitativo e visual. Multidão só existe com uma ‘cambada’ junta, naquele momento por motivos comuns. Por exemplo, uma multidão, composta de diversos indivíduos diferentes, se junta para reclamar o preço da entrada do cinema. Um número grande de pessoas juntas em prol de uma idéia, necessariamente tendo contato físico. Deu pra entender? Isso é uma multidão. E você só participa de uma por cada vez. A não seja feito de uma massa que possa estar em dois lugares ao mesmo tempo!
Relacionando ao cinema, pergunto: e multidão vai ao cinema? Vai sim, ora! Ela só não ‘vai’. Ela se ‘forma’ no cinema. Quando estamos assistindo a um filme, vemos vários pessoas na mesma sala vendo o mesmo filme. É um número considerado, certo? Então, forma-se uma multidão. Obviamente, estou falando de uma sessão normal, não numa sessão de 13:30 da tarde para ver o filme da Xuxa que insiste em aperrear nossas cabeças!
Mas nessa mesma sessão que se forma uma multidão, encontra-se também um público. Complicou? Calma, é fácil. Multidão é algo físico e quantitativo, e essa quantidade chega a ter um limite. Duvido que um dia todo mundo do planeta se junte na mesma multidão! Se chover, nada feito. E se não houver liderança, tudo se fragmenta. Logo, o número da multidão é limitado. Já o número do público é ilimitado! Pense num caba quente! Ele é ilimitado pelo fato de que não exige contato físico nem pessoal. Você tem certo interesse e procura aquilo que satisfaça sua curiosidade. Você gosta de cinema, então, vai conferir os últimos lançamentos. Assim como você pode gostar apenas de dramas e fazer parte do público de drama, ou do público de suspense… Você vê isso no filme ‘O Show de Truman’, que inclusive eu já estudei pelo behaviorismo em colunas passadas. Todas aquelas pessoas, que não se conhecem, fazem parte do mesmo público: o público do reality show da vida de Truman.
Logo, conclui-se: você pode fazer parte de vários públicos, mas apenas de uma multidão por vez. Inclusive, uma multidão pode ter vários públicos contidos. Agora, massa e minoria. Será que tem algo com quantidade? Status? Competência? Qualidade? Vamos ver!
Massa e minoria tem a ver com qualidade. São conceitos qualitativos. Diz respeito ao tipo de homem. E na verdade, esse conceito surgiu com a modernidade, fermentado com todo sistema de mídia. Os estudiosos da comunicação e da sociologia dizem que a sociedade é composta por esses dois fatores – massa e minoria – e que eles diferenciam o comportamento do homem. A minoria procura desafios, procura destacar-se. A massa ‘segue com a boiada’. Daí vem a cultura de massa e etc tal. A massa é composta pelo homem-médio, pelo homem-genérico, por homens que não pretendem ser especiais nem atribuem a si algum valor. Não que a pessoa seja medíocre. Ela apenas prefere ficar na dela e seguir com a maioria. Oposto a isso vem a minoria, com homens que não petulantes, mas que são determinados a diferenciar-se. Conseqüentemente, essas pessoas obtém mais conhecimento e posição, como por exemplo, os políticos.
Tem gente que assiste qualquer filme e que engole qualquer coisa que venha de Hollywood. Tem gente que desenvolve senso critico e prefere ver produções mais elaboradas. São os tipos de pessoas que definem a massa e a minoria.
Enfim, e a massa e a minoria vão ao cinema? Vão sim! E formam multidões e formam públicos também. Na verdade, massa e minoria não é algo consciente. Você não escolhe. Você simplesmente passa a ser de acordo com seu comportamento. E nem por isso vai ser melhor ou pior que alguém. Obviamente, a sistema que vivemos hoje torce para que cada vez mais a massa aumente, por que assim, haverá menos critica e maior será a facilidade de persuasão.
Enfim, todo mundo vai ao cinema. Primeiro, como individuo. Depois, podemos sair classificando nos quesitos de grupo social, classe de homem, classe social… Uma infinidade de coisa. Não é nada absoluto. Nem tampouco tudo é relativo. Digamos que seja uma gelatina!
O importante é saber que os conceitos não são tão simples assim. Importante também é desenvolver senso crítico e saber o que está se fazendo e para onde estão nos guiando. Se o filme que você vai ver é bom ou não, quem diz é você. É a sua subjetividade que faz de você uma pessoa melhor, não a marca que você usa ou o cinema que você freqüenta. Acho que na próxima coluna vou falar de rótulos. Mania besta que o povo tem de rotular tudo… Ah, e povo também é conceito complexo! Mas fica para a próxima!
E-mail para comentários: mairasuspiro@cinemacomrapadura.com.br
Eu tenho um vício do qual não consigo largar, e de fato, nem quero! Tenho uma mania incontida de aprender coisas novas, mas de preferência, coisas bem novas mesmo, nada que qualquer um tope no meio da rua, mas algo que exige uma pouco de boa vontade e que seja privilégio dos que buscam conhecimento por livre e espontânea vontade.
Vivendo num mundo cada vez mais capitalista, pelo menos uma coisa eu aprendi: se tá vendendo é por que o consumidor quer. Logo, uma coisa qualquer que não caia no gosto, ou melhor, no bolso do povo, não vai ser produzido com tanta velocidade quanto algo que esteja na crista da onda. Correto?
De hoje em diante, eu sou uma pessoa mais culta! Sim, sim, sim. Adoro quando aprendo algo novo, principalmente quando é algo que aparentava ser tão elementar e acaba se tornando algo super interessante e complexo. Melhor ainda, só quando consigo relacionar a cinema e fazer mais uma coluna!
Talvez pela divulgação menor que a dos outros. Talvez pela mania que temos de só valorizar o que vem de fora. Talvez por que alguns não gostem mesmo. Talvez por que talvez… O motivo pelo qual venho bater o pé no chão aqui, ou melhor, a mão do teclado, é pela pouca valorização popular do nosso cinema brasileiro. Evidentemente, haverá filmes que não cairão no gosto, mas aí, a criatura não vai gostar por causa do roteiro, ou do personagem, ou do que quer que seja! Mas não dirá: não gostei por que é filme nacional, só podia ser nacional mesmo! Não sei se você nota, mas há uma grande diferença.
Tenho algumas perguntas a fazer. Acabei me colocando como psicóloga do rolo de filme, das pipocas, da telona, das poltronas. E tomando o lado deles, pergunto: por que as pessoas vão ao cinema?
Quem nunca ouviu falar da enorme fábrica de chocolate do senhor Wonka? Sim, aquele carinha de chapéu engraçado e criatividade descontrolada. Certamente, a maioria assistiu ao clássico de 1971, ‘Willy Wonka e a Fábrica de Chocolate’, com Gene Wilder como protagonista. Assistiu sim, nem que fosse na Sessão da Tarde da Globo!
Dramas. Emoções. Identificação. Quem nunca assistiu a um filme e sentiu isso? Sempre escuto alguém aqui e acolá dizendo que o filme tal influenciou naquilo, foi igual quilo ou fez alguém estampar reações. Eu vivo tendo isso. E certamente, esse é um dos grandes motivos do meu gosto pelo cinema. Odeio filmes que não mexem comigo. E por isso agradeço ao Meliès por ter expandido os horizontes da telona.