Em um mundo onde a curiosidade e o interesse pela vida alheia se uniram para mover mídias e atitudes, existe um estilo de filme que costuma cair bem no contexto: as biografias. Quem não curtiria ver uma personalidade “descascada” na telona ou conhecer alguém que nunca ouviu falar em um filme bacana? Sempre alvo de interesses e polêmicas, as biografias formam uma lista longa, com diferentes estilos e intenções.
Lendo uma entrevista com o cantor nova-iorquino Rufus Wainwright, certa citação do músico do pop melancólico me chamou a atenção. “Eu prefiro as biografias. Acho a vida real muito mais interessante que a ficção. Sempre fico chocado com as biografias.” Nesse exato momento, parece que o “desktop” da minha cabeça foi acionado e todas as biografias que eu já tinha visto ou ouvido falar começaram a passar em flashes na minha memória. Fiquei pensando sobre o que o Rufus disse e tive que concordar: a vida real realmente é muito mais interessante, principalmente se essa vida for de alguém notório - visto que nem todos vivem: alguns só sobrevivem mesmo. Afinal de contas, em colunas anteriores, eu mesma afirmei que nós somos a matéria-prima bruta da realidade do cinema. As biografias só explicitam isso, transformando uma figura real em personagem da própria vida em uma cine-biografia.
Para meu espanto duplo, rapidamente consegui lembrar de umas vinte biografias. E sim, espanto duplo porque eu e minha memória não andamos muito em sintonia e nunca acho que lembrarei fácil de nada. Mas o que interessa mesmo é que as biografias são muitas. E diferentes. Temos documentários como “Cartola“, do Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, que resgatam trechos antigos de cenas registradas e depoimentos e constroem a partir daí a imagem da “pessoa-personagem”. Como também temos filmes que retratam a tragetória do cidadão, como em “Dois Filhos de Francisco“, que mostra a saga da dupla sertaneja até alcançarem a início do seu sucesso. E se estamos falando dos nacionais, lembremos de “Olga” e “Zuzu Angel“, que mostram o drama vivido por duas grandes mulheres brasileiras. E só para fechar o parágrafo verde-amarelo, lembrei de “Cazuza“, dono de uma música bacana, “Só Pro Meu Prazer”, que fala de “maior ficção” - porque a intertextualidade do cinema com o vida é demais. Os últimos três filmes, ao invés de apelarem para o documental, seguem pela trilha do narrativo, recriando a suposta realidade da pessoa-personagem.
E sim, suposta. No final das contas, toda biografia é tendenciosa. Podemos colocar a pessoa-personagem no céu ou jogá-la para queimar no mármore do inferno. Já foi falado aqui sobre o poder da edição, certo? Mas, seguinte: ser tendencioso é uma coisa. Mostrar o outro lado é outra. Por exemplo, temos aquele filme “A Queda”, que recria as horas finais de Hitler. Sim, ele era um “menino ruim”, mas o filme mostrou um lado mais humano dele, um lado com o qual não estávamos nem um pouco acostumados a encarar. Era sensível. E o mais óbvio - e mais fácil - de se escancarar sobre Hitler era sua “monstruosidade”. Então, o filme está “errado” por isso? Por mostrar um lado diferente? Claro que não. Aquilo ali pode até ser verdade, mas não é por isso que vamos agora nos arrepender de ter xingado a mãe do nazista-chefe e achar que ele fez tudo com boas intenções. Apenas o estigma da “unilateralidade do mal” foi quebrado e nós temos que ser conscientes e encarar Hitler como um homem, antes de tudo. “A Queda” apenas mostrou o lado que não estávamos acostumados a perceber, e esse é um dos pontos que mais me agrada nas biografias.
Temos ainda aquelas biografias que chegam com um traço mais lírico ou experimentalista, como “Alexandre“, de Oliver Stone. Se são boas ou não, já sou suspeita a falar, principalmente quando eu citei esse filme como “culpado” por uma das minhas grandes frustrações (vulgo, brochadas) no cinema.
Interessante também quando a vida da “pessoa-personagem” realmente se desenvolve como uma história, sem ter aquela sensação de foco através da qual você praticamente vê uma setinha apontada na cabeça do infeliz, dizendo: esse filme é sobre mim!Exemplos: “Capote“, “A Lista de Schindler” e “Uma Mente Brilhante“. Você se envolve com o filme, e de segundo plano, conhece a vida daquela criatura notória. Exemplos de biografias da “setinha-acessa”? “Elvis“, “Ray“, “O Aviador“, “The Doors“. E nem por isso são filmes ruins. De jeito nenhum. Só podem ser extremamente longos, como é o caso de “O Aviador” e “Ray“, sem lá tanta justificativa para isso. Aproveitando a deixa, ainda arrisco dizer que a biografia deve mostrar a vida da pessoa, os fatos marcantes que determinaram porque aquela criatura teve destaque, mas não necessariamente, em uma biografia, devemos contar tudo e mostrar tudo. Parece uma sindrome de “24Horas”. E se eu não tenho tempo nem para a minha vida, lá vou querer passar cinco horas para ver a de outro alguém? Ou seja um diretor muito estupendo ou não abuse da minha paciência e boa-vontade.
Não é ser fácil fazer uma biografia. De jeito nenhum. Ainda mais se a pessoa ainda estiver viva. Fica difícil, porque ela tanto pode querer “meter o bedelho” em tudo, como pode odiar como foi retratada e vir com mil processos atrás. Outro risco das biografias é a tendência de “endeusar”. É até compreensível, já que se você faz um filme sobre a vida de alguém, só isso já dá bastante pano pra manga para engrandencimentos e homenagens � criatura. É dificil ainda, porque ser imparcial é complicado. É difícil, porém sempre instigante.
Entre as minhas favoritas está “Modigliani“. O filme traz o Andy Garcia vivendo o último ano de vida do pintor italiano Amedeo Modigliani, contemporâneo de Pablo Picasso e Diego Riviera. O filme é lindo. E o subtítulo “paixão pela vida” está impregnado em todas as luzes da película. Se eu tivesse a oportunidade de ter uma biografia, gostaria que a minha vida fosse registrada com a mesma sensibilidade com a qual registraram a de Modigliani nesse filme. “Frida Kahlo” foi outro que me agradou, mas nem conta pipoca perto de Modi. E se tem uma que certamente vai ser tornar uma grande favorita, é a biografia do Bob Dylan que está para chegar, recentemente lançada em Veneza e que na coluna passada bateu ponto como “filme que arrasa nas preliminares”. “I´m Not There“: um filme sobre um grande ícone da música com atores sensacionais interpretando diferentes fases da sua vida? Quase impossível não gostar.
E se for para lembrar mais algumas biografias bacanas, lembrem de “Amadeus“, que conta a vida do gênio da música Mozart, “Johnny e June“, que traz a vida do dono da voz belíssima, Johnny Cash. E se eu pudesse escolher alguma biografia para ser filmada? As óbvias: Madonna e Chico Buarque. Seria bacana também algo sobre o Hitchcock ou o Andy Warhol… Ou o Orson Welles e o Glauber Rocha. Se bem que legal mesmo se fosse sobre mim, certo? Brincadeirinha. Mas vamos admitir que seria interessante se cada um de nós pudesse ver como ficaria a própria vida na telona…
Em colunas anteriores, eu expliquei por A mais B o motivo de detestar criar expectativas para qualquer coisa. Odeio o sentimento de frustração. Fora que colocar o emocional no meio, complica uma crítica técnica do filme, e eu gosto de ter as duas na mão. Afinal, o filme pode ser um lixo tecnicamente, mas me agradar pessoalmente por algum motivo absurdo. Ou pode ser muito bom, porém não provocar lá uma grande identificação, e nem por isso será um filme indigno. Pois bem. Eu fui bem sucedida evitando criar expectativas, em ignorar as notícias, fotos, teasers, trailers o máximo possível e só chegar no dia da estréia e ponto final. Sem mais delongas. E estava muito feliz assim, sabe? Até o dia em que ouvi falar de dois filmes que acabaram com o meu sossêgo: “
Antes, era notória a diferença entre TV e Cinema. Agora, essa linha fica cada vez mais tênue. E não acho que seja para provocar uma fusão, mas sim, uma mudança de formatos e estilos. Estamos vendo uma série de trocas, de mesclas, de adaptações nos dois mercados. Fico, então, pensando onde essa “gelatina” toda vai dar.
Filmes com personagens fortes, acredito eu, tendem a provocar uma maior empatia com o público, principalmente se colocamos o cinema como uma imitação da vida, uma reprodução dela, de forma livre, na telona. Exemplos? Joel e Clementine, do várias vezes aqui citado “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Jack Twist, de “Brokeback Mountain”. Alice Ayres, de “Closer” e os outros três também. Rick, de “Casablanca”. James Bond, o homem do 007. David Aames, de “Vanilla Sky”. Ah, são inúmeros os personagens que cativaram o público, que tornaram-se tão importantes – ou até mais – que os próprios filmes e ganharam até comunidades no Orkut. Depende de cada um, mas acredito que quem gosta mesmo de cinema, deve ter seus personagens favoritos e seus momentos de êxtase profundo ao se imaginar na pele de algum deles.
Edição é algo espetacular. Eu, particularmente, acho super divertido. Você tem um mundo de possibilidades e sensações que pode criar através de efeitos e imagens. E ela está presente em tudo que for relacionado a audiovisual nos dias de hoje: clipes, comerciais, filmes, vinhetas, trailers… Acho que quanto menor o tempo, mais importante a edição se torna, porque você tem menos tempo para causar uma ótima impressão.
Saindo de uma sessão de cinema no horário mais clichê para se conferir um – em pleno domingo noite, enquanto descia as escadas pensei: nossa, como a companhia faz a diferença em um filme! E aí fiquei lembrando de todos os clichês e situações inusitados que já me ocorreram dentro de uma salinha de exibição.
Na verdade, no caso, as linhas das quais venho falar aqui não são tão tortas. Será? Enfim, sei que pensei em como existem roteiros geniais, com falas sensacionais e interpretações mil. E quase que instantaneamente, uma série de filmes vieram minha mente, processando quantos momentos, ou mesmo personagens, ficaram eternizados em nossas memórias por uma fala qualquer ou até mesmo expressões que viraram mania. Para facilitar a minha vida e dinamizar a de vocês, vou citando os filmes e os diálogos que me fizeram vibrar. Espero que vocês concordem com alguns.

A primeira vez é sempre mais valorizada por nós. E calma, não estou falando de sexo. Ou pelo menos não só disso… O primeiro sutiã (desculpem, meninos, mas a cuequinha de vocês não tem muita fama), o primeiro beijo, o primeiro namoro, o primeiro fora, o primeiro carro, o primeiro porre, o primeiro salário e por aí vai. Temos que admitir que os “primogênitos” sempre ganham mais atenção. O desprezo pelos segundos, terceiros e lanterninhas é fato. Acho que o único que não é primeiro e tem mais atenção é o Ricardão.