Biografias

Publicado em: 19-09-2007 @ 12:06 am 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Em um mundo onde a curiosidade e o interesse pela vida alheia se uniram para mover mídias e atitudes, existe um estilo de filme que costuma cair bem no contexto: as biografias. Quem não curtiria ver uma personalidade “descascada” na telona ou conhecer alguém que nunca ouviu falar em um filme bacana? Sempre alvo de interesses e polêmicas, as biografias formam uma lista longa, com diferentes estilos e intenções.

Lendo uma entrevista com o cantor nova-iorquino Rufus Wainwright, certa citação do músico do pop melancólico me chamou a atenção. “Eu prefiro as biografias. Acho a vida real muito mais interessante que a ficção. Sempre fico chocado com as biografias.” Nesse exato momento, parece que o “desktop” da minha cabeça foi acionado e todas as biografias que eu já tinha visto ou ouvido falar começaram a passar em flashes na minha memória. Fiquei pensando sobre o que o Rufus disse e tive que concordar: a vida real realmente é muito mais interessante, principalmente se essa vida for de alguém notório - visto que nem todos vivem: alguns só sobrevivem mesmo. Afinal de contas, em colunas anteriores, eu mesma afirmei que nós somos a matéria-prima bruta da realidade do cinema. As biografias só explicitam isso, transformando uma figura real em personagem da própria vida em uma cine-biografia.

Para meu espanto duplo, rapidamente consegui lembrar de umas vinte biografias. E sim, espanto duplo porque eu e minha memória não andamos muito em sintonia e nunca acho que lembrarei fácil de nada. Mas o que interessa mesmo é que as biografias são muitas. E diferentes. Temos documentários como “Cartola“, do Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, que resgatam trechos antigos de cenas registradas e depoimentos e constroem a partir daí a imagem da “pessoa-personagem”. Como também temos filmes que retratam a tragetória do cidadão, como em “Dois Filhos de Francisco“, que mostra a saga da dupla sertaneja até alcançarem a início do seu sucesso. E se estamos falando dos nacionais, lembremos de “Olga” e “Zuzu Angel“, que mostram o drama vivido por duas grandes mulheres brasileiras. E só para fechar o parágrafo verde-amarelo, lembrei de “Cazuza“, dono de uma música bacana, “Só Pro Meu Prazer”, que fala de “maior ficção” - porque a intertextualidade do cinema com o vida é demais. Os últimos três filmes, ao invés de apelarem para o documental, seguem pela trilha do narrativo, recriando a suposta realidade da pessoa-personagem.

E sim, suposta. No final das contas, toda biografia é tendenciosa. Podemos colocar a pessoa-personagem no céu ou jogá-la para queimar no mármore do inferno. Já foi falado aqui sobre o poder da edição, certo? Mas, seguinte: ser tendencioso é uma coisa. Mostrar o outro lado é outra. Por exemplo, temos aquele filme “A Queda”, que recria as horas finais de Hitler. Sim, ele era um “menino ruim”, mas o filme mostrou um lado mais humano dele, um lado com o qual não estávamos nem um pouco acostumados a encarar. Era sensível. E o mais óbvio - e mais fácil - de se escancarar sobre Hitler era sua “monstruosidade”. Então, o filme está “errado” por isso? Por mostrar um lado diferente? Claro que não. Aquilo ali pode até ser verdade, mas não é por isso que vamos agora nos arrepender de ter xingado a mãe do nazista-chefe e achar que ele fez tudo com boas intenções. Apenas o estigma da “unilateralidade do mal” foi quebrado e nós temos que ser conscientes e encarar Hitler como um homem, antes de tudo. “A Queda” apenas mostrou o lado que não estávamos acostumados a perceber, e esse é um dos pontos que mais me agrada nas biografias.

Temos ainda aquelas biografias que chegam com um traço mais lírico ou experimentalista, como “Alexandre“, de Oliver Stone. Se são boas ou não, já sou suspeita a falar, principalmente quando eu citei esse filme como “culpado” por uma das minhas grandes frustrações (vulgo, brochadas) no cinema.

Interessante também quando a vida da “pessoa-personagem” realmente se desenvolve como uma história, sem ter aquela sensação de foco através da qual você praticamente vê uma setinha apontada na cabeça do infeliz, dizendo: esse filme é sobre mim!Exemplos: “Capote“, “A Lista de Schindler” e “Uma Mente Brilhante“. Você se envolve com o filme, e de segundo plano, conhece a vida daquela criatura notória. Exemplos de biografias da “setinha-acessa”? “Elvis“, “Ray“, “O Aviador“, “The Doors“. E nem por isso são filmes ruins. De jeito nenhum. Só podem ser extremamente longos, como é o caso de “O Aviador” e “Ray“, sem lá tanta justificativa para isso. Aproveitando a deixa, ainda arrisco dizer que a biografia deve mostrar a vida da pessoa, os fatos marcantes que determinaram porque aquela criatura teve destaque, mas não necessariamente, em uma biografia, devemos contar tudo e mostrar tudo. Parece uma sindrome de “24Horas”. E se eu não tenho tempo nem para a minha vida, lá vou querer passar cinco horas para ver a de outro alguém? Ou seja um diretor muito estupendo ou não abuse da minha paciência e boa-vontade.

Não é ser fácil fazer uma biografia. De jeito nenhum. Ainda mais se a pessoa ainda estiver viva. Fica difícil, porque ela tanto pode querer “meter o bedelho” em tudo, como pode odiar como foi retratada e vir com mil processos atrás. Outro risco das biografias é a tendência de “endeusar”. É até compreensível, já que se você faz um filme sobre a vida de alguém, só isso já dá bastante pano pra manga para engrandencimentos e homenagens � criatura. É dificil ainda, porque ser imparcial é complicado. É difícil, porém sempre instigante.

Entre as minhas favoritas está “Modigliani“. O filme traz o Andy Garcia vivendo o último ano de vida do pintor italiano Amedeo Modigliani, contemporâneo de Pablo Picasso e Diego Riviera. O filme é lindo. E o subtítulo “paixão pela vida” está impregnado em todas as luzes da película. Se eu tivesse a oportunidade de ter uma biografia, gostaria que a minha vida fosse registrada com a mesma sensibilidade com a qual registraram a de Modigliani nesse filme. “Frida Kahlo” foi outro que me agradou, mas nem conta pipoca perto de Modi. E se tem uma que certamente vai ser tornar uma grande favorita, é a biografia do Bob Dylan que está para chegar, recentemente lançada em Veneza e que na coluna passada bateu ponto como “filme que arrasa nas preliminares”. “I´m Not There“: um filme sobre um grande ícone da música com atores sensacionais interpretando diferentes fases da sua vida? Quase impossível não gostar.

E se for para lembrar mais algumas biografias bacanas, lembrem de “Amadeus“, que conta a vida do gênio da música Mozart, “Johnny e June“, que traz a vida do dono da voz belíssima, Johnny Cash. E se eu pudesse escolher alguma biografia para ser filmada? As óbvias: Madonna e Chico Buarque. Seria bacana também algo sobre o Hitchcock ou o Andy Warhol… Ou o Orson Welles e o Glauber Rocha. Se bem que legal mesmo se fosse sobre mim, certo? Brincadeirinha. Mas vamos admitir que seria interessante se cada um de nós pudesse ver como ficaria a própria vida na telona…

Preliminares

Publicado em: 11-09-2007 @ 2:50 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Alto lá! Não falarei daquele-assunto-que-não-ouso-dizer-o-nome aqui. Pelo menos não agora… O tema da coluna dessa semana é sobre a expectativa que nós, humildes cinéfilos, criamos durante a espera de algum filme importante. No final das contas, é praticamente uma relação que termina ou com uma explosão satisfação alcançada ou uma frustradíssima brochada. E eu digo logo que aqui vai um desabafo.

Em colunas anteriores, eu expliquei por A mais B o motivo de detestar criar expectativas para qualquer coisa. Odeio o sentimento de frustração. Fora que colocar o emocional no meio, complica uma crítica técnica do filme, e eu gosto de ter as duas na mão. Afinal, o filme pode ser um lixo tecnicamente, mas me agradar pessoalmente por algum motivo absurdo. Ou pode ser muito bom, porém não provocar lá uma grande identificação, e nem por isso será um filme indigno. Pois bem. Eu fui bem sucedida evitando criar expectativas, em ignorar as notícias, fotos, teasers, trailers o máximo possível e só chegar no dia da estréia e ponto final. Sem mais delongas. E estava muito feliz assim, sabe? Até o dia em que ouvi falar de dois filmes que acabaram com o meu sossêgo: “The Dark Night” e “I´m Not There”.

Alguém pode se perguntar quem foi que me deixou traumatizada. E se não perguntaram, vão saber mesmo não querendo. Foi culpa do “Alexandre” e do Oliver Stone. Eu passei meus 17 anos dedicada a ler sobre Júlio César e Alexandre, O Grande. Aí vem a notícia de que o menino Stone está fazendo um filme sobre o Alex. É óbvio que eu fiquei empolgada, imaginando mil coisas. Descobri que era com o Colin Farrel, Jared Leto e a Angelina Jolie. “Bem, pelo menos, vai ser bonito o filme, né?”. Dia da estréia, estou lá. Brochada. Nem Viagra dava jeito, meus caros. Eu sei que tecnicamente o filme tem seus pontos altos, mas eu nem sequer lembro. Fiquei tão arrasada com a confusão que o diretor fez ali, com as viagens históricas que não tinham relevância, com aquele biscate do Farrel querendo ser gente… Sim, um bonitinho, porém, ordinário. Meu emocional falou mais alto e a relação entre eu e “Alexandre” terminou bem mal. Nunca mais nos vimos depois disso, por mais que eu ache até prudente dar uma chance a ele novamente, com a poeira baixa e os nervos mais contidos. Mas foi ali, no dia da estréia de “Alexandre”, que eu decidi batendo os calcanhares nas escadas de saída da sala, que nunca mais criaria expectativa. Ninguém merece uma brochada.

O último filme que me fez sofrer de expectativa foi “300”. E mesmo assim, foi um relacionamento curto, porém muito proveitoso e cheio de bons momentos. Já sabia da existência desses 300 mocinhos, mas só alguns poucos meses antes da estréia da produção foi que resolvi dar um tratamento especial a eles. O que foi super saudável e positivo para mim. Claro, é bom ter umas pulgas atrás da orelha, ainda mais quando são “pulgas” vindas das mãos de Frank Miller, com abdomens magníficos e Gerard Butler no negócio. E o fim do relacionamento foi de satisfações múltiplas, com direito a segunda rodada. Foi ótimo.

Enfim, fiquei bem. Até ouvir essa brincadeira aí de que o Chistopher Nolan ia lançar o outro Batman. Ai, meu santo lanterninha, se eu já me acabei vendo “Batman Begins” e fiquei uma semana elétrica que nem o Switchy do “Deu A Louca na Chapeuzinho”, imagine essa nova estética para o morcegão que ele está preparando. E isso ainda é o de menos, minha gente. Eu sou fã do Christian Bale. Agradeço muito ele não ter morrido de ataque cardíaco quando saiu de 46kg para 100kg em seis meses para sair do estado-etiópia de “O Operário” e entrar no uniforme sensacional do meu herói favorito. O rapaz ainda vai repetir a dose? E ao lado do Heath Ledger sendo o coringa mais sensacional desde o Jack Nicholson dirigido pelo Tim Burton? Eita, coração…

Eu choro sangue com cada noticia nova que os Rapaduras postam. E meu pobre coração fica sambando toda vez que rola uma foto nova, nem que seja uma desfocada e não revele nada exatamente. Acho que todo mundo já deve um caso assim, né? Cada novidade chega como uma preliminar para o ponto G da estréia. E é mais legal ainda quando a noticia ou a foto é grande. Dá mais vontade de ver. Estou mentindo? Muito bom ter qualidade e tamanho nessas preliminares cinéfilas, porque enfim, também não adianta uma novidade enorme se não tem pontos legais e uma bomba curta deixa muito a desejar.

Se tem uma coisa que me consola é o fato de saber que eu não sou apenas eu que compartilho dessa ansiedade. Até porque, na coluna, eu estou falando dos filmes que me tiraram o juízo, mas sei que tem trilogia por ai que poderia armar uma revolução por tanta fidelidade dos fãs – monogamia deveria ainda existir em alguma setor desse mundo moderno. Inúmeros elfos, jedis, bruxinhos e piratas procurando saber tudo sobre o projeto eleito para o pedestal do cinema.

E como um é pouco, vem o Todd Haynes dirigir uma pérola sobre um cantor que muito admiro, mesmo que recentemente. Haynes já tinha me partido no meio quando dirigiu o filme ícone do Glam Rock, “Velvet Goldmine” (1998) que traz Ewan McGregor, Christian Bale (de novo!) e Jonhathan Rhys-Meyers interpretando papéis que fazem referências gritantes aos grandes nomes do glam: David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop. É mole? Não, é rapadura mesmo.

Pois é. Como se não bastasse, ele lançou recentemente em Veneza “I´m Not There”, uma estilo de biografia super bem bolada sobre o Bob Dylan – e melhor de tudo: aprovada por ele. Só por ser sobre o Dylan, já tiraria meu sono. Aí, eu, curiosa, resolvo saber mais. E aí? E aí que tem, mais uma vez, o Christian Bale, meu karma favorito, e a minha musa Cate Blanchett. E ela, por sinal, virou mais musa ainda agora que ganhou o prêmio de melhor atriz por seu desempenho como Bob Dylan, representando uma de suas fases. E sim, ela faz o papel de Bob Dylan, porque ela tem culhões. Se mp3 arranhasse, as minhas do Bob Dylan estariam mais furadas do que carro de perseguição em filme de ação com o John McLane.

E o medo agora? E se rolar uma brochada? Trauma. Muitos traumas. E eu escreverei todas as minhas colunas de uma clínica de reabilitação – porque agora virou moda, né? Digam que vocês também tem traumas e sofrem de amores platônicos com filmes que estão para chegar. Essas relações a longa distância acabam com a gente, não é verdade? Mas é bom. Todo mundo gosta de uma preliminar bem feita. E negócios arriscados existem aos montes por aí, ótimas pedidas para quebrar a monotonia.

Telinha ou Telona?

Publicado em: 03-09-2007 @ 4:07 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Tamanho é documento? Digo, o tamanho da tela ainda provoca muita diferença? E são as mesmas diferenças de antes? Afinal de contas, a telinha da TV e a telona do Cinema são concorrentes ou complementares? Ou não são nem farinha do mesmo saco? Abram os olhos, sem piadinhas com o “Vanilla Sky”, porque o mercado televisivo e o cinematográfico estão passando por mudanças significativas.

Antes, era notória a diferença entre TV e Cinema. Agora, essa linha fica cada vez mais tênue. E não acho que seja para provocar uma fusão, mas sim, uma mudança de formatos e estilos. Estamos vendo uma série de trocas, de mesclas, de adaptações nos dois mercados. Fico, então, pensando onde essa “gelatina” toda vai dar.

Antes, a escadinha era TV-Cinema. Hoje, não mais. Mas também não me arrisco a dizer que ela foi invertida. Acredito mesmo é que temos dois estilos, dois mercados. Dois paralelos estão se formando, com inúmeras possibilidades de experiências e influências. E só temos a ganhar. Acredito ainda que a TV esteja sofrendo mudanças mais notórias, e logo, tendo mais destaque, justamente porque o Cinema sempre teve um âmbito maior, e logo, um poder de influência muito maior. Não é uma questão de ganhar e engolis, mas sim de criar e adaptar. No final das contas, ninguém sabe ainda exatamente pesar essa balança.

Temos grandes nomes do Cinema que desenvolvem projetos da TV. Francis Ford Coppola, o ícone da trilogia “O Poderoso Chefão” (a melhor, na minha opinião) e do inquietante “Apocalypse Now”, está produzindo a série “The 4400”. O homem mais rico da TV, Jerry Bruckheimer, além de trabalhar no bem-sucedido “C.S.I”, tem o dedo no meio do projeto milionário “Piratas do Caribe”. Steven Spielberg, o diretor do E.T. mais famoso do século, levou suas idéias extraterrestres para as séries “Taken” e “Band of Brothers”. E, abre aspas: vale lembrar da intertextualidade entre o cinema e a TV com o nome de Steven, quando ele era bastante citado pelo personagem bonitinho, mas ordinário Dawson Lerry, na série juvenil “Dawson´s Creek”. Fecha aspas. Tom Hanks, o eterno Forrest Gump, além de ter dirigido o filme “The Wonders” e produzido “O Náufrago”, agora faz polêmica na TV com o seriado “Big Love”. E o Ridley Scott, o famoso lá por “Blade Runner” e “Gladiador”, produz a série “Numb3rs”. Última citação e a mais importante: Quentin Taratino, minha gente. Meu querido Quentin mandou bem no episódio “Grave Danger” da série “C.S.I”, levando a audiência do seriado s alturas. Ok. Já basta, certo? Deu para listar alguns dos grandes nomes da Sétima Arte com projetos no mundo televisivo. Então, eu pergunto: isso limita suas atuações no Cinema? Será? Acredito que só os menos iluminados pensem assim. Não é anulação. É soma. Vejo aí sim, uma valiosa oportunidade de expansão.

Robert Mckee, um dos mais renomados professores de cinema dos EUA, diz que “os melhores escritores da América estão migrando para a TV”. Prova disso foi a ascensão de séries como “Sex and the City” e “Família Soprano”, duas das minhas favoritas, por sinal, principalmente a primeira. Ao mesmo tempo, séries que tem muito sucesso, logo são cotadas para virar filmes. “Sex and the City” tem projeto para o cinema, assim como “24 Horas”. E a animação dos “Simpsons” já está aí, estourando em inúmeras salas de exibição. Isso não mostra uma conexão entre os dois mundos? Acredito que sim. Não é concorrência, é complementariedade. Motivos diferentes, estruturas diferentes, respostas diferentes.

O cinema é mais caro. É mais demorado. Mas em comparação TV, assume ainda um status de luxo, enquanto a TV é produto mais acessível, mais rápido, mais comum. O retorno do público é imediato, logo, a TV é mais volátil. Um mercado ótimo para experimentações. Se antes os diretores e atores iam ao teatro para “arriscar”, acho que hoje eles estão indo para a TV, que “arrebata” um público maior e mais diversificado. Esse talvez possa ser um dos motivos que atraem roteiristas e até atores bem-sucedidos de Hollywood para a telinha.

E outra. Infelizmente, no cinema, temos muito mais papéis masculinos que femininos. Eis outro motivo pelo qual grandes atrizes estão fechando contratos com emissoras de TV. Exemplos: Glenn Close (”Ligações Perigosas”) e Geenna Davis (”Thelma & Louise”). Duas atrizes de peso, ambas indicadas ao Oscar mais de uma vez. Entretando, nunca mais tinham conseguido um papel nos cinemas (parece que isso vem sendo proeza da Meryl Streep mesmo). Resultado? Glenn Close trabalhará na série “Damages” e Geenna Davis estrelou a série “Commander in Chie” com notório sucesso. E se de cá para lá funciona, de lá para cá também. Atrizes com pouca expressão no cinema conquistaram grande fama através de séries bem sucedidas, como é o caso da atriz Sandra Oh (”Sideways”) que interpreta a Christina em “Grey´s Anatomy”. Mas também tem atriz que dá um show na série e paga um mico no cinema, como foi o caso da minha querida Sarah Jessica Parker, que protagonizou a série “Sex and the City”.

Mas não comecem a pensar que tem um lance sexista na história. Kieth Sutherland, o famoso Jack Bauer da série “24 Horas”, está fazendo um enorme sucesso. Mas isso se deve exclusivamente série, visto que sua carreira no cinema foi inexpressiva até então.

Não acho que vá existir um “caminho” obrigatório entre os dois mercados. Tem gente que só vai estar na TV. Tem gente que só vai aparecer no Cinema. Por opção. E aptidão também, claro. Assim como temos atores hoje que só querem saber de teatro, como o Kevin Spacey (para a minha tristeza profunda…).

Acho que TV e Cinema perderam aquela característica opositória de valor e passaram a ganhar espaço para a produção, sem muita preocupação com richas. Esse papo de apocalipse da Sétima Arte não me convence. E nem acho que exista desmerecimento para um lado nem para o outro. São opções. E quem acaba saindo ganhando com isso somos nós, públicos, que temos mais oportunidades de conferir gente boa trabalhando, de formas novas e diferentes, em dois mercados acessíveis e frequentados pela maioria.

Você, personagem

Publicado em: 27-08-2007 @ 9:31 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Quem nunca se identificou com um personagem? Quem nunca se espantou com a semelhança entre você mesmo e uma figura dentro de determinado filme? Quem nunca achou ter dito algo parecido com o diálogo de tal filme? Quem nunca imaginou ou se inspirou em determinado personagem? Quem, quem, quem?

Filmes com personagens fortes, acredito eu, tendem a provocar uma maior empatia com o público, principalmente se colocamos o cinema como uma imitação da vida, uma reprodução dela, de forma livre, na telona. Exemplos? Joel e Clementine, do várias vezes aqui citado “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Jack Twist, de “Brokeback Mountain”. Alice Ayres, de “Closer” e os outros três também. Rick, de “Casablanca”. James Bond, o homem do 007. David Aames, de “Vanilla Sky”. Ah, são inúmeros os personagens que cativaram o público, que tornaram-se tão importantes – ou até mais – que os próprios filmes e ganharam até comunidades no Orkut. Depende de cada um, mas acredito que quem gosta mesmo de cinema, deve ter seus personagens favoritos e seus momentos de êxtase profundo ao se imaginar na pele de algum deles.

Há quem diga que buscamos o cinema para nos entreter, para viajarmos por mundos e nos projetarmos em situações que não poderíamos viver facilmente na realidade. E, se realmente buscamos isso (não só isso, mas também isso), fica muito mais fácil conseguir essa proeza se houver um personagem que seja como nós. Ou como gostaríamos de ser.

Lendo um comentário no meu blog, achei o assunto para a coluna dessa semana. Falando sobre um filme com o qual eu muito me identificava e de um personagem que vira e mexe aparece nas minhas citações, parei e pensei: afinal de contas, quem são os personagens? Essas “criaturas”, criadas em papéis em branco e projetadas em grandes telas nos encantam, irritam, consolam, divertem. É como se eles fossem um elo entre a gente, público real, e a virtualidade do cinema.

Mas, pensando ainda mais um pouco: personagens só existem no cinema? Nas grandes expressões de arte? Aproveito e pego a pergunta clássica do clichê existencial: afinal de contas, de onde vêm os personagens?

Bem, eu acho que nós somos os grandes personagens. Somos nós que inspiramos os personagens do cinema e as situações das nossas vidas sugerem criações para roteiros e o que mais puder. Nós somos a matéria bruta da sétima arte. Por isso mesmo nos identificamos tanto com certos personagens. Justamente porque eles são feitos a partir de sensações que alguém, como nós, um dia, sentiu.

E não só no cinema podemos perceber que nós merecemos crédito como personagens em nossas próprias vidas. Chico Buarque, na letra da música “Ela Faz Cinema”, questiona: serei eu meramente mais um personagem efêmero da sua trama? Ora pois, nós acabamos sendo personagens de inúmeras tramas, que variam de romance, drama, ação, suspense. Seja em um relacionamento, seja em uma intriga entre amigos, seja em uma aventura durante uma viagem, seja em um assalto no meio da rua. Ana Carolina em “A Câmera que Filma os Dias” fala: a luz que eu vi naquele dia escuro e ruim, era a luz por encomenda para te filme, teus gestos solitários pela lente sem fim, e lento o tempo parecia desfocar nosso enredo. Sim, sim, porque em algumas situações das nossas vidas, parece que tudo conspirava para uma “seqüência” de filme. E há quem ainda diga que tem a impressão de viver em um tipo de “show de Truman”…

Pensando assim, chega até a ser divertido. Não sei vocês, mas eu acho mais que sensacional quando vejo no cinema alguma situação semelhante ou um personagem que em muito parece comigo. E é divertido também imaginar que de situações corriqueiras da realidade, idéias boas são geradas para algum roteiro. O único detalhe importante é não esquecer que, se for para levar a sério que nós realmente somos a fonte de inspiração disso tudo, lembre-se de que você é o protagonista da sua história, e não um figurante qualquer. Portanto, aproveite a “fama” e enquadre bem o foco, porque o público mais exigente do seu “filme” é você mesmo. E nesse caso, não rola edição nem nova gravação.

“O Poder da Edição”

Publicado em: 13-08-2007 @ 9:51 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Já venho falando nas últimas colunas sobre os requisitos que um bom filme deve ter. Falei do roteiro e agora lembrei de outro: a edição. Afinal de contas, você pode ter um ótimo elenco, um enredo bacana e tudo acertado. Mas se o editor não tiver um bom timming e ainda estiver perdido na década de 80, muito do filme (ou ele por inteiro) pode ir por água abaixo.

Edição é algo espetacular. Eu, particularmente, acho super divertido. Você tem um mundo de possibilidades e sensações que pode criar através de efeitos e imagens. E ela está presente em tudo que for relacionado a audiovisual nos dias de hoje: clipes, comerciais, filmes, vinhetas, trailers… Acho que quanto menor o tempo, mais importante a edição se torna, porque você tem menos tempo para causar uma ótima impressão.

Seguindo por essa vertente e pegando como “objeto de estudo” dessa semana os citados trailers, decidi escrever a coluna dessa semana após conferir uma série de “fake-trailers” que vi no YouTube. São vários trailers de filmes conhecidos nossos, feitos com a intenção de vender uma idéia completamente diferente do original. Super bem feito, extremamente convincente e ótimo para exemplificar o que digo ser “o poder da edição”, vou mostrar alguns links para que vocês possam conferir também.

O Iluminado: Clássico de Stanley Kubrick, adaptado do livro de Stephen King, o filme em questão é tenso e passa longe de dramas pastelões americanos. Eis que o “fake-trailer” de “O Iluminado” consegue ir ao extremo oposto e sugerir uma história fofa, cheia de emoção paterna e bons momentos. Desde a voz do narrador até as cenas perfeitamente bem escolhidas e montadas, o trailer convence demais e deixa muita gente boquiaberta, além de enganar direitinho quem não tiver visto o filme. E diga-se de passagem: quem não viu, merece ser pregado uma peça mesmo!

Link: “O Iluminado” em versão serelepe

Mary Poppins: Quem não lembra daquela babá simpática e bonita, cheia de truques legais que animavam as criancinhas afobadas e mimadas? Eu tinha esse filme em VHS, gente. Assistia quando era um protótipo de pessoa, morta de feliz, doida para ter uma babá “a la Mary Poppins”. Eis que eu vejo o “fake-trailer” do filme e todas as minhas doces lembranças, felizes e nostálgicas, somem repentinamente. A re-edição do trailer traz uma babá sombria, um filme de suspense, de colocar qualquer criança “pimentinha” nos eixos. A inserção das legendas deu todo um ar maligno e o áudio brilhante, tanto no timing quanto nas notas para dar aquele susto. Confiram vocês mesmos!

Link: Mary “Scary” Poppins

Top Gun: Aqui, descobrimos que “O Segredo de Brokeback Mountain” não foi o primeiro filme clichê americano a ser enturmado pela mídia. Na verdade, a re-edição do trailer de “Top Gun” mostra que antes dos cowboys vieram os mocinhos da aeronáutica norte-americana. Uh! Com direito a olhares comprometedores e tudo mais. Val Kilmer e Tom Cruise até que formam um casal simpático, tirando a cor brega de cabelo do Kilmer.

Link: O segredo de “Top Gun”

Clube da Luta: E já que citei o casal passado, vou aproveitar para falar da semelhança invertida em “Clube da Luta”. Só que aqui não é tão romântico quanto o passado. A obsessão e a intensidade do filme original continuam, só que focadas (focadas mesmo) em outra coisa. Vale ressaltar o final do “fake-trailer”, quando o editor usa um sabonete, mais que conveniente, para divulgar o “fake-movie”. Nossa, muito bom. Brad Pitt e Edward Norton, dois dos meus atores favoritos, em uma versão que eu adoraria ver!

Link: Um Clube diferente do da Luta

Táxi Driver: Essa é para rir. E para pregar peças nos infames que se dizem cinéfilos e não viram esse filme. E esse “fake-trailer” foi audacioso! Tirou toda a essência do original e transformou em algo completamente “saltitante”. E mais: em clima do seriado “Sex and the City”. Minha nossa, o que é uma edição, não é mesmo?

Link: Taxi Driver “a la Bradshaw”

O Chamado: Aqui também não poderia ser diferente. Assisti re-edição pela primeira vez e, claro, se não conhecesse o filme, jurava que a Naomi Watts iria morrer de câncer e o filme ia se lambuzar com toda aquele drama de “os últimos dias de minha vida” e algo do tipo “Doce Novembro”. Deu vontade perguntar o que a Samara achou disso. Confiram!

Link: “O Chamado” em outra linha

Bem, acho que já dei pano demais para manga para entreter vocês com exemplos de como a edição faz um diferença significativa em um filme, ou qualquer produção audiovisual que seja. Divirtam-se. E para os mais inquietos, recriem filmes!

Interação com a telona

Publicado em: 06-08-2007 @ 5:24 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Cinema é muito mais além de todas aquelas técnicas e equipamentos de filmagem. Cinema também é pipoca, é namorico no escuro e, principalmente, cinema é encontro de pessoas desconhecidas (ou não) em uma sala escura e intimista. Todos diferentes e unidos igualmente. O que mais poderia sair disso?

Saindo de uma sessão de cinema no horário mais clichê para se conferir um – em pleno domingo noite, enquanto descia as escadas pensei: nossa, como a companhia faz a diferença em um filme! E aí fiquei lembrando de todos os clichês e situações inusitados que já me ocorreram dentro de uma salinha de exibição.

O barulho das pipocas, os celulares inconvenientes que tocam, os cochichos, as risadas espontâneas, os choros, as piadas. Nossa, muita coisa. Existe uma tremenda diferença entre assistir a um filme numa sala de cinema e no sofá da sua casa. Uma diferença que vai além da telona e das poltronas sistemáticas.

Com filmes, eu me divirto de qualquer jeito. E tenho sorte de sempre ter companhias excelentes. Só que acaba sendo mais interessante quando se tem a oportunidade de se estar junto grande massa, quele grupo de pessoas que foi ali conferir aquele mesmo filme. As piadas podem ser engrandecidas… Enfim, as emoções ganham um tom maior, um tom diferente.

Para me fazer melhor entender, vou exemplificar com três idas ao cinema em três filmes diferentes. “O Diabo Veste Prada”, “300” e “O Cheiro do Ralo”. Por mais que reveja esses três filmes em DVD ou no próprio cinema (como refiz em dois deles), a primeira vez não poderia ter igual.

O Diabo Veste Prada. Depois de muito esperar pelo filme, finalmente fui conferi-lo nos cinemas. Sim, eu sou uma vítima da moda. E daí? Jogo um scarpin na cabeça de quem vier tirar onda. Com Meryl Streep no elenco e moda como pauta, era impossível a menina Suspiro aqui não ir conferir saltitante o resultado do livro nas telonas. E lá estava eu: de make-up, scarpins e a companhia ideal. A sala estava lotada. Nossa. E deu pra sentir logo na entrada que todos ali estavam tão empolgados quanto eu. Fãs da moda, fãs de filmes clichês, fãs de ir ao cinema só para ser besta, não interessa. O clima da sala era contagiante. E quando o filme começou? Cada vibe da trilha sonora era uma onda dentro da sala. Quase saiu uma “ôla”. E os comentários sobre os figurinos do filme? Era gente da fila da frente comentando o que alguém da fila de trás tinha comentado, eram garfes ridículas do tipo “quem é esse?” quando o Valentino (estilista famoso) aparecia na tela… Bom demais. O filme é clichê e redondo. Ótimo para um divertimento despretensioso. E naquela sala lotada foi melhor ainda.

300. Louca estarei eu no dia que perder algum filme de Gerardão no cinema. Depois de todo o bafafá em cima desse filme e ainda contando com um elenco de homens espetaculares, é claro que eu não iria perder. Tinha que prestigiar o Santoro no seu papel mais estrondoso e ver qual a última pérola do gênio do Frank Miller. Novamente, dia de estréia, a sala lotada. Onde a Maíra senta? Na escada. Isso mesmo, no chão! Começa daí a adrenalina da coisa. Aqueles sons, os gritos unânimes, as piadas e as risadas mais altas impossíveis… Todo mundo vira colega naquele momento. E quem foi que não vibrou com “this-is-sparta!”? Hein? Uma sala com mais de 400 pessoas eufóricas emana uma energia grande, viu, seu-menino? Foi bastante divertido! E a pérola dos créditos finais? “Mulher, se com 300 homens eu já morri de passar mal, tu imagina esses 10 mil que chegaram no final!”.

O Cheiro do Ralo. “Bufu”. “E bufu”. Mal começa o filme e já aparecem as “interações” hilárias das companhias da sessão. Sabe aquelas risadas que fazem os outros rirem sem nem saber o motivo? Pois é. Tenho certeza que eu e minhas amigas participamos mais do filme do que os figurantes do mesmo. E o melhor é que as pessoas presentes realmente se divertiram conosco. Bom quando a gente consegue ser legal assim, né? Notei demais os olhares daqueles curiosos que queria saber “cadê as palhacinhas da sessão?”. Mas ora, o personagem do Selton Melo nesse filme, o tal Lourenço, tem um humor sensacional. Impossível não brincar. E agora, tudo na vida é culpa do ralo. Tsc, tsc. Ora, vamos ser corretos. Esse negócio de fazer cara blasé para ir ao cinema não tá com nada.

Cinema é arte. E também é entretenimento. E não precisamos fazer cara de doce para mostrar que entendemos da história. Se o filme é bom, temos mais é que aproveitar e interagir com ele e fazer valer bem aqueles feixes de luz na telona. E se você tiver com a companhia certa, é certeza que quando as luzes se acenderem, tudo vai ser mais divertido. Principalmente porque, além dos comentários sobre o filme, haverão os comentários sobre os momentos “interativos” do filme.

Filmes “bons de papo”

Publicado em: 30-07-2007 @ 7:31 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Fazer um filme, e de preferência, um bom filme, envolve uma série de fatores que devem ser bem sucedidos. Atuação, direção, figurino, trilha sonora, montagem… Inúmeros detalhes que fazem uma grande diferença. E olhando para a tela em branco do computador, lembrei de um detalhe difícil e extremamente importante em um filme: os diálogos.

Na verdade, no caso, as linhas das quais venho falar aqui não são tão tortas. Será? Enfim, sei que pensei em como existem roteiros geniais, com falas sensacionais e interpretações mil. E quase que instantaneamente, uma série de filmes vieram minha mente, processando quantos momentos, ou mesmo personagens, ficaram eternizados em nossas memórias por uma fala qualquer ou até mesmo expressões que viraram mania. Para facilitar a minha vida e dinamizar a de vocês, vou citando os filmes e os diálogos que me fizeram vibrar. Espero que vocês concordem com alguns.

Cães de Aluguel (1992). Dirigido e roteirizado por Quentin Tarantino, esse filme me fez rir com seus diálogos aparentemente absurdos, mas tão simples. E “rapaduras” sejam dadas aos personagens Mr. Blonde, Mr. Pink, Mr. Brown e Mr. White. As melhores sacadas da história saem das bocas desse quarteto infame. Quem assistiu ao filme não pode ter deixado passar batido a divagação deles sobre o real sentido da música “Like A Virgin”, da Madonna. Muito menos a argumentação do Mr. Pink defendo-se após afirmar: “eu não acredito em gorjetas”. Ou quando ele e Mr. White estão em uma situação tensa e mesmo assim, ainda há espaço para o comentário: “Não, eu parei de fumar. Por quê? Você tem um aí?”. Bom demais.

Pulp Fiction (1994). Já que comecei com Tarantino, vamos continuar com ele e outro clássico dirigido e roteirizado pelo rapaz. Atire a primeira pedra quem não lembra do diálogo entre o Vincent Vega e o Jules Winnfield sobre o “royale with cheese” da McDonald´s. Rendeu muito! E a frase bíblia que Jules insistia em citar? Conheço gente que decorou aquilo ali de trás pra frente e em duas línguas. E quando conhecemos a história “heróica” do relógio de ouro de Butch? Ótima participação do Christopher Walken! Mas, na minha opinião, a melhor frase do filme sai da boca da musa tarantiniana, quando ela interpreta a Mia Wallace e fala a seguinte frase sobre o silêncio: (…) “é quando você sabe que encontrou alguém especial. Quando você pode simplesmente calar a boca por um minuto e aproveitar o silencio confortavelmente”.

Kill Bill 2 (2004). Fechando o trio-tarantiniano. Admito que os outros dois filmes que citei são, pessoalmente, notavelmente melhor que esse, apesar de Kill Bill 1 e 2 ter grande mérito. O diálogo que mais me chamou a atenção aqui foi o bem-dizer-monólogo do Bill falando sobre o Super-Homem. No final, ele fala que “Clark Kent é a crítica do Super-Homem toda raça humana. Algo como Beatrix Kiddo e Mrs. Tommy Plimpton.” E depois ele ainda cita um clássico do Oliver Stone, dez anos antes, “Assassinos por Natureza”, quando diz: “Estou te chamando de assassina. Uma assassina por natureza”.

Casablanca (1942). Tinha que ter um clássico no meio, claro. E esse aqui foi um dos primeiros que vi com clareza. Sei que vim para falar dos diálogos, mas não posso deixar de citar a música-tema do filme, a eternizada “As Times Goes By”. Pronto. Falei. Voltando s frases. O personagem de Rick em muito me agrada. Ele fala umas coisas que poderiam ter saído da minha boca com a mesma cara de indiferença. Como quando a garçonete pergunta a ele o que tinha feito na noite anterior e ele responde: “Faz muito tempo para que eu me lembre”. Ou quando ela pergunta o que ele fará naquela noite, e ele diz: “Não costumo fazer planos a longo prazo”. Mas, o moço não era tão abusado assim. Não podemos esquecer a clássica frase que caiu na boca de muita gente em forma de consolo: “nós sempre teremos Paris”. Ah, são muitas!

Forrest Gump (1994). Esse ano foi bom, né? Já é bem o quarto filme citado que “nasceu” e, 1994… O Karma deveria estar bom… Pois bem. Filme clássico com Tom Hanks, o futuro amigo de Wilson anos depois. O filme tem uma série de discursos simpáticos do nosso ingênuo amigo Gump. “Estupidez é aquilo que estúpidos fazem”. Bobo, mas, afinal, não é verdade? E a frase célebre da sua mãe quando ela dizia que “a vida é uma caixa de chocolates. Você nunca sabe o que vai tirar”. E para provar a sensibilidade e a beleza do personagem de Forrest, aquela frase que ele fala pra sua amada Jenny: “Por que você não me ama, Jenny? Eu não sou inteligente, mas eu sei o que é o amor”. Mandou bem, Forrest!

Star Wars (todos). Ok. Esse aqui deve ser citado não exatamente por ter um roteiro com diálogos profundos e tudo mais. Mas sim, porque frases célebres dessa saga viraram jargões e muita gente que nunca nem viu o filme ou entende que raios de briga é essa nas estrelas já ouviu falar delas. E para não perder a graça, eu vou colocar em inglês, que é como eu realmente lembro delas. “Luke, i´m you father”. “May the force be with you”. “Darth Vader, raise”. E claro, todas as que envolvem o lado negro da força. Pronto. Simples e óbvio.

Um Amor Para Recordar (2002). Sim, um filme meloso para entrar na lista rápida de filmes com frases f*das. Eu chorei quando assisti, admito. E acho lindo quando ele (!) fala sobre o vento comparando ao amor: “Eu não posso vê-lo, mas eu posso senti-lo”.

Closer”, “Vanilla Sky” e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, eu vou poupar os comentários, certo? Além de já ter citado os três na coluna passada, fica muito difícil escolher os diálogos do filme. Eu teria que, praticamente, copiar o roteiro todo. Exagero? É, talvez, mas que cabe para o casos do trio aí, cabe.

Enfim, falei demais já. Acredito que deu para explicar o quanto sacadas inteligentes em um diálogo fazem a diferença e ajudam a eternizar um bom filme.

Peças da Vida, Trunfos no Cinema

Publicado em: 23-07-2007 @ 10:05 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

A vida pode lhe pregar peças. Aliás, ela adora fazer isso. Ela e Murphy. E claro, os casos mais comuns são os amorosos. Ou vai ver os notamos mais porque eles doem mais. Enfim, continuo achando que o cinema é a imitação da vida. E, quem sabe, essas inúmeras peças que a vida nos prega acabam virando situações de filmes que emocionam quem passou pela mesma situação.

mairasuspiro_pecanavidatrunfonocinema.jpgQuem nunca sofreu com a desconfiança de um chifre? Ou ficou imaginando cenas e situações com o alvo de afetos? Ou sofreu por ser deixado de lado ou quis mudar a realidade para reatar um relacionamento? Ora, se você já teve um relacionamento na vida e se apaixonou de verdade, certamente já passou por alguma dessas situações. E no cinema, a gente pode ver uma “penca” de filmes que trazem essas situações, cada um do seu jeito.

Pensando distraidamente em como vejo no cinema situações parecidas com as que já passei ou vi amigos passando, quis fazer uma lista de filmes que me marcaram por terem colocado na telona algo muito próximo do que eu sentia ou pensava. “Closer” certamente coroa a lista concentrando muitos dos dramas de um relacionamento. “Bem Me Quer, Mal Me Quer” é o ápice da nóia de uma pessoa apaixonada. “O Fantasma da Ópera” chega como clássico da dor de cotovelo. “Brilho Eterno de um Mente Sem Lembranças” entra para liderar os relacionamentos falidos ou perdidos no tempo. E “Vanilla Sky” entra para ilustrar os sonhadores ansiosos por um sonho lúcido.

Closer. Para mim, certamente é um dos filmes que trata a verdade da forma mais nua e crua. Com diálogos claros e sinceros, “Closer” cutucou muita gente que já tenha passado ou levado um par de chifres. Só que mais do que isso, ele cutucou cada um que já sofreu com a insegurança e com o desconhecido. É como se ele explorasse a fragilidade dos relacionamentos e as reviravoltas do mundo. E como se não bastasse, a música-tema do Damien Rice chega como uma cereja.

Bem Me Quer, Mal Me Quer. Tá certo que a protagonista do filme sofria por ser erotomaníaca e nem todo mundo é assim, mas pegando o “feeling” do filme, pensei nesse trabalho da Audrey Tautou para representar aqueles momentos em que você fica divagando, pensando em tudo que a outra pessoa está fazendo, pode vir a fazer ou o que mais der na telha. E mais ainda, em como s vezes viajamos imaginando os significados de pequenos detalhes na expectativa de que eles signifiquem algo bom para nós. No caso do filme, a personagem da Audrey exagera demais na dose, então, não se baseiem nela, por favor.

O Fantasma da Ópera. Peça de teatro clássica que foi refilmada recentemente com o Gerard Butler no papel do Fantasma, arrebata pelas músicas sensacionais e pela história dolorida. Esse aqui é um viva dor de cotovelo. Representa na lista, o drama dos que foram trocados, deixados de lado, tratados com ingratidão e até mesmo pena. Acho que muita gente sofreu com o Fantasma, cantando com ele e se revoltando a cada situação que desenrola o romance.

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança. Esse até dispensa comentários, certo? Já virou inúmeras comunidades no Orkut e a identificação com os personagens da história foi tanto que muita gente saiu pintando os cabelos “a la Clementine”. Quem não quis, pelo menos uma vez na vida, ter um tratamento daquele? Esquecer a pessoa que nos magoou e apagar todas as lembranças que viriam a nos maltratar nos momentos mais frágeis? E quem não tentou, de todas as forma que pôde, salvar um relacionamento nos seus últimos suspiros? O mundo está cheio de Clementines e Joels…

Vanilla Sky. Esse, para mim, é o golpe de misericórdia. Só por ter Jeff Buckley na trilha cantando “Last Goodbye” enquanto o David Aames está no apartamento da Sofia, pedindo “one kiss” de recompensa e dizendo gostar da vida dela… Cameron Crowe pegou pesado. O filme é cheio de frases lindas, extremamente sensíveis. “Seu sorriso é minha ruína”. “Eu te encontrarei em outra vida, quando ambos seremos gatos”. “O doce nunca é tão doce sem o amargo, e eu conheço o amargo”. Ah, o paradoxo do doce&amargo que virou tema de muita gente… Principalmente porque o amargo é tão mais fácil de achar, né? E os tais sonhos lúcidos? Quem nunca quis ter um, para reviver algo bom que ficou para trás ou para vencer fronteiras do tempo e da distancia? Tudo para ficar com quem se gosta, mesmo que através de uma ilusão.

E esses são apenas alguns filmes. Os mais densos, digamos. Mas vira e mexe a gente vê uma situação em um filme que nos sensibiliza de alguma forma e relembra algo que passou. E o mais intenso nesses cinco filmes é que nenhum deles maqueia a realidade. Todos tem um desfecho que vai contra o clichê “e viveram felizes para sempre”, sem passar a mão na nossa cabeça em forma de consolo.

Pseudos-Experts

Publicado em: 16-07-2007 @ 3:21 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Crise. É sim. Pensando e repensando nos raros intervalos dessa semana, eu enxerguei uma crise dentro dessa tal “sociedade da informação” em que vivemos hoje. Um mundo, literalmente, de informações disponíveis mais uma penca de metidos a sabe-tudo e o que a gente ganha? Uma manada de “pseudos-especialistas” em cinema. Objeção, seu juiz!

mairasuspiro_pseudoexperts.jpgNão, não estou falando dos “pseudos-cults” como eu falei em colunas passadas. Estou falando dos primos tortos deles, os “pseudo-especialistas”. Aliás, vou chamá-los de “pseudo-experts”. Batizados. Pois bem, esses cidadãos aí acham que por terem lido três artigos na internet e visto cinco filmes de um grande diretor se tornam autoridades no assunto. Pior que esse tipo, só o José Wilker, que parece que sofre enquanto pensa e fala pequenas abóboras.

Aviso logo que essa coluna tem um tom muito mais pessoal que as outras, e que eu vou passear entre o hilário e o crítico que nem bêbado em corda de equilibrista. É que eu detesto banalizações e aspirações pretensiosas. Além do mais, estava sem pauta para essa semana… (Depois de 73 colunas, você começa a correr o risco de se repetir. No, not yet.) Então, desabafo.

Eu me revolto, sabe? Desculpa aí, mas eu me revolto. Cinema é uma arte. É acessível a um grande número de pessoas. E no mundo de hoje, conhecimento e informação valem status e até dinheiro. Então, a Sétima Arte se torna um ótimo campo para “exibir” conhecimento. Aí vem seu-menino dizer que “sabe” cinema porque assistiu a 9837387893 mil filmes e acha que sabe. Pode repetir, por favor? Quantos?

Olha só: quem sabe, sabe. E não precisa dizer. Nota-se! E vamos ter respeito com quem realmente faz cinema, com quem produz cinema. Até o Chico Buarque deveria ter considerado isso quando escreveu “Ela faz cinema”. Alguém checou se ela faz mesmo? Ok, Chico pode. Mas, santo Lanterninha, Cinema é muito mais que uma tela de exibição. Cinema é carregar um equipamento pesado e cheio de pedaços, é escolher locação, é acordar antes do Sol procurando a melhor luz, a melhor fotografia, é editar o mesmo trecho mais de dez vezes no mesmo dia buscando o timing perfeito. Então, seu-menino com 9837387893 mil filmes na lista, não diga que “sabe” Cinema. Diga que gosta, que aprecia, que entende, que se identifica, que se emociona, mas não levante se narizinho torto e seu dedinho cretino budejando que “sabe” cinema. É quase como um cara dizer que é publicitário porque sabe mexer em CorelDraw e PhotoShop. Pois é! E eu sou publicitária, e não estudo anos para ter a mesma moral que um elemento de curso gráfico. Eu não me acho médica porque conheço alguns remédios ou tenho livrinhos de anatomia em casa, nem me acho contadora porque sei usar uma calculadora.

Viva a banalização do conhecimento é? Só pode. O Google ajuda muito nisso. Uma rápida digitada e o “pseudo-expert” se afoga em um diretor, de preferência o que tiver nome mais complicado, e bimba: Fulano de tal é um gênio, sou fã dele. Oh!

Não me entendam mal. Claro que você não precisa ser um diretor para entender de Cinema. Basta ter sensibilidade e atenção. O que me irrita, profundamente, é ter gente abusando e querendo ser “expert” só porque assistiu a um filme ou conhece um diretor renomado do cinema de arte. Odeio quando tratam o Cinema como dever de casa, quando querem disputar quem sabe mais, quem viu mais filmes. Cinema é arte, é entretenimento. Sacar bem de cinema não é chato. Ser um “pseudo-expert” que insiste em ficar fazendo propaganda do que sabe ou deixa de saber, querendo ser mais que os outros é que é um chute na canela.

Uma vez, assisti a um filme super cabeça e denso. Admito que entendi pouca coisa, mas o filme me emocionou bastante e eu gostei. Simplesmente gostei. Ai vem um “pseudo-expert” com cara de abuso dizer: mas o diretor foi estúpido em enquadrar aqueles planos dessa forma, porque segundo disse fulano de tal… É o quê, seu-menino? Eu vi um filme e ele viu uma planilha de diretrizes de câmera? “Não, porque no clássico tal, o grande diretor tal, fez isso e isso e…” E o quê? E se eu quiser gostar do que o outro fez, posso não? Sou menos, é? “Mas o roteiro é fraco, a história é clichê”. E daí? O diretor quis isso, era a proposta do filme. Alcançou: bola na rede. Não gostou? Assiste outro! Desde quando só filme denso é bom? Se a intenção era fazer um filme ruim e no final, ficou ruim: objetivo alcançado, ora! Parabéns!

Eu digo logo que não entendo de cinema. Eu adoro, mas não sei é de nada. No dia em que eu assistir a todos os clássicos do cinema antigo, assistir o cinema europeu, iraniano, indiano, estudar mais técnicas e conversar com mais gente, aí eu abro a boca para dizer: eu entendo. Eu já vi muito filme e já estudei na faculdade e fora dela sobre Cinema, mas nem isso me dá coragem de abrir o bico. E um “pseudo-expert” que fuxica no Google quer ter? Get a life!

Cinema não é matéria exata. Não é decoreba. É sensibilidade, é emoção. Cinema é arte, daquela que até o mais rico e mais inteligente até o mais pobre e mais analfabeto pode interagir. Não venham tirar a graça disso, a beleza disso. Quem torná-lo conteúdo para ser chupado? Vão fazer cartilha começando por “Cinema Paradiso”. Ou vão ver o curta-metragem que o vizinho com câmera digital na mão fez semana passada. Depois a gente conversa. E tenho dito.

Foi bom pra você?

Publicado em: 11-07-2007 @ 3:55 pm 
Postado em: Suspirolândia
Escrito por: Maíra Suspiro

Antes tarde do que nunca! É isso que dizem, certo? E foi isso que eu fiz. Finalmente, volto a escrever minhas colunas semanais. Depois de tanto tempo, será que vou dar conta? Não sei. Quem sabe é que nem andar de bicicleta ou assistir ao mesmo filme novamente. Será? Será que é a mesma coisa? Digo, assistir ao mesmo filme novamente tem o mesmo efeito? Ok, acabei de achar a pauta dessa coluna. Bingo!

A primeira vez é sempre mais valorizada por nós. E calma, não estou falando de sexo. Ou pelo menos não só disso… O primeiro sutiã (desculpem, meninos, mas a cuequinha de vocês não tem muita fama), o primeiro beijo, o primeiro namoro, o primeiro fora, o primeiro carro, o primeiro porre, o primeiro salário e por aí vai. Temos que admitir que os “primogênitos” sempre ganham mais atenção. O desprezo pelos segundos, terceiros e lanterninhas é fato. Acho que o único que não é primeiro e tem mais atenção é o Ricardão.

Atentando a essa unanimidade que é o “primeiro”, eu penso: e a primeira “assistida” a um filme é a melhor? Ou é que nem vinho e melhora com o tempo? Ou é que nem jornal que dia seguinte perde o valor? Uma professora de português na minha nona série dizia: para se entender melhor o texto, leia-o pelo menos três vezes. Então, para melhor entender um filme, é preciso revê-lo repetidas vezes? Ok, cessaram as perguntas. Vamos s explanações.

Eu acho que varia. A relatividade de Einstein se emprega aqui no Cinema também. Ver determinado filme pela primeira vez tem seu valor. A primeira impressão é realmente importante. Só que não deve ser supervalorizada. Certos filmes merecem ser revistos. Outros filmes, pedem uma segunda chance. E temos aqueles outros que nunca deveriam nem ter sido filmados. E se pegarmos pela filosofia de que nós mudamos constantemente e que “a água do rio nunca é a mesma”, claro que todo “encontro” com um filme será diferente. Se vai ser melhor ou pior, aí depende do filme, de você, do seu estado emocional, da sua atenção, até da qualidade da exibição. Mas toda “assistida” é diferente, porque você percebe novos detalhes, foca a atenção no que é de interesse e, se o filme for bom mesmo, acaba se surpreendendo novamente.

Vamos ver alguns exemplos, certo? “Cidade dos Sonhos”, do David Lynch. Ai de quem disser que viu esse filme só uma vez e não quis ver outra. Ou que entendeu tudo de uma vez. Por favor, me mande um e-mail que eu faço questão de dar os parabéns a você. E “Pulp Fiction – Tempos de Violência”, do Quentin Tarantino? Eu mesma vi três vezes no mesmo dia, com caneta e papel na mão, tentando pôr os capítulos em seqüência cronológica. Mas esses são filmes intrigantes por natureza, então, é meio que instintivo ter essa vontade de rever o filme. Certo, vamos pegar outros estilos então.

E aqueles filmes que fizeram momentos na sua vida? Bem, eu só possa falar da minha, então, vou falar de “Socidade dos Poetas Mortos”, do Peter Weir. Assisti quando era bem mais nova e me apaixonei pelo filme. Me inflamei com a paixão de Neil e quis escrever poemas junto com eles. E mais do que tudo: queria ter um professor inspirador como aquele do Robbin Williams e gritar “Oh, captain, my captain”. Admito: fiquei com os olhinhos marejados por causa daquele filme. Então, um belo dia, tive que assisti-lo novamente em uma aula da faculdade. Foi uma sensação muito boa. Primeiro, pude me comparar comigo mesma. Segundo, estava vendo o mesmo filme com olhos completamente diferentes, cheia de novas experiências, novo comportamento, novas perspectivas, novas opiniões.

Eis que vi o filme de forma muito mais madura, interessada em saber sobre a literatura lida pelos estudantes e não apenas os dramas dos personagens. E, claro, estava extremamente mais atenta a detalhes como fotografia, direção, atuação e outras coisas mais. Portanto, a primeira vez foi marcante, mas a segunda me rendeu muito mais “retorno”, já que a reflexão foi mais profunda.

Outro filme que mudou de cara para mim foi “O Pianista”, de Roman Polanski . Em 2002, vi o filme ainda no cinema. Já gostava do Andrien Brody e respeitava a direção de Polanski, mas meu humor não estava muito sensível no dia. Eis que saí da sala pensando: mais um filme de guerra. Felizmente, meses depois voltei a estudar piano e uma amiga havia alugado o DVD. “Minha nossa senhora, que filme espetacular”. Voilá! Quem sabe a musa da inspiração deu o ar da graça na minha cabeça e a minha reconciliação com o piano me fez entender melhor o personagem. Sei que percebi detalhes antes despercebidos e fiquei abismada com a sensibilidade do filme, a intensidade da arte e os detalhes dos personagens.

Agora, quebrando de estilo, sempre temos os exemplos engraçados. Assisti “As Bruxas de Salém” em um domingo com meus pais, na minha doce infância. Meu problema maior era entender de onde as bruxas vinham e porque não aparecia nenhuma delas voando em vassouras. Fiquei tensa o filme todo e não entendi nada. Dispenso comentários, certo? Devo dizer que meus pais me renderam descobertas maravilhosas, já que sempre assistia com eles aos clássicos e filmes “cabeçudos” da época, que me deixavam flashes sem nenhum entendimento. “Ah, você viu o filme tal?”, “Pois é, vi, mas não lembro de ter entendido nada”. Acontece.

Sim, vale lembrar também dos filmes que mesmo velho e maduro, você acaba por ter aquela sensação de “perdi alguma coisa” ou o típico “hein?”. Aconteceu comigo quando eu terminei de ver “Sexo, Mentiras e Videotapes”, do Steven Soderbergh… Esse vácuo por acontecer tanto porque o filme realmente é muito bom e exige um pouco mais de atenção (e inteligência, talvez) ou porque é ruim mesmo e não tinha nada de bom para ser aproveitado. E não digo o filme do Soderbergh é ruim. Pelo contrário, adoro, mesmo continuar com a sensação de não ter encaixado todas as peças.

Finalizando, a primeira vez é boa. Mas é válido considerar outras “chances” ao filme. Vai ser bom tanto pra você, quanto pra ele.

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